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O que são sonhos? Um resumo da Psicologia

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Neste trabalho, discutiremos as teorias sobre os sonhos apresentadas por duas grandes personalidades Sigmund Freud e Carl G. Jung. Em seguida, observaremos os pontos comuns e os divergentes na teoria de cada um. Confira!

O artigo que você lerá hoje é uma adaptação de um trabalho de conclusão de curso. A autoria é de Julia Beleza, que concluiu a nossa formação completa em Psicanálise Clínica 100% online. Neste trabalho, como já mencionamos, você lerá acerca dos sonhos. 

O artigo divide-se nas seguintes partes constitutivas:

  1. Introdução;
  2. Freud: A interpretação dos sonho;
  3. Jung;
  4. Conclusão.

Introdução

Atualmente é indiscutível a importância dos sonhos para o mundo psicanalítico. Foi através da sua obra A interpretação dos sonhos que Freud revolucionou o pensamento sobre o inconsciente e abriu as portas para essa discussão. Jung a ampliou adicionando novos conceitos, como, por exemplo, o do inconsciente coletivo.

O presente trabalho se divide em dois momentos. No primeiro, abordaremos os pontos de destaque de A interpretação dos sonhos e as considerações de Freud sobre:

  • qual é o objetivo do sonho,

  • como este é formado,

  • e como realizar a sua interpretação.

No segundo momento, abordaremos a teoria de Jung sobre os sonhos, apresentando os conceitos elaborados por ele. Depois disso, verificaremos os pontos de convergência e divergência nas teorias de ambos, realizando por fim uma conclusão na qual retomamos pontos essenciais trabalhados. 

Metodologia

Para atingir esses objetivos, a metodologia empregada foi:

  • pesquisa bibliográfica,

  • leituras sobre o assunto,

  • e a realização de um resumo destacando os pontos-chave.

Freud: A interpretação dos sonhos

Os sonhos como particularidades do inconsciente 

Sigmund Freud publicou A interpretação dos sonhos em 1889, mas pediu que a data da publicação fosse 1900. Isso porque queria que o livro marcasse de forma simbólica o início de um novo século. O que de fato aconteceu. 

Nessa obra, Freud estabeleceu os principais fundamentos da sua teoria psicanalítica, especialmente o que se refere ao aparelho psíquico. Até então, os sonhos eram analisados através de um olhar simbólico ou premonitório.

Contudo, Freud diz que os sonhos são passíveis de interpretação e tornou-se pioneiro ao colocar os sonhos como atos psíquicos. Foi através do seu trabalho com as neuroses que Freud percebeu como os sonhos podiam revelar conteúdos profundos do inconsciente. Freud dizia, então, que o sonho é a via régia para o inconsciente. 

O sonho é universal

Nesse livro, Freud mostra que o assunto em questão se refere a algo universal, pois todos nós sonhamos. Para ele, inserir em sua obra apenas sonhos de seus pacientes, além de suscitar questões éticas, também prejudicaria a visão universal dos sonhos, pois os mostraria somente em condições psíquicas anormais.

Diante disso, Freud decidiu se expor e realizar a análise de seus próprios sonhos, muitos dos quais já tinham sido abordados anteriormente em sua autoanálise.

O primeiro sonho, e um dos mais conhecidos, é o da injeção de Irma, que ele interpretou como a realização de um desejo. Freud analisou sistematicamente outros sonhos até se sentir seguro em dizer que o objetivo dos sonhos é a realização de um desejo inconsciente.

O sonho como realização de um desejo

Nos adultos, os sonhos são mais desafiadores e complexos e podem não demonstrar claramente que se trata da satisfação de um desejo, como veremos mais a seguir. Mas os sonhos das crianças (Freud analisou inclusive alguns sonhos de seus filhos), por serem mais simples e objetivos, mostram de forma clara a realização de desejos. 

“Os sonhos das crianças pequenas são muitas vezes simples realizações de desejo e, assim, em contraste com os sonhos dos adultos, desprovidos de qualquer interesse. Eles não oferecem enigmas para resolver, mas, naturalmente, são inestimáveis para demonstrar que o sonho, segundo sua essência mais íntima, significa uma realização de desejo.” (FREUD, 2012, vol. I, p. 148)

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Sonho e inconsciente

Segundo Freud, mesmo os sonhos desagradáveis e de angústia, após serem interpretados, aparecem como realizações de desejos.

Em sua teoria, Freud diz que quando não identificamos a realização de um desejo no sonho isto acontece porque o conteúdo inconsciente, antes de alcançar a consciência, foi distorcido por conter desejos e ideias que seriam inaceitáveis.

A ação da censura psíquica faz com que muitos sonhos pareçam não ter qualquer sentido. No entanto, Freud insiste que não sonhamos com trivialidades.

A censura psíquica e a elaboração do sonho

O estado do sono propicia os sonhos e diminui as resistências. Por conta disso, conteúdos inconscientes conseguem atravessar para a consciência. No entanto, a resistência foi apenas diminuída e não perdeu todo o seu poder, desempenhando papel na formação dos sonhos como agente deformador.

Há, então, uma censura psíquica que distorce os conteúdos inconscientes para chegarem à consciência de forma disfarçada. É por isso que o conteúdo dos sonhos se mostra muitas vezes incompreensível. 

Os conteúdos oníricos

Freud diz que existem dois conteúdos oníricos: o manifesto e o latente. O primeiro é o que é apresentado para nós nos sonhos, já o segundo só podemos descobrir após a interpretação, pois, devido à censura, foi distorcido e transformado em conteúdo manifesto.

Esse trabalho de transformação de um conteúdo para outro foi classificado por Freud como a elaboração do sonho. Para Freud, o conteúdo latente é o mais importante, pois contém o desejo reprimido inconsciente.

Condensação e deslocamento

Na elaboração do sonho podem ocorrer dois mecanismos: condensação e deslocamento. A condensação é a principal responsável pela impressão desconcertante que os sonhos causam; sua função é transformar pensamentos e memórias em imagens. Nesse mecanismo, vários elementos do conteúdo latente se modificam, tornando-se apenas um elemento no conteúdo manifesto. 

Por sua vez, o deslocamento realiza de fato uma deformação do sonho. É o fator psíquico que mais intervém para tornar o sonho incompreensível. Ademais, o deslocamento transfere os conteúdos inconscientes para o consciente de forma parcial ou apenas através de uma alusão utilizando figuras de linguagem como a sinédoque (substitui a parte pelo todo) ou a metonímia (uma palavra usada em lugar de outra).

Com isso, algo que no sonho se apresenta como apenas um detalhe no conteúdo manifesto pode estar relacionado a algo com grande carga psíquica no conteúdo latente. O simbolismo é um processo especial de deslocamento fundamental na deformação onírica. 

A linguagem dos sonhos

A linguagem do sonho, cheia de imagens, é muito distinta da comum. Por isso, muitas vezes, traduzir um sonho em palavras é muito difícil, e acabamos distorcendo-o ainda mais. Às vezes temos a impressão que sonhamos muito mais do que podemos reproduzir. Contudo, para Freud, isso geralmente está baseado em uma ilusão. 

A razão para esquecermos os nossos sonhos

Freud relaciona o frequente esquecimento dos sonhos à censura psíquica. No entanto, também acredita que este é superestimado. Apesar de afirmar não ser possível interpretar todos os sonhos, ele também diz que, com bastante atenção e autodisciplina, pode-se resgatar muitos conteúdos que estavam esquecidos.

É comum que um trecho do sonho fique sem explicação, o que Freud denominava “umbigo do sonho”. Nesse contexto, ele sugere a interpretação fracionada do sonho, isto é, realizar a análise de um sonho até um ponto e em seguida dar um tempo para retomá-la em outro dia. Esse seria um modo de driblarmos a resistência, resgatando mais informações e conteúdo. 

O desejo infantil reprimido

Freud diz que, geralmente, o desejo reprimido está relacionado ao material infantil do indivíduo, isto é, memórias da infância que não estão mais em nossa consciência frequentemente aparecem como propulsoras do sonho. 

“O sonho pode ser descrito como substituto de uma cena infantil, modificada por transferir-se para uma experiência recente. A cena infantil é incapaz de promover sua própria revivescência e tem de se contentar em retornar como sonho.” (FREUD, 1977, vol. I, p. 582.)

