condição existencial gay

Condição existencial gay e a (im)possibilidade de remissão

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A expressão denominada de ‘remissão da condição existencial gay’ é uma versão entendida por muitos analistas como ‘politicamente correta’ do conceito ‘cura gay’. Para não mais falarem sobre o termo ‘cura gay’ que desperta asco e irrita muitos agentes e movimentos sociais alguns teóricos inventaram esse novo termo que pretende gerar uma sensação de ser livre, leve e suave; alguns usam a sigla buscar ser ‘LLS’ (livre, leve e suave) diante de segmentos sociais libertários que não aceitam a premissa da existência da cura gay de viéis conservador.

A remissão da condição existencial gay

O tema ganhou tração quando um pastor evangélico publicou uma ‘live’ (vídeo) nas redes sociais desafiando a sociedade digital e em geral de que ele gera a cura gay e a torna realidade e leva pessoas para testemunhos verbais além de convertê-las na sua fé. A live foi polêmica e por alguns considerada prosélita (busca de fiéis) gerando amor e ódio nas redes sociais. Ora, o tema além de ser desafiador esta sujeito a gerar conflitos sociais por causa da tese dos pressupostos.

Porque para se falar em ‘cura gay’ se pressupõe que exista uma doença prévia seja psíquica ou biológica. Este tem sido o vetor comum do ponto de partida da crise dialética do tema. O contraponto ou a contra tese do MSL,(Movimento Social Libertário) em vários países, que abriga como um grande guarda-chuva várias vertentes e que tem uma agenda arrojada e vem conseguindo no tecido social grandes conquistas até inéditas é a posição de que não existe doença mental ou psíquica no case gay, mas apenas uma condição existencial.

Muitos gays passaram a ser percebidos não mais portadores de doença mental. Muitos operadores da saúde mental ainda tem uma visão incrustrada no meio acadêmico que pode não ser uma doença mental e biológica mas, seria em tese, uma perversão. E o tema é tão complexo que muitos atores sociais possuem suas visões muito próprias e algumas de difícil reversão.

Condição existencial gay no campo metafísico

No campo metafísico, por exemplo, alguns espíritas entendem que é um espirito obsessor sem luz que precisa ser exorcizado. No mesmo diapasão alguns pastores de várias denominações entendem que é o diabo no corpo, que é preciso fazer o ‘descarrego’ e livrar a pessoa da influência de satanás ou lúcifer. Vejam como são delicadas as variantes da concepção metafísica. O pastor que postou a ‘live’ afirmou categoricamente que ‘cura gay’ já partindo de um pressuposto.

Eles desconhecem a concepção freudiana do homossexual na teoria psicossexual da libido. Alguns até conseguiram estudar a teoria, mas não aceitam. Então é preciso ficar atento quanto a postura diante da teoria dos pressupostos epistemológicos. Quem parte de um determinado pressuposto epistemológico evidente que vai estruturar a sua concepção em cima da vertente ou amarrar o lastro como referem analistas estabelecendo elos associativos.

Por outro lado, existem outros ramos de ciências e técnicas que também entraram nessa disputa dialética. O tema é muito concorrido porque existem várias teses digladiando com contra-teses na busca de uma possível síntese. Não podemos esquecer e nem perder de vistas que existe ainda a pesquisa de época que dói em muitos. Antigamente falavam na sodomia. Ocorreram épocas em que era usado o termo ‘pederastia’. E era algo muito delicado às sociedades onde vazarem informações de bastidores formando-se boatos de que uma pessoa era ‘pederasta’.

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Condição existencial gay e a concepção de desejo e libido

Muitos recorreram a duelos e depois, jurisdição visando obter a condenação e prisão de quem usava o termo e discriminava terceiros. E a polêmica foi ganhando corpo em torno justamente de que o homossexual (gay) era doente mental e que precisaria ser curado. Que fique bem claro que eram sociedades operacionalizando seus ‘pressupostos epistemológicos’ de época.

Este estigma foi se perpetuando. Até na Igreja Católica Romana Apostólica o tema ganhou muito destaque e muitos eram punidos na Idade Média (476AC-1453DC) queimados vivos em fogueira para levar consigo o pecado capital e a maldição. Não havia concepção de desejo e libido e energia pulsional. Isso só apareceu com Freud.

Vamos encontrar no Pentateuco (Bíblia) nos famosos cinco livros (Gênesis, Êxodos, Levítico, Números e Deuteronômio) na época de Moisés (1526 – 1406 AC), em especial no livro de Levítico a questão de que o coito anal era considerado uma maldição punida com a chamada desgraça divina idem mulher deitar com mulher ou com animais, que era chamada de bestialidade. Já existia o desejo e catexis, mas não sabiam. Não havia uma consciência dessa teoria.

