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Anamnese em Psicanálise: o que é, como fazer?

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A anamnese é o nome dado à compreensão inicial de um quadro clínico de um paciente, a partir de informações normalmente obtidas por perguntas do terapeuta para o paciente.

Normalmente, confunde-se anamnese com:

  • um formulário que o paciente preenche (e depois o analista completa) ou
  • um formulário ou folha de anotações que o próprio terapeuta preenche a partir de perguntas feitas ao paciente.

A Anamnese é muito usada na área de saúde e de desenvolvimento pessoal (nutricionista, médico, dentista, psicólogo, psicanalista etc.).

Anamnese e Entrevistas Preliminares são a mesma coisa?

Não. Anamnese e Entrevistas preliminares são coisas diferentes.

A anamnese pode ser um meio para conduzir e registrar aspectos importantes das entrevistas preliminares. Mas, em psicanálise, as entrevistas preliminares vão muito além da anamnese.

Recomendamos que você leia este outro artigo sobre as entrevistas preliminares e o início de tratamento em Psicanálise. O conteúdo do presente artigo sobre anamnese complementa o do artigo sobre o início de tratamento em psicanálise.

Não há impedimento que o psicanalista faça anamnese e registre apontamentos das sessões. Na verdade, a anamnese entendida de uma forma ampla está sempre sendo feita pelo analista, mesmo que ele não faça nenhuma anotação.

Quase sempre em psicanálise estas anotações iniciais ao paciente ou analisando (quando o psicanalista opte por fazê-las) não devem ser apenas de perguntas “demográficas”.

Chamamos de perguntas demográficas aquelas como: nome, sexo, idade, profissão, área de formação, estado civil, cidade de nascimento etc.

As perguntas certas a fazer

Sabemos que, em Psicanálise, mais importante que as perguntas demográficas são aquelas reflexões que tragam aspectos da essência do sujeito analisando. Questões como: quais as dores psíquicas, quais os desejos, quais as demandas, quais as representações e palavras reiteradas, qual a imagem que o analisando faz de si e dos outros, quais outras terapias o analisando já fez, qual sua visão sobre terapia, quais os tipos de vínculos afetivos o analisando mantém com outras pessoas, quem são essas pessoas etc.

Muitas dessas informações não vêm apenas a partir de perguntas do analista, mas vêm principalmente da interação da associação livre, depois de várias sessões de análise. As perguntas podem ser usadas o tempo todo pelo analista, como mecanismo que favoreça a livre-associação.

Cuidado para seu analisando não achar que suas perguntas são robotizadas. Não o deixe pensar que ele esteja respondendo a uma pesquisa do Censo do IGBE ou a um interrogatório policial.

Evite aplicar questionário diretivo no início do tratamento ou no início de uma sessão, pois o ideal é que o nosso analisando desde o inicio faça associações livres.

Os limites que as respostas trazem

Na verdade, perguntas de qualquer tipo (demográficas ou de essência) são respondidas pelo lado consciente da mente do analisando. Por exemplo, se o psicanalista perguntar ao analisando “o que você mais deseja?”, o analisando pode responder: “sair do meu emprego e mudar de área profissional”.

Porém, ainda que isso tenha aparência de ser essencial, esta resposta poderá estar apenas na superfície do iceberg. Serão necessárias muitas outras sessões de análise para que se forme um sistema que possa revelar outras questões e outros desejos do analisando, que podem ir muito além do “mudar de área profissional”.

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    E este sistema não emanará somente a partir de perguntas e muito menos somente a partir de um questionário anamnético. Serão necessárias idas e vindas da atenção flutuante e do diálogo baseado na livre associação até que analista e analisando possam minimamente compreender qual seria a essência que se figura como aquela que traga mais realização e menos dilemas conflitos à psique do analisando.

    Leia Também:  Processo de Autoconhecimento: da filosofia à psicanálise

    Podemos utilizar a Anamnese em Psicanálise?

    Podemos. Mas tome cuidado para não bombardear seu analisando com perguntas nas sessões iniciais. Deixe seu analisando falar.

    O analista pode usar a anamnese, mas de uma forma diferente do que outras áreas da saúde o fazem. No momento do atendimento clínico (isto é, durante a sessão psicanalítica), o recomendável é o psicanalista manter o que convencionou chamar de atenção flutuante.

    O analista e o analisando devem estar livres para fisgar ideias (e trazê-las para o diálogo terapêutico) que possam ter relevância, ainda que inicialmente possam parecer ideias supérfluas ou falhas. Por isso, não se recomenda que o analista anote coisas durante a sessão.

    Podemos, sim, preencher uma anamnese do nosso analisando, ou como o analista queira chamar este registro ou anotação. Mas isso não se esgota na sessão inicial de atendimento. As anotações podem ser feitas na medida em que as informações sigam aparecendo, sessão após sessão.

    O que anotar e quando anotar?

    Mas, o quê anotar e quando anotar nas sessões de psicanálise?

    • Quando: ao término de cada sessão, após o analisando já ter se despedido. É recomendado que o analista reserve pelo menos cinco minutos ao fim da sessão (logo após o analisando ir embora) para anotar os pontos mais importantes. Fazer isso neste momento é recomendado, porque as memórias do que foi livre-associado ainda estarão frescas.
    • O quê: é possível anotar a data da sessão e fazer registros de frases/palavras significantes ou pontos-chave que mereçam destaques, para orientar o analista em futuras abordagens. Se houver relação, vínculo ou oposição a ideias de sessões anteriores que o analista tenha percebido na sessão mais recente, é importante também já anotar.
    • Alguns pontos mais importantes a anotar: desejos, medos, possíveis resistências ou mecanismos de defesa, transferências, percepções de “melhora”/”piora” do analisando, aspectos da autoimagem do analisando em relação a si mesmo, à terapia e à relação do analisando com outras pessoas da família e/ou trabalho.

