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Crianças que mordem: será realmente um ato agressivo?

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Neste artigo falaremos sobre as crianças que mordem. As famosas mordidas que tanto costumam aterrorizar os pais dos pequenos “agressores”, quanto das indefesas “vítimas”, costumam causar desacordos e muita confusão nos grupos de Whatzapp e na sala da direção escolar.

Entendendo as crianças que mordem

Quem gosta de ver seu filho machucado? Ninguém, não é? Os pais destas crianças mordidas muitas vezes chegam ao consultório sentindo-se culpados por deixarem seus pimpolhos à mercê de crianças ditas por eles “violentas”, correndo o risco de um perigo maior, julgando-se e carregando, nas costas, a dor da culpa. Já os pais dos pequenos danadinhos mordedores não sabem aonde colocar as mãos, ficam encabulados, sem reação e sem justificativas para um fato tão alarmante. Digo, aqui, caro leito que ambas famílias se sentem extremamente preocupadas e agredidas à sua maneira.

Mas, você deve estar se perguntando, o que a psicanálise tem a ver com a mordida? Já nos informava, Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, que o primeiro contato da criança com o mundo real é pela boca (fase oral). Freud percebeu que uma criança, ainda muito pequena, começa a conhecer o mundo e despertar para ela, através da sensação de colocar e sentir através desta via. Tudo se coloca nela: seio materno, mãos, pés, objetos que estão ao seu alcance: tudo vai à boca. E colocando o mundo, ao seu redor, na boca ela vai experimentando sensações, aumentando sua percepção sobre o que a cerca, experimentando diferentes gostos, texturas, pesos, tamanhos e formas.

A cada instrumento que vai até ela, o pequeno curioso vai se adaptando e reconhecendo-se enquanto partícipe social. A boca é, literalmente, a porta de entrada para que esta criança possa se contactar com o mundo exterior, onde o seu uso perpassa, não apenas, o conhecimento dos objetos materiais, mas o contato direto com a proteção materna, no momento da amamentação, e quando chora utiliza-se, também, este instrumento para manifestar suas emoções. O choro das crianças que mordem é, sem dúvida alguma, a principal via de comunicação deste recém-nascido.

Crianças que mordem e seus pais

Os seus pais e familiares que têm uma convivência mais próxima com esta criança vão aprendendo a identificar cada tipo de choro, e assim dar-lhe um sentido para cada situação. Perceba que, quando o pequeno desbravador não consegue o que quer, e como ainda não sabe verbalizar suas emoções, ele grita, chora, berra faz sua cena teatral para chamar atenção dos seus responsáveis. Não pense que este comportamento está associado à falta de limites ou a um comportamento desviante!

Chorar e fazer birra é, para esta criança, natural. É a forma mais rápida e prática de expressar seus sentimentos e necessidades. Porém, tudo de mais é sobra, como já diz o ditado! Quando este comportamento se torna corriqueiro é importante que seus genitores acendam o pisca alerta pois é um sinal claro de que esta criança não está encontrando outras formas de se manifestar.

É mister termos a capacidade de compreendermos que ela necessita de ajuda e fazer com que a mesma encontre novos caminhos para se expressar, que não seja através dos gritos, das birras e do choro. Mas o que são estas birras? E este choro manhoso e persistente? Normalmente são causados por frustações momentâneas e quanto mais se grita e mais birra faz, seu nível de estresse e frustração aumenta vertiginosamente.

Sobre a educação

Quanto mais estas crianças que mordem acostumam a usar estes artifícios, mais difícil ficará para seus pais e professores descontruírem esta prática, ou seja, mais difícil conseguir fazê-la parar. Não estou aqui para receitar fórmulas mágicas para acabar com estes comportamentos que, muitas vezes envergonham os genitores em locais públicos ou em reuniões familiares. Pais e educadores são os principais atingidos com estas reações. Sendo na escola ou em casa, ambos, muitas vezes, perdem o controle da situação deixando o pequeno infante ainda mais desorganizado emocionalmente.

Quando ambos, compreendem a situação, quando começam a observar os sinais, conseguem, paulatinamente, encontrar caminhos e soluções para este pesadelo. Ignorar o acesso de raiva ou de birra e deixar que a criança pare por conta própria, aguardando-a se acalmar, é uma boa opção, porém, outras vezes, será necessário utilizar-se da firmeza ou até mesmo confortá-los oferecendo algo para beber, conduzindo-a para lavar o rosto, dando-lhe um abraço e dizendo “estou aqui”. É importante que seu filho, principalmente os mais grandinhos, compreenda que, após uma crise de raiva, choro ou birra você se encarregará de informa-lo que aquele tipo de comportamento não é aceitável e que não irá mudar a sua decisão.

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Quando esta criança já verbaliza é o momento dos pais e educadores darem o momento da fala aos pequenos estressados, dar este espaço de fala é pedir que expresse seus sentimentos e que não é através da birra que a situação irá se reverter. Quando se conversa, se faz a arte da política, que nada mais é do que a arte do bem comum, dos ajustes e dos combinados. Fazer política é mediar, é encontrar caminhos, possibilidades, sugestões. Conversar, negociar o que pode ou não ser feito, os direitos e deveres, o que se deve ou não fazer é imprescindível para um relacionamento assertivo entre pais/filhos, educadores/alunos.

Compreenda a necessidade das crianças que mordem

Caro leitor, você deve estar imaginando que tudo isso parece simples demais, porém, só quem realmente tem em casa ou na sala de aula filhos e alunos com este perfil sabe, o quão difícil é mediar e o quão importante é praticar a arte da sensibilidade para poder compreender as necessidades destas crianças que está querendo comunicar-se, através de ações, não tão assertivas, através dos seus sentimentos e, acima de tudo, o que ela é capaz de assimilar disso tudo com nossos limites. Sem parceria família/escola estas ações ficam sem sentido.

As crianças devem e precisam de regras delimitadas e espaço de diálogos para se expressarem. E os pais e educadores sempre precisam trabalhar em conjunto mesmo sabendo que cada família tem seus valores e costumes, é inadmissível ações que prejudiquem o grupo. E com as birras e os acessos de raiva, muitas vezes vem as tais mordidas. Quando a criança começa a obter seus primeiros dentes começa, paralelo a eles o pesadelo dos pais e educadores.

Como a mordida vem da boca, nada mais justo de ser ela, também, uma maneira de conhecer e de se comunicar com o mundo ao seu redor. Mordendo, inicialmente seus objetos pessoais, esta criança vai tendo a percepção de várias coisas: o que é duro, ou mole, áspero ou liso por exemplo. Todo esse novo é um mundo recheado de expectativas para esta criança, inclusive o próprio susto ao ver um coleguinha chorar de dor com a sua mordida. Descobrir que o coleguinha reage à mordida é uma aventura e tanto.

O contato com o social

Descobrir que seu coleguinha é diferente dos seus objetos inanimados (mordedores, chupeta, etc.) que ele até então mordia e mordia e não havia reação destes objetos é surpreendente. Morder é fascinante, mas tão fascinante que a criança, com certeza, vai querer repetir a dose! Mas, será que toda criança será uma mordedora inveterada? Provavelmente sim! Crianças, muitas vezes, expressam seu afeto através de brincadeiras de morder. Logo, estas ações acabam gerando modelos de imitação para os pequeninos infantes.

Eles utilizam estes modelos no seu contato com o social. O único problema é que, por serem inexperientes, não conseguem mensurar a força que colocam na sua dentada, nem tão pouco as consequências que isto gerará aos seus pares, ou seja, não sabem, ainda, as consequências desse comportamento. Jamais desejo afirmar, aqui, que seja desaconselhável brincar, com seus filhos, usando a boca! Jamais! Desde que respeitadas as particularidades e as sensações da criança, esses momentos podem ser de muito afeto, de grande intimidade e de criação de vínculos entre a família.

Aconselho que vá mostrando para esta criança, sem gritar nem impor que ela poderá provocar dor e machucar seus amiguinhos se mordê-los. É importante ressaltarmos, aqui, que a diferença individual de cada criança deve ser levada em conta. Cada uma reage, a partir das suas experiências com o mundo que as cerca. Muitas vezes um empurrão, uma rasteira ou até mesmo um beliscão pode provocar reações diferentes em diferentes crianças. Algumas se estressam ao ouvir um som alto, outras não estão nem aí!

Os sentimentos por trás da mordida

Umas gostam de serem tocadas, abraçadas, outras não, umas são mais tolerantes, outras atingem um grau de frustração com maior facilidade, umas mais ciumentas que as outras, ou seja, cada uma reage à sua maneira diante dos acontecimentos propostos. Conseguimos, claramente, perceber algumas situações em que estas crianças, em um espaço de socialização, se sentem contrariadas e muito desconfortáveis em ter que compartilhar e disputar pelos brinquedos que ela acha que são seus.

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    Vemos crianças que reagem explosivamente, que parte para cima do coleguinha numa atitude de possessividade e raiva, enquanto, também, temos aquelas que choram para chamar atenção do adulto, para que este venha em seu auxilio, ou até mesmo aquelas que optam por uma política da boa vizinhança não disputando seu espaço legítimo e saindo à francesa.

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    O morder é uma ação de delimitação de espaço, aquela criança que morde, muitas vezes quer deixar claro que não admite que seu território seja ocupado por um coleguinha novato na turma, por exemplo, por conta, também, muitas vezes do ciúme e da insegurança. Sem compreender o que realmente está acontecendo, esta criança descarrega sua angústia emocional, sua ansiedade na forma que ela conhece: a mordida!

    Conclusão sobre as crianças que mordem

    É importante que compreendamos, queridos pais e educadores, que necessitamos encarar a mordida com tranquilidade. Ser firme e esclarecer para esta criança que, quando ela morde, ela machuca, a pessoa sente dor e, acima de tudo buscar maneiras de ajudá-la a encontrar meios de como comunicar-se assertivamente com seus pares. Mostrar possibilidades de expressar-se, seja pela fala, pelos gestos as suas emoções.

    E, acima de tudo, que vocês compreendam que esta fase oral é definitivamente normal e muito importante para o desenvolvimento dos seus filhos e alunos. Esse uso do recurso de morder vai, paulatinamente, desaparecendo quando a linguagem estiver mais desenvolvida e aprimorada em seus pimpolhos e pimpolhas.

    O presente artigo foi escrito por Fernanda Germano é Psicanalista, Homeopata, Socióloga, Pós-Graduada em Psicologia. Contato instagram @lanimaterapiasintegrativas e site clinicalanima.com.br

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