Você conhece o método catártico? Muitas áreas de conhecimento utilizam algum método num sentido de provocar a catarse. Por exemplo, a psicanálise e a medicina moderna. Porém, a diferença está na forma como cada uma usa, e como oferece resultados para seus pacientes. Ficou interessado? Continue acompanhando nosso artigo e descubra como a psicanálise define e usa o método catártico!
O significado de catarse
Na arte clássica e na teoria da arte de Aristóteles, a catarse significa uma grande revelação trazida por uma obra artística, normalmente pelo caminho do pathos (uma paixão ou sentimento forte trazido pela obra de arte).
Segundo Aristóteles, uma peça de teatro tem a capacidade de nos libertar de nossas paixões através da representação do personagem. Reviver os acontecimentos traumáticos, e fazer ligações entre eles, provoca purificações e limpeza na nossa vida psíquica. Essa exteriorização pode acontecer na forma verbal, emocional, e por meio de ações, o que para Aristóteles seria uma catarse.
Assim, a catarse é identificada com a ideia de uma forte descarga de emoção que traz um profundo aprendizado sobre a condição humana, é uma racionalização indireta que parte de uma experiência ou de uma emoção, para depois se revelar como aprendizado.
Para além das artes e da crítica literária, essas ideias seriam aproveitadas em outras áreas do saber, como a psicanálise. Porém, o conceito de catarse é um pouco diferente nas artes em comparação com o contexto da psicanálise, o que veremos a seguir.
Mais de um século depois de sua criação na Psicanálise, continuamos a nos ocupar do método catártico.
Como funciona o método catártico para Freud
O método catártico é considerado, por muitos estudiosos, como uma transição entre a sugestão hipnótica e a associação livre (este último, o método definitivo de Freud).
Outros estudiosos consideram como sendo o mesmo (ou quase o mesmo) método da sugestão hipnótica; nesta visão, entende-se que haveria, na obra freudiana:
- uma fase pré-psicanalítica: antes da Interpretação dos Sonhos, ou antes do método da associação livre;
- e outra psicanalítica (propriamente falando, com o método da associação livre e o abandono, por Freud, dos métodos sugestivos).
O método catártico pode ser visto no caso da paciente retratada no filme “Freud, Além da Alma“, que basicamente retoma o caso de Anna O. abordado na obra “Estudos Sobre a Histeria” (Freud & Breuer, 1895). É também o método usado por Freud no caso Miss Lucy R., relatado na mesma obra.
Como na sugestão hipnótica, no método catártico continua a ideia de que o analista sugestiona o paciente (ou analisando), mas não no sentido de sugestionar que o paciente melhore. Mas sim que o paciente reviva um acontecimento traumático que esteja na base de uma dor psíquica ou dos afetos patogênicos (isto é, as emoções que ligam o paciente aos primeiros momentos que teriam originado seu mal-estar).
Por este método, a forte descarga emocional (catarse) de reviver este acontecimento traumático permitiria a sua superação psíquica.
Uma técnica aplicada no método catártico, com o objetivo de simular o estado hipnótico e expandir a consciência, seria a chamada técnica da pressão: Freud pressionava com os dedos a testa do paciente e solicitava que, de olhos fechados, ele se concentrasse, a fim de recuperar a lembrança aparentemente perdida.
Comparando os métodos freudianos
Segundo Laplanche & Pontalis,
No seu início, o método catártico estava estreitamente ligado à hipnose. Mas o hipnotismo logo deixou de ser utilizado por Freud como processo destinado a provocar diretamente a supressão do sintoma através da sugestão de que o sintoma não existe. Passou a ser utilizado para induzir a rememoração reintroduzindo no campo de consciência experiências subjacentes aos sintomas, mas esquecidas, “recalcadas” pelo sujeito. (Vocabulário de Psicanálise, p. 61)
Tais recordações evocadas ou até mesmo revividas com intensa vivacidade dramática dão oportunidade ao sujeito de se exprimir. Isto é, o sujeito pode descarregar os afetos que estavam inicialmente presos à experiência traumatizante e que estavam reprimidos.
Há que se questionar se as experiências catárticas eram, mesmo, revividas ou se eram criadas em ato presente e fantasia.
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O método catártico não tem o objetivo de curar os sintomas, mas saber o que o paciente tem a dizer sobre as origens desses sintomas. Na psicanálise, esse método ganha força quando Freud recusa o método hipnótico que Josef Breuer usava e retoma esse procedimento com uma nova técnica.
A fase catártica de Freud usava algo que não era propriamente catártico: passou a dar cada vez mais voz aos pacientes, já apontando para o que seria o terceiro e definitivo método freudiano, a associação livre.