    É importante também que o analista perceba questões sobre si próprio, isto é, sobre o próprio analista, como suas limitações, “vícios de olhar” e contratransferências. Isso poderá dar insights ao analista sobre:

    • novas abordagens ou “temas” que o analista poderá adotar com o analisando,
    • novos estudos teóricos que o analista precise fazer (já que é parte do tripé psicanalítico seguir estudando),
    • novos pontos a debater na sua própria sessão de terapia, isto é, na terapia em que o analista seja analisando de outro profissional (já que é parte do tripé psicanalítico o analista também ser analisando);
    • novos pontos para sua supervisão, isto é, em que o analista debata seus casos atendidos junto a outro psicanalista mais experiente (já que é parte do tripé psicanalítico ter seus casos supervisionados).

    Freud nos ensina que o processo da associação livre deve estar presente desde as entrevistas preliminares.

    O nosso analisando já deve livre-associar. Desde o começo, o tratamento de ensaio (“de teste”) já está em progresso, tanto para o analista entender como dar continuidade em suas abordagens, quanto para o analisando compreender a dinâmica da clínica psicanalítica.

    A ânsia do analista de fazer anotações durante a sessão pode pôr a perder algo de significativo na qualidade da escuta que se oferece. Pode gerar um ruído na interação com o analisando, em vez de um fator agregador da interação.

    A maneira correta de usar anamnese em Psicanálise

    Você é psicanalista e quer um modelo de ficha de anamnese? O que temos para lhe dizer é:

    • Você encontra estas fichas na internet, você pode adaptar modelos usados em psicologia, psicanálise etc.
    • Você pode criar o seu próprio formulário de anamnese, basta colocar no papel as informações que você espera obter.
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    Porém, o que parece funcionar melhor é uma folha sulfite em branco, sem campos pré-determinados. Nesta folha, você preenche só preenche a data da sessão e um resumo com algumas palavras sobre aquilo que for:

    • relevante como conhecimento alcançado na sessão e/ou
    • servir como insight para abordagens em sessões seguintes.

    Nada pré-formatado. Tudo livre e flutuante como é o método que rege as próprias sessões. E, ao concluir as anotações da sessão na folha, você só faz um traço (ou “risco”) para, abaixo do traço, anotar insights da sessão seguinte.

    Sigmund Freud, no texto Sobre o início do tratamento (1913), afirma sobre a importância das entrevistas preliminares, chamada por Freud também de tratamento de ensaio:

    Não temos à disposição outro tipo de avaliação além desse ensaio; nem mesmo longas conversas e perguntas aos pacientes durante a sessão seriam um substituto para tanto. Mas esse ensaio prévio já é o início da Psicanálise e deverá seguir as suas regras.

    Em geral, o material com que começamos o tratamento é indiferente, seja ele a história de vida, seja a história da doença ou lembranças da infância do paciente. Mas, em todo caso, deixamos a cargo dele a escolha do ponto inicial. Dizemos a ele, portanto: “antes que eu possa lhe dizer algo, preciso ter muitas informações a seu respeito; por favor, me informe o que sabe sobre si próprio”.

    Fazemos uma exceção apenas para a regra fundamental da técnica psicanalítica a ser observada pelo paciente. Apresentamos a ele esta regra desde o início: “Mais um detalhe, antes de começar. A sua narrativa deve diferenciar-se em um ponto de uma conversa comum. (…) Comporte-se, por exemplo, como um viajante sentado à janela do trem que descreve para quem está dela mais afastado, do lado de dentro, como a paisagem vai mudando diante dos seus olhos. E, por fim, nunca se esqueça de que você prometeu sinceridade plena, e nunca passe por cima de algum fato só porque por algum motivo essa informação lhe é desagradável. (Sigmund Freud – Sobre o início do tratamento 1913)

    Em síntese:

    • Podemos manter uma anamnese dos nossos analisandos.
    • Mas não na forma de interrogatório que se esgote nas sessões iniciais, nem na forma registros escritos durante a sessão que quebrem o foco na livre associação.
    • O psicanalista deve saber que perguntas pré-formatadas e despejadas de uma vez na forma de ficha de anamnese tendem a alcançar respostas semi-prontas e conscientes do analisando.
    • O psicanalista deve desconfiar das respostas do analisando e perguntar/elaborar por diversos ângulos, para evitar as respostas prontas do consciente, em que o analisando pode estar firmando uma autoimagem (ou uma imagem perante a imagem que o analista faz dele) que vira uma redoma ao trabalho profundo de autoconhecimento a que a psicanálise se propõe.
    • O melhor é, durante as sessões, focar na atenção flutuante, enquanto nosso analisando livre-associa, sem fazer anotações enquanto o analisando fala.
    • E ir preenchendo insights aos poucos ao final de cada sessão (marcando a data e as principais ideias, em uma folha em branco), sem prejudicar a livre associação durante as sessões.

    Este artigo sobre Anamnese em Psicanálise foi escrito por Paulo Vieira, gestor de conteúdos do Curso Psicanálise Clínica, a partir de apontamentos do professor e psicanalista Pedro Sá.

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