Singularidade do Sujeito: Padronização da saúde mental

Singularidade do Sujeito: Padronização da saúde mental

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No mundo tecnológico atual, a sociedade está ignorando a singularidade do sujeito, porém a Psicanálise não cabe em caixas.

Estamos vivendo a era da indústria 4.0, já falando na indústria 5.0, em ambas os indicadores são referências para medir os resultados.

Ou seja, estamos na década dos indicadores, onde tudo necessita ser medido e posto em um indicador (gráfico).

Do desempenho das máquinas na Indústria 4.0/5.0 ao monitoramento do sono por aplicativos, parece que tudo foi reduzido a dados e métricas, na sociedade contemporânea.

Essa mentalidade que foi desenvolvida no meio corporativo industrial com a finalidade de medir a produtividade, acabou rompendo fronteiras, chegando à subjetividade do sujeito, ou seja, em sua esfera mais íntima.

A sociedade contemporânea está transformando a singularidade do sujeito em um banco de dados.

Em uma “singularidade tecnológica”, onde o sujeito passa a ser visto como um algoritmo que precisa ser otimizado para atender à demanda de um ‘pseudocliente’ e ser encaixotado.

Ao adentrarmos com esta lógica no campo da saúde mental, nos deparamo-nos com uma tensão ética e técnica fundamental.

Recentemente, um artigo voltado para psicologia comportamental discutiu a falta de padronização no processo terapêutico sob o argumento de que a psicologia e a psicanálise “carecem de embasamento científico”.

Alega-se que a metodologia atual permite que cada profissional atue conforme a escuta de cada caso.

Mas, ao trabalharmos para colocar o sofrimento do sujeito dentro de uma caixa formatada, o que realmente estamos deixando de fora?

Singularidade do Sujeito Vs. Padronização

A psicanálise desde sua criação por Freud sofre a crítica de ser uma “pseudociência”.

No entanto, é necessário questionar o que estamos chamando de ciência e por que chamamos?

É considerado ciência apenas o que é possível repetir em laboratório sob condições controladas e previsíveis, como as ciências exatas.

Logo, a psicanálise não entra nesta caixa, o sujeito é único com sua singularidade, portanto não cabe padronização.

Quando falamos de um “sujeito”, estamos nos referindo ao ser construído de linguagem, de uma história e uma rede de afeto, não de um pedaço de carne, um composto orgânico.

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Portanto esta tentativa de padronizar o processo terapêutico no Brasil, nos revela o quanto de falta de conhecimento ainda existe sobre o sujeito e sua singularidade: traumas e desejos.

Assim como nos permite a compreender por que existe resistência em inseri-la ao SUS (Sistema Único de Saúde).

Quando olhamos a frase solta que a psicanálise “não pretende primeiramente ampliar a qualidade de vida”, pode causar um certo estranhamento.

Contudo, a clínica não tem como objetivo silenciar o sintoma, recalcando-o para que o sujeito volte simplesmente ser “produtivo” e atender o sistema que é capitalista, mas sim permitir que o mesmo se depare com a verdade do seu desejo.

Enquanto a qualidade de vida no sistema capitalista onde o sujeito está inserido, significa apenas funcionalidade; já para a psicanálise trata-se da autonomia ética do sujeito sobre a sua própria dor.

A Singularidade do Sujeito

A tecnologia chegou para agregar na sociedade contemporânea, criando padrões para uma série de processos, não se restringindo apenas à produção industrial.

Agora para compreender por que não podemos aplicar um “procedimento padrão ou uma metodologia formatada, ou seja, encaixotada” a um paciente, precisamos olhar, entender como o sujeito é construído.

Na primeira tópica, conhecida também como modelo topográfico, Freud utilizou a metáfora do iceberg para ilustrar a construção do sujeito e seu aparelho psíquico.

Ele nos traz que o “Consciente” é a parte visível, a qual representa uma pequena parte de quem somos.

A linha que tangencia o nível d’água, ele chamou de “Pré-consciente”, nele é guardado o material acessível.

Já o “Inconsciente” que se encontra na parte submersa, a qual ocupa mais de 70% do iceberg, está o Id, todo material recalcado e as marcas traumáticas.

Tentativa de Padronização

O psicanalista segundo Freud deve atuar como um arqueólogo, explorando cada camada do seu objeto de trabalho, aqui no caso o sujeito do inconsciente.

Segundo Freud, não se cura um inconsciente com um manual de instrução, com um processo formatado como uma linha de produção.

Se cura escavando, através da associação livre, camada por camada de experiências que foram depositadas sobre aquela “tela em branco” que é o sujeito ao nascer.

As experiências vividas pelo sujeito são como cores e texturas depositadas nessa tela representando as diferentes cicatrizes deixadas.

Aqui podemos observar a singularidade do sujeito, logo como podemos utilizar a mesma régua para medir profundidades tão distintas?

A Contribuição de Winnicott

Freud nos deu a estrutura da psicanálise e Donald Winnicott, psicanalista pós-freudiano, nos traz a compreensão do ambiente.

Ou seja, o impacto do ambiente na constituição do sujeito.

Para Winnicott o desenvolvimento saudável do sujeito estava diretamente relacionado ao ambiente, onde nenhuma métrica corporativa consegue captar sua essência.

Winnicott nos traz a importância e os conceitos de:

Holding: Suporte físico e emocional que sustenta o ego do sujeito em formação.

Handling: Processo de manuseio adequado do sujeito que permite a integração do corpo e da mente em formação.

Mãe Suficientemente Boa: Não se trata da mãe perfeita, da perfeição em pessoa, mas sim aquela que, consegue dosar a frustração e o cuidado, a mãe que permite que a criança saia de sua onipotência inicial para a realidade.

Quando queimamos etapas ignorando essas variáveis em nome de “procedimentos padrões”, passamos a tratar o sujeito como um objeto inanimado, ou seja, não tendo vida, ignorando a sua singularidade.

E se o ambiente falha em promover o holding necessário, o sujeito pode vir a desenvolver falso self ou defesas rígidas.

Tratar isso com um protocolo fixo, formatado é repetir o trauma da desumanização do sujeito.

O Risco da Escala de Satisfação na Clínica

A sociedade em que vivemos é capitalista e este sistema induz a trabalhar com indicadores para mensurar a eficácia de praticamente tudo.

Mas como medir a eficácia de uma análise?

Iremos gerar um indicador com escala de satisfação do atendimento?

“O quanto você se sente satisfeito com sua angústia ou neurose de hoje, de 1 a 5, sendo 1 menor nota e 5 maiores satisfações? ”

A eficácia da psicanálise não se dá pela velocidade da remissão do sintoma, mas sim, pela transformação da relação do sujeito com o seu inconsciente.

O sucesso de um processo terapêutico pode, muitas vezes, envolver um período de maior inquietação e isso se deve à singularidade do sujeito, pois é necessário desestabilizar as defesas para que algo de novo surja.

Quando levamos para o sistema métrico, isso se caracteriza como fracasso,

Já para a clínica da alma, é apenas o processo.

A Ética da Escuta

O grande desafio de todos os espaços de formação é manter viva a chama da escuta singular.

É necessário ficar claro para os analistas e futuros analistas que não somos técnicos de manutenção psíquica.

E sim guardiões da subjetividade.

Padronizar a saúde mental é o mesmo que castrar a singularidade do sujeito, impedindo-o de falar, violentando-o, interrompendo o fluxo de produção.

Desde sua criação por Sigmund Freud a psicanálise resiste e continuará resistindo.

Enquanto houver um sujeito sofrendo, haverá algo que não cabe em um indicador, algo que foge da formatação do capitalismo.

Onde tudo é medido, o qual só pode ser compreendido no silêncio acolhedor do setting analítico.

Precisa ficar claro que o ser humano é uma obra inacabada e singular.

Nenhuma caixa, por mais tecnológica que seja, será o suficiente para conter a complexidade do desejo de desejar.

Este artigo foi desenvolvido pelo aluno Cirlei Felipe exclusivamente para o Blog Psicanálise Clínica.

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