Formação do Psicanalista: A profissão sem manual de instruções

Formação do Psicanalista: A profissão sem manual de instruções

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Na transmissão do conhecimento necessário para a formação do psicanalista na prática clínica, há um estranhamento que a psicanálise sustenta desde sua origem.

Existe uma exigência de certo rigor metodológico.

Ao mesmo tempo em que é imprescindível aprender a lidar com experiências radicalmente singulares, impossíveis de se reproduzir nos mesmos termos de um caso para outro, de uma sessão para outra.

Esse caráter paradoxal de um método concreto que aponta para uma prática fluida confere à psicanálise características muito diferentes de outros campos do saber.

A Repetição Necessária

Enquanto, por exemplo, na matemática a descoberta de uma relação válida permite sua aplicação universal.

A psicanálise se depara, em cada encontro clínico, com um sujeito que fala a partir de uma história, de um corpo e de um trânsito de afetos que não se deixam reduzir a fórmulas gerais.

Ainda que certos impasses se repitam, eles jamais se resolvem da mesma maneira.

Dois psicanalistas lendo o mesmo Freud não produzem a mesma clínica.

Não se trata da ausência de método, mas da afirmação de um método que opera por condições de possibilidade, e não por encadeamentos causais previsíveis.

Pense num ator de teatro, cujo trabalho de preparação é profundamente técnico: exige treino rigoroso do corpo, da voz, da escuta, da presença e do trabalho árduo de composição cênica.

Quando chega o momento da cena, toda essa técnica precisa desaparecer pois, se o ator pensa na técnica enquanto atua, ele sai do personagem e a cena se perde.

A Particularidade da Psicanálise

Algo análogo ocorre na clínica psicanalítica: o método sustenta, prepara, orienta, mas não pode ocupar o primeiro plano do encontro.

A eficácia do ato analítico depende justamente de que o rigor esteja incorporado a ponto de não se apresentar como tal.

É nesse ponto que emerge uma tensão fundamental:

Como sustentar um método em uma prática que não admite padronização?

Como transmitir uma clínica que se organiza precisamente a partir daquilo que escapa à previsibilidade?

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Longe de representar uma fragilidade, esse paradoxo constitui o próprio eixo da psicanálise.

Tida como regra fundamental da clínica psicanalítica, a associação livre talvez seja o exemplo mais contundente desse paradoxo.

Ainda assim, ela basicamente se apresenta como um convite.

Formação do Psicanalista

Um pedido para que o analisando fale sem qualquer tipo de direção ou orientação prévia, sem censura e sem compromisso com coerência, relevância ou linearidade.

Torna-se até uma liberdade em que a fala pode se arriscar sem nenhuma direção prévia.

Se faz possível quando sustentada no enquadre e na transferência.

Se pensarmos a noção clássica de método como um conjunto de procedimentos capazes de conduzir a resultados previsíveis, encaixar a associação livre nessa noção parece quase uma heresia.

Como falar em método quando aquilo que orienta a clínica é, justamente, a recusa de uma orientação linear, temática, lógica ou moral do discurso?

Curiosamente é exatamente essa “regra” que inaugura a especificidade da escuta analítica.

E tem sido ela que, ao suspender a exigência de qualquer organização consciente da fala, cria as condições para que o inconsciente se manifeste.

Associação Livre

Não como conteúdo oculto a ser revelado, mas como modo de funcionamento.

E então aquilo o método prepara na escuta para além da fala é o que se mostra nos tropeços, nas repetições, nos lapsos e nos silêncios.

Se a clínica psicanalítica se organiza a partir da associação livre, então cada sessão constitui um acontecimento singular, que não pode ser reproduzido nem mesmo em condições aparentemente idênticas.

Assim, um psicanalista bem capacitado sabe criar condições para que seus analisandos embarquem.

Sessão após sessão, em interações que, de tão libertas da necessidade de se organizarem sob qualquer aspecto, quase sempre possuem um destino meio incerto.

Associação livre, portanto, não é a ausência de método, mas a afirmação de um método que opera por vias não controláveis antecipadamente.

Vê-se então que o rigor da psicanálise não se encontra em um passo a passo aplicável à clínica, mas na sustentação de certas posições fundamentais.

Quebra de Padrão

Sabemos que nem análise e nem psicanalista se orientam por protocolos de intervenção nem por metas terapêuticas previamente definidas.

É nessa recusa de aconselhar, de moralizar, de conduzir o discurso a um desfecho considerado saudável que se manifesta o rigor ético da posição analítica.

Trata-se de uma ética menos preocupada com a moral e mais ligada à responsabilidade com os efeitos da palavra e com o lugar que o psicanalista ocupa na transferência.

Existem para o psicanalista clínico decisões clínicas que exigem uma disciplina constante e, paradoxalmente, quanto menos o método se apresenta como roteiro, mais ele exige do psicanalista uma posição firme.

Podemos dizer que de certa forma, o método analítico na clínica não organiza o que deve acontecer na sessão, mas propõe limites bastante claros daquilo que não deve ser feito para que algo possa acontecer.

O Silêncio

E é interessante notar que esse mesmo paradoxo se manifesta de forma particularmente sensível na experiência do silêncio do psicanalista.

Há momentos em que, para o analisando, o silêncio pode ser vivido como enigma, falha ou até descaso.

Especialmente quando há a expectativa de que o encontro terapêutico funcione segundo uma lógica de troca explicativa ou orientadora.

