conceito de narcisismo

Conceito de Narcisismo em Freud e na Psicanálise

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A questão do narcisismo – posição narcísica, neurose narcísica, alguns traços de personalidade narcísica – na psicanálise, vai muito além da referência ao mito de Narciso, que evoca o amor dirigido à própria imagem. Tal tema vem, de alguma forma, ocupando crescente e primordial espaço de importância na literatura psicanalítica, tanto no contexto metapsicológico quanto conceitual e clínico. Continue a leitura e entenda mais sobre o conceito de narcisismo.

O conceito de narcisismo

Conceito, modelo, proposto por Freud (1911 – 1914) para origem do EU; simbolizado no Mito Grego: Narciso se encanta com si mesmo! Corresponde ao primeiro tempo do Complexo de Édipo, como um inicial estranhamento da criança sobre sua imagem!

Relaciona-se intimamente com o Complexo de Édipo, a Castração e, mais recentemente, ao estádio de espelho em Lacan.

Nacke, 1989, apud Nasio 1997, “introduziu pela primeira vez o termo ‘narcisismo’ na psiquiatria; tendo designado com esse termo um estado de amor por si mesmo que constituiria uma ‘nova’ categoria de perversão”.

O conceito de narcisismo em Freud

Freud relacionara o conceito de narcisismo às pulsões sexuais e a sexualidade. Enquanto o “eu” da criança, como tal, ainda não se constituiu, o modo de satisfação da libido dar-se-ia pelo “auto-erotismo”, ou seja, o prazer que um órgão retira de si mesmo. Os objetos então investidos de pulsões seriam partes do próprio corpo (narcisismo primário).

Ainda neste contexto – do narcisismo primário – representa-se, de certa forma, também, um tipo de onipotência de encontro, onde o narcisismo nascente do bebê e o narcisismo remanescentes dos pais se interseccionam. “’Sua majestade o Bebê’ realizará os sonhos de desejo que os pais não puseram em prática, assim garantindo a imortalidade de seu eu” (Nasio, 1997).

Para Freud, o desenvolvimento, dito “natural”, do EU do bebê consistiria exatamente em distanciar-se deste narcisismo primário até então vivenciado de forma auto erótica”. Este “distanciamento” ocorre à medida que o bebê é progressivamente exposto ao mundo externo. A mãe não é só dele, ela deseja fora dele, nem tudo é para ele!

Conceito de narcisismo e as pulsões

“Sua majestade o Bebê”, assim intui: – O que posso amar e escolher ser “eu” sem os cuidados dela só para mim? – Como vou me identificar agora sem minha onipotência materna?

Torna-se assim necessário que se produza um retorno do investimento das pulsões objetais para o próprio eu; ou seja, a libido toma o eu como objeto (narcisismo secundário).

Ponto essencial se designa em Nasio (1997): “Enquanto, com o narcisismo primário, o outro era o si mesmo, a partir daí só é possível experimentar-se através do outro”; e completa, “que o elemento mais importante que vem perturbar o narcisismo primário não é outra coisa senão o ‘complexo de castração’”.

O narcisismo em Lacan

Lacan, em sua linguagem ímpar, peculiar e profundamente translúcida, relaciona muito bem, através de seu conceito, ou constructo, do “estádio do espelho”, a questão do narcisismo com o complexo de Édipo – e seus tempos ou fases – e a castração.

Intenciona-se aqui, a seguir, uma síntese.

  •  Estádio 1 (primeiro tempo do Édipo): no “espelho” a visão da criança é o olhar da mãe com ela – a criança – interseccionado. A imagem é considerada “perfeita”: “este sou eu com ela; e ela é minha” (instinto). O EU não é ali identificado; e sim o outro qualquer nela, o eu.
  • Estádio 2 (segundo tempo do Édipo): indeterminação, transitivismo. Uma “crise” narcísica. Nova relação confusa com si mesmo. Começa a ocorrer uma reapresentação de si. A frustração passa à privação da mãe. “Ela não é minha, este não sou EU, e sim o eu que a tinha minha”. “Entendo a falta REAL”. Ocorre um auto ajustamento. “Quem é aquele, quem sou? ”. Começa uma “confusão” de reciprocidade.
  • Estádio 3 (terceiro tempo do Édipo para os meninos e “surgimento” do Édipo para as meninas): momento em que se “enfrenta” – e isso é salutar e “desejável – o Complexo de Castração. Uma espécie de renúncia simbólica! A simbolização: a imagem sou EU. O EU e o eu somos um dual (quem nunca falou consigo mesmo em voz alta?). O EU eu e o EU o OUTRO simbólico. Surge daí é EU ideal (porção ou solução ideal de mim que persigo); e o ideal de EU (o que podemos querer ser de ideal). Eis a clivagem, “natural” e necessária”.
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Alguns aspectos clínicos a se destacar sobre o conceito de narcisismo

A questão do narcisismo, sua intersecção com a fase edipiana e a “necessidade” da castração traduz uma vasta característica de negação podendo significar o que se denomina narcisismo patológico.

“O terror de enfrentar uma incompletude leva à exacerbação dos mecanismos de negação, onipotência e onisciência, de sorte que as pessoas fortemente narcísicas passam a maior parte da vida buscando algo ou alguém que confirme seu mundo ilusório, garantindo, assim, a preservação da autoestima e do sentimento de identidade, ambas permanentemente muito ameaçadas na posição narcísica, em virtude das demandas do mundo da realidade” (ZIMERMAN, 2008).

Com propriedade e constante frequência, encontra-se na clínica esta posição narcísica advinda da não ocorrência de um “desejado” recalcamento (a castração) do que pode vir a ser este narcisismo patológico! O que se traduzirá em frustrações; e repetições simbolizadas serão “retomadas” nas decisões durante toda a vida do sujeito; caso “não bem transcorrido” – o recalcamento – na fase edipiana.

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    Narcisismo patológico

    É salutar sintetizar algumas características do narcisismo patológico, sem óbvio, a intenção de abarcar, nem de perto, toda vastidão envolvida.

    • Quando se adoece fica difícil enfrentar, mantém-se na “órbita” da doença em negação e revolta;
    • Incapacidade de amar, relações amorosas egoístas se não for o ideal (uma afronta narcísica);
    • Meu corpo não está bom – baixa autoestima – crise narcísica;
    • Ciúmes exagerado, medo de se entregar ao amor, medo das relações;
    • O SER e o TER se confundem, “QUEM SOU EU? UM VAZIO, estou fora das relações sociais, preciso ser o maior para ser amado”;
    • Alia-se a grupos ou pessoas tóxicas, falta de subjetividade, renúncia aos seus desejos;
    • Busca por “fetiches” em si próprio (beleza, erudição, riqueza, conquistas amorosas, prestígio, poder) ou fora dele (em outra pessoa, instituição, ideologia, paixão que idealiza.

    Considerações finais

    Importante destacar que a ferida narcísica é das mais dolorosas entre os sofrimentos psíquicos; uma vez que “ataca” impiedosamente o ego, distanciando o ego ideal (ilusório) do ideal do ego (plano real).

    Compreende-se necessário o mais puro “desejo do analista” no manejo de tal posição narcísica e sua identificação com a fase de castração e edipiana; visto não ser uma análise de percurso simples ou “comum” em fase das transferências negativas.

    Zimerman (2008), sobre tal, alerta e orienta: “É parte essencial do setting o desenvolvimento de uma aliança terapêutica, sem a qual a análise não se processará, mas, com a qual a transferência negativa poderá ter livre trânsito para se manifestar nas suas formas mais ruidosas, de modo a alavancar a progressão exitosa da análise. ”

    Referências bibliográficas

    NASIO. J.-D. Lições sobre os sete conceitos cruciais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.

    ZIMERMAN. David E. Manual de técnica psicanalítica: uma re-visão. Porto Alegre: Artmed, 2008.

    O presente artigo foi escrito por Marcos Castro. Psicanalista clínico, pesquisador, professor, escritor, palestrante. Residente em Ouro Fino – Sul de Minas Gerais. Atendimento presencial e online. Contato: Instagram – @marcos_castro_castro

    One thought on “Conceito de Narcisismo em Freud e na Psicanálise

    1. O narcisista é isento de empatia, sentimento de amor ou qualquer outro sentimento, na realidade esse tipo de personalidade ilustra a ausência total de sentimentos, ele espelha o outro, para dessa forma ser parte integrante de uma sociedade, entenda-se aqui por sociedade qualquer grupo no qual busque se inserir, estuda o outro e reage como o outro deseja tornando-se assim “perfeito” aos olhos do outro e dessa forma manipula, extrai vantagens para si mesmo enquanto vai minando a força e a capacidade do outro de SER, começa um processo de desvalorização, de agressividade muitas vezes disfarçada, o controle disfarçado de cuidado, a destruição do outro para a construção de si mesmo como o centro de tudo. A melhor estratégia que a vitima do narcisista pode adotar é contato zero e terapia para reconstruir-se pois com certeza ninguém passa incólume em um relacionamento com um narcisista. Como o narcista não tem filtro pois para ele é natural que suas vontades e desejos sejam atendidos de forma incondicional e acreditam ter todas as qualidades, direitos e poderes fica difícil faze-los entender que precisam se tratar, assim sendo, estão sempre em busca de preencher o eterno vazio em que vivem.

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