Transtorno Opositor Desafiante

Transtorno Opositor Desafiante (TOD)

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Depois de quase 20 anos lecionando Literatura e Redação para alunos de Ensino Médio e Pré-vestibulares, sobretudo a partir de 2012, 2013, uma prática que era comum, e até recebida com uma certa despreocupação por muitos professores, eram alunos recebidos como portadores de alguma deficiência ou trauma, como o Transtorno Opositor Desafiante.

Tias alunos portavam laudos; mas boa parte era gente chata, com traços semelhantes a um dos pais; sobretudo à mãe.

Por volta desses anos, um pouco antes ou depois, dependendo do perfil socioeconômico da cidade e linha de pensamento da instituição (lecionei em duas instituições católicas, administradas por ordens religiosas tradicionais: são as mais resistentes a modas do tipo TOD (Transtorno Opositor Desafiador) e Mutismo Seletivo e até a Síndrome do Cadáver Ambulante.

Transtorno Opositor Desafiante

Até 2007, 2009, era o alerta sobre os discentes “especiais”, diagnosticados e acompanhados de laudos de psicólogos, psiquiatras, terapeutas holísticos; o medo era de que adeptos de terapias alternativas, geralmente profissionais liberais bem-sucedidos, com postura bastante intimidadora, de que seus rebentos não teriam um tratamento diferenciado.

Via de regra, eram laudos sobre depressão; ampliaram-se para ansiedade diante de provas e avaliações, progredindo para Síndrome do Pânico. Progressivamente, aumentam os diagnósticos: alunos agressivos, que furtavam objetos de colegas, importunavam colegas de ambos os sexos com piadas, insultos ou até toques corporais inadequados.

Passaram a ser “habitués” de salas da Diretoria e receber como prêmio, 3 dias de vadiagem. Entretanto, acabavam voltando com laudos de Transtorno de Personalidade Limítrofe (o “Borderline”), o que, via de regra, gerava insatisfação envolvendo muitos da comunidade escolar; as consequências no ambiente escolar iam do isolamento ao “Bullying” e ao “CyberBulliyng”; Segundo a Classificação Internacional de Doenças em sua décima edição (CID10), o transtorno desafiador opositor (TOD) na classificação F91.3 é definido como:

O desafio do transtorno

Transtorno de conduta, manifestando-se habitualmente em crianças jovens, caracterizado essencialmente por um comportamento provocador, desobediente ou perturbador e não acompanhado de comportamentos delituosos ou de condutas agressivas ou dissociais graves (CID-10)1 .

De acordo com o Manual de Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5)2, o TOD é definido como:

Um padrão de humor raivoso/irritável, de comportamento questionador/desafiante ou índole vingativa com duração de pelo menos seis meses (DSM-5) .

O paciente com Transtorno Opositor Desafiante

Notamos já uma falta de convergência entre dois pequenos excertos: enquanto o CID não enxerga nenhuma conduta antissocial e agressiva, o DSM já chama atenção para um perfil vingativo, o que não deve deixar qualquer pessoa com juízo deitar a cabeça tranquila no travesseiro.

Na verdade, o TOD, é uma espécie de salvo-conduto para o chato se tornar um “criminoso-limítrofe”.

Sintomas do transtorno

Longe de ambientes controlados, do ECA e dos pais-helicópteros submetidos aos filhos e (eles também) hiper-medicalizados. Daí que o DSM-V apresenta como sintomas, curiosamente, detectados no meio familiar e escolar:

Os pacientes devem apresentar um padrão de comportamento negativista, hostil e desafiador durando pelo menos 6 meses, durante os quais quatro (ou mais) das seguintes características estão presentes:

Humor raivoso:

  • frequentemente perde a paciência;
  • frequentemente é sensível ou facilmente incomodado;
  • com frequência é raivoso e ressentido.
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Comportamento questionador e desafiante:

  • frequentemente questionado figuras de autoridade (adultos);
  • frequentemente desafia acintosamente ou se recusa a obedecer a regras ou pedidos de figuras de autoridade;
  • frequentemente incomoda deliberadamente outras pessoas;
  • frequentemente culpa os outros por seus erros;

Índole vingativa:

  • foi malvado ou vingativo pelo menos duas vezes nos últimos 6 meses.

Responsabilidades

Pois bem, creio que muitos leitores já sentiram, e vez ou outra, sentem, vontade de pôr em prática alguns desses “sintomas”.

No entanto, um Superego bem estruturado, respeito às regras de convivência, conceitos básicos de ética e empatia fazem com que a maioria dos cidadãos não o façam.

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    Enfim, seria bom que as pessoas tivessem alguma noção de que terão mais responsabilidades que gastar dinheiro e deixar os pupilos com os avós para continuarem a frequentar as baladas, consumir drogas lícitas e ilícitas como se a vida adulta fosse extensão de um “Endless Summer” eterno, devem ter em mente que ter filhos não é brincar de casinha. E, sobretudo: pais não são amigos dos filhos!

    Ainda sobre o Transtorno Opositor Desafiante

    Vão ao encontro do que foi descrito e estudado em 1999 pelos psicólogos Justin Kruger e David Dunning da Cornell University, referindo-se a indivíduos que têm competência em uma determinada área, mas acreditam verdadeiramente que sabem mais do que os mais preparados e versados no tema .Já faz um tempo em que os limites entre alunos e professores foram rompidos, sobretudo no Ensino Médio.

    Na escola, a intimidade é estimulada com a finalidade de criar um clima mais descontraído, mais amistoso, o que, supostamente, possa favorecer a aprendizagem, segundo algumas linhas de pensamento da pedagogia.

