Ambivalência: significado em Psicanálise

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Você já ouviu falar da palavra “ambivalência”? Ela não é muito conhecida, mas tem grande valor para a área da Psicanálise. Se formos olhar no dicionário, iremos descobrir que ela é usada para nomear a existência concomitante e conflitante de dois sentimentos com relação a uma pessoa ou coisa. Não entendeu ainda? Então leia nosso artigo que iremos te explicar melhor.

A ambivalência é a ambiguidade em nossos sentimentos. A mescla de amor e ódio que sentimos por um familiar é exemplo de ambivalência. Se este familiar falece, muitas vezes nos sentimos culpados, por termos lhe desejado a morte (ainda que inconscientemente, ainda que figurativamente). Processos como o sentimento de culpa e o luto podem decorrer da ambiguidade.

Como entender a ambivalência

Um jeito mais simples de esclarecer o significado de ambivalência é te fazendo pensar em pessoas que despertam tanto o seu amor quanto o seu ódio. Praticamente todas as pessoas já experimentaram esse conflito de sentimentos. O objeto do seu afeto e desafeto pode ser um colega de trabalho, um namorado ou até um professor.

Interessante é que muitas músicas já foram escritas para tratar sobre a ambivalência. Você já deve ter ouvido “Seven Things da Miley Cyrus. Em boa parte da música, a cantora apresenta coisas que ela odeia em seu namorado, mas termina o refrão afirmando que ela o ama. Assim, quando nós vemos exemplos práticos como esse, percebemos que não é nada difícil entender a ambivalência, não é mesmo?

O que é a ambivalência para a Psicanálise

Como já mencionamos aqui, o conceito de ambivalência tem importância para a área da Psicanálise. Nós iremos te mostrar, neste artigo, que grandes teóricos da área abordaram essa noção em seus estudos. Assim, fique atento ao modo como cada um deles tratou desse assunto

Ambivalência para Freud

Se estamos falando da área da Psicanálise, não podemos ignorar as ideias de Sigmund Freud. Não é de se surpreender que o estudioso também tenha contribuído para o desenvolvimento da noção de ambivalência. Por isso, para entendermos o modo como ele abordou esse conceito, vamos tratar primeiramente da sua noção de tabus.

Por exemplo, quando um membro próximo da família falece, muitas vezes ficamos nos sentindo culpados. Para Freud, o sentimento de culpa é uma manifestação clara da ambivalência entre amor/ódio, um sinal que:

  • em algum momento, ficamos com uma raiva intensa desta pessoa, talvez algo quase como desejar (pelo menos de forma inconsciente) a morte desta pessoa;
  • em contraponto com o carinho que sentíamos por essa pessoa, a ponto de querer também o melhor para ela e ter o convívio dela.

Tabus

No seu livro Totem e Tabu, Freud define os tabus como proibições que, em certo momento da antiguidade, foram impostas por uma autoridade aos homens primitivos. Segundo ele, censurava-se atividades pelas quais essas pessoas tinham forte inclinação, como o incesto. Além disso, é importante mencionar que o psicanalista defendia que a primeira inclinação amorosa de uma criança é incestuosa.

É por essa razão que, de acordo com o psicanalista, existe ambivalência no conceito de tabu. Isso porque ele se trata de uma proibição daquilo que é desejado. Além disso, Freud também considera o próprio termo “tabu” ambivalente, já que ele combina em si as ideias de “sagrado” e “impuro”, as quais são contraditórias.

Como você pode ver, o conceito de ambivalência não se limita aos sentimentos, já que também se aplica ao campo das ideias. Portanto, o pai da psicanálise também apresentou uma ambivalência humana, que, segundo ele, é constituída por dois instintos básicos:

  • um deles é a pulsão de vida, que está relacionada a busca pela conservação das unidades vitais;
  • o outro é a pulsão de morte tem o objetivo de reconduzir o ser vivo ao estado anorgânico.

Ambivalência para Winnicott

O pediatra e psicanalista Donald Woods Winnicott, por sua vez, definia esse conceito como uma integração de sentimentos amorosos e destrutivos. Para que você entenda melhor o pensamento do psicanalista, é preciso ter em mente que ele entendia a ambivalência como uma aquisição no desenvolvimento emocional de uma criança.

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Ou seja, em linhas gerais, Winnicott defende que uma criança precisa reconhecer, em certa fase do seu desenvolvimento, que a sua mãe é alvo de seus ataques (na fase de excitação) e também do seu afeto. Segundo ele, essa ambivalência precisa ser experimentada e tolerada por esse indivíduo. Assim, quando isso ocorre, pode-se afirmar que a criança teve um crescimento saudável e que está avançando em seu amadurecimento.

O sentimento de culpa como um “ceder ao desejo”

Nesta frase de Lacan, “só se sente culpado quem cedeu ao seu desejo”, temos elementos para pensar com mais profundidade o tema da ambivalência.

  • O que a frase não quer dizer: ceder ao desejo gera sempre culpa.
  • O que a frase quer dizer: toda culpa pode ser vista como uma recriminação ao desejo que foi atendido.

Então, por uma abordagem da lógica, a frase está debatendo que toda culpa vem do desejo, mas nem todo desejo vai gerar culpa.