Afinal, há analisandos que recorrentemente pedem para que seus psicanalistas lhes ofereçam algo como um passo a passo para resolver muitas de suas questões.

Para esses é ainda mais ininteligível a compreensão de que o silêncio analítico não é ausência de trabalho.

E sim uma intervenção que se sustenta justamente na recusa de preencher o sentido, permitindo que o discurso do analisando encontre seus próprios limites e retornos.

Cabe ao psicanalista aprender que estar em silêncio não é apenas não falar, mas, de alguma forma, participar ativamente da sessão com seu silêncio.

Permissão de Não Saber

Algo semelhante ocorre também com a atenção flutuante.

O psicanalista não escolhe o que escutar, mas necessita estar radicalmente atento e sentir-se convidado a não privilegiar elementos específicos do discurso, mas também não a escutar de modo distraído.

Trata-se de uma atenção rigorosa e, ao mesmo tempo, não seletiva.

Novamente, um modo de presença que não é natural nem espontâneo, mas construído, treinado.

Como também vemos aqui que o método que prepara um bom psicanalista tem bem menos a ver com saber.

Ou o que dizer na direção de solucionar diversos tipos de queixas e está muito ligado com posições que ele deve sustentar com sua presença durante as sessões.

Percebe-se que a psicanálise, antes de ser uma clínica da técnica ou uma clínica da cura, precisa se sustentar como uma clínica da ética.

Não porque a cura seja irrelevante, mas porque ela não pode ser tomada como finalidade direta da intervenção.

O Desejo

Essa ética da psicanálise se manifesta quando o psicanalista resiste à tentação de responder à demanda do analisando com soluções rápidas, conselhos ou explicações totalizantes.

É justamente criar, nutrir e manter o espaço em que o sujeito possa se confrontar com seu próprio desejo, e não com o desejo supostamente esclarecido do outro.

É aí que formação do psicanalista se inscreve diretamente nesse paradoxo.

Não se treina um psicanalista para aplicar técnicas, nem para conduzir sessões segundo modelos ideais.

Também não se trata de ensinar quando falar ou quando silenciar de forma mecânica ou estruturada.

Nesse aspecto, a formação do psicanalista passa pelo desenvolvimento de uma competência delicada.

Porque é quase humanamente contraintuitiva que é a construção de uma capacidade potente de inibição:

Psicanalista bem qualificado torna-se capaz de inibir o impulso de explicar, de organizar o discurso do outro, de aliviar o sofrimento a qualquer custo.

Ele ocupa um lugar de não-saber.

O Desconforto Necessário

Na formação do psicanalista, somente alguém muito bem treinado pode sustentar o não-saber, especialmente quando o sofrimento do outro convoca respostas imediatas.

Não há dúvida que isso exige não apenas uma formação rigorosa, com muito estudo teórico, mas supervisão clínica de qualidade e, sobretudo, imergir na própria experiência de análise.

E é preciso ser atravessado por esse percurso para sustentar, na clínica, uma posição que articula rigor e abertura ao imprevisível.

Fica evidente, então, que a psicanálise não aposta em um funcionamento previsível, nem em um progresso linear facilmente reconhecível pelo analisando.

É um método que não foi desenhado para garantir conforto.

Uma de suas funções principais é criar condições para que algo do sujeito possa emergir para além do que ele já sabe dizer sobre si.

Por isso há de se assumir um compromisso com a singularidade de cada sujeito e com a impossibilidade de reduzir sua experiência a modelos prontos.

Caminho Incerto

O rigor da psicanálise é o rigor de uma caminhada contínua por territórios sem mapa, portanto sem necessidade de corrigir o caminho.

É o rigor do lugar de paciência atenta e sem antecipação da resposta na formação do psicanalista.

É o rigor da escuta que não se opera como instrumento de adaptação e sim como parte da sustentação de posições de renúncia em aplicar uma ou outra técnica para pronunciar conclusões ou fechar sentidos.

Uma análise que realmente trabalha, coloca analisando e psicanalista em períodos em que o percurso não pode ser inteiramente antecipado, em que o caminho vai se desenhando à medida que é trilhado, às vezes inclusive no escuro.

A clínica analítica não se orienta pela ausência de direção, mas por uma direção que não se deixa reduzir a um roteiro prévio.

Há efeitos que se fazem sentir a cada passo, no próprio instante da sessão como afetos, insights, deslocamentos sutis ou intensos.

Formação do Psicanalista e Sustentação

No entanto, o alcance e o estatuto desses efeitos só podem ser avaliados a posteriori, no encadeamento do processo e na maneira como eles se inscrevem ou não na história do sujeito.

É curioso que chamemos de método uma prática que se sustenta na associação livre, e de rigor uma clínica que só avança quando aceita uma certa perda de controle do caminho.

É esse o paradoxo que a psicanálise clínica sustenta desde sua origem:

Um método suficientemente rigoroso para não se dissolver em improviso, e suficientemente aberto para não se endurecer em técnica.

Permitindo que aquilo que inicialmente se apresenta como caos, desorganização ou sintoma revele-se como o material bruto e essencial do trabalho analítico em curso.

Em vez de se fixar como entraves ou obstáculos, por mais estranhos, confusos ou obscuros que se apresentem.

Este artigo foi desenvolvido através do Trabalho de Conclusão de Curso de Formação em Psicanálise Clínica do aluno Ivan de Marco.

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