Artigo sobre Sofrimento Psíquico: Contribuição da psicanálise

Sofrimento Psíquico: Contribuição da psicanálise

Publicado em Publicado em Psicanálise

Para compreender a importância da psicanálise no sofrimento psíquico, é preciso, antes de tudo, subverter a lógica médica tradicional sobre o que significa estar “doente”.

No modelo biomédico, o sintoma é um sinal de disfunção que deve ser eliminado o mais rápido possível.

No entanto, para a psicanálise, o sintoma é uma formação de compromisso.

Ou seja, é como uma mensagem.

Freud, ao ouvir suas primeiras pacientes histéricas, percebeu que as dores no corpo ou as paralisias sem causa orgânica não eram “fingimento”, mas sim uma forma de linguagem.

O Sintoma Silencioso

O sintoma aparece quando algo da ordem do desejo ou do trauma não pode ser dito em palavras.

Em “Inibições, Sintomas e Ansiedade (1925 – 1926), Freud apresenta o sintoma como:

“ O sintoma é uma solução de compromisso: o desejo tenta aparecer, o eu tenta recalcá-lo e o resultado é uma terceira coisa (o sintoma) que satisfaz parcialmente a ambos”.

Desse modo, segundo Freud, quando o analista tenta ajudar o ego em sua luta contra o sintoma.

Verifica-se que esses laços conciliatórios entre o ego e o sintoma atuam do lado da resistência e que não são fáceis de afrouxar.

Ou seja, as duas linhas de comportamentos que o ego adota em relação ao sintoma estão, de fato, diretamente opostas uma à outra, pois a outra é de natureza menos amistosa, visto que continua na direção da repressão.

Como o conteúdo é doloroso ou proibido para a consciência, ele sofre o que Freud chamou de recalque.

A Elaboração no Sofrimento Psíquico

No entanto, o que é recalcado não desaparece, ele retorna de forma disfarçada sob a forma de ansiedade, fobias, obsessões ou dores psicossomáticas.

Portanto, para a psicanálise, o sintoma é um “grito” do inconsciente que pede para ser decifrado.

Ouvir o sintoma é mais saudável a longo prazo do que abafar esse sintoma com remédios, embora o medicamento possa ser necessário em casos de crise aguda.

No entanto, a “cura” na psicanálise é entendida como o momento em que o sujeito consegue lidar com sua falta sem ser paralisado por ela.

QUERO INFORMAÇÕES PARA ME INSCREVER NA FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE

Erro: Formulário de contato não encontrado.


A saúde mental, sob a ótica psicanalítica, está diretamente ligada à capacidade do sujeito de elaborar seus conflitos em vez de apenas repeti-los.

Quando uma pessoa ignora sua história e seus traumas, ela tende a “atuar” repetindo padrões destrutivos em seus relacionamentos, no trabalho e na relação consigo mesma.

O Espaço Seguro

A importância da psicanálise reside justamente em não oferecer uma “borracha” para apagar o sintoma.

Se apagarmos o sintoma sem entender por que ele surgiu, o psiquismo encontrará outra forma (provavelmente mais grave) de se manifestar.

A saúde mental autêntica advém do processo de tornar consciente o que era inconsciente, permitindo que o sujeito tenha mais liberdade de escolha sobre seus atos.

Diferente de um conselheiro ou de um médico que prescreve uma norma de conduta, o psicanalista oferece o que chamamos de escuta flutuante.

Esse dispositivo clínico permite ao paciente que ele fale sem julgamentos morais.

Nesse espaço, a saúde mental é promovida através da transferência.

Importância da Repetição

Um vínculo onde a paciente projeta no analista suas figuras de autoridade e afetos, podendo assim reeditar sua história e dar a ela um novo destino.

É a transição da posição de “vítima do destino” para a de “sujeito do próprio desejo”.

De acordo com Jacques Lacan ( Seminário 11 ) há quatro conceitos fundamentais na psicanálise que são:

Inconsciente, Pulsão, Transferência e Repetição.

E esses conceitos formam os pilares para entender o funcionamento psíquico e a dinâmica do tratamento analítico aprofundando as bases freudianas.

Se na época de Freud o sofrimento psíquico vinha majoritariamente da repressão sexual e moral, hoje o “mal-estar” mudou de face.

Silêncio e Sofrimento Psíquico

Vivemos no que alguns teóricos chamam de “sociedade do cansaço” ou “sociedade da performance”.

A psicanálise se torna uma ferramenta de resistência e saúde mental em um mundo hiper conectado.

Ao entrar em análise, o sujeito faz uma pausa na correria produtiva para ouvir o próprio silêncio e suas hesitações.