Freud e a condição existencial gay

Depois na pré-modernidade e na modernidade propriamente dita, o tema virou um tabu e muito censurado, mas a punição criminalizada foi decaindo. Com o advento da pós-modernidade dos tempos líquidos o tema foi se flexibilizando. Ainda esta num arco de ‘pré-juízos’, mas mais arrefecido. Vale destacar e frisar bem e essa é parte mais importante deste enfoque, que Sigmund Freud (1856-1939) apenas decifrou o mecanismo desta condição existencial.

Existe uma concepção de que Freud teria em tese, firmada a condição como doença. Não foi de autoria dele tal pré concepção e nunca foi uma verdade técnica da literatura freudiana. Ele apenas descobriu e decifrou o mecanismo da energia que se fixa numa fase e não flui e a pessoa herda a carga da fase. Esta é a teoria do fixismo da catexis. A energia se fixa numa fase psicossexual e não flui naturalmente como deveria devido a traumas.

A Psiquiatria nas suas formulações e bem antes da concepção freudiana da teoria psicossexual foi que considerou como uma doença mental e que poderia ser catalogada e constar de manuais como de fato foi. Mais tarde vão remover da visão de patologia mental para uma forma de perversão. Até que a visão social libertária vai propor que tal condição existencial não seja perversão, mas sim um trauma.

A compreensão do MSL

O MSL começou a entender que era preciso compreender a visão freudiana sem ideologizar o tema e sem barreiras ideológicas. Foi um grande avanço e que vem se projetando no tecido social evidente com ressalvas. Existem setores que relutam em aceitar como condição existencial e levam como já foi referido para o plano metafísico em várias formas de vertentes como, por exemplo, ser uma questão espiritual.

Já ouvimos pessoas expressarem que são um espírito feminino num corpo masculino ou um espirito masculino num corpo feminino. A biociência entrou em campo advogando que não, que pode ser uma questão hereditária, o genótipo e o fenótipo. Pode ser um hermafrodita, enfim, existe um leque de possibilidades cientificas porque os cases aparecem no tecido social.

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    Não raro já houve cases de uma pessoa ter ao mesmo tempo pênis e vagina, e sendo mulher, muitos pelos pelo corpo todo. E jovens meninos desenvolverem mamas e não terem pelos, por questão hormonais hereditárias. O tema não é pacífico e continua sendo um desafio.

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    A questão da Filosofia sobre a condição existencial gay

    A Filosofia também entrou em campo quando a Simone de Beauvoir (1808-1986) lança seu juízo filosófico expressando que ninguém nasce mulher (sic, ou homem), mas, ‘ torna-se’. Ou seja, ao invés de aceitarmos os valores prontos da Igreja ou de uma tradição qualquer, somos completamente responsáveis por nossos atos, por nossas escolhas, valores e sentidos.

    ortanto, não haveria a remissão ou cura dos gays, mas uma condição existencial. Muitos teólogos dizem que querem legitimar algo que não dá para se aceitar porque é uma anomalia e uma excrescência.

    Vale salientar que são posições de contra-teses amarradas a pressupostos epistemológicos. Todo e qualquer tema polemico que pretenda uma conciliação ou reconciliação social e acadêmica precisa de um consenso e todos os temas defluem de pressupostos epistemológicos. Isso precisa ficar bem claro.

    Considerações finais

    Devemos rememorar que Freud, por exemplo, excluiu a neurose do campo da psicose. Antes de Freud, a pessoa que era neurótica era considera doente mental ou possuidora de uma psicose. Depois dos estudos de Freud tal concepção começa a ruir e se dissipar. E, atualmente, sabemos que o neurótico não é na média e nem necessariamente, portador de psicose.

    Na pós-modernidade dos tempos líquidos as ciências com suas técnicas e métodos começam a buscar interfaces por meio da inter, pluri, multi e transdisciplinariedade; atualmente, buscam de forma mais madura a poli e a metadisciplinadridade que se constitui um novo modo de encarar os dilemas e desafios sociais das condições existenciais

    Por esta razão é que ao invés de se falar em cura gay que não existe, já falam em compreensão da condição do estado existencial

    O presente artigo foi escrito por Edson Fernando Lima de Oliveira ([email protected]) é licenciado em Filosofia e História. Possui PG em Ciências Políticas, acadêmico e pesquisador de Psicanálise Clinica e Filosofia Clinica.

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