sentimento de culpa

Sentimento de culpa: significado em psicanálise

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O presente texto tem como problema o sentimento de culpa. Um dos sentimentos marcantes da sociedade cristã ocidental, que contribui para um mal-estar no cotidiano das pessoas, pode ser atribuído ao sentimento de culpa, em que elas se conferem culpa, consciente ou inconsciente; procuram transferir culpa para alguém, ou lhes é imputada culpa.

Entendendo o sentimento de culpa

Pode-se considerar que a geração atual vive num momento histórico singular, passando por uma fase pandêmica que certamente deixará suas marcas, e se a saúde emocional sempre foi uma realidade em todos os tempos, ao menos nesta se tem agravado. Muito está se escrevendo, discutindo em laives e em outros meios de comunicação sobre questões relativas ao psíquico emocional.

Talvez um dos sentimentos históricos, nem sempre visto como causadora de problemas patológicos, possa ser considerado o sentimento de culpa. Toma-se então o sentimento de culpa como um dos problemas, em especial na sociedade ocidental cristã, que contribuiu ou faz com que se viva num mal-estar.

A atribuição e a consequência da culpa podem ter uma extensão para além da individualidade, subjetiva, podem ter uma dimensão de efeitos externos e coletivos.

O sentimento de culpa na cultura da sociedade

Partiu-se da hipótese que a culpa é um sentimento marcante, em especial na cultura da sociedade ocidental e causa mal-estar, de angústia e neurose, contudo, há várias concepções sobre a culpa e o analista precisa estar atento e lidar com esse sentimento na perspectiva da psicanálise. A culpa, no entanto, recebe um tratamento sob diversos ângulos e concepções a depender do contexto em que é objeto de consideração.

Se tomarmos o termo em si, culpa, pode significar: Schuld, como dívida, estar em débito, ser responsável sobre alguma coisa (Abbagnano, 2000, p.224). No grego para culpa temos os termos como aitia, motivo, acusação; aitios como culpado; o termo enochos, culpado, como sujeito-a, possível de, (Dicionário internacional de Teologia do N.T. p. 569.).

Portanto, dependendo do contexto e campo do saber adquire sentido específico, por exemplo no contexto da religião é considerado como pecado, “erar o alvo”; no campo jurídico pode significar culpa de causar um dano etc.; na ética culpa moral, imputação de responsabilidade consciente. Na psicologia a culpa pede ser vista como um sintoma psíquico emocional e na psicanálise um sentimento de mal-estar, uma neurose. Portanto, o sentimento de culpa presente na sociedade, precisa ser compreendida e contextualizada.

A complexidade do sentimento de culpa

Considerando a complexidade sócio cultural do entendimento do sentimento de culpa, nesse estudo tem-se como objetivo geral: refletir e discutir como o sentimento de culpa se desenvolveu na cultura Ocidental a partir da influência do cristianismo e como a Psicanálise freudiana trata da questão do sentimento de culpa no processo analítico, terapêutico. Como objetivos específicos quer-se:

1) apresentar como a questão da culpa é parte da cultura ocidental cristã;

2) mostrar qual a raiz da culpa e como se desenvolveu segundo Freud;

3) abordar a forma como a psicanálise lida com o sentimento de culpa.

Sobre o desenvolvimento baseado em Freud

Trata-se pois de um estudo qualitativo, baseado em pesquisa e revisão bibliográfica primária, tendo como fontes básicas textos de Freud, em especial “Totem e tabu” (2012); “O mal-estar na cultura” (2012); “O Eu e o Id” {1923} (2020); também se fez uso de textos de comentadores sobre o problema em foco.

A partir dessas leituras fez-se uma reflexão, análise e estruturação do desenvolvimento do texto em três tópicos básicos:

1-Concepção predominante de culpa demarcada pela cultura judaica e cristã;

2-Origem e desenvolvimento do sentimento de culpa segundo a perspectiva de Freud;

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    3- Formas de tratamento do sentimento de culpa, ou processo terapêutico da psicanálise.