Porém, seria equivocado assumir que um novo método implica a superação completa do anterior. O método da associação livre irá também buscar o que se esconde no inconsciente humano, com o intuito de expurgo ou superação, mas agora usando o diálogo terapêutico.
Ou seja, há um ponto em comum de “pôr para fora” e até anular os efeitos patogênicos inconscientes, os quais são emoções recalcadas, impedidas de serem manifestadas.
Em apertada síntese, podemos apontar três grandes métodos da psicanálise usados por Freud:
- Método da Sugestão Hipnótica: o analista conduziria o paciente por sugestões, a fim de rememorar eventos traumáticos. Foi usado por Freud na fase inicial de sua trajetória, junto com Charcot, embora Freud depois defendesse a não necessidade da sugestão hipnótica pelo analista.
- Método Catártico: o papel do analista é despertar as emoções que estariam na base dos sintomas. De certa forma, o analista tem um papel ativo (como na sugestão hipnótica) de conduzir o analisado por uma jornada emocional. Este método combinava a técnica da pressão (que explicaremos abaixo) e foi usado por Freud como decorrência de seu trabalho com Josef Breuer.
- Método da Associação Livre: é o método por excelência de Freud e está relacionado à origem da psicanálise propriamente dita. Trata-se de permitir ao analisado dizer tudo o que lhe vem à cabeça, sem censuras. Na associação livre, cabe ao analista o papel de inter-relacionar os fatos trazidos e debater com o analisado o que isso pode indicar sobre crenças, valores e eventos do inconsciente. Daí decorre a necessidade muitas sessões de terapia (sem influência sugestiva ou hipnótica). O ritmo terapêutico é determinado pelo paciente, numa relação de idas e vindas das resistências, transferências e contratransferências.
As fases de Freud com sugestão hipnótica e método catártico não representam, a nosso ver, diferenças tão sensíveis assim. Talvez as diferenças principais são que, neste contexto,
- Diferença 1: a catarse seria um estado similar mas não dependeria de estar o paciente em completo estado hipnótico.
- Diferença 2: além do fato de que a técnica da pressão é frequentemente correlacionada ao método catártico.
- Semelhanças: O aspecto “sugestivo” como fonte da melhora do paciente está presente tanto na fase da sugestão hipnótica quanto do método catártico.
A nosso ver, a principal distinção que o estudante de psicanálise tenha que fazer é entre este momento inicial de Freud e o momento da psicanálise propriamente dita, que se inaugura com a associação livre.
O método catártico na psicanálise
O método catártico baseia-se na hipnose e na sugestão hipnótica. Foi gradativamente alterado a partir das intervenções diferenciadas da clínica psicanalítica. Até, por fim, resultasse no método de associação livre, em que a sugestão hipnótica e a técnica da pressão deixaram de ter relevância.
Ao desenvolver com Breuer e aplicar o método catártico, Freud depara-se com algumas limitações:
- Freud percebia que nem todos os seus pacientes eram hipnotizáveis ou influenciáveis pela emoção;
- Freud percebia a dificuldade em alcançar uma condição de “cura” efetiva; isso porque o método catártico atuava apenas com os sintomas e não a etiologia da neurose (isto é, não estudava as razões originárias das neuroses).
Após abandonar a hipnose, Freud passa a se usar a técnica da pressão: consistia em pressionar com o seu polegar a testa do paciente e solicitar que, de olhos fechados, se concentrasse, a fim de recuperar a lembrança perdida.
A técnica da pressão simulava o estado hipnótico, o que nesta fase da teorização freudiana era visto como uma
forma de expansão da consciência.
Desta forma, a construção do método psicanalítico perpassa as fases da sugestão hipnótica, do método catártico e, por fim, firmaria na terapia mais gradativa e dialógica da associação livre.
Para resumirmos em um parágrafo essa passagem de Freud da (1) hipnose para o (2) método catártico e, por fim, a (3) associação livre:
Freud renunciou rapidamente à (1) hipnose propriamente dita, substituindo-a pela simples (2) sugestão (auxiliada por um artifício técnico: uma pressão com a mão na testa do paciente), destinada a convencer o doente de que iria reencontrar a recordação patogênica. Por fim, deixou de recorrer à sugestão, fiando-se simplesmente nas (3) associações livres do doente (Laplanche & Pontalis, p.61).
A filosofia e o método catártico
Na Psicologia, o termo está relacionado com a liberdade e a cura de traumas, medos e doenças. O método é usado com o objetivo de fazer com que o paciente se libere dessas perturbações psíquicas.
