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Distimia e Depressão: semelhanças e diferenças

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Quais semelhanças e diferenças entre distimia e depressão? A rigor, podemos dizer que a distimia seja um quadro de tristeza um pouco mais brando que a depressão. A distimia não é incapacitante, embora possa ser limitante. Com o tempo, uma distimia não tratada pode converter-se em depressão.

A nomenclatura dos casos patológicos de tristeza aguda já mudou muito no decorrer do tempo. O termo melancolia era o nome genérico, até o século XVIII, para todo transtorno relativo a angústias de desânimo agudo. Com o tempo, surgiram especificações na nomenclatura.

Melancolia, distimia e depressão decorrentes do luto

Em 1917, Freud publica um dos seus estudos mais profundos e importantes, correlacionando o luto e a melancolia, sendo base para que entendamos a depressão.

Rompendo a visão predominante da época, que acreditava ser que apenas causas físicas as desencadeadoras da depressão, Freud apresenta uma abordagem em que a gênese deste sofrimento psíquico é emocional e mental.

Inicialmente, o texto expõe os pontos em comum do estado de luto e da melancolia, entendendo luto como a perda de algo que, não necessariamente, significa a morte de uma pessoa. Estes pontos incluem:

  • a influência do ambiente;
  • o desânimo profundo;
  • a perda do interesse no mundo e nas coisas;
  • a perda da capacidade de amar; e
  • a inibição das atividades cotidianas.

Diferenças entre distimia e depressão

Podemos dizer que o que os antigos chamavam de melancolia pode ter o significado de depressão (se melancolia severa) ou de distimia (se melancolia mais branda).

Assim, podemos dizer, quanto às diferenças entre distimia e depressão, que:

  • a distimia pode ser considerada uma depressão leve e não incapacitante, um pessimismo generalizado na interpretação de fatos e relacionamentos;
  • a depressão é uma distimia mais grave, que pode chegar a ser incapacitante e acarretar maiores dores psíquicas ao sujeito.

Distimia e depressão merecem atenção e tratamento. A distimia não deve ser negligenciada, como sendo um traço de personalidade do sujeito: quando não tratada, a distimia pode converter-se em depressão.

Assim, a pessoa pode passar por terapia psicanalítica. Ou, ainda, pode fazer um Curso de Psicanáliseaprofundando-se neste e em outros temas da mente. Isso lhe dará base para ressignificação, autoconhecimento (para si) ou elementos para ajudar pessoas distímicas ou depressivas à sua volta.

Após traçar este paralelo do que há em comum, o pai da psicanálise passa a descrever as divergências existentes entre distimia e depressão. Apenas na depressão há uma evidente diminuição no sentimento de autoestima, uma desvalorização de quem se é e dos próprios potenciais.

A autocrítica e a autodepreciação, tão presentes na então chamada melancolia, não aparecem no processo de luto. Enquanto no luto o ego, fragilizado pelas memórias e dores se recupera, restaurando a sua condição saudável, na depressão o ego permanece desvalorizado e fragilizado.

Em suas palavras, trecho do texto supracitado, diz Freud:

“O paciente representa seu ego para nós como sendo desprovido de valor, incapaz de qualquer realização e moralmente desprezível… Esse quadro de um delírio de inferioridade (principalmente moral) é completado pela insônia e pela recusa a se alimentar, e o que é psicologicamente notável por uma superação do instinto que compele todo ser vivo a se apegar à vida”.

O resultado do conflito entre Id, Ego e Superego

A autodesvalorização descrita por Freud no processo depressivo é também exprimida pela desconexão com o próprio corpo, pelo desinteresse de realizar os atos mais simples do cotidiano que servem à manutenção da vida, como comer e dormir.

É importante lembrar da estrutura psíquica desenhada por Freud, que, há época não estava descrita como ID, ego e superego, mas como consciente, pré-consciente e inconsciente. Estas três figuras psíquicas não andam alinhadas em todo o tempo e o conflito gerado entre elas pode gerar sofrimento emocional.

O ID solicita do Ego a satisfação dos seus desejos instintivos e este, vê-se sem conseguir equilibrar tais anseios com as regras morais e sociais dispostas pelo Superego a um despertar de frustrações, que diminuem a autoestima e visão positiva de si mesmo.

Luto e melancolia: diferentes alvos

A antes considerada doença da bílis negra, traz ao indivíduo a desistência da vida, permeando a sua relação com ela por dor e sofrimento. Perde-se a relação do indivíduo com o desejo, criando uma crescente impotência diante do mundo.

Enquanto no luto o indivíduo perde o objeto de desejo, na melancolia ele perde a relação consigo mesmo. Ou seja, melancolia e depressão atingem diferentes alvos. Nas palavras de Freud:

“Por fim, deve ocorrer-nos que, afinal de contas, o melancólico não se comporta da mesma maneira que uma pessoa esmagada, de uma forma normal, pelo remorso e pela auto-recriminação.”

As contradições do indivíduo melancólico

Sentimentos de vergonha diante de outras pessoas, que, mais do qualquer outra coisa, caracterizariam essa última condição, faltam ao melancólico, ou pelo menos não são proeminentes nele. Poderia se ressaltar a presença nele de um traço quase oposto, de uma insistente comunicabilidade, que encontra satisfação no desmascaramento de si mesmo.

O ponto essencial, portanto, não consiste em saber se a autoafirmação aflitiva do melancólico é correta, no sentido de que sua autocrítica esteja de acordo com a opinião de outras pessoas. O ponto consiste, antes, em saber se ele está apresentando uma descrição correta de sua situação psicológica.

Ele perdeu seu amor-próprio e deve ter tido boas razões para tanto. É verdade que então nos deparamos com uma contradição que coloca um problema de difícil solução. A analogia com o luto nos levou a concluir que ele sofrera uma perda relativa a um objeto; o que o paciente nos diz aponta para uma perda relativa a seu ego.

Melancolia como um sintoma de neurose subjacente

Freud também aponta que, na melancolia, há uma relação de amor e ódio com o objeto amado que se foi e uma estrutura da psique neurótica obsessiva. Neste sentido, o ódio que sentia pelo objeto amado lhe faz entrar em conflito e ele se culpa por tê-lo perdido.

A vergonha pelo ódio que sentia fez com que voltasse para si este sentimento. A perda do ideal de ego, que ocorre no melancólico, desencadeia a falta de ânimo para a vida.

Diante desta visão divergente da puramente física depressão, a psicanálise entende a antiga melancolia com um sintoma de uma neurose subjacente e, para tratá-la, é preciso mergulhar em suas causas desvendando-lhe a raiz.

Uma sociedade vulnerável à depressão

A depressão tem assolado a sociedade moderna e há previsões de que até o final do século ela seja a maior causa de afastamento do trabalho no mundo. Isso evidencia que somos uma sociedade com intenso sofrimento psíquico e que vive em conflito.

Não se pode afirmar ao certo que os intensos desejos despertados pela sociedade de consumo, que confunde desejo com necessidade estejam desencadeando mais conflitos nos indivíduos.

Conclusão

Mas fato é que, mais que nunca, a ideia da raiz deste mal não ser puramente fisiológica parece a mais acertada. Nas sete laudas de “Luto e melancolia”, Freud demonstrou a riqueza e pioneirismo dos seus estudos que traçam uma estreita relação entre melancolia e depressão.

O que até o século XIX chamávamos apenas como melancolia, foi ganhando diferenciações nos séculos XX e XXI, como é o caso dos conceitos de distimia e depressão.

 

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