    Concepção predominante do sentimento de culpa demarcada pela cultura judaica e cristã

    Conforme o tópico sugere, não se fará um estudo sobre aspectos muito específicos para além de atender o objetivo de pontuar e demarcar que o sentimento de culpa é fruto, como parte do processo do desenvolvimento e da configuração da cultura ocidental, do processo civilizatório. Com isso não estamos considerando que a culpa não exista em outras culturas.

    Conceito de cultura

    Considera-se pertinente fazer uma abordagem sobre o conceito de cultura, que é um tanto abrangente, depende também do contexto e dos saberes que estão em uso, pode ser entendido como paideia, segundo a visão dos gregos clássicos, depois passou-se usar como Bildung, em especial pelos idealistas alemães. Muitas podem ser as perguntas que se possam levantar em torno da cultura, tais como: Qual sua essência? Como se produz? Quais seus condicionantes?

    No entanto, a ideia central pode ser entendida como todo o conjunto da formação de uma civilização. Scheler ao disserta sobre a cultura diz: A cultura é, portanto, uma categoria do ser, não do saber e da experiência. A cultura é a moldagem, a formação deste total ser humano; mas a moldagem e formação não de uma substância material, como no caso da forma de uma estátua ou de um quadro, mas de uma totalidade viva, na forma do tempo, de uma totalidade que não consiste em outra coisa a não ser em evoluções, processos, atos (SCHELER, 1986, p.25).

    Portanto, a cultura não se caracteriza pelo avanço tecnológico e científico, mas por um saber e ser do desenvolvimento de humanização, do espírito. Segundo Freud, a configuração cultural se dá num processo tendo como subjacente uma visão antropológica, em que o ser humano anseia uma finalidade, por uma felicidade, sempre como quem tem falta, em busca de uma perfeição. Em uma das perguntas ele considera, o que os homens revelam ser a finalidade e o propósito, em busca da perfeição (FREUD, 2012, p.62).

    Uma proteção humana contra a natureza

    Mais adiante no referido texto, diz: (FREUD, 2012, p. 87) Basta-nos, portanto, repetir que a palavra cultura designa a soma total de realizações e disposições pelas quais a nossa vida se afasta da de nossos antepassados animais, sendo que tais realizações e disposições servem a dois fins: a proteção do homem contra a natureza e a regulamentação das relações dos homens entre si. O ser humano como parte da natureza, em razão do desenvolvimento, de sua capacidade criativa, gera a cultura ao se relacionar com a natureza, transformando a em subsistência, proteção e, nesse processo, também desenvolve formas de relacionamento entre si enquanto humanos.

    Tratando de cultura, é pertinente trazer algumas considerações do antropólogo Lévi-Strauss, a partir do seu livro “Estruturas elementares do parentesco” (1982), no qual, assim como Freud, parte das estruturas elementares de povos primitivos. Segundo ele, a relação natureza e cultura, originariamente é difícil dizer onde inicia ou acaba uma e outra (1982, p. 42); ainda diz: […] “nenhuma análise real permite apreender o ponto de passagem entre os fatos da natureza e os fatos da cultura, além do mecanismo da articulação deles” (LEVI-TRASUSS, 1982, p. 47).

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    Dois textos, entre outros, são importantes para a noção de cultura em Freud, “O mal-estar na cultura” e “Totem e Tabú, contribuição à história do movimento psicanalítico”. Faremos referências ao longo do texto. Poder-se-ia avançar nas concepções e narrativas sobre o sentido e desenvolvimento do processo civilizatório e cultural, no entanto, o objetivo foi apenas demarcar uma noção sobre o sentido em si da cultura, pois, o foco do texto está centrado no sentimento de culpa e não a cultura em si.

    Culpa como pecado na cultura Ocidental

    Pode-se considerar que a culpa, em forma de pecado, é em especial um sentimento da cultura judaica e cristã, que é tratada e retratada nas escrituras sagradas, que fundamenta a origem histórica do pecado a partir da vida de Adão e Eva, com seu erro em desobedecer a ordem divina (Gn 3). Assim a história bíblica retrata a relação do povo com Deus, pontuando desobediência em culpa, essa desobediência é materializada, objetivada nas relações entre as pessoas e civilizações.

