caso do presidente Schreber

O caso de paranoia do presidente Schreber: resumo de Freud

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Você já ouviu falar sobre o caso do presidente Schreber ? A primeira internação de Daniel Paul Schreber ocorreu em 1884 sob a forma de um episódio depressivo hipocondríaco, após o fracasso de sua candidatura como deputado do Reichstag o parlamento federal da Alemanha quando ele havia completado 42 anos.

Entendendo o caso do presidente Schreber

Foi internado e tratado na clínica do professor Dr. Flechsig em Leipzig, que era psiquiatra e anatomista do cérebro e este era conhecido no mundo inteiro por seu trabalho. Ao término do tratamento achava-se que Schreber estava curado, recebendo alta da clínica.

Nesta hospitalização Schreber escreveu um livro chamado “Memória de um doente dos nervos” em 1903, onde escreve em detalhes sobre o processo que está passando, em especial seus delírios e alucinações, que tinha como objetivo sua alta daquela internação, querendo comprovar com isso que estava apto para viver em sociedade novamente. Este pedido foi aceito em 1902, porém o juiz escreveu nos altos que Schreber não representava risco a si mesmo e nem para os outros, mas que sou loucura se mantinha.

Logo após a alta Schreber retirou-se com sua esposa e sua filha adotiva. Passados cinco anos ele teve uma recaída depressiva psicótica sendo novamente internado em um hospital psiquiátrico em Leipzig onde permaneceu por quatro anos até sua morte em novembro de 1911, alias que foi no mesmo ano em que foi lançada a obra de Freud.

O caso do presidente Schreber e a análise de Sigmund Freud

Análise de Sigmund Freud sobre o caso Schreber Após Freud tomar conhecimento do livro autobiográfico escrito por Daniel Paul Schreber chamado: “Memória de um doente de nervos” publicado em 1903 e encontra ali um material clínico importante que descrevia de uma maneira talentosa um delírio paranoico narrado pelo próprio doente.

Freud nunca chegou a se encontrar com o Schreber, porém este estudo de caso foi unicamente baseado neste documento autobiográfico.

A paranoia como defesa contra desejos homossexuais reprimidos

Através desta análise Freud faz uma demonstração admirável que a angústia persecutória e o delírio paranoico decorrem de uma defesa contra desejos homossexuais reprimidos.

Descreve também que no que diz respeito ao mecanismo da paranoia seria o produto de uma transformação (homossexual) em ódio, este ódio que depois seria projetado para um perseguidor externo, sendo neste caso o professor Flechsig e após Deus.

É importante ressaltar que este não aceitar estes desejos homossexuais neste caso fez com que por final Schreber se sentisse perseguido por alguém que não era de carne e osso, no caso Deus, alguém que ele não poderia ter um contato direto físico.

Delírio persecutório no caso do presidente Schreber

Podemos colocar que na fase aguda da psicose de Schreber acontecia um delírio persecutório muito angustiante na qual ele acreditava que seria emasculado e transformado em mulher e que após não podia escapar de um futuro abuso sexual que seria cometido pelo seu perseguidor o professor Flechsig, que era o médico que o tratava na época, no qual ele transformaria seu corpo em um corpo de mulher, Schreber escreve em seu livro “(…) ser entregue então a um homem para abusos sexuais e depois largado, ou seja, abandonado com certeza a putrefação” (p. 271[241]).

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Após o seu perseguidor muda de nome de Flechsig para o próprio Deus, no qual Schreber acredita através de seu delírio ter a prova dessa mudança de perseguidor ao ouvir vozes que lhe falavam e também através da destruição de alguns de seus órgãos como o intestino e o estômago.

De delírio persecutório para delírio de redenção e de grandeza

Este delírio persecutório inicialmente sexual transforma-se em um delírio de redenção, de grandeza, Schreber acreditava ter uma missão divina, na qual seria fecundado pelos raios divinos a fim de gerar novos seres humano tudo isso mediado por Deus que naquele momento era o seu perseguidor.

Freud afirma que “o que vemos como uma produção mórbida, a formação do delírio, é na realidade a tentativa de cura, a reconstrução” (p. 315 [293-294]). Se faz possível interpretar isso como uma maneira em que Schreber buscava através deste sintoma delirante psicótico se organizar e por meio disso não sucumbir aos seus desejos reprimidos.

Os delírios e as alucinações são uma forma do sujeito psicótico se organizar, como acontece com os neuróticos em relação ao sintoma, sendo então uma forma de organização e estabilidade.

Transferência em análise com psicóticos e o caso do presidente Schreber

Embora Freud tenha descrito diversos mecanismos psíquicos relacionados a organização psicótica, ele considera que os pacientes psicóticos não estabelecem transferência e por esta razão não são analisáveis. Hoje em dia esta questão já não permanece a mesma, pois outros autores contemporâneos desenvolveram a análise de pacientes psicóticos, como por exemplos os psicanalistas Jacques Lacan e Melanie Klein.

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    Mas a transferência é diferente, ao invés de acontecer uma neurose de transferência como com as pessoas de estrutura neurótica, com as pessoas de estrutura psicótica acontece uma transferência maciça esta como o nome já diz muito densa com uma dificuldade maior em seu manejo pelas questões dos delírios e alucinações, o psicanalista Lacan certa vez disse que o analista acaba se tornando o secretário do alienado nessa escuta de suas manifestações psicóticas.

    Considerações finais

    Esta análise de Sigmund Freud se fez inovadora por ser detalhada e minuciosa em relação aos relatos retratados no livro autobiográfico de Schreber, as publicações antes feitas não falavam tão detalhadamente de delírios e alucinações na psicose. Contribuiu de certa forma trazendo a importância de buscar uma compreensão das psicoses a partir das manifestações dos delírios e alucinações, pois para isso é preciso prestar atenção neles para chegar a uma compreensão mais completa.

    Ir além do que pode se observar nos surtos psicóticos, estas manifestações têm significativas representações simbólicas e se é possível associar com coisas que se atravessam na história de vida do sujeito. Nesta análise da autobiografia muito bem escrita, Schreber acaba por descrever muito bem sua situação entre delírios e alucinações o que caracteriza sua estrutura psíquica psicótica, demonstrando um enorme autoconhecimento sobre a sua vida.

    Freud analisa este livro de maneira magnifica analisando de acordo com sua percepção psicanalítica, é incrível porque ele nem conheceu Schreber, mas consegue com este material fazer esta análise sobre estes fenômenos paranoicos do caso, tornando esta análise um dos casos clínicos mais famosos de Sigmund Freud e da psicanálise.

    Referências bibliográficas

    QUINODOZ, Jean-Michel. Ler Freud: guia de leitura da obra de S. Freud. Artmed Editora, 2007.

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    O presente artigo foi escrito por Bruno de Oliveira Martins. Psicólogo clínico, particular CRP: 07/31615 e pela plataforma online Zenklub, acompanhante terapêutico (AT), estudante de psicanálise pelo Instituto de Psicanálise Clínica (IBPC), contato WhatsApp: (054) 984066272

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