    O que pode gerar problemas, pois cérebros em cujo córtex pré-frontal ainda não está totalmente desenvolvido, os papéis não ficam claros: as fronteiras entre intimidade e hierarquia, por exemplo.

    A complexidade do nosso cérebro

    A que a última parte do cérebro a amadurecer – o córtex pré-frontal – é justamente a região onde se processam comportamentos tipicamente adultos: capacidade de planejamento, concentração, inibição de impulsos e empatia.

    “Essa integração resulta em um aperfeiçoamento da linguagem e da coordenação motora, por exemplo”, diz a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, da Universidade Vanderbilt (EUA), autora de “O cérebro em transformação” . “Não por acaso, adultos que sofreram lesões no córtex apresentam comportamentos típicos de adolescentes”, completa.

    Daí o conceito do efeito Dunning-Kruger, baseado num teste com que envolvia responder perguntas de lógica e gramática. Antes do teste, foi pedido aos voluntários para avaliarem suas próprias performances.

    Tudo se esclarece

    Os que obtiveram resultados melhores subestimaram seus resultados, acreditando estar apenas acima da média ou mesmo na média. Já os que erraram mais perguntas eram os que mais se superestimavam. Quase todos no grupo dos 25% que mais erraram classificaram a si mesmos entre os 33% melhores .

    Quando não sabemos praticamente nada sobre algo, por outro lado, fica fácil cair na ilusão de que conhecemos muito sobre aquilo porque não nos deparamos com a complexidade real do assunto; só com versões simplificadas dele. Imagine um aluno que tem resultados medianos nas aulas de matemática. Ele dificilmente vai se considerar um gênio com os números. Afinal, ele teve aulas, fez provas e comparou seus resultados com os de outros alunos. Tudo isso foi necessário para ele saber com certeza que não se destaca na área. Em resumo, ele sabe que nada sabe.

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    Liberdade de Expressão e Pensamento no Transtorno Opositor Desafiante

    Isso cria um verdadeiro clima de caos, em que alunos com laudos de TOD e totalmente convictos de que suas teorias conspiratórias e fake news são superiores aos conhecimentos dos professores. Como a pedagogia moderna afirma, os alunos têm direito à sua opinião, posição ideológica.

    Uma opinião em contrário por parte do professor passa a ser um ato de repressão e opressão contrários à Liberdade de Expressão e Pensamento. Na verdade, estamos criando figuras como o sujeito que acreditava que podia ficar invisível se passasse suco de limão no rosto7 .

    Um problema sério que ganhou força com a disseminação do Valium entre as donas-de-casa histéricas das décadas de 50-60, bem analisada pelo historiador americano Christopher Lasch, e vem num crescente aparentemente irrefreável, já era apontado por Freud: “a psiquiatria […] deu ‘nomes a [comportamentos] diferentes, porém sem dizer mais nada a respeito deles’ (SE XVI, P.260) —, a psiquiatria simplesmente forneceu uma panóplia de termos novos para descrever os objetos singulares” .

     

    Referências bibliográficas: 1. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde 1. (CID-10). 10ª ed. 2012. 2 . AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. 3 . Ibidem. 2 4 . MARQUES, José Roberto. Você sabe o que é o Efeito Dunning-Kruger? Disponível em: <https://www.ibccoaching.com.br/portal/comportamento/voce-sabe-que-efeito-dunning-kruger/Postado em 10 de setembro de 2019.> Acesso em: 08 de Março de 2021. 5 . HOUZEL, Suzana Herculano. O Cérebro em Transformação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. 6 . Disponível em: <Kruger, J., & Dunning, D. (1999). Não qualificado e inconsciente disso: como as dificuldades em reconhecer a própria incompetência levam a autoavaliações exageradas. Journal of Personality and Social Psychology, 77 (6), 1121-1134. https://doi.org/10.1037/0022-3514.77.6.1121> Acesso em: 10 de março de 2021. 7 . Um caso em 1995, chamou a atenção dos psicólogos David Dunning e Justin Kruger da Universidade de Cornell, EUA. Um sujeito chamado McArthur Wheeler acreditava ter o poder de ficar invisível ao passar suco de limão no rosto e, certo dessa habilidade, assaltou dois bancos sem usar máscara alguma. O intrigante é que ele não apresentava sintomas de transtornos psiquiátricos e nem estava sob efeito de entorpecentes; ele acreditava em sua invisibilidade diante das câmeras de segurança a ponto dos policias dizerem que ele ficou chocado com o fracasso e teria dito, espantado: “Mas eu usei o suco de limão!” Disponível em: <https://www.blogs.unicamp.br/politicanacabeca/2020/06/11/a-estupidez-dos-especialistas-de-internet-em-tempos-de-pandemia-o-efeito-dunning-kruger/.> Acessado em: 10 de março de 2021. . LASCH, Christopher. A Cultura do Narcisismo – A vida americana numa era de esperanças em declínio. Rio de Janeiro: Imago, 1983. . FINK, Bruce. Introdução clínica à psicanálise lacaniana. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

    O presente artigo foi escrito pelo autor Renato Gorgulho([email protected]) Renato
    nasceu em Diadema-SP, foi criado em Caçapava-SP e reside em Itajubá-MG desde 1987. Licenciado em Literaturas de Língua Portuguesa & Inglesa, lecionou no Ensino Médio durante 20 anos. Aos 49 anos, casado, sem filhos, e depois de perder os pais idosos dos quais era responsável num espaço de tempo de seis meses, aproveitou o Pandemônio para realizar um sonho antigo.

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