    Nesse transcurso, segundo o relato bíblico, é evidenciado a ira de Deus de um lado e sua misericórdia do outro, a depender do povo ou indivíduo, em reconhecer o erro e a culpa mediante o arrependimento. Segundo Kierkegaard ( 2011, p.) “A angústia que há no judaísmo é a angústia diante da culpa”. O cristianismo elaborou sua teologia com complemento a partir do que veio ser considerado texto inspirado, Novo Testamento, por exemplo, diz […] “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23).

    Mas também mostra a intervenção de Deus para solucionar a questão da culpa por meio da encarnação, morte e ressurreição de Jesus Cristo, como preço pago, como se diz: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé: e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef. 2. 9). No entanto, com a elaboração, sistematização do pensamento cristão em forma de Teologia, instituiu-se o conceito de culpa hereditária, chamada também de pecado original, defendida pela teologia de Agostinho, em que nascemos pecadores.

    A neutralidade do homem

    Além do mais, em diferentes momentos e situações de grupos cristãos, desenvolveram narrativas repressoras, acusadoras, permeando um sentimento de culpa em seus adeptos. Com isso, sustentamos que a culpa é um fator presente na cultura ocidental cristã, também a ideia que ela tem contribuído para um mal-estar, por exemplo, conforme a narrativa do poeta bíblico no Salmo 51.3 consta: “Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim”.

    Ainda manifesta seu sofrimento em razão do seu pecado, onde se diz: ¨Faz-se ouvir júbilo e alegria, para que exultem os ossos que esmagaste” (Sl 51.8). Naturalmente esse conceito, em especial na Idade Moderna, passou por outras formulações, como Rousseau que considerou o homem bom por natureza, e que o mal é fruto social; Kant, considerou que o homem nasce neutro, mas com tendência para o mal e para o bem, assim como também outros conferem a origem do mal ao processo civilizatório, entre eles Freud.

    O sentimento de culpa e a forma de lidar com o sentimento de culpa na cultura Ocidental cristã

    A referência anterior, do Sl. 51, já é também a indicação como na cultura judaica e cristã se procedia em relação a culpa, que basicamente consistia e consiste no arrependimento e na confissão. Naturalmente, o judaísmo elaborou todo um sistema litúrgico e de procedimentos formais, que foram formas de lidar com a culpa, retratado principalmente num dos textos do Antigo Testamento, o livro de Levítico, cheio de normas, atos sacrificiais etc. Enquanto na cultura cristã, segundo o Novo Testamento, os sacrifícios foram abolidas e tomou-se como base, por exemplo, o texto bíblico que diz: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” ( I Jo1.9).

    Contudo, no transcurso da história a questão do sentimento de culpa tornou-se um agravo na cultura Ocidental, lógico, a depende da concepção que se tem dela. Assim, em determinados contextos culturais religiosos, específicos, agia-se e age-se de modos diferentes. No sentido mais geral, ela ocorre basicamente, como já se fez menção, por meio de duas atitudes e comportamentos: arrependimento e confissão, cuja culpa é removida pelo divino. Porém, o modo como esse arrependimento e confissão se realiza também não é compreendido de uma única maneira.

    No geral a cultura cristã Ocidental, mediado pela Igreja e hierarquia eclesial, tem se desenvolvido formas de tratar a culpa, até porque é uma questão central na sua visão sobre a espiritualidade e piedade de seus adeptos. Retomando as duas formas básicas: arrependimento e confissão, em alguns seguimentos o culpado manifesta seu arrependimento (entendido como meia volta, retornar ao caminho do qual se desviou), confessa e pede perdão a Deus, cujo perdão aceito é uma questão de fé, com base na narrativa bíblica que quem confessa é perdoado, mesmo em faltas para com o outro.

    Uma tradição cristã eclesial católica

    No entanto, sobretudo na tradição cristã eclesial católica, desenvolveu-se a ideia que a Igreja é uma agência sacramental e que sua hierarquia, na figura do seu sacerdote pode declarar o perdão, assim surgiu o confessionário, se confessa e lhe é declarado perdão, muitas vezes, a depender, é preciso certos sacrifícios em forma de penitência. Segundo o teólogo Fulton Sheen, em seu texto Angústia e paz (1949), ao trata da culpa em um de seus capítulos diz: A Condição de desespero produzida pelo pecado sem arrependimento atinge muitas vezes um ponto em que há um positivo fanatismo contra a religião e a moralidade.

