Emmy Von N. caso analisado por Freud

Caso Emmy Von N analisado por Freud

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Emmy Von N foi a primeira paciente a ser avaliada por Freud utilizando o método catártico e empregando outros recursos que são válidos até hoje na psicanálise. Contudo, muitas avaliações da época foram tida como equivocadas, um passo importante para a evolução dos estudos da psique humana.

Por esse motivo, conhecer esse caso e suas particularidades é fundamental para compreender melhor os conceitos de uma das abordagens mais importantes da psicologia. Dito isso, continue a leitura e descubra tudo sobre o caso Emmy Von N.

Este artigo vai enriquecer sua visão sobre a psicanálise. Isso porque você vai:

  • conhecer o caso Emmy Von N., um dos primeiros e mais importantes na história da psicanálise
  • e também entender como foram as técnicas empregadas por Freud, que utilizou o método catártico (sugestão hipnótica) mas já numa transição de técnicas que depois formariam o método da associação livre e a psicanálise propriamente dita.

Quem foi Emmy Von N?

Emmy Von N foi, na verdade, uma mulher nobre da Suíça, que se chamava Fanny von Sulzer Wart. Ela esteve entre os primeiros estudos de Sigmund Freud — que posteriormente veio a se tornar um dos nomes mais emblemáticos entre os especialistas.

O nome fictício de Emmy Von N foi dado para possibilitar os estudos sobre o seu comportamento. Dentre os relatos do caso, uma das principais características de Emmy era o seu medo exagerado de situações normalmente inofensivas.

Além disso, a paciente apresentava também sintomas físicos peculiares, como dores no corpo e um vício vocálico. Tudo isso foi visto como evidências para um quadro que iria muito além de alucinações puramente imaginárias.

Caso Emmy Von N analisado por Freud

O caso de Emmy Von N chegou a Freud como uma paciente histérica, que na época era compreendida como uma doença nervosa relacionada ao útero e que provocava crises convulsivas.

Contudo, o principal traço da histeria seria o comportamento de pânico, estresse e emoções extremamente à flor da pele — assim como Emmy apresentava em relação ao medo de animais e de pessoas desconhecidas, por exemplo.

Sabendo disso, Freud começou a utilizar as técnicas de hipnose para desvendar a origem desses medos irracionais da paciente. Assim, o psicanalista hipnotizava a paciente com o objetivo de expandir a sua consciência e retomar lembranças apagadas.

Essa seria uma das estratégias adotadas pelo método catártico, responsável por fazer com que o paciente fale e expresse livremente o que está sentindo, pensando e reprimindo. Com isso, a pessoa hipnotizada se torna capaz de expor tudo que tem lhe causado medo.

Traumas de infância

No caso Emmy Von N analisado por Freud, a paciente relatou episódios de infância em que seus irmãos lhe atiravam animais mortos, como provocação de criança. A partir dessa informação, o psicanalista pode observar como os traumas de infância são levados à vida.

Muito embora o método hipnótico utilizando sugestão tenha sido contraposto pelo próprio Freud ao longo de seus estudos, esse caso foi de suma importância. Afinal, foi com essa observação que a psicologia voltou seu olhar ao impacto de fatos do passado do paciente.

As situações traumáticas passaram então a ser associadas aos eventos de histeria, considerando que por diversas vezes os primeiros espasmos e crises partiam justamente no momento dessas situações.

Qual método Freud empregou no caso Emmy Von N.?

Freud empregou inicialmente o Método Catártico ou Sugestivo, baseado na hipnose.

Este método combinava:

  • a técnica da pressão, em que o terapeuta pressionava a testa do paciente,
  • com as sugestões hipnóticas, em que o terapeuta pedia que o paciente em estado hipnótico se desvencilhasse dos sintomas.

Em síntese, Freud dava ordens (ou sugestões) para a paciente não ter mais determinados sintomas.

É bom lembrar que foi um momento inicial da carreira de Freud, em que ele era um entusiasta da hipnose, baseando em técnicas de hipnose e sugestão desenvolvidas por Charcot e Breuer, de quem Freud fora discípulo.

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    Ainda não era propriamente psicanálise: o termo só foi cunhado por Freud anos depois. Mas os elementos fundadores da Psicanálise já podem ser vistos no caso Emmy Von N., graças às anotações feitas por Freud.

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    O papel central da paciente Emmy Von N. na origem da psicanálise

    Emmy demonstrava uma série de sintomas, dentre os quais:

    • dores gástricas (surgidas após a morte do marido),
    • tiques nervosos,
    • gagueira,
    • tendência à repetição de frases (como “fique quieto” e “não me toque”),
    • medo de ser tocada e de estar com outras pessoas (por ter sido perseguida em situações da vida),
    • medo de camundongos e de circo,
    • mudanças de humor (o que hoje alguns diriam “bipolaridade”),
    • entre outros.

    Freud escreveu a respeito da gagueira, uma das principais manifestações sintomáticas de Emmy:

    “Eu lhe havia perguntado qual a origem de sua gagueira e ela respondera “não sei”. Pedira-lhe, portanto, que se lembrasse disso na hora da hipnose de hoje. Em consequência, me respondeu hoje, sem nenhuma reflexão adicional, mas com grande agitação e com dificuldades espásticas na fala: “Como os cavalos certa vez saíram em disparada com as crianças na carruagem; e como outra vez eu estava passando de carruagem pela floresta com as meninas, durante uma tempestade, e uma árvore bem à frente dos cavalos foi atingida por um raio e os cavalos se assustaram e eu pensei: ‘Agora você precisa ficar bem quietinha, se não seus gritos vão assustar os cavalos ainda mais e o cocheiro não conseguirá contê-los de jeito nenhum.’ Surgiu a partir daquele momento.” A paciente ficou extraordinariamente agitada ao contar-me essa história. Soube também por ela que a gagueira tinha começado logo após a primeira dessas duas ocasiões, mas havia desaparecido pouco depois e então se estabelecera de uma vez por todas após a segunda ocasião semelhante. Apaguei sua lembrança plástica dessas cenas, mas pedi-lhe que as imaginasse mais uma vez. Ela pareceu tentar fazê-lo e permaneceu quieta enquanto atendia a meu pedido; a partir de então, falou durante a hipnose sem qualquer impedimento espástico.”

    Durante a hipnose, ela conseguia se expressar, num fluxo mais contínuo de ideias, sem travas e sem gagueira. Isso reforçou em Freud a ideia de que os sintomas tinham origem psíquica, não eram de origem física.

    Emmy se mostrava irritada com a frequente pergunta de Freud “de onde vem esse sintoma?”, respondendo a Freud: “Se eu soubesse eu não precisaria estar aqui”.

    Além disso, ela pedia que Freud parasse de falar tanto e deixasse-a falar. O que foi outro insight para Freud, depois, colocar a fala do paciente em lugar de destaque em sua terapia, o que está na base da próxima e definitiva fase da técnica freudiana: a livre associação.

    O conceito de histeria e a forma de tratamento com Psicanálise

    “Não sei” (resposta recorrente de Emmy Von N.) pode ser entendida como “eu temo dizer”, uma forma de expressar o recalque (mecanismo de defesa) e a recusa em se expressar. Isso porque o Ego usa de mecanismos de defesa para evitar que as causas dos sintomas venham à consciência, afinal seria doloroso reviver aquela dor da causa.

    Entretanto, na histeria, o tratamento por excelência é entrar em contato com a causa (descobrir a causa).

    Freud notou que, quanto mais lembranças surgiram e ela relatava essas lembranças, menos sintomas Emmy demonstrava ter. Como se o ato de falar amenizasse esses sintomas. E na duração das sessões de hipnose, os sintomas desapareciam e a paciente se expressava de maneira digamos “mais espontânea”.

    Emmy disse ao final de sessões: “agora eu me sinto muito melhor”. Freud começava a identificar que o ato de falar livremente ajudava no alívio dos sintomas psíquicos. Anos depois, Freud abandonaria a hipnose em favor de outra técnica, a livre associação, em que o papel de “falar livremente” se torna ainda mais relevante.