Os sonhos e as lembranças

Segundo Freud, qualquer momento da vida do indivíduo pode retornar através do sonho, ou seja, impulsioná-lo. Isso vale inclusive para os restos da vida diurna que também possuem papel relevante na formação do sonho e se expressam através dele.

Mas, o sonho sempre contém um desejo inconsciente, conteúdos primitivos da nossa infância que ainda são latentes em nosso inconsciente e estão aguardando apenas o momento para se expressar. O sonho aparece, então, como um fenômeno regressivo, no qual esses conteúdos latentes pode se manifestar. 

Freud diz que “o sonhar é, em seu conjunto, um exemplo de regressão à condição mais primitiva do sonhador, uma revivescência de sua infância, das moções pulsionais que a dominara”. (FREUD, 1987, vol. V, p. 502.)

O tempo do sonho

Como vimos, os restos diurnos podem fazer parte do sonho, inclusive na sua formação, desde que sejam associados a memórias antigas reprimidas no inconsciente, ou seja, apenas os restos diurnos que se relacionam com outros conteúdos do inconsciente podem estimular um sonho.

O sonho se encontra, então, tanto no presente quanto ao passado. Além do material reprimido e dos restos do dia podem fazer parte do sonho também os estímulos sensoriais, tanto os internos quanto os externos, como:

  • luz,

  • barulho,

  • sede,

  • vontade de urinar.

O sonho se apresenta como guardião do sono e Freud justifica essa afirmação quando diz que os sonhos incorporam os barulhos externos para que não despertemos. 

O sonho e os desejos sexuais

Além de relacionar os sonhos a conteúdos inconscientes infantis, Freud acrescenta que a maioria dos sonhos das pessoas adultas possui forte ligação com desejos sexuais. Ele diz que a repressão a conteúdos eróticos é muito forte e se inicia muito cedo, reverberando, então, em intensos desejos inconscientes. 

Método de análise dos sonhos

O método de Freud para análise dos sonhos é a associação livre, ou seja, o paciente deve falar livremente sobre o que sonhou (conteúdo manifesto). O relato é essencial, pois o indivíduo utiliza linguagem própria e o sonho possui significado particular baseado nas experiências de vida de cada um. Além do relato apresentado, devem ser levados em conta os eventos da vida de vigília, a fim de se encontrar o sentido oculto (latente) presente no sonho. 

Garcia-Roza diz: “A função da interpretação é exatamente a de produzir a inteligibilidade desse sentido oculto” (2004, p. 63). Ao ser relatado, o sonho é submetido a uma deformação que visa nos proteger do caráter ameaçador dos desejos. O sonho recordado é um substituto deformado de um conteúdo inconsciente, ao qual se pretende chegar através da interpretação.

As lembranças dos sonhos são fragmentadas e muitas vezes enganadoras. Assim sendo, o papel do analista e do paciente é realizar o trabalho de ir desvendando o que a elaboração onírica realizou. 

O papel do analista na interpretação dos sonhos

A análise busca revelar conteúdos “esquecidos” a fim de contribuir para que sofrimentos possam ser diminuídos. Compreendendo o aparelho psíquico e a função dos sonhos, podemos obter uma visão melhor do funcionamento da vida mental, auxiliando assim o indivíduo a recuperar questões emocionais passadas e fortalecendo seu ego. 

Não há dúvidas de que os conceitos apresentados por Freud em A interpretação dos sonhos foram revolucionários e tiveram grande repercussão, tanto que ainda há muita discussão sobre eles. Várias outras interpretações apareceram após Freud ter expandido os horizontes, entre elas, as de Carl G. Jung. Este discordou de muitas ideias de Freud e avançou por outros caminhos, como veremos a seguir. 

Jung

Expansão da teoria dos sonhos

Carl G. Jung foi inicialmente discípulo de Freud, mas, com o passar do tempo, devido a várias visões diferentes inclusive sobre o inconsciente humano, como veremos mais adiante , eles acabaram se distanciando.