    Aquele que decaiu da ordem espiritual odiá-la-á, porque a religião lhe lembra a sua culpa ( 1949, p.48). O senso de culpa de pecado que não se quer admitir explica muitas das doenças psicológicas do homem moderno (1949, p.51). Com essas colocações, teve-se a intenção de pontuar de forma sintética, para diferenciar a forma como a culpa é tratada no contexto da cultura cristã Ocidental.

    Naturalmente tem outros aspectos relativas ao sentimento de culpa, da consciência e culpa na Teologia cristã, que não é objeto desse estudo. A seguir quer-se então fazer algumas considerações básicas sobre a visão de Freud, sobre a origem e desenvolvimento do sentimento de culpa.

    Origem e desenvolvimento do sentimento de culpa segundo a perspectiva de Freud

    Nesse tópico pretende-se pontuar três aspectos quanto o sentimento de culpa apreendida da visão de Freud: quanto a origem e desenvolvimento do sentimento de culpa na história cultural; o sentimento de culpa segundo a concepção na perspectiva da psicanálise e o sentimento do mal-estar em decorrência do sentimento de culpa. Freud no seu texto “Totem e Tabu”, traça a origem e desenvolvimento da cultura através de um percurso longo, a partir de grupos, civilizações consideradas primitivas, a partir de estruturas elementares da relação de parentesco, destacando a lei ou instituição do incesto.

    Nesse sentido Levi-Strauss também assim entende, que a norma do incesto pode ser considerada como início, como marco do nascimento da cultura, e nascimento da culpa, quando diz: “Ausência de regra parece oferecer o critério mais seguro que permite distinguir um processo natural de um processo cultural” (LEVI-TRASUSS, 1982, p. 46). Nesse sentido toma também o incesto como norma primária e como demarcação do início da cultua; afirma que a presença ou ausência de regra indica cultura (1982, p.47).

    Mesmo que, tratando-se da regra do incesto, não se pode precisar sua origem, mas que representa um caráter sagrado da proibição (1982, p. 50). No entanto, a diferença entre Freud e Levi-Strauss, é que para este, o sentimento de culpa e cultura iniciam com o estabelecimento da lei do incesto, enquanto para Freud a cultura e a norma se estabelece a partir do incesto. Freud em “Totem e Tabu” (2021, p141) considera que: As primeiras prescrições e restrições morais da sociedade primitiva foram por nós concebidas como reações a um ato que deu a seus autores a noção de crime.

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    A origem do sentimento de culpa no processo da cultura

    Eles e arrependeram desse ato e decidiram que ele não poderia mais se repetir, e que sua execução não deveria trazer nenhuma vantagem. Essa criativa consciência de culpa não desapareceu entre nós. Nós a vemos atuando nos neuróticos, de forma associal, a fim de produzir novos preceitos morais, continuadas restrições, como penitência para os malfeitos cometidos e advertência para outros a cometer.

    Entende-se então que segundo Freud, a origem da culpa no processo da cultura, vincula-se originariamente à norma do incesto, que deu origem a noção de crime, que foi percebida e recebeu no decorrer do tempo diferentes considerações e tratamentos, constituindo-se em normatizações éticas e práticas morais pelo tempo.

    Do ponto de vista histórico, ao longo do tempo, o sentimento de culpa acompanha a evolução ou estagnação cultural. Portanto, o sentimento de culpa é um fato, um fenômeno psíquico universal, mas que pode se manifestar com agravo diferenciado, mas que nesse texto centra-se na cultura Ocidental cristã.

    Sentimento de culpa segundo a perspectiva da psicanálise

    Camila Peixoto Faria e Marta Rezende Cardoso, em seu texto “A ferocidade da culpa na neurose obsessiva: do desamparo à angústia moral” (2015), fazem uma significativa abordagem e análise do fenômeno do sentimento de culpa na perspectiva da psicanálise, pontuando sobretudo seu efeito, ou força destrutiva do bem-estar. Quer-se então aqui abordar a origem da culpa na perspectiva e análise psicanalítica.

    Segundo Freud, pode-se considerar que o sentimento de culpa tem no âmbito da psicanálise, sua origem basicamente em duas fontes, conforme em seu texto “O mal-estar na cultura” (2012, p. 151): o medo da autoridade e do posterior medo do Supereu. Diz: O primeiro obriga a renunciar à satisfação de impulsos; o segundo, além disso, compele à punição, visto que não se pode esconder o supereu a persistência dos desejos proibidos” (2012, p. 151).

    Esse medo transforma-se em renunciar os impulsos em razão de uma autoridade externa, em especial na fase fálica e segundo o complexo do Édipo, em razão do medo em não perder o amor do pai ou da mãe ou a figura representativa; quando então ocorre a renúncia de satisfações e o recalque, gerador de sentimento de culpa. Quanto ao segundo fator, em que o Eu em seu processo de desenvolvimento e função, depara-se com o medo do Supereu, segundo Freud, Aí a renúncia aos impulsos não basta, pois, o desejo continua existindo e não é possível escondê-lo do supereu.

    A responsabilidade do “EU”

    Assim, apesar da renúncia efetuada, surge um sentimento de culpa, e essa é uma grande desvantagem econômica da instauração do supereu…(2012, p. 151) Assim, segundo Freud então, o Über-Ich, (Superego) a sua força moral, age como vigilância sobre o Eu e instaura o dever, em tensão com o desejo, a libido, provocam o surgimento do sentimento de culpa.

    O Eu que precisa tomar uma decisão entre o desejo e a responsabilidade demarcada pelo Supereu, gera um sentimento de angústia, pois, toda decisão responsabiliza o Eu.

    Citando mais uma vez Freud diz: […] “o sentimento de culpa é a expressão do conflito de ambivalência, da luta eterna entre Eros e o impulso de destruição ou de morte” (2012, p.160). Freud no texto “O Eu e o ID” (2020, p.66), considera que o sentimento de culpa é a manifestação do Supereu em forma de crítica, a qual o Eu é cosrrespondente.

    Mal-estar como consequência do sentimento de culpa

    Posto algumas considerações sobre a origem do sentimento de culpa, segundo Freud, quer-se destacar o efeito ou o mal-estar em consequência do sentimento de culpa. Freud lembra que “A perda do amor e a punição por parte da autoridade externa – foi trocada por uma infelicidade interior permanente, a tensão do sentimento de culpa” (2012, p.152). Considera-se que o sentimento de culpa, mesmo sendo um sentimento constante e contínuo na civilização, pode dar origem a sintomas diversos e afetar o estado físico, gerar doenças emocionais, ter um efeito e uma relação entre o bem-estar emocional e o bem-estar físico.

    Para Freud, o sentimento de culpa, como já visto, está relacionado à fase da latência, complexo do Édipo, tem uma relação com a sexualidade e depreciação da vida terrena, impulso da morte, demarcada “pela doutrina cristã” (FREUD, 2012, p. 82), que marca a cultura Ocidental, como consta: Descobriu-se que o ser humano se torna neurótico porque não é capaz de suportar o grau de frustração que a sociedade lhe impõe e serviço dos ideais culturais, e disso se concluiu que suprimir ou reduzir consideravelmente essas exigências significaria um retorno a possibilidade de ser feliz (FREUD, 2012, p. 83).

    Pois, Freud considera que a cultura se funda em renunciar impulsos, repressão e recalcamento, cujos efeitos, caso o Eu não use de equilíbrio, causa mal-estar (FREUD, 2012, p.101). Ocorre uma frustração, entre o querer, o poder e o dever, causando, pois, um conflito psíquico emocional. Gaspar (2017) em seu texto estabelece uma relação entre culpa e ética, cujo mal-estar se deve à ausência de direção para o agir, onde então a ética ocupa esse lugar diz: […] o sentimento de culpa como um mal-estar que surge em razão da falta de orientação do sujeito para seu agir no mundo.

    O Eu e O ID

    Esta caracterização permitirá situar o sentimento de culpa como um problema ético, ou seja, como um problema que diz respeito ao modo como a busca pela orientação está articulada no humano. Pode se considerar que o estabelecimento da ética, apesar de suas diferentes concepções e teorias éticas, como “ciência da moral”, associa-se ao papel do Superego, em que como juízo moral, a depender do comportamento, contribui para o mal-estar e geração de doenças psíquicas emocionais.

