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Método da Associação Livre em Psicanálise

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O método da associação livre é uma técnica psicanalítica que foi criada e difundida por Sigmund Freud. Para Freud, seria a técnica psicanalítica por excelência, a técnica que o psicanalista mais usaria em clínica. Com a associação livre em psicanálise, aumentariam as chances de acessar o inconsciente do paciente na terapia clínica.

 

A associação livre para substituir a hipnose

O próprio Freud, em seus estudos e experiências de análise, achava que a hipnose era algo inútil, pois não servia para todos os pacientes, uma vez que alguns não eram hipnotizáveis, e mesmo que fossem as neuroses ainda voltavam.

Sendo assim criou a técnica da associação livre permitindo que o analisando pudesse atingir com maior facilidade os elementos responsáveis pela liberação dos afetos, das lembranças e das representações.

 

O conceito de associação livre em Psicanálise

Na primeira sessão de psicanálise, o analista apresenta uma regra ao analisando, que deverá guiar o processo terapêutico, como Freud anunciava aos seus próprios pacientes: “Diga, pois, tudo que lhe passa pela mente. Comporte-se como faria, por exemplo, um passageiro sentado no trem ao lado da janela que descreve para seu vizinho de passeio como cambia a paisagem em sua vista. Por último, nunca se esqueça que prometeu sinceridade absoluta, e nunca omita algo alegando que, por algum motivo, você ache desagradável comunicá-lo” (Freud, “Sobre o Início do Tratamento”, 1913, p.136).

Deve o analisando relaxar e falar de modo livre, sem censuras e obstáculos, tudo o que lhe ocorre na mente.

Escutar o analisando importa porque Freud considerava que

  • a simples mecânica do falar já era parte do alívio da tensão psíquica; e,
  • em termos de conteúdo, aquilo que está associado conscientemente dá indícios do que está oculto, ao que o “desejo” manifesta no inconsciente.

Essas representações se apresentam para o analista e cabe a ele interpretá-las e propô-las ao analisando, apontando que um conteúdo manifesto (o que o analisando falou) tem na base um conteúdo latente (os desejos e sinais não ditos que o analista interpretou).

Ideias inicialmente desconexas vão ganhando linearidade no seu discurso, com a intervenção do analista, como se fisgasse algo incoerente e mostrasse que, na verdade, tem importância na causa do mal-estar e tem conexão com a forma de ser, pensar e agir do analisando.

Aquilo que é trazido superficialmente pelo analisando seria, na verdade, um “deslocamento” de um conteúdo inconsciente. O analista entende no que é falado um disfarce ou substituto do que é realmente patogênico.

“Quando peço a um paciente que disponha toda reflexão e me conte tudo o que lhe passa pela cabeça, (…) me considero fundamentado para inferir que isso que ele me conta, de aparência mais inofensiva e arbitrária que seja, tem relação com seu estado patológico”. (Freud, “A interpretação dos sonhos”, 1900, p.525).

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A paciente que fez Freud se deslocar de mestre a ouvinte

Enquanto o caso de Anna O. representa a fase freudiana da sugestão hipótica e catártica, o tratamento do caso de Elisabeth Von R. representaria um marco para a associação livre, quando esta paciente solicitou a Freud que a deixasse falar livremente, sem pressioná-la a buscar uma lembrança específica.

E assim se estabeleceu uma relação analista-paciente. Posição que não existia com o uso da hipnose, pois a investigação psicanalítica era norteada apenas pelas indagações do analista e, através da sugestão hipnótica, o paciente era ordenado que ao acordar o sintoma desaparecesse.

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    Sendo assim, durante suas análises, Freud passou a recomendar a seus pacientes a dizerem tudo o que lhes viesse à mente.

     

    A interpretação dos sonhos é uma forma de associação livre

    Em “A Interpretação dos Sonhos” Freud reconhece que muitos sonhos desafiavam a compreensão simples e eram desprovidos de sentido lógico, mas tinham sua própria lógica.

    Da mesma forma que, quando acordados, a associação livre é uma maneira de driblar as defesas do ego e acessar o inconsciente, quando estamos dormindo os sonhos reportam medos e desejos inconscientes. O sonho o faz de uma maneira figurada, não literal.

    Nas palavras de Freud:

    “Sempre que nos mostram dois elementos muito próximos, isso garante que existe alguma ligação especialmente estreita entre o que corresponde a eles nos pensamentos do sonho. Da mesma forma, em nosso sistema de escrita, “ab”, significa que as duas letras devem ser pronunciadas numa única sílaba. Quando se deixa uma lacuna entre o “a” e o “b” isso significa que o “a” é a última letra de uma palavra e o “b”, a primeira da seguinte. Do mesmo modo, as colocações nos sonhos não consistem em partes fortuitas e desconexas do material onírico, mas em partes que são mais ou menos estreitamente ligadas também nos pensamentos do sonho (p. 340). ”

     

    Técnica ou Método de Associação Livre de Palavras

    A associação livre em psicanálise implica reduzir o rigor pela lógica. Qualquer ideia (qualquer uma mesmo!) pode e deve vir à tona, por mais absurda e inapropriada que seja.