Ou seja, o desejo seria condição necessária não condição suficiente para um sentimento de culpa. Na frase de Lacan, há a ideia de que uma cessão ao desejo pode em algumas situações desdobrar-se em culpa, nos casos em que o ego passe a considerar que precisaria ter “ouvido mais” o superego.

Por exemplo, uma pessoa pode identificar-se com uma orientação sexual e assumi-la, sem que isso lhe acarrete culpa. Então, eis um exemplo de que nem sempre ceder ao desejo vai resultar em culpa.

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    Por outro lado, uma pessoa pode ceder a um desejo, por exemplo, manifestando sua agressividade contra outra pessoa, ou desejar o mal (ou até mesmo a morte) a outra pessoa, e pode depois sentir-se culpada por isso.

    Podemos pensar que o ego faz a mediação entre atender às satisfações do id e, ao mesmo tempo, observar os ideais e interdições do superego.

    Então, quando o ego está fortalecido e compreende que determinado desejo é coerente com o “eu”, não haveria sentimento de culpa.

    Agora, quando este ego cede a um desejo e, depois, o ego começa a remoer se determinado ato ou pensamento foi moralmente certo ou errado, pode estar entrando em cena o papel interditor do superego.

    A ambivalência pode ser vista como as “idas e vindas” do ego ao lidar com determinados desejos. Então, na ambivalência:

    • o ego pode estar atuando como uma balança,
    • verificando se ter atendido ao desejo (ou ao menos ter desejado) foi legítimo pela satisfação que isso lhe traz (ou trouxe)
    • ou ilegítimo, pelos ideias e proibições crivados no superego.

    Em síntese:

    • ausência de culpa = satisfação e desejos do id -> alinhados com o que o ego percebe sobre si e com o superego do sujeito.
    • presença de culpa = satisfação e desejos do id -> desalinhados com o que o ego percebe sobre si e com o superego do sujeito.

    Importante lembrar que a culpa não nasce de um erro ou pecado universalmente aceitos, mas sim da forma como o “eu” entende ser “certo” ou “errado” determinada orientação ou conduta.

    Culpar-se pelos desejos a que (não) cedeu

    O conceito de ambivalência nos serve para mostrar que ego, id e superego não são estanques (imóveis). E que é parte do humano reavaliar-se continuamente por meio de autocríticas, sendo que estas reavaliações podem lidar com sentimentos ambivalentes, ambíguos. Por exemplo, desejar o mal para alguém é um desejo que precisa ser compreendido e analisado (inclusive em terapia). Há uma determinada satisfação nisso, como o há em todo desejo.

    Agora, não significa que este desejo deverá ser realizado no mundo material, embora, mentalmente, de certa forma o desejo tenha se realizado.  Em terapia, o procedimento seria não pensar “eu nunca deveria desejar o mal a alguém”, mas sim “o que está me levando a desejar o mal a alguém?“.

    E também não significa que algo aceito ou recriminado continuará assim na mente de uma pessoa, já que, pela via da ambivalência, esta percepção pode se modificar ou se tornar mais fluida.

    Interessante também complementarmos nossa análise por um outro aspecto: a possibilidade de um sentimento de culpa por não ter cedido a um desejo.

    Neste caso, é como se o “eu” percebesse (ainda que de maneira fantasiosa, não importa) que poderia ter satisfeito mais seus desejos e cedido menos ao superego.

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    Então, apesar de ser menos palpável (por ser algo que não aconteceu), é plenamente possível pensarmos também no arrependimento em alguns casos por não ter cedido aos desejos:

    • ausência de culpa = não escutar o superego -> alinhar-se com o que o ego percebe sobre si e ceder ao desejo.
    • presença de culpa = escutar apenas o superego -> desalinhado com o que o ego percebe sobre si e sem ceder ao desejo.

    Observamos, assim, que tanto o superego quanto o id podem tentar “reescrever” uma decisão do ego, no sentido de responsabilizar o ego pelos excessos e pelas faltas.

    Pobre ego, servindo a dois senhores! Não é de nos surpreender que por vezes o ego se veja em situação ambivalente, no meio deste antagonismo.

    Abordagens diferentes sobre ambivalência

    Buscamos apresentar neste artigo o que a Psicanálise tem a dizer sobre o conceito de ambivalência. Primeiramente, nós mostramos a definição encontrada nos dicionários. Como você pôde perceber, o conceito foi relacionado pelos psicanalistas a questões muito mais complexas.

    No caso de Freud, a ambivalência está presente nas proibições impostas por autoridades das sociedades primitivas e na própria noção de tabu. Já no caso de Winnicott, o conceito está relacionado ao processo de desenvolvimento de uma criança. Assim, você pode perceber que são duas abordagens totalmente diferentes dentro da mesma área.

    Isso porque a Psicanálise é um ramo do conhecimento muito rico. Muitos estudiosos contribuíram com as suas pesquisas para a construção do entendimento atual da mente humana e do comportamento das pessoas. Tendo isso em vista, nós te convidamos a conhecer essa área de forma mais intensa e completa.

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    Considerações finais

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    4 thoughts on “Ambivalência: significado em Psicanálise

    1. Sou atraído pelo tema, relativamente para aperfeiçoamento de uma “temática que desenvolvo”:
      O momento real em que um alcoólico efetivamente “entra em recuperção”.

    2. Muito proveitoso este artigo, pela articulação que fez entre as instâncias psíquicas, e entre estas e aspecto da moralidade e da cultura.
      Muito obrigado!

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