    Freud, no já referido texto “O Eu e O ID” (2020), no item V. “As relações de dependência do Eu”, aborda em suas páginas, além da relação entre culpa, Id, Supereu e Eu, questão já apontado nesse texto, também apresenta a relação com o Complexo do Édipo, bem como a relação do sentimento de culpa com diferentes manifestações, como melancolia, angústia, neurose e neurose obsessiva, sendo que, o sentimento de culpa, sobretudo, se manifesta na neurose.

    Não se pode precisar quais são os males específicos causados pelo sentimento de culpa, pressupõe-se, no entanto, que subjaz ao sentimento de culpa a raiz de muitos dos males emocionais. Freud dá um destaque a neurose, em especial a obsessiva. Faria e Cardoso (2005, p.34) pontuam que tinham em seu texto o objetivo de tomar como problema a culpa com base na neurose obsessiva, dizem: […] “procurando melhor entender o que estará na base de seu caráter violento e feroz”. No decorrer do texto referem-se com frequência a Freud e a neurose obsessiva, como causa primária do sentimento de culpa.

    Formas de tratamento do sentimento de culpa pelo processo terapêutico da psicanálise

    Antes de tecer considerações sobre como a psicanálise freudiana trata a questão do sentimento de culpa, considera-se importante mencionar que há diferentes concepções sobre os procedimentos. Há quem classifica a psicoterapia em 10 segmentos diferenciados, que não é o caso de relacioná-los no momento, contudo, é relevante mencionar que no campo teórico e prático, há duas linhas básicas: a comportamental e a psicanalítica.

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    A comportamental exercida em geral por psicólogos(as), o que não significa que não possam atuar na linha da psicanálise, mas seu foco são os hábitos, comportamentos que podem estar implicados, no sentimento de culpa, no mal-estar; sugerem tarefas, mudar conceitos, centrado mais no presente, por meio de aspectos externos. No caso do psicanalista, na linha freudiana, a análise procede por meio da Associação Livre”, engloba níveis interpretativos, como consta: Cabe ao terapeuta realizar conexões entre o que foi dito e os problemas do paciente.

    Elas são aplicadas a fim de gerar um autoconhecimento por parte das pessoas, para que elas compreendam o que ocorre e pensem em como modificar suas questões internas (CURSO DE PSICANÁLISE CLINICA – Apostila). Nesse sentido, a psicanálise não centra sua preocupação em modificar comportamentos, mas no que causa o sentimento de culpa e consequentemente o mal-estar, trata fundamentalmente a questão a partir do inconsciente.

    O modo de pensar do analista

    Freud lembra: “O modo de pensar do analista acerca da origem do sentimento de culpa é diferente do habitual entre os psicólogos” (2012, p.144). Isso pressupõe também seu modo diferente de tratamento. Freud chegou através de suas experiências ao logo do tempo, passou pelo uso da catarse, da hipnose, da regressão, da sugestão, da imposição das mãos, até chegar a conceber uso da “Associação Livre”, por meio da qual, pela fala se chegue ao lugar do conflito, fruto de recalque no inconsciente.

    Não há, portanto, uma forma específica de procedimento para o sentimento de culpa. Leva-se em consideração a causa do sentimento de culpa, conforme abordado anteriormente nesse texto; mas que a cura não se dá por uma intervenção externa, mas pelo próprio paciente ou analisando, que pela sua demanda inconsciente manifesta o deseja de um “suposto saber”, no processo de transferência. No procedimento de análise, o analista, vale-se dos atos falhos; sonhos, no que é manifesto e latente etc.

    Pois, o paciente há de trazer por meio da “Associação Livre” o conteúdo a ser considerado pelo analista, que poderá ter ou se dar a partir das três fontes básicas: o corpo, referindo-se a alguns sintomas incômodos; ao outro, com indicações e reclamações direcionadas à pessoas, familiares ou outros; ou, à questões de provimento, manifestando insegurança quanto recursos e outros aspectos, relativas ao futuro.

    A importância da Psicanálise de Freud

    A psicanálise, portanto, não uso de tratamento com indicação de medicamentos, caso ocorra, que aceitou o tratamento de um analisando sem ter tido a percepção que seu caso poderá ser fisiológico ou neurológico e não psíquico emocional, há de encaminhá-lo para um devido atendimento. Pois, considerando a forma de proceder da terapia, como consta no texto do Curso de Psicanálise Clínica: Nela, o paciente possui liberdade total para se expressar, onde não são aplicados filtros.

    Cabe ao terapeuta realizar conexões entre o que foi dito e os problemas do paciente. Elas são aplicadas a fim de gerar um autoconhecimento por parte das pessoas, para que elas compreendam o que ocorre e pensem em como modificar suas questões internas (APOSTILA). Em grande parte, o sentimento de culpa é inconsciente, sem, no entanto, por isso seu efeito ser menor, mesmo que segundo Freud, há dois tipos de doentes, os […] “que não percebem o seu sentimento de culpa, ou que apenas o sentem como um mal-estar opressivo, uma espécie de angústia” (2012, p. 165).

    Poderá ser uma variedade de angústias. Aí então a relação terapêutica, em que o analisando no processo da análise, o analista saiba conduzir por meio da Associação Livre a superação das resistências que se põe e que o analisando processe o amor transferencial. Pois, no processo analítico, ocorre o fenômeno amoroso no seio da experiência terapêutica, ou seja, o amor transferencial, considerado como “o motor” do processo de análise. – fenômeno da emissão emocional do paciente em elação ao seu terapeuta, com sentimentos, desejos e impressões.

    O sentimento de culpa e o processo de autoconhecimento

    Contudo, a psicanálise não promete cura, mas abre caminho para a participação ativa do paciente no processo do autoconhecimento do seu sentimento de culpa, pelo enfrentamento do recalque, pela escuta do analista. Livrar-se da culpa, se sua origem se vincula ao processo cultural, eliminá-la implicaria em um processo de transculturação, ressignificação num processo civilizatório.

    Segundo a cultura cristã, constantemente nos sentimos acusados, como um inimigo que nos rodeia em todo tempo, como algo externo sobre nós, que seu fim é messiânico e escatológico. Na cultura Ocidental cristã, em geral, tem-se tratado a questão do sentimento de culpa numa perspectiva religiosa, como referido anteriormente no texto, com medidas preventivas, em geral considerando que sua causa é subjetiva e objetiva.

    No entanto, citando ainda Faria e Cardoso (2015, p. 35): Na neurose obsessiva, o ego está constantemente sob a ameaça do fracasso do recalque, o que para impedir tal emergência, para combater a angústia, exige esforço constante, com grande dispêndio de energia.

    Considerações finais

    As medidas de proteção podem tornar-se insuficientes contra a tentação; surgem, então, as proibições, visando manter a distância situações que possam originar tentações. Sendo a neurose obsessiva, na visão de Freud, como um distúrbio que produz mal-estar psíquico e que indica o impasse entre o sujeito com seu desejo inconsciente, o tratamento do sentimento de culpa se dá pelo processo da análise psicanalítica, da terapia; passa pela subjetividade individual e coletiva, cujo locus é o inconsciente, de acordo com as vivências da sexualidade.

    O ser humano sempre está em busca constante, como destinação, em superar-se, segundo Freud, sujeito ao impulso da vida, do Eros, e ao mesmo tempo ao impulso da morte, é um processo de dor e prazer. É sobretudo a neurose um sinal do sentimento de culpa. No entanto, esses condicionantes não precisam serem considerados como fatores absolutos, para uma concepção antropológica pessimista.

    O processo da terapia analítica surgiu para que o sofrimento seja equilibrado ou ao menos amenizada para que se tenha uma vida com qualidade melhor, para que o sentimento de culpa não se transforme em somatização. Em síntese, a psicanálise freudiana parte do pressuposto que a vida humana se restringe ao biológico e psíquico, ou seja, ao biopsiquico, não há lugar para o Divino, o Espírito, assim, o sentimento de culpa está restrito à dimensão da cultura.

    Referências bibliográficas

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    Este artigo foi escrito por Almiro Schulz, como trabalho de conclusão do Curso de Formação em Psicanálise.

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