    Freud, Hipnose e Psicanálise

    Freud relatava não conseguir hipnotizar todos os pacientes. Ele entendia que nem todos os pacientes eram hipnotizáveis.

    A paciente Emmy pedia para falar. Então, muitas sessões tinham grande parte de “conversa” e cada vez menos de hipnose, pelas anotações que o próprio Freud fazia das sessões. Isso seria já uma transição em favor da associação livre.

    “Se, para sermos breves, adotarmos o termo “conversão” para designar a transformação da excitação psíquica em sintomas somáticos crônicos, que é tão característica da histeria, podemos então dizer que o caso da Sra. Emmy Von N. apresentava apenas uma pequena quantidade de conversão. A excitação, que era originariamente psíquica, permaneceu em sua maior parte nessa esfera, e é fácil compreender que isso lhe confere uma semelhança com as outras neuroses, não histéricas. Existem casos de histeria em que todo o excedente da estimulação sofre conversão, de modo que os sintomas somáticos da histeria se intrometem no que parece ser uma consciência inteiramente normal. A transformação incompleta, no entanto, é mais comum, de modo que pelo menos parte do afeto que acompanha o trauma persiste na consciência como um componente do estado emocional do indivíduo.”

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    Na histeria, há necessidade de lembrar como forma de tratar. A lembrança é retornar à fonte do sintoma e, ao se lembrar a origem do sintoma, de maneira “quase automática” o sintoma desaparece.

    A ideia de “conversão” no conceito de “histeria de conversão” significa que tudo aquilo que é vivido de forma traumática (e não é combatido na ocasião em que ocorre) é convertido em sintoma.

    Conversão significa: eventos da vida do paciente que são “perdidos” enquanto tal, mas que são transformados em sintomas (e assim permanecem na vida psíquica do sujeito).

    Assim, o caso Emmy Von N. trouxe importantes insights para a Psicanálise:

    • O passado está presente, pelo menos como sintoma; isto é, o sintoma é a prova presente de um evento de outra natureza, ocorrido no passado.
    • No inconsciente, passado e presente convivem livremente, pois o inconsciente não tem temporalidade.
    • A fala do paciente é importante e é a essência do tratamento, mais do que a sugestão do analista.
    • ​Emmy deu o insight para Freud iniciar a associação livre.
    • De certa forma, Emmy Von N. é co-autora da Psicanálise, o que mostra a incrível importância do par analítico (analista – paciente).

    As técnicas da hipnose fizeram parte da construção da psicanálise, pois estiveram na base dos primeiros tratamentos de Freud.

    A psicanálise não invalida a hipnose, que pode ser usada de maneira efetiva até hoje, embora psicanálise e hipnose tenham técnicas diferentes:

    • hipnose: método com técnicas de sugestão;
    • psicanálise: método da associação livre.

    A importância do caso para a psicologia e psicanálise

    A personalidade e comportamento imperativo de Emmy Von N. foi o principal fator para que a psicologia e a psicanálise se consolidassem da maneira que conhecemos hoje: o paciente relatando livremente os fatos e emoções que o levaram até ali.

    Isso pois, nas consultas com Freud, Emmy fazia questão de falar o que queria e interrompia qualquer pergunta que a desviasse de seu relato. O psicanalista permitiu que a consulta seguisse dessa forma e resolveu aderir a tática com os demais pacientes estudados.

    Essa atitude de Emmy mudou a relação entre paciente e analista, bem como mudou o formato em que ocorriam as consultas. Pois, analisando a forma como a paciente se expressava, Freud conseguia muito mais informações do que conduzindo a sessão com perguntas calculadas.

    Esse formato se mostrou tão eficiente que virou um padrão para as consultas inclusive em outras áreas da saúde mental: psicanálise, psicologia, psiquiatria. Não à toa, independente de qual seja a abordagem seguida pelo analista, o modelo das consultas psicoterapêuticas segue sendo o de cada vez mais escutar o paciente.

    Outras questões interessantes também foram discutidas com mais amplitude e propriedade após o estudo do caso Emmy Von N, como a relação entre histeria e sexualidade. O conceito da hipnose e da sugestão também foram melhor investigados.

    Histeria e sexualidade

    Freud associou que o quadro de Emmy poderia estar ligado a sua abstinência sexual, uma vez que a mulher era viúva há 24 anos. Desse modo, a histeria não era mais associada a uma condição ocasionada pelo útero, mas sim com a sexualidade da paciente. É como se a repressão do superego impusesse proibições ao prazer, e isso fosse se acumulando em tensões à paciente.

    Muitos outros estudiosos também fizeram essa associação, que inicialmente era superficial demais para chegar a resultados conclusivos. Entretanto, a percepção foi determinante para se reconhecer o papel das interferências externas no ocasionamento da histeria.

    Ou seja, em vez de uma condição genética que colocaria a mulher como predisposta à histeria — no caso da condição associada ao útero —, agora se enxerga a possibilidade de outros acontecimentos e situações serem os causadores das crises.

    Todo esse processo de transformação pelo qual passa o caso de Emmy Von N. são uma amostra de como os diagnósticos clínicos dos quadros mentais dos pacientes foram evoluídos conforme os estudos passaram a investigar o indivíduo e sua amplitude.

    Hipnose e psicanálise

    A hipnose continua sendo uma técnica bastante usada na psicanálise, porém vale lembrar que ela passou por diversas transformações desde Emmy Von N. Isso porque Freud conseguiu empregar seu estudo para o que lhe propunha: se aprofundar na psique humana.

    Com as pontuações feitas pelo psicanalista europeu, os estudiosos e profissionais sucessores da área puderam aperfeiçoar a abordagem psicanalítica evitando equívocos cometidos inicialmente.

    Entretanto, a hipnose está entre a base do método psicanalítico, sendo responsável por solucionar muitas interrogações que o paciente carrega consigo durante anos. Mas para isso, claro, é necessário que o psicoterapeuta seja acima de tudo um bom hipnotizador.

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    É justo destacar ainda que o caso de Emmy Von N é apenas uma premissa do que viria a se tornar o trabalho freudiano. Desse modo, muitos métodos, conceitos e teorias surgiram para complementar, ajustar ou mesmo refutar as primeiras concepções sobre o assunto.

    Em vista disso, a psicanálise possui um grau de complexidade que envolve conceitos e teorias que precisam ser avaliados minuciosamente. Assim como fez Freud ao observar o comportamento de Emmy e aplicar seus métodos de investigação.

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    15 thoughts on “Caso Emmy Von N analisado por Freud

    1. Gostaria de saber se as aulas também vão ensinar o hipisnotismo ou essa técnica se aprende em outro lugar?

      1. Esse artigo traduz o início da psicanálise com muita simplicidade e clareza. Gratidão!

    2. Essas tecnicas de livre associação a gente consegue aplicar sozinha na gente com o curso ?ou sempre precisa de um terapeuta pra aplica-las?

      1. Junior, boa tarde. O foco é ensinar você a aplicar em clínica. Mas o conhecimento também é aplicável para a vida, como autoconhecimento e autoanálise.

    3. O método da livre associação nós leva para descobrir o cerne da questão: a mente humana e como ela age frente a diferentes estímulos…a livre associação junto com a interpretação dos sonhos se tornaram as ferramentas de eleição no tratamento das doenças psiquicas.

    4. Achei o texto muito interessante. Bem explicativo. Muito feliz em estar fazendo o curso de formação EAD em psicanálise e atualizar as minhas falas e conceitos.

      1. Olá, Glaucia. Ficamos felizes por estarmos juntos neste jornada! Obrigado por suas palavras de encorajamento 🙂

    5. Ótimo conteúdo, esmiuçado e com links referenciais bons. Muito bom. Agradeço pelo envio dos textos e a contínua disponibilidade de todos para sustentar essa infraestrutura. Sou muito grato.

    6. Sim, sem dúvida trazer à luz da praxis Freudiana, ainda que muito houve por evoluir no universo da Metodologia Psicanalítica, um caso real e de estudo, é fantástico!
      A chance de sair do papel essencial ativo , do Terapeuta, para o “escutador”, foi, é, de um ganho incomensurável na análise mias global da situação psíquica do paciente, pelo Terapeuta.

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