    Se você alguma vez já fez um brainstorm em grupos de estudos ou trabalho, já tem uma ideia do é a associação livre. A diferença é que, em terapia psicanalítica, estão presentes apenas o terapeuta e o analisado / paciente.

     

    Associação livre e atenção flutuante

    Nossa atenção é flutuante. Temos dificuldades de manter a atenção por muito tempo em um único objeto ou referente.

    Agora, por que nossa atenção dispersa?

    Para Freud, a dispersão se dá em direção ao desejo. Se uma tarefa é chata, dispersar é uma forma do inconsciente buscar a fuga desta tarefa. Observe que aquilo que nos dá prazer normalmente é o que melhor prende o nosso foco.

    Se a atenção está em um objeto A e, de repente, mudamos de assunto para o objeto B, o psicanalista vai notar isso e perguntar ao paciente por que ele teve tal mudança de assunto. Vai perguntar se B interessa mais que A, ou qual a relação entre A e B.

    Nas artes, a associação livre de ideias também foi um mecanismo muito produtivo. Poetas e pintores dadaístas, surrealistas ou nonsense, por exemplo, trabalham com a justaposição de ideias, sem obrigar a explicação dessa junção de símbolos. Neste sentido, obras como a do pintor surrealista Salvador Dalí.

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    Qualquer fluxo de pensamento é livre associação?

    Podemos chamar de associação livre qualquer forma de pensamento livre, de fluxo de pensamento ou de atenção flutuante? Mesmo não havendo o contato entre analista e paciente?

    A nosso ver, não. Não é todo fluxo de pensamento que pode ser chamado de associação livre.

    O cérebro humano trabalha na forma de “fluxo de pensamento”, em que aspectos aparentemente aleatórios podem aparecer. Isso pode acontecer em menor grau, em pessoas ditas “saudáveis”, ou em maior grau, em pessoas com algum tipo de transtorno.

    As artes fizeram uso da técnica de fluxo de pensamento. Dois grandes escritores que utilizaram deste recurso foram os britânicos James Joyce e Virginia Woolf.

    Entretanto, a denominação “Associação Livre”, em psicanálise, se aplica como método terapêutico, isto é, com o analista em terapia com o paciente, não para qualquer manifestação do fluxo de pensamento.

    Freud foi astuto ao perceber que:

    • o fluxo de pensamento é a dinâmica por natureza do cérebro;
    • quando nosso racional (consciente) tenta reduzir seu controle, este fluxo tende a aparecer mais;
    • este método, quase como o que modernamente se chama de brainstorm, pode revelar aspectos do inconsciente;
    • uma vez revelados no âmbito terapêutico, as partes desconexas podem ser remontadas pelo analista e paciente;
    • a partir desta remontagem, oferece-se uma nova significação, que, fazendo sentido ao paciente, propicia uma espécie de “cura pela palavra”, no dizer de Freud.

     

    Teste de associação livre de palavras

    Este teste é muito usado em entrevistas de recursos humanos (RH) e em outras situações de testes psicológicos e comportamentais. O entrevistador diz uma palavra e o entrevistado tem de responder com outra.

    Normalmente, os critérios avaliados são coisas do tipo: rapidez da resposta e criatividade ou não obviedade da resposta.

    Por exemplo: Se o entrevistador diz “verde” e o entrevistado responde:

    • cor“: a resposta foi literal demais, o entrevistado perdeu pontos.
    • amarelo“: a resposta é um complemento das cores da bandeira, é uma resposta de baixa criatividade, mas já demonstra uma fuga do óbvio e uma busca por complementariedade de ideias.
    • Amazônia“: a resposta foi mais criativa, por sua relação metonímica (na Amazônia há muito verde). O candidato ganha pontos no teste de associação livre de palavras.

     

    A ordem com que o paciente descreve seus pensamentos é reveladora

    Freud concluiu que, assim como nos sonhos, a ordem em que o paciente diz o que está em sua mente pode revelar sua própria lógica escondida.

    As associações dessa lógica peculiar seriam responsáveis por revelar os desejos, as ansiedades, a memória e os conflitos psíquicos do paciente.

