eu tenho um sonho

Eu tenho um sonho: concepções de Freud

Posted on Posted in sonhos

A famosa frase “eu tenho um sonho” de Martin Luther King Jr ficou mundialmente conhecida por falar sobre o seu desejo de ver a nação americana tornar-se mais justa e igualitária sob o ponto de vista étnico.

Entretanto, falar sobre o sonho onírico é diferente de falar sobre o tipo de sonho descrito por Luther King. Enquanto este tipo de sonho representa um desejo consciente em forma de objetivo ou meta de vida, o sonho que interessa à investigação psicanalista é o sonho que ocorre quando desligamos o nosso consciente e “relaxamos”. Vejamos, a seguir, alguns dos principais processos mentais inconscientes envolvidos nesse tipo de sonho.

Por que eu tenho um sonho para a Psicanálise?

Desde tempos muito remotos, até os dias atuais, os sonhos sempre foram vistos em cultos pagãos e, até mesmo, nas religiões de base cristã, como um fenômeno envolvido em mistérios e transcendentalidade, sendo tomados, muitas vezes, como importantes previsões para o futuro. Para a Psicanálise, desde o lançamento da obra prima de Freud “A interpretação dos sonhos”, em 1900, as representações simbólico-visuais vividas durante o adormecer passaram a ser vistas como portas de entrada para compreensão do inconsciente.

Apesar de ser, biologicamente, um evento neurofisiológico, quando analisado sob a perspectiva do significado, o sonho representa um fenômeno psíquico, e, como tal, interessa à Psicanálise. Mas exatamente quais aspectos do sonho então interessam ao estudo do inconsciente? Muitas pessoas, partindo de um pensamento do senso comum, ainda acreditam que o sonho como um todo traz informações muito importantes sobre o futuro ou sobre o inconsciente do sujeito em si, porém não é assim que acontece na análise psicanalítica dos sonhos.

O sonho sabe o que faz Para compreendermos melhor as técnicas desenvolvidas por Freud na observação do conteúdo latente, revelador do inconsciente, trazido através de um sonho, é necessário primeiro lembrarmos de que muitas informações, atreladas a cargas afetivas angustiantes para o sujeito, são recalcadas para o inconsciente como forma de proteger o sujeito de conviver com essas dores por mais tempo do que o suportado.

 Quando eu tenho um sonho e os mecanismos de defesa

Outras ferramentas de defesa existentes na mente consciente atuam impedindo, na medida do possível, que essas memórias retornem à superfície. Entretanto, quando o sujeito dorme, essas defesas, relaxam e o inconsciente inicia uma série de dinâmicas próprias que serão responsáveis por tentar conduzir essas informações de volta à mente consciente.

Vale salientar que isso ocorre porque parece haver uma demanda pulsional muito forte para o retorno de determinadas informações, elas estariam relacionadas a questões muito importantes para o sujeito e, por isso, conseguiriam, com ajuda de “disfarces” bem elaborados, driblar as barreiras estabelecidas pelo ego e pelo superego. Parece fácil, não é? Uma situação do tipo “ Quando os gatos saem, os ratos fazem a festa”, mas não é bem assim.

Partindo do pressuposto de que, como afirmou Freud, o sonho seja um lugar de realização de desejos inconscientes, os processos envolvidos nesta realização de algo que, segundo a mente consciente, não deveria nem ser lembrado, são fenômenos, no mínimo, complexos, como veremos a seguir: Quer ir ao baile comigo? Antes de tudo, é importante dizer que Freud, ao desenvolver a Psicanálise, introduziu um método completamente diferenciado de análise do sonho.

O que significa para a Psicanálise quando eu tenho um sonho

Essa inovação consistiu em abordar o conteúdo relatado a partir de duas abordagens diferentes, observando-o através dos elementos componentes do: conteúdo manifesto e do conteúdo latente. O conteúdo manifesto representa o relato do “enredo” , ou seja, são os elementos visuais lembrados pelo sujeito que sonhou e descritos ao psicanalista. Por outro lado, o conteúdo latente é composto pelos símbolos e pelas associações presentes no sonho.

Esses elementos disfarçam-se a partir de quatro processos principais genialmente criados pelo inconsciente:

a) Dramatização ou concretização – elementos conceituais abstratos, crenças, desejos, valores do sujeito podem aparecer no sonho representados através de objetos concretos associados a eles em sua essência;

b) Condensação – reunião de vários elementos presentes no inconsciente e representados no sonho através de apenas um símbolo, uma imagem ao mesmo tempo;

c) Desdobramento – desdobramento de um mesmo elemento em vários, de modo que um mesmo conceito/desejo seja representado no sonho através de várias imagens/símbolos diferentes;

d) Deslocamento – um dos processos mais recorrentes no sonho, e consiste na substituição de um conceito do conteúdo latente por um símbolo de outra natureza na parte manifesta do sonho.

Leia Também:  O que pode significar sonhar com abraço?

Considerações finais

Além desses processos, temos outros que também atuam nessa dinâmica de tentativa de uso de uma fantasia para driblar os “seguranças” da mente consciente e conseguir dar vazão a desejos reprimidos. Em decorrência disso, é essencial que o analista esteja atento às associações e aos símbolos recorrentemente existentes nos padrões de crenças, valores e emoções de cada analisando individualmente, o que inviabiliza a adoção de um sistema único de símbolos para interpretação dos sonhos, como propõem muitos livros usados pelo senso comum.

Ao atentar para esses padrões latentes individuais, representados simbolicamente através dos sonhos, o psicanalista poderá compreender também quais são os posicionamentos que o sujeito adota frente as escolhas realizadas nos momentos em que está acordado, dançando conforme as músicas no baile da vida e ajuda-lo a compreender as origens das energias pulsionais existentes por trás dessas associações, promovendo o tão desejado autoconhecimento.

O presente artigo foi escrito por Samantha B. Santos. Psicanalista em formação. Mestranda em Formação de Professores e Especialista em Educação. Contatos: @sbs.santos / [email protected]

    NÓS RETORNAMOS PARA VOCÊ



    Quero informações para me inscrever na Formação EAD em Psicanálise.

    One thought on “Eu tenho um sonho: concepções de Freud

    1. Parabéns, pelo comentário. O assunto é muito interessante, devemos cada vez mais, estudar acerca dos sonhos!

    Deixe um comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado.