complexo de castração

Complexo de Castração na Psicanálise

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Conceito essencial à psicanálise, o Complexo de Castração é algo fulcral na origem das neuroses, psicoses e perversões. As estruturas clínicas denotam, exatamente, que somos faltantes e tendemos à incompletude. Portanto, logo de início se deve expor que, o “Complexo” de Castração “é encontrado invariavelmente em qualquer análise” (LAPLANCHE e PONTALIS, 2001).

O Complexo de castração

Conceito teórico e clínico construído imerso na teoria freudiana da sexualidade infantil; e em completa intersecção com o Complexo de Édipo e, deste modo, com a fundamental função interditória e normativa das relações sociais e familiares.

Esta função interditória é, além de um entendimento limitante, um processo “natural” e “necessário” de simbolização de uma força impulsora da humanização e socialização da criança.

Imerso na fase edipiana – por volta dos cinco aos seis anos (este período pode variar) – caracteriza importante momento de a criança integrar-se a toda relação familiar (pai, mãe, irmãos, irmãs e ela).

Castração: essencial experiência inconsciente

Esta “etapa”, “fase”, evolutiva da sexualidade infantil não se restringe a um momento ou período cronológico onde, em inconsciente e forte angústia, a criança percebe a diferença anatômica entre os sexos (presença ou ausência do pênis: para a psicanálise, o falo).

Pode, ou deve findar neste momento a ilusão da onipotência até então experimentada pela criança; já que há o reconhecimento enigmático de que o mundo é composto de homens e mulheres; que o corpo – e o mundo – tem “limites diferenciais” de possível interdição para “permitir” todos os seus desejos.

Difere entre meninas e meninos. Neles a angústia ocorre por medo de perder – o falo -; nelas a perda angustiante refere-se a sentida ausência do amor do outro (foram “privadas” do falo pelas mães).

Complexo de castração no menino e na menina

“A estrutura e os efeitos do complexo de castração são diferentes no menino e na menina. O menino teme a castração como realização de uma ameaça paterna em resposta às suas atividades sexuais, surgindo daí uma intensa angústia de castração. Na menina, a ausência do pênis (falo) é sentida como um dano sofrido que ela procura negar, com pensar ou reparar” (LAPLANCHE e PONTALIS, 2001).

A “resolução” ou “tempo final” (termo utilizado por J.-D. Nasio) dessa experiência complexa da castração deveria se dar (“ideal” que assim ocorresse), portanto, de modo diferente no menino e na menina, podendo-se assim, de modo didático, resumir:

  • no menino: separação da mãe; desejo dirigido para outras mulheres; fim do complexo de castração e fim do complexo de Édipo;
  • na menina: separação da mãe; desejo voltado para o pai e outros homens; fim do complexo de castração e nascimento do complexo de Édipo.

Sobre as fases do Complexo de castração

Esta fase é simbolicamente “bem demarcada” na evolução da sexualidade infantil. A fase dos por quês (?); de onde vêm os bebês (?); quem os faz (?); por onde saem (?); qual o papel do pai nisso (?) e demais questionamentos bem representados.

Deve-se expor claramente que, esta fase – da castração -, apesar de, quando ocorre, ser bem demarcada cronologicamente de algum modo, traduz uma experiência inconsciente que é incessantemente “renovada” (em repetição simbólica sintomática) ao longo de toda a existência do sujeito, emergindo “no jogo” da pretensa cura (construção, auto-observação, ressignificação) psicanalítica do adulto.

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Nasio (1997) assim corrobora: “um dos objetivos da experiência analítica é, com efeito, possibilitar e reativar na vida adulta a experiência que atravessamos na infância; admitir com dor que os limites do corpo são mais estreitos do que os limites do desejo”.

O conceito em Freud: O caso do pequeno Hans

Uma criança, um menino, de cinco anos de idade quando o seu pai procurou Freud para analisar e intervir no caso, relatando acontecimentos desde os três anos de idade do seu filho. Caso relatado em Freud ESB volume X, 1909.

Hans residia em Viena e sempre gostou de cavalos. Após o nascimento de sua irmã – Hanna – Hans adquiri medo (fobia) dos cavalos: “cavalos mordem”. Hans passa a simbolizar uma ameaça corporal (medo de perder o falo). “Hanna não tem falo” (diferença anatômica). “Minha mãe não tem o falo” (é castrada).

De férias, por dias sem o pai, Hans se sente “confortável” com o contato com a mãe, mas quando o pai retorna interdita este contato, este afeto, este toque diário que ocorria sem o pai.

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    Complexo de castração e a angustia de Hans

    Hans se angustia, começam sonhos mais intensos, constantes e fóbicos com cavalos! Hans ama o pai, mas surgem sentimentos hostis. Agora, nos sonhos, o cavalo está acoplado a uma carroça (a mãe). “O cavalo pode destruir a carroça”. Hans tem dois encontros com Freud (o “tratamento” ocorre através do pai, nos demais momentos).

    Em um destes encontros Freud pede a Hans que desenhe um cavalo. Hans desenha no lugar da boca do cavalo “um rabisco”. O pai de Hans tem bigode: o rabisco. Eis um momento transferencial! Em outro sonho Hans vê Hanna na banheira cheia de sangue (quando Hanna nasceu). Um encanador, atarraxa e desatarraxa o cano para consertar a banheira (“o encanador irá arrancar meu falo”).

    Neste percurso, dá-se “a castração” de Hans, que se reconcilia com os cavalos; tendo sido o sintoma fóbico, de algum modo necessário, para Hans, em angústia, “entender” seu papel no contexto familiar.

    Freud: pós-escrito (1922) Considerações finais

    Na primavera de 1922 um rapaz se apresenta a Freud: era o “pequeno Hans”. Freud fica feliz, pois dois anos após o término da análise não tivera mais notícias de Hans por dez anos.

    “A publicação dessa primeira análise de uma criança causara uma grande agitação e até indignação, e um futuro dos mais negros tinha sido previsto para o pobre menininho, porque lhe tinham `roubado sua inocência´ numa idade tão tenra […]”. (Freud, 1909) Muito contente, Freud continua seu relato: “nenhuma dessas minhas apreensões tornou-se verdade; o pequeno Hans era agora um forte rapaz de dezenove anos; declarou que estava perfeitamente bem e que não sofria de nenhum problema ou inibição; […] atravessado a puberdade sem nenhum dano…”. (Freud, 1909)

    Há de se bem considerar o complexo de castração “não completado normalmente”, no processo evolutivo da sexualidade infantil, como algo que continuará deslizando a um desajustamento no adulto; uma vez que permanece a ameaça infantil inconsciente de castração pelo pai (ou outra pessoa) ou de separação da mãe (ou outra pessoa) como um constante “apelo” a ocorrência de uma série enorme de transtornos!

    Referências Bibliográficas

    FREUD. S. ESB, v. X, 1909. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

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    LAPLANCHE e PONTALIS. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

    NASIO. J.-D. Lições sobre os sete conceitos cruciais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.

    O presente artigo foi escrito pelo autor Marcos Castro – Psicanalista clínico, pesquisador, professor, escritor, palestrante. Residente em Ouro Fino – Sul de Minas Gerais. Atendimento presencial e online Contato: Instagram – @marcos_castro_castro

     

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