     

    O psicanalista desvendando os materiais do consciente

    Tal método consiste em o analista escutar serenamente à uma chuva de ideias e pensamentos. Com sua experiência, o psicanalista possui uma ideia geral do que se esperar, podendo fazer uso do material trazido à luz pelo paciente de acordo com duas possibilidades.

    Existindo uma resistência aos fatos narrados, sendo a mesma leve, o psicanalista será capaz, pelas alusões do paciente, de inferir o próprio material inconsciente.

    Se a resistência for forte, ele será capaz de reconhecer seu caráter a partir das associações, quando parecerem tornar-se mais distantes do tópico abordado, e o analista explicará ao paciente.

     

    A descoberta da resistência constitui o primeiro passo no sentido de superá-la

    A associação livre oferece várias vantagens: expõe o paciente à menor dose possível de fuga de seus pensamentos, jamais permitindo que ele perca contato com a situação corrente real; e garante que nenhum fator da estrutura da neurose seja desprezado e que nada seja introduzido pelas expectativas do analista.

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    Deixa-se ao paciente que determine o curso da análise e o arranjo da narrativa; qualquer manuseio sistemático de sintomas ou complexos específicos torna-se desse modo impossível. Seria a montagem de um grande quebra-cabeça, no qual sempre faltará uma peça.

     

    Dando voz aos pacientes com a terapia de associação livre

    Em completo contraste com o que acontecia com o uso da hipnose, Freud subverteu o posicionamento analista-paciente, e passou a dar voz aos que antes somente respondiam a perguntas.

    Fez com que a potência da palavra viabilizasse a cura, e proporcionou ao paciente sair de um ponto de sua narrativa, sem ter que se preocupar em qual ponto essa fala chegaria. Não sendo assim a técnica de associação livre uma narrativa intencional.

    Através da fala, é dada ao paciente a oportunidade de se conectar com ideias recalcadas que produzem as dificuldades atuais. Assim, ele passa a ter uma nova compreensão desta memória.

     

    Ter consciência dos pensamentos é o caminho para a cura

    O paciente passa a ter consciência de seus pensamentos fazendo com que os sintomas deixem de existir.

    Supõe-se que, na medida em que o paciente mantém ideias recalcadas de eventos ligados ao passado, este passado torna-se presente, uma vez que é constantemente atualizado através dos sintomas. Quando a reação é reprimida, o afeto permanece ligado à lembrança e produz o sintoma.

     

    Conclusão

    Freud nos ensinou a escutarmos o paciente com o nosso inconsciente e, por isso, não devemos nos preocupar em memorizar o que ele diz.

    O script, que antes era usado como que em um interrogatório, passa a não ser mais necessário. O acaso passa a ser bem-vindo à terapia, pois revelaria fatos do inconsciente. A hipnose e a sugestão também passam a ser acessórios dispensáveis. No lugar da hipnose, Freud passou a se interessar por novos recursos, como:

    O analista, da mesma forma que o paciente, utiliza-se da associação livre como se naquele momento abrisse mão de seu pensamento consciente.

    A escuta, assim como a fala, assume um lugar central na psicanálise. Assim como a fala se baseia na associação livre, a escuta do psicanalista também precisa estar atenta para realizar conexões não óbvias. Essas conexões podem trazer insights para o paciente compreender a sua condição.

    Texto criado pela Equipe do Curso de Formação em Psicanálise Clínica, em colaboração com a aluna Ana Luisa Lucas.

     

    7 thoughts on “Método da Associação Livre em Psicanálise

    1. Uma dúvida de principiante: quando uma pessoa com problemas mentais fala coisas aparentemente desconexas, isso é a associação livre apesar dela não ter noção do que está falando como uma pessoa dita ‘normal’?

      1. Olá, Marcelo. O cérebro trabalha na forma de “fluxo de pensamento”, em que aspectos aparentemente aleatórios podem aparecer, em maior ou menor grau. Porém, o nome “Associação Livre”, em psicanálise, se aplica como método terapêutico, isto é, com o analista em terapia com o paciente, não para qualquer manifestação do fluxo de pensamento. Att., Equipe Psicanálise Clínica

    2. Ótima narrativa, simples e entendível. Em muitos dos casos, a linguagem técnica dos estudos sobre Psicanalise dificulta muito sua absolvição. Texto como este, deveriam ser incentivados pelos organizadores. Evidente que uma colocação simplória poderá tirar a profundidade do que se apresenta, contudo, isso não significa que se deve extremar. Parabéns ao autor por essa brilhante exposição. Sou aluno do curso de Psicanalise Clinica e estou achando formidável!

    3. Boa Tarde, ,gostaria de saber porque não nós recordamos dos momentos em que somos bebês, exatamente da nascimento até os 5 anos de idade? O que a Psicanálise fala sobre isso?

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