Transtorno do Espectro Autista

Transtorno do Espectro Autista (TEA): o que é?

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O Transtorno do Espectro Autista (TEA), segundo o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 2013) faz parte de um grupo de transtornos do neurodesenvolvimento com sintomas que devem aparecer no período do desenvolvimento, mas a gravidade de sua manifestação pode ser bastante variável.

As características do Transtorno do Espectro Autista

As características principais são as dificuldades na comunicação e/ou interação social e a presença de comportamentos e interesses com padrões restritos ou repetitivos e estereotipados. Até o presente momento, na literatura científica médica, trata-se de um transtorno permanente que não tem cura, ainda que a intervenção precoce possa melhorar o prognóstico e abrandar os sintomas.

Adultos e crianças com TEA apresentam dificuldades na interação social e, em geral, precisam de ajuda para aprender a agir nas diferentes situações sociais da vida cotidiana. Alguns casos (mais leves) demonstram motivação no sentido de interagir, no entanto, podem não saber lidar com esta interação o que acaba por dificultar fazer amigos ou conviver em sociedade.

De modo geral, observa-se que aqueles quem tem o TEA podem não apresentar comunicação verbal, ter dificuldades na comunicação não verbal (gestos e expressões faciais), ou não apresentam interesse em realizar atividades com outras pessoas.

O desgaste emocional familiar

Um fator que merece um importante destaque, em relação ao TEA, é o desgaste emocional demasiadamente grande na família e, dependendo de sua severidade, por impossibilitar qualquer contato com o mundo externo, as consequências emocionais podem alcançar níveis devastadores. Entretanto, a literatura científica mostra que em alguns casos é possível que a criança/adultos com TEA possam ter uma vida muito próxima da considerada “normal”.

Outros casos, porém, a convivência pode ser de fato muito estressante para todos os envolvidos, especialmente para a família e comunidade escolar. Assim, quanto mais precoce for o diagnóstico e a abordagem terapêutica, a tendência é que a família se sinta mais acolhida e reconfortada.

No Brasil, embora o diagnóstico ainda seja feito de forma tardia conforme apontam estudos, em relação aos aspectos sociais (interação da escola, família e sociedade) o ambiente escolar destaca-se por ser o local mais oportuno para o desenvolvimento de habilidades por meio de atividades de interação social.

O diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista

Outra observação relevante é o fato dos profissionais de educação, especialmente da educação infantil, conseguirem identificar comportamentos “atípicos” servindo como mediadores entre a família e os profissionais habilitados a realizar o diagnóstico do TEA. Sob o olhar da psicanálise, que têm um percurso extenso no acompanhamento de crianças/adultos com TEA, destaca-se o caso Dick, relatado por Melanie Klein em 1930.

Naquela época, este paciente atendido por Klein, apresentava sintomas como ausência de fala, falta de reciprocidade afetiva, desinteresse por brinquedos e “ensimesmamento” recebendo o diagnóstico psiquiátrico de “demência precoce”.

Segundo alguns estudiosos, a experiência de Klein com o caso Dick possibilitou aprender uma lição importante no sentido de compreender que crianças autistas também possuem uma mente (como a de todos os seres humanos) rica de emoções e sentimentos, que podem ser acessadas e entendidas trazendo a criança de volta ao “humano”.

Transtorno do Espectro Autista e o termo “autismo”

Embora o termo “autismo” tenha sido empregado pela primeira vez por Eugen Bleuler (1908-1911), este o empregou para ilustrar mais um dos sintomas de esquizofrenia em adultos. Breuler procurou postular na época um termo diferente, porém equivalente à nomeação de autoerotismo criada por Freud.

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Foi na década de 1940, a partir dos achados de Leo Kanner, que o termo “autismo” passou a ser utilizado em casos onde crianças apresentavam dificuldade ou inabilidade em manter relações interpessoais compostas pela tríade afetivo-emocional-verbal, comportamentos repetitivos e estereotipados, além de um limitado conjunto de interesses.

Com os estudos realizados por Kanner, surge então, a descrição da sintomatologia do “autismo”. Poucos anos depois de Leo Kanner, Hans Asperger discorre sobre crianças com laço social subtraído, mas com maior uso da linguagem (Síndrome de Asperger).

O acompanhamento psicanalítico

Vários outros estudiosos debruçaram-se sobre o tema “autismo” e valiosas contribuições no campo da psicanálise surgiram.

O acompanhamento psicanalítico, especialmente de crianças com TEA, enfatiza uma abordagem onde a consideração da singularidade e subjetividade de cada sujeito é de extrema importância.

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    Quando se fala em tratamento do TEA utilizando a psicanálise, a maioria dos estudiosos em suas publicações destacam o manejo da transferência como a técnica psicanalítica mais apropriada. Um considerável número de publicações também destaca a reestruturação psíquica por meio do desenvolvimento da capacidade simbólica e outros estudiosos fazem referência ao jogo simbólico e a capacidade da linguagem como possibilidades de intervenção.

    Considerações finais

    É importante salientar, que é quase uma unanimidade entre os estudiosos, a necessidade de ajustar as técnicas psicanalíticas afim de se adaptar às características singulares do sujeito.

    Assim, o tratamento psicanalítico no TEA não tem como objetivo o “adestramento” para uma adaptação do sujeito, mas sim, possibilitar ao sujeito a construção de um caminho de inclusão num primeiro momento na própria família e, depois, na sociedade.

    Seja no atendimento do TEA ou em outros tipos de transtornos, é fundamental que o psicanalista tenha uma postura de constante atualização teórica e adequação de sua conduta clínica visto que o ser humano é único e rotulá-lo afim de adequá-lo a certos padrões de comportamento impostos pela sociedade é sobretudo desumano.

    Referências Bibliográficas

    ABREU, G. H.; TAFURI, M. I. (2007). Além do possível: investigações acerca do originário na clínica da criança autista. Estilos da Clínica: Revista sobre a Infância com Problemas, 12(23), 166-181. FREIRE, A. B. (2002). A constituição do sujeito e a alteridade: considerações sobre a psicose e o autismo. Estilos da Clínica: Revista sobre a Infância com Problemas, 7(13), 78-91. GONÇALVES, et al. Transtornos do espectro do autismo e psicanálise: revisitando a literatura. Tempo Psicanalítico, Rio de Janeiro, v. 49.2, p. 152-181, 2017. VORCARO, A.; LUCERO, A. ENTRE REAL, SIMBÓLICO E IMAGINÁRIO: Leituras do autismo. Psicol. Argum., Curitiba, v. 28, n. 61, p. 147-157 abr./jun. 2010.

    Este artigo sobre o transtorno do espectro autista (TEA) foi escrito por Michelle Waitman Fonseca para o site do Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica.

     

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