Ambos consideravam os sonhos essenciais no processo analítico. Não por acaso este é um dos temas mais recorrentes na obra de Jung. No entanto, o estudo dos sonhos em sua obra é um pouco mais trabalhoso. Isso porque Jung não reuniu suas ideias em apenas um livro; elas estão pulverizadas por vários. Ademais, com frequência, ele as modificava e não considerava suas formulações como finais. 

Jung como extensão do trabalho de Freud

Freud abriu o horizonte para a análise psíquica dos sonhos. Contudo, Jung acreditava que a definição apresentada por Freud – na qual os sonhos são apenas realizações de desejos – era estrita e limitante.

Então, em sua obra ele a expande, dizendo que a maioria dos sonhos possui uma função compensatória. Isso significa que os sonhos fornecem mais do que material útil para o ego; eles modificam a consciência de forma proposital, trazendo o que é necessário para o indivíduo como um todo, compensando a situação consciente e ampliando as possibilidades de interpretação. 

“A função geral dos sonhos é tentar estabelecer a nossa balança psicológica pela produção de um material onírico que reconstitui, de maneira útil, o equilíbrio psíquico total.” (JUNG, 1992, p. 49.)

A função compensatória dos sonhos

Jung diz que a função compensatória dos sonhos é individual. Ela se dirige a uma consciência e está de acordo com a personalidade de cada um. Nesse contexto, há então uma liberação de energia do inconsciente, trazendo para o consciente o que falta neste, sendo um dos mecanismos de autorregulação da psique.

A energia psíquica é um conceito importante para os sonhos, como vimos acima. Por isso, é interessante pontuar que, para Jung, o termo libido se refere à energia psíquica em geral e não apenas à energia sexual, como disse Freud.

Segundo Freud, tudo o que está no inconsciente um dia foi consciente e foi reprimido. Já para Jung, o inconsciente é algo muito maior, que possui diversos tipos de conteúdos. Haveria um inconsciente pessoal com memórias reprimidas, como disse Freud, mas também haveria memórias com pouca importância para serem lembradas. São percepções subliminares e um Inconsciente Coletivo repleto de simbolismos universais. 

O inconsciente coletivo

O inconsciente coletivo é um dos conceitos mais importantes apresentados por Jung. Seria uma camada universal, comum a todos os seres humanos, que contém informações e imagens preestabelecidas, os arquétipos. Estes possuem significado para um grande número de pessoas por um longo período. 

“As imagens arquetípicas são aquelas que provaram ser suficientemente significativas para um grande número de pessoas, durante um longo período de tempo, de modo a se tornarem parte aceita de algum vasto sistema simbólico.” (HALL, 2007, p. 46.)

A criança para Jung

Para Jung, o recém-nascido não é uma tábula rasa que absorve apenas as informações externas. Mas, como todo ser humano, já nasce com conteúdos preexistentes, passados de geração em geração. Trata-se de tudo o que a humanidade viveu enquanto sociedade. Essa herança contém:

  • mitos,

  • contos,

  • lendas,

  • histórias,

  • a cultura em geral (sendo uma herança coletiva e não individual). 

O inconsciente coletivo e os sonhos

O Inconsciente Coletivo nos remete a um reservatório de imagens primordiais, sendo a parte mais profunda e arcaica da psique. Jung diz que é essencial levar isso em conta no momento de análise dos sonhos. Isso porque as atitudes e relações de todos os indivíduos são também influenciadas por esse inconsciente. 

Jung discutiu diversos arquétipos, entre eles:

  • o da sombra,

  • a mãe,

  • o pai,

  • a criança,

  • o casamento,

  • o herói.

Segundo ele, o principal arquétipo do Inconsciente Coletivo é o Self, que se refere à unificação e organização da personalidade.

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Caso o ego escute o Self, o ser humano pode se tornar mais completo. Falar de arquétipos e de inconsciente coletivo é falar de algo que é comum a todos, é universal e amplia as formas de interpretação. Jung diz: “O arquétipo é uma ideia viva, que sempre incentiva novas interpretações, nas quais ele se desdobra.” (JUNG, 2011, p. 346.)

Os sonhos e sua linguagem própria símbolos 

Como vimos, a compreensão dessas imagens arquetípicas da mente dos sonhadores possibilita uma compreensão mais profunda da psique. Os sonhos não possuem linguagem verbal ou lógica consciente. Portanto, para entendê-los, é necessário aprender sua linguagem própria, a do inconsciente.

Esta, por sua vez, é repleta de símbolos e imagens arquetípicas. Jung também chamou o Inconsciente Coletivo de psique objetiva, pois vivenciamos isto como se não nos pertencesse.

Os símbolos são manifestações dos arquétipos e conectam o inconsciente ao consciente. Para Jung, apenas se consegue compreender o simbolismo do sonho levando-se em conta as convicções filosóficas, religiosas e morais do sonhador.

Qual o conteúdo mais importante?

Freud e Jung diferiam sobre qual conteúdo deveria ser interpretado. Para o primeiro, o conteúdo mais relevante era o latente. Portanto, através da associação livre podemos encontrar o verdadeiro significado do sonho. Por outro lado, para Jung, o conteúdo manifesto, que são as imagens em si, o que lembramos logo após sonhar, era o que deveria ser interpretado. Como Freud, ele não acreditava qque o sonho era um disfarce. O sonho para Jung é revelador. 

“A dificuldade em entender a imagística do sonho não ocorre porque o sonho esteja ocultando alguma coisa e sim porque pensamentos e emoções foram traduzidos em imagens, e porque a função do sonho é comunicar um conteúdo que estava anteriormente ausente da consciência.” (MATTOON, 2013, p. 73.)

Os símbolos são a linguagem dos sonhos e são apresentados de forma espontânea e não disfarçada. Jung acreditava que cada elemento do sonho tinha uma individualidade simbólica. Assim sendo, poderia ser melhor interpretado pelo próprio sonhador. No entanto, algumas imagens dos sonhos derivam dos conteúdos coletivos ou arquetípicos e não de experiências pessoais. 

Conteúdos relevantes para o inconsciente

Segundo Jung, há dois tipos de conteúdos de grande relevância no inconsciente. Um deles são os complexos, conteúdos básicos do inconsciente pessoal. Já as imagens arquetípicas, por outro lado, são o conteúdo básico da psique objetiva (inconsciente coletivo).

“As imagens arquetípicas são imagens profundas e fundamentais, que se formam pela ação dos arquétipos sobre a experiência que vai se acumulando na psique individual. As imagens arquetípicas diferem das imagens do complexo por possuir um significado mais generalizado, mais universal, muitas vezes com uma qualidade afetiva de profundo efeito espiritual ou místico.” (HALL, 2007, p. 15.)

Jung via religião como essencial à vida humana. Inclusive, ele ressalta a importância desta ao verificar a alta frequência com que esse conteúdo aparece nos sonhos de diferentes pessoas. Jung, ao contrário de Freud, que se dizia ateu e via a religião como uma ilusão, acreditava que esta era uma necessidade de todo ser humano. Trata-se da busca por algo maior e descartá-la das análises seria um grande erro. 

A individuação 

Outro conceito central na teoria junguiana, também muito relevante para os sonhos, é o da individuação. Seria um processo de desenvolvimento gradual de diferenciação da personalidade, do indivíduo psicológico, no qual este conscientemente busca evoluir e se tornar completo, desenvolvendo suas potencialidades.

Começa-se tentando compreender o que acontece consigo e, aos poucos, integram-se conteúdos inconscientes ao consciente. Os sonhos contribuem muito para esse processo, expressando partes do inconsciente tanto pessoal como coletivo com seus arquétipos.

A psicologia analítica de Jung

A psicologia analítica criada por Jung se baseia nessa integração do ser. Ela unifica consciente e inconsciente. Jung diz: “Uso o termo ‘individuação’ no sentido do processo que gera um ‘individuum’ psicológico, ou seja, uma unidade indivisível, um todo.” (JUNG, 2002, p. 269.)

A Individuação é um processo que geralmente ocorre depois de um bom tempo de análise e que visa a máxima potência do indivíduo. Jung diz que o processo de individuação já vai acontecendo inconscientemente e a interpretação do sonho a sinaliza. Unindo essa vontade consciente de compreensão com o inconsciente, esse processo pode ocorrer mais rapidamente.

A interpretação onírica junguiana

Jung não tinha um método rígido para análise e interpretação dos sonhos, como Freud tinha com a associação livre. No entanto, ele acreditava que o caminho a se seguir era através de amplificações que o analista vai conseguindo a partir do indivíduo.

Jung acreditava ainda que o caminho era analisar uma série de sonhos e não apenas um isoladamente, levando em conta conceitos como:

  • inconsciente coletivo,

  • arquétipos,

  • e complexos.

O trabalho do analista para Jung

Assim, a visão seria amplificada, mirando uma totalidade. É imprescindível para Jung relacionar os conteúdos dos sonhos de seus pacientes com:

  • mitos,

  • lendas,

  • religião,

  • e cultura em geral.

Trata-se de tudo que possui poder influenciador na vida de cada um. Com isso, uma boa interpretação dos sonhos poderia ser realizada. 

Para Jung, a análise dos sonhos era obrigação profissional do terapeuta, pois sua interpretação auxilia na descoberta da etiologia da neurose dos pacientes. Ela pode promover a cura por libertar energias reprimidas e abrir a mente consciente para o conteúdo inconsciente.

Aprender a entender os próprios sonhos possibilita que a pessoa enriqueça sua mente consciente, auxilia também na busca pelo autoconhecimento e estabilidade mental. Segundo Jung, através da projeção dos sonhos podemos revelar a estrutura psíquica de um indivíduo, indicando o que este está projetando nos outros. 

Conclusão

Sem dúvida, Freud e Jung nos legaram um conhecimento sem precedentes sobre os sonhos e a psique. Ambos concordavam que os sonhos eram universais e possuíam grande importância para o conhecimento de conteúdos que estão fora da consciência do indivíduo. Ambos se preocuparam também em encontrar, através dos sonhos, a etiologia, o prognóstico e, se possível, a cura para seus pacientes.

O valor das propostas de Freud e Jung

As teorias sobre os sonhos tanto as de Freud como as de Jung são consideradas de grande valor para todos os estudos subsequentes. A maioria dos psicólogos aceita os sonhos como manifestações importantes dos conteúdos do inconsciente. Seus estudos são utilizados como base para novas teorias. Assim como o estudo sobre os sonhos proporcionou aos dois grande evolução e desenvolvimento em diversos outros conceitos.

Freud foi quem abriu o caminho para a análise dos sonhos, mas Jung ampliou a visão, apresentando uma nova abordagem na qual o conceito provocante de inconsciente coletivo possui caráter inovador. Muitas vezes, Jung foi mal compreendido e tachado de místico. 

Freud defendeu que o sonho sofria uma censura psíquica e, portanto, era uma fachada, cabendo ao analista e seu paciente desvendarem o sentido oculto do sonho; defendia também que os sonhos são guardiões do sono. Já para Jung, os sonhos buscam uma compensação, um equilíbrio, e não aparecem de forma disfarçada, são grandes reveladores do que está em nossa mente, realizando uma ponte entre conteúdos conscientes e inconscientes. 

Lembre-se!

Para Freud, o método de interpretação dos sonhos é através da associação livre, na qual o indivíduo deve contar os sonhos da forma que vierem à mente. Isso para que, assim, o analista consiga ir desvendando o conteúdo latente, o real significado do sonho.

Para Jung, deveria haver mais sensibilidade e menos regras. Ele sugere a amplificação, mas não generalizada. Trata-se de analisar uma série de sonhos e observar os arquétipos presentes, possibilitando, então, que o sonhador entre em contato com esse material. Contudo, sem estar obcecado em descobrir apenas seu significado.

A intenção é que o indivíduo aprenda algo de fato com o sonho, se torne mais íntimo e sensível às suas questões.

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Esperamos que tenha gostado desse artigo sobre sonhos de acordo com uma abordagem psicanalítica. Para aprender a abordar temas espinhosos da teoria psicanalítica assim como nossa aluna Julia, matricule-se em nosso curso. A formação em Psicanálise Clínica EAD fará a diferença não só em termos de aprendizado, mas também de evolução profissional.

O trabalho original foi escrito pela concluinte Julia Beleza, e os direitos do mesmo ficam reservados à autora.

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