A Filosofia tem uma perspectiva da psicanálise, por ser também um trabalho de representação que se submete à dúvida e à incerteza num mesmo modo teórico. O efeito catártico já era gerado através das revelações alcançadas pelo dialogar do método socrático ou Maiêutica. Tal método significa saber discernir sobre o correto e o incorreto, quando o pensamento é liberado através de sucessivas dúvidas dialógicas entre aprendiz e instrutor.
Por fim, para Aristóteles, a forma de purificar a alma é através dos sentimentos. Eles são afetados ao assistir um teatro trágico, capaz de obter acesso as emoções inconscientes, o pathos. Esta teoria aristotélica presente em sua Poética inspirou (e inspira até hoje) as teorias das artes e os artistas.
A Catarse e Freud
Junto disso, o método catártico Freudiano é especificidade do analista psicanalítico, que busca descobrir e desmontar, pacientemente, todas as armaduras do inconsciente. Freud formulou o método catártico quando tratava pacientes com histeria, depois que ouviu de um amigo sobre a catarse Aristotélica.
O método catártico tem sua origem na escuta do sujeito que sofre. E, agindo assim, Freud cria um método privilegiado para o conhecimento psicanalítico. Esse método da cura pela fala dá inicio à trajetória da psicanálise, na qual Breuer e Freud reconheciam a expressão verbal:
“É na linguagem que o homem encontra um substituto para o acto, graças ao qual o afecto pode ser ab-reagido quase da mesma maneira”.
Assim, o ato pode ser substituído pela linguagem, permitindo que as relações e o nossos afetos sejam compreensíveis através das palavras. Além disso, o pensamento e a linguagem, mesmo sendo de ordem distinta, são o que dá sentido às expressões linguísticas. Assim, para Freud, a linguagem é um fenômeno necessário para a realidade humana, a psicanálise seria uma cura pela palavra.
Com base nisso, fica evidente a importância e a eficácia que o método catártico tem no tratamento terapêutico. Isso em um processo de transformação na vida psíquica das pessoas.
Conclusão sobre o método catártico na psicanálise
Em resumo, entender o que é Psicanálise significa entender os métodos terapêuticos que a psicanálise usou: sugestão hipnótica, catarse e associação livre.
Assim, por exemplo, no que toca à psicanalise, no método catártico, o analista está atento à fala do paciente num sentido de extrair e abrir uma via para os pensamentos recalcados, para, assim, alcançar a cura emocional.
A partir da importância do método catártico apresentado nas diferentes áreas do conhecimento, podemos observar que ele é um dos melhores métodos usado pela psicanálise. Para o equilíbrio psíquico, num estado de liberação dos traumas e outras perturbações que o ser humano vivencia, ele dá ao indivíduo a libertação através da fala, que é o meio pela qual estes afetos são eliminados.
É importante conhecer a sugestão hipnótica e o método catártico não para aplicá-los, mas para entender a história da psicanálise e as limitações desses métodos. Em termos práticos, o psicanalista hoje focará no método da associação livre, somente.
Este artigo foi Artigo escrito por Paulo Vieira, da equipe de conteúdos didáticos do Curso de Formação em Psicanálise.

13 thoughts on “Método Catártico: definição para a Psicanálise”
Muito bom o artigo. Ficaram bem mais claros os conceitos que não havia ainda compreendido.
Parabéns pelo artigo!
Excelente artigo, esclareceu muito sobre o método catártico. Parabéns.
Gostei muito do artigo, pois ainda tinha dúvidas sobre o método catártico.
Cronologia importante no trabalho de Freud!
Bom dia.
Embora o método definitivo aplicado na Psicanálise, por Freud- Associação Livre, seja o mais assertivo (psiquicamente falando) não consigo conceber o Catártico ausente nas relações emocionais das pessoas, após um trauma ocorrido ou até mesmo, diante de um silêncio profundo como defesa das dores, quando alguém , de forma inesperada e , em qualquer lugar e circunstância, traz à tona seus tramas e dores, de forma isolada e sem intervenção de alguém preparado para receber esse “rompante” de emoções (se é que podemos dizer assim).
Muito bom o artigo. Me ajuda muito a associar com situações pessoais e de vida.
Muito bom, claro e esclarecedor.
Muito bom, de fácil compreensão. Parabéns pelo artigo.
Muito bom o artigo.
Muito, esses artigos são primordial para nós
Este artigo faz refletirmos como devemos questionando e mudar caso necessário as técnicas adotadas como próprio Freud o fez para assim conseguirmos chegar nos resultados que sejam eficazes para os pacientes.
Muito bom, maravilhiso
O artigo foi bastante didático, explicando o método catártico no processo psicoterapeutico psicanalítico fazendo um link associado às demais técnicas psicanalíticas , a hipnose e a associação livre ! Todas direcionadas à cura pela fala, revivendo as emoções das experiências traumáticas que deram origem ao sofrimento psíquico .