fala, escuta e cura

Método Psicanalítico: fala, escuta e cura?

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Desde que o neurologista e psiquiatra austríaco Sigmund Freud iniciou o desenvolvimento do seu método de tratamento para a histeria, um divisor de águas para os estudos médicos e psicológicos, muito se tem investigado acerca da eficácia do que foi nomeado “a cura pela fala”, ou fala, escuta e cura.

Entendendo a fala, escuta e cura

Inicialmente, Freud encontrou parcerias investigativas na área médica, dentre essas, com o médico Josef Breuer, médico que aplicava o método hipnótico em seus pacientes. Enquanto clinicava, Freud percebeu, em especial com pacientes do sexo feminino, diagnosticadas com histeria, a necessidade de uma escuta, de um lugar de voz às pacientes.

Lugar este reivindicado durante uma consulta por uma de suas pacientes, Bertha Pappenheim, a qual foi identificada nos “Estudos sobre a histeria” (FREUD, BREUER.1895) pelo pseudônimo de Anna O. Sobre a fala no tratamento psicanalítico, observou-se nas pacientes histéricas um quadro de dificuldade de comunicação, o que criava e somatizava sintomas graves como por exemplo dores e paralisias em determinadas partes do corpo.

Pela via da hipnose, Breuer e Freud mapeavam memórias de como esses sintomas se instalaram nos corpos das pacientes. No entanto, foi preciso que uma de suas pacientes sinalizasse o que posteriormente nomearam como método catártico: quando a paciente foi ouvida seus sintomas se desfizeram, como numa catarse onde os afetos que formavam os sintomas foram descarregados.

O aparelho psíquico, a fala, escuta e cura

Após essa descoberta, Freud prosseguiu seus estudos mapeando as instâncias subjetivas onde se desenvolviam esses sintomas, como se estruturava o aparelho psíquico e formas de interagir com o estranho, o desconhecido que havia em seus pacientes e se revelava justamente nos momentos em que as pacientes poderiam falar livremente e serem ouvidas com uma escuta especializada, ou seja, a atenção flutuante.

A fala sem julgamentos e sem necessidade de estruturação lógica por parte do paciente foi chamada de livre associação. Este artigo pretende-se enquanto uma breve reflexão sobre a importância da fala e da escuta na clínica psicanalítica

Haveria uma cura pela fala? Como acontece a escuta psicanalítica? Há meios pelos quais o analista transforma um paciente em analisando?

Uma análise pressupõe questionamentos?

Tomada com conotação pejorativa nos dias atuais, sobretudo às mulheres, a histeria trouxe à luz o cerne do método psicanalítico: a fala. Para tanto foi necessário o desenvolvimento de técnicas de escuta das pacientes que chegavam com sintomas graves no consultório de Freud.

Em uma cultura de audição de vários discursos de promessas de treinamentos e soluções imediatistas, mesmo nos primórdios da técnica psicanalítica, a sociedade caminhava (e ainda caminha) em direção às respostas. É neste contexto de busca por respostas que a psicanálise rastreia através das perguntas um saber de si singular.

Em outras palavras, o primordial é estar atento às respostas que a associação livre traz sobre o sujeito que fala. É um saber desconhecido, sobretudo por quem diz, e através da transferência é possível que a análise do discurso do paciente o transforme em analisando, sujeito mais consciente de si com um olhar mais modesto diante da vida e das constantes questões que a todos é imposta. Mas, até que se vislumbre algum conhecimento de si, o sujeito precisa entender alguns processos sobre o percurso de sua análise.

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O contrato analítico, a fala, escuta e cura

O contrato analítico é estabelecido entre analista e analisando na entrevista preliminar às sessões e perpassa questões como o pagamento pelo serviço e horários. Trata-se de entender o quanto o sujeito quer o tratamento e se de fato sustenta este desejo de não apenas eliminar os sintomas trazidos por sua queixa inicial, mas trazer à luz as raízes desse aparente problema.

O paciente chega com uma queixa inicial, o que o levou à busca de ajuda para lidar com situações que geralmente trazem prejuízos suficientes para que o sujeito se mova em direção ao setting analítico. O analista oferece uma escuta atenta, que se inicia desde os primeiros contatos com o sujeito que procura os seus serviços.

Esta escuta desenvolve-se a partir da formação do analista: análise pessoal, teoria e supervisão. O analista necessariamente é formado em sua análise pessoal, em seus atravessamentos. É neste contexto de interpretações verbais e não verbais (gestos, pontualidade do sujeito à sessão, modo de falar de suas questões, etc) que o contrato se estabelece: o analisando firma o compromisso de falar livremente, enfrenta a preocupação de barreiras morais ou coerência aparentemente lógica.

A relação do analista

O analista se coloca como objeto de escuta, como interlocutor necessário para devolver e intervir pontualmente de modo que o sujeito se ouça. É importante que fique claro ao analisando que ao falar livremente emergirão conteúdos estranhos a si e que serão analisados em conjunto com o seu analista.

Constrói-se então, uma relação de confiabilidade e parceria de suporte ao ego do analisando que à medida que deseja de fato o processo analítico, implica-se em desfazer possíveis fantasias sobre si mesmo e sobre as contingências do seu entorno.

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    Outro fator relevante é a ciência de que os não ditos, os sonhos e os atos falhos são formas de comunicação do inconsciente neste processo e que há uma pressão constante sobre o Eu: de um lado, o ID, parte irracional, primitiva, impulsiva e de outro, o SUPEREGO, instância coercitiva, a lei construída sob o histórico de vida do sujeito, que comprime o EGO. Consciente dessas instâncias de seu aparelho psíquico, o sujeito pode compreender melhor situações em que se sinta coagido por si mesmo a não falar determinados assuntos em sessão, ou seja, a formação das resistências ao método psicanalítico.

    As resistências ao método Psicanalítico: falar de si não é tão simples

    Há várias maneiras do analisando oferecer resistência ao tratamento. O EGO é responsável por realizar essas defesas. Por resistência entende-se toda forma encