desejo e felicidade

Desejo e Felicidade: entendendo a equação humana nos tempos atuais

Posted on Posted in Comportamento

Como entender Desejo e Felicidade, os fatores da “fantástica” equação humana nos tempos atuais? O presente artigo propõe-se a uma breve reflexão a respeito da relação entre o Desejo, sua origem e o conceito de felicidade, uma vez que trata-se atualmente a felicidade, de uma das mais procuradas definições presentes no senso comum da absoluta maioria das manifestações culturas de nossa época.

“O primeiro desejar parece ter consistido numa catexização alucinatória da lembrança da satisfação. Essas alucinações, contudo, não podendo ser mantidas até o esgotamento, mostraram-se insuficientes para promover a cessação da necessidade, ou, por conseguinte, o prazer ligado à satisfação. (FREUD, 1900-01, p. 627)

Desejo e felicidade

Para Laplanche e Pontalis (1964/1988) o desejo “… refere-se à vivência de satisfação após a qual “…a imagem mnésica de uma certa percepção se conserva associada ao traço mnésico da excitação resultante da necessidade. Logo que esta necessidade aparecer de novo, produzir-se-á, graças à ligação que foi estabelecida, uma moção psíquica que procurará reinvestir a imagem mnésica desta percepção e mesmo invocar esta percepção, isto é, restabelecer a situação da primeira satisfação: a essa moção é que chamaremos desejo; o reaparecimento da percepção é a ‘realização de desejo’ ”.

Dessa forma, podemos entender o desejo como resultante direto dos primeiros movimentos libidinais que acabam por vincular-se aos objetos externos que venham a assegurar fontes de satisfação, corroborando para a criação de “amores primários” relacionados a sensações de saciedade e “proteção” dos possíveis temores causados pelo mundo exterior.

Por essa premissa podemos compreender também a diferença entre o conceito psicanalítico de desejo e uma necessidade que se apresente ao sujeito podendo vir a ser suprida a partir de uma ação específica determinada por uma condição “real”.

Desejo, felicidade e totalidade

“…o desejo é uma ideia (Vorstellung) ou um pensamento; algo completamente distinto, portanto, da necessidade e da exigência. O desejo se dá ao nível da representação tendo como correlato os fantasmas (fantasias), o que faz com que, contrariamente à pulsão (Trieb) — que tem de ser satisfeita —, o desejo tenha de ser realizado.” (GARCÍA-ROZA, 2004, p. 83)

Uma vez que compreendemos então, os desejos assim como os prazeres emanados na satisfação dos mesmos, como fenômenos relacionados diretamente à instâncias psíquicas alheias ao “Real” e tecidas de linguagem, nas quais seus símbolos e representações fazem-se distantes de qualquer tipo de lógica alcançável por outro sujeito senão o próprio “desejante”, podemos também considerar qualquer tentativa de elaboração de um “padrão de felicidade” como um iminente fracasso pela total impossibilidade de alcançar-se na totalidade, indivíduos com exatamente as mesmas subjetivações simbólicas e consequentemente com os mesmos desejos.

A satisfação real do desejo e felicidade

“A felicidade, no reduzido sentido em que a reconhecemos como possível, constitui um problema da economia da libido do indivíduo. Não existe uma regra de ouro que se aplique a todos: todo homem tem de descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo.

Todos os tipos de diferentes fatores operarão a fim de dirigir sua escolha. É uma questão de quanta satisfação real ele pode esperar obter do mundo externo, de até onde é levado para tornar-se independente dele, e, finalmente de quanta força sente à sua disposição para alterar o mundo, a fim de adaptá-lo a seus desejos.” (FREUD, 1927-31, p. 47)

Leia Também:  Retomada das aulas: reflexões para professores, pais e alunos

O desejo inadequado

Dessa forma, entendido como impossível ante as estruturas psíquicas que nos são acessíveis no presente momento da humanidade, a criação de um padrão de felicidade que venha a contemplar-nos igualmente; o quão devastador emocionalmente pode vir a ser para um sujeito dotado de distintas, porém não patológicas mas igualmente eficazes relações com a satisfação de seus desejos, reconhecer-se envolto em um meio social que, por razões de um sistema torpe e corruptível em todos os possíveis aspectos, o define direta ou indiretamente como dotado de um “desejo inadequado”?

Se a manifestação dos desejos é factual na constituição impar de cada indivíduo, não seria a leviana busca por um padrão de felicidade, a alma mater na obtenção inerente do mais fértil dos cenários para o surgimento de novas formas de sofrer?

Proponho então que passemos a entender a felicidade apenas como material resultante de um conjunto de momentos de satisfação libidinal, únicos a cada sujeito por definição, e passemos a combater em prol da saúde emocional de todos os que desejam, a tão distópica quanto patológica fábrica de supostos padrões de felicidade, sustentados em promessas absolutamente irresponsáveis, condenando a todos nós ao incessante buscar do grande sucesso de todos os outros.

A identificação imaginária do desejo e felicidade

“a identificação imaginária é a identificação com a imagem na qual nos parecemos passíveis de ser amados, representando essa imagem “o que gosta- ríamos de ser”, ao passo que a identificação simbólica se efetua em relação ao próprio lugar de onde somos observados, de onde nos olhamos de modo a parecermos mais amáveis a nós mesmos, merece- dores de amor. (…) fato que não deve ser negligenciado nessa distinção é que i(a) já está sempre subordinado ao I(A): é a identificação simbólica (o ponto de onde somos observados) que domina e determina a imagem, a forma imaginária em que parecemos dignos de amor a nós mesmos. (Zizek, 1992, p.104,107, grifo do autor)

Conclusão

Por fim, compartilho minha crença pessoal, já entendida como não absoluta, de que, se passássemos a compreender o possível poder devastador de um discurso assim como a também possível responsabilização sobre o mesmo, é certo que viveríamos ante a menores probabilidades de patologias psíquicas, porém imersos no silêncio dos que buscam por “consciência”. Que sejamos então todos felizes em todas as singulares manifestações de nossa indefinível felicidade.

O presente artigo foi escrito pelo autor Daniel S., Psicanalista Clínico, autor, colunista e colaborador literário em Psicanálise, Filosofia e Cultura. @psicanalise.br www.minhaterapia.org

    NÓS RETORNAMOS PARA VOCÊ



    Quero informações para me inscrever na Formação EAD em Psicanálise.

    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *