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Autismo e Psicanálise: constituição do Eu para Freud e Lacan

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Hoje falaremos sobre o autismo. Neste artigo, irei fazer uma breve reflexão a respeito das contribuições das teorias de Freud e Lacan no desenvolvimento da criança e sua construção como sujeito. A partir da relação entre as ideias dos dois autores, buscarei apresentar alguns pontos com a psicose, em especial o autismo.

Pertencente a um espectro muito amplo e individual, vale destacar que essa condição pode ser analisada sob o ponto de vista da psicanálise indo muito além de uma questão congênita.

Uma releitura de Freud sobre autismo e psicanálise

Jacques Lacan é mais conhecido como psicanalista pela forma como reinterpretou os estudos de Freud ampliando sua noção para o campo da linguagem a partir de Ferdinand de Saussure bem como a antropologia e outras ciências.

Lacan tinha como formação principal a medicina e desenvolveu sua tese sobre a psicose e a paranoia a partir dos escritos de Freud. Apesar de levar a psicanálise a um outro patamar, Lacan nunca se distanciou das ideias de Sigmund Freud sempre aceitando suas noções mais elementares como pulsão e a libido.

É válido apontar também que, assim como Freud, Lacan postulava que os desenvolvimentos infantis era um dos elementos chaves para as psicopatologias tal como as psicoses.

A teoria de Freud

Desta forma, avançou com a teoria de Freud inserindo elementos novos na psicanálise como o Estágio do Espelho, os 3 registros da constituição do sujeito e a noção denominada por ele como “Em nome do Pai”.

Trataremos aqui de uma de suas mais célebres teorias conhecidas como o Estádio (estágio) do Espelho que se refere diretamente com a construção do eu e é carregada de simbolismos. Além disso, a entrada do significante, noção vinda da linguística, é o elemento externo que encerra essa fase e determina o sujeito no mundo.

A partir dessa concepção feita por Jacques Lacan, pretendo lançar algumas reflexões de como uma perturbação nesse estágio pode ocasionar prejuízos como a psicose segundo a própria psicanálise.

O Estágio do Espelho na teoria de Lacan

Considerando a ideia original de Freud sobre a pulsão e a libido provenientes do Id, Lacan determina que a constituição do sujeito e do eu também é formada pela relação com o ambiente e com os “espelhos”. Entendemos como espelho uma metáfora para toda e qualquer “superfície “que devolva à criança a ideia de realidade do eu.

Isso significa dizer que os objetos físicos ao redor, o olhar do outro, o toque e a linguagem podem ser elementos que retornem à ideia da constituição do eu para a criança.

A teoria do espelho de Jacques Lacan pressupõe 3 momentos durante a primeira infância:

1- Em um contato inicial com o mundo, que acontece ainda na fase oral proposta por Freud, a criança ainda não percebe todos os estímulos recebidos no sentido de se perceber como um outro ser. É nessa fase que o bebê é dependente da mãe, de seus cuidados e dela necessita para sobreviver.

2 – Teoria do espelho e autismo

– Após um período de maior amadurecimento, a criança avança no processo motor e de aquisição da linguagem e se torna mais autônoma explorando o ambiente com o toque e uma percepção maior do entorno.

A partir desse momento, a constituição do eu se inicia e o bebê começa a perceber e a interpretar com algum grau de espanto que não é um ser fusionado à mãe possuindo um corpo próprio, um limite próprio e uma existência individual.

Esse processo de percepção é semelhante a outros animais que vão se constituindo pelo tempo e pelo espaço, mas nos seres humanos, é a entrada do significante que diferencia a espécie e nomeia as pulsões enquanto o ego surge.

3 -Fase anal

A fase final do estágio do espelho prevê um encerramento dessa constituição que é vinda de um fator externo. Após todas as experiências com o mundo e com a linguagem, a criança, mais madura em sua concepção, espera receber a aprovação da sua constituição através de algum significante externo vindo dos pais, por exemplo.

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    É essa finalização de todo o processo ocorrido no estágio do espelho que forma as instâncias da mente, segundo a visão de Jacques Lacan.

    Leia Também:  O que é Psicose: origem e manifestações

    Prejuízos da má constituição do sujeito

    De acordo com Freud, a período da primeira infância é constituído exclusivamente pelas intensas pulsões do Id que precisam ser ordenadas para o desenvolvimento da identidade e do sujeito.

    A teoria do psicanalista defende a ideia de que todo o investimento libidinal e pulsional durante a infância é dirigida aos pais levando ao famoso Complexo de Édipo, um dos pontos centrais de sua teoria. Tanto Freud com o Complexo de Édipo quanto Lacan com o Estágio do Espelho consideravam que a energia psíquica é fundamental na formação do sujeito e que, quando mal ordenadas, poderiam levar às psicoses.

    Em psicanálise, entendemos como psicose um núcleo patológico de foraclusão em que o indivíduo perde a noção com a realidade e vive em um contexto criado por si mesmo. A esquizofrenia e o autismo são forma de psicose bastante estudadas pela medicina, mas que ainda não possuem, em termos médicos, uma causa em específico.

    Fatores relacionados ao autismo

    Fatores ambientais e genéticos e até alimentícios são defendidos pelos médicos como um dos principais fatores do autismo. Entretanto, a psicanálise defende em artigos publicados que o autismo é causado pela defasagem das figuras parentais, compreensão essa que ainda gera polêmicas por parte da ciência.

    O autismo se manifesta em diferentes graus do seu espectro e possui características típicas como problemas na comunicação verbal, nas relações sociais bem como na formação dos pares afetivos.

    Outros aspectos incluem surdez, dificuldade de articulação motora da linguagem ou mesmo alto desempenho em uma habilidade racional e foco em um interesse em específico.

    Pessoas neurotípicas

    Destaco que, em todos os casos de autismo, existe algum grau de foraclusão que retém o sujeito em seu próprio universo. É por isso que popularmente, o autista é visto como uma pessoa que vive em seu próprio mundo, pois apresenta dificuldade em graus variados de estar na vida como as pessoas neurotípicas.

    De acordo com recentes artigos publicados na área de medicina juntamente com a psicanálise, o autismo seria uma condição iniciada na primeira infância em que as figuras parentais não exerceram a devida função em conduzir as pulsões e o investimento libidinal da criança.

    Dessa forma, a noção de tempo e espaço é perdida e a criança investe sua pulsão em si mesma conduzindo-a uma forma específica de ver, sentir e estar no mundo.

    Conclusão: as relações entre autismo e psicanálise

    Vimos neste artigo como as contribuições de Freud e Lacan construíram a psicanálise sendo possível explicar muitos dos comportamentos humanos incluindo as condições patológicas. Entendemos, pelo viés dessa ciência, que as psicopatologias podem ser resultados de figuras parentais deficientes que faz com que a energia psíquica se perca durante o desenvolvimento do eu.

    Apesar de ser um ponto de vista duramente criticado pela medicina e pelos novos psicanalistas, os conceitos de Freud e Lacan dão conta de explicar e sistematizar condições peculiares como o autismo.

    Destaco que todas as contribuições que a medicina realizou até o momento são igualmente válidas, mas é importante termos em mente também a ideia trazida pela psicanálise uma vez que são teorias que revelam fatos da natureza humana em sua essência mais essencial e particular.

    Este artigo sobre autismo e psicanálise foi escrito por Renan Gaudencio Vale([email protected]). Professor, linguista, mestre em semântica, terapeuta homeopata e futuro psicanalista, sempre tive intenso interesse pelo funcionamento da mente humana. Acredito que a linguagem é parte constitutiva do sujeito e a psicanálise a forma mais íntegra para a compreensão de nós mesmos.

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