Esse “tempo de parar” é terapêutico por si só, pois interrompe o ciclo de ansiedade gerado pela necessidade de estar sempre “on-line” e disponível para as demandas externas.

Aqui há a necessidade de mencionar sobre os tipos de resistências que falava o Freud no seu livro “Inibições, Sintomas e Ansiedade (1925- 1926).

Ele falava que existia 5 tipos de resistências que emanam do ego, id e superego e que o analista tem de combatê-las.

E entre todas existe uma que é a mais difícil que se origina do sentimento de culpa, ou seja, da necessidade de punição opondo-se a todo movimento no sentido de êxito, inclusive a recuperação do próprio paciente pela análise.

Era da Performance

Com o advento das redes sociais, as relações tornaram-se muitas vezes “imaginárias” (focadas na imagem e na aprovação do outro).

O sujeito moderno sofre de uma solidão acompanhada, onde o “Curtir” substitui o olhar e a escuta verdadeira.

A psicanálise resgata a importância do vínculo.

No encontro entre analista e analisante, estabelece-se uma relação de alteridade real, onde o sujeito é visto além da sua “máscara social” (o seu perfil no Instagram).

Essa validação da subjetividade é o que previne o isolamento psíquico e fortalece a saúde mental.

O Burnout por exemplo, não é apenas excesso de trabalho, mas o colapso de um “Eu” que se identifica totalmente com a sua função produtiva.

Quando o trabalho falha ou o reconhecimento não vem, o sujeito perde o chão.

O Desempenho

A psicanálise auxilia na saúde mental ao ajudar o indivíduo a separar quem ele é do que ele faz, devolvendo-lhe o desejo de viver para além das metas e das métricas.

Diferente da era vitoriana de Freud, aonde a repressão vinha de fora (a família, a igreja, o Estado), hoje a opressão é interna.

O filósofo Byung-Chul Han, muito lido na psicanálise atual, descreve a “Sociedade do Cansaço”.

O sujeito não é mais um “sujeito de obediência”, mas um “sujeito de desempenho”.

O Superego contemporâneo mudou sua mensagem.

Ele não diz mais apenas, “não faça” ele exige: “faça mais, otimize seu tempo, seja melhor”.

Essa pressão constante para ser a melhor versão de si mesmo é uma fábrica de depressão e ansiedade.

A saúde mental é sacrificada no altar da produtividade.

O Sofrimento Psíquico

A psicanálise intervém aqui como um espaço de descompressão, onde o sujeito pode, finalmente, “não poder”.

Atualmente nas redes sociais, o que importa não é o que o sujeito é, mas o que ele exibe e, assim, a autoestima passa a depender de algoritmos externos.

Quando a imagem postada não recebe a aprovação esperada, o sujeito experimenta um vazio narcísico avassalador.

A saúde mental é corroída pela comparação constante com a vida editada do outro.

A psicanálise ajuda o paciente a sair desse espelho digital e a se reencontrar com sua verdade interior.

Muitas vezes feia, caótica e incompleta, mas que é a única base real para uma vida psíquica saudável.

A Esquiva de Sentir

Um dos maiores ataques à saúde mental hoje é a ideia de que qualquer tristeza é uma doença e qualquer agitação é um transtorno (TDAH, ansiedade generalizada, etc.).

Estamos vivendo a medicalização da existência.

A fala não é apenas um desabafo, é um ato de elaboração.

Quando nomeamos o que sentimos, o sentimento deixa de nos dominar como uma força cega e passa a ser algo com o qual podemos lidar.

Um dos conceitos mais potentes para a saúde mental é a transferência.

Freud descobriu que pacientes projetam no analista sentimentos, expectativas e conflitos que viveu com figuras importantes de seu passado (como pais e cuidadores).

Acolhimento da Falta

A análise funciona como um “espaço seguro” onde o sujeito repete seus padrões relacionais para que possa, enfim, compreendê-los.

Freud afirmava, com honestidade pragmática, que o objetivo da análise era transformar o “sofrimento psíquico/neurótico” em uma “infelicidade comum”.

Ou seja, na capacidade de lidar com os problemas reais da vida sem ser paralisado por fantasias infantis.

Estar mentalmente saudável, para a psicanálise, significa: a capacidade de trabalhar e amar e lidar com a falta.

Ao aceitar que não podemos ter tudo, e que a vida tem furos, mas que é possível viver criativamente apesar disso.

Este artigo foi desenvolvido através do Trabalho de Conclusão de Curso de Formação em Psicanálise Clínica da aluna Maria Neiva Maia.

1 thoughts on “Sofrimento Psíquico: Contribuição da psicanálise

  1. Angela Aparecida dos Santos disse:

    Gostei do artigo!!!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *