depressão e psicanálise

Depressão e Psicanálise: a importância de saber ouvir

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Você conhece a relação entre depressão e psicanálise ? A depressão é, sem dúvidas, o grande mal que assola o século XXI. Não só no Brasil, como em várias partes do mundo, a falta de vontade pela vida, o dissabor para com a existência e a melancolia, sem explicação aparente, não escolhe etnia, nação ou status social.

Percebi, nestes últimos anos, ao exercer minha práxis docente (sou professor de História e de Hipnose) que o público adolescente está ficando cada vez mais contaminado pelos sintomas depressivos, chegando ao caso extremo de buscarem refúgio no suicídio.

Público juvenil: depressão e psicanálise

No ano de 2018, perdi um ex-aluno que tirou sua própria vida. Um rapaz aparentemente alegre, brincalhão, assíduo nos cultos de sua igreja e de boa família. Fiquei me perguntando sobre as causas que levariam uma pessoa, aparentemente equilibrada, a cometer suicídio. Não achei a resposta para a morte deste meu ex-aluno, mas, ao longo da minha prática, pude perceber alguns motivos (não sei se são os principais) que podem levar adolescentes a entrarem em quadros depressivos.

Desde que iniciei minha carreira docente, sempre fui o professor de confiança dos alunos e alunas, que, até hoje, se sentem à vontade para contar sobre seus sonhos, anseios, medos, traumas, desejos, melancolias. Essa prática ganhou um destaque especial em 2019, ano em que me foi delegada a missão de lecionar a disciplina de Competências Socioemocionais (disciplina que se tornou obrigatória na BNCC e cujo objetivo é trabalhar os aspectos emocionais e relacionais dos alunos).

Passei, então, a aliar o conhecimento em Inteligência Emocional com o que estou aprendendo na Psicanálise. Estou podendo observar fatores interessantes, a partir das práticas em sala de aula e de conversas individuais com alguns alunos e alunas. O primeiro elemento que estou percebendo, no tocante a esse aumento da depressão no público juvenil, é a pressão familiar e social.

Depressão e psicanálise

Não importa se é da escola publica ou privada, a cobrança sobre um futuro brilhante, com uma carreira bem sucedida (escolhida pelos pais, para piorar) está causando crises de ansiedade e existenciais nos jovens que, ao não corresponderem às expectativas dos padrões sociais e familiares, tendem a intensificar este quadro, pressionando a si próprios (em muitos casos, um resultado negativo os faz se sentirem indignos da sociedade, da família e… da vida).

Em segundo lugar, vou elencar um fator que considero cruel para destruir o estado psicológico e emocional de um jovem: a comparação com os demais. Principalmente na rede pública de ensino constatei muitos casos de alunos com problemas no ambiente familiar.

Desde pais e mães prematuros, até jovens de faixa etária entre catorze e dezessete anos que possuem jornadas duplas ou triplas no seu dia (estudo, trabalho e ajuda nos afazeres domésticos são os mais comuns).

Autoestima, depressão e psicanálise

Porém, nenhum fator destrói mais a autoestima de muitos deles do que serem comparados “ao primo inteligente da capital”, que já está se formando e vai ter uma vida bem sucedida (nunca precisou trabalhar até chegar ao ensino superior) porque “se interessou” ou ao “filho da vizinha”, que só tira nove e dez na escola e vai ser “médico ou advogado”.

Encaro estas comparações como um vírus mortal na mente, pois proporciona a falácia do mito meritocrático de que, se outros chegaram, você só não chega também se não quiser, tentando colocar no indivíduo que a culpa do fracasso será somente dele. O problema disso é que não se leva em consideração a individualidade cognitiva e emocional, além de desprezar as jornadas diárias na vida de cada pessoa.

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O terceiro e, na minha opinião, mais destrutivo fator é o sufocamento das emoções e das angústias (aqui é que entra a importância da psicanálise neste ponto). O que pude perceber é que, o agravo dos sintomas depressivos nos jovens se dá, não devido aos dois fatores, acima mencionados, mas à falta de liberar as angústias, em forma de desabafo.

O impacto da pressão social

Muitos jovens recebem o impacto da pressão social e da comparação diária. Porém, ao tentarem conversar e desabafar com as pessoas ao redor (principalmente, na fala deles, os familiares), são retribuídos com a indiferença, a negligência, o deboche e o desdém de suas angústias. Isso faz com que se sintam sozinhos, isolados emocionalmente, tendo a melancolia e o sentimento de impotência como consoladores.

Essa ausência de desabafo, somada ao “choro engolido”, à “máscara do sorriso” e a um tímido “estou bem” contribui para a formação de diversas neuroses (a mais comum é a competitividade excessiva com os demais colegas por melhores notas, melhores desempenhos, chegando até a haver desentendimentos e falta de sincronia nos trabalhos em equipe).

Em outros casos, o pior acontece: o estado depressivo e o sentimento de não ser uma pessoa boa o suficiente para o mundo, para a sociedade e para a família leva os jovens à prática do suicídio. Diante destes três fatores, pude perceber que os alunos não me buscam para desabafar pelos conselhos, nem pelo ethos de uma pessoa supostamente mais “sábia”. A busca maior se dá justamente por eu ser, na visão deles, um bom ouvinte.

Considerações finais

Quem está desesperado, descontente com a vida, em conflitos internos e indecisos sobre o futuro nem sempre quer um conselho, um parecer, um julgamento. Apenas quer ser ouvido, nada mais. Saber ouvir sem julgar, sem interromper ou sem se mostrar indiferente talvez seja, a meu ver, a maior habilidade de um psicanalista.

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    Todos estão sempre se achando no poder de ter a resposta para tudo, de saber as fórmulas ou os passos para a felicidade ou, até mesmo, de venderem uma salvação. Mas, nada destas supostas soluções substituem o ato de saber ouvir, de mostrar ao outro que ele terá atenção para desabafar sem ser julgado.

    Saber ouvir, deixar o outro desabafar, demonstrar empatia pela angústia do seu emissor, não só pode deixá-lo mais aliviado, como pode ser um ato capaz de salvar vidas e tratar feridas que os fármacos jamais serão capazes de aliviar.

    O presente artigo foi escrito por Dhierclay Alcântara: professor de História e Psicanalista, com foco em psicanálise e relações socioemocionais na escola. Atua na rede pública de ensino pela Paraíba e pela prefeitura de Parnamirim-RN, onde reside atualmente. Além disso, também atua como hipnoterapeuta na Grande Natal. Email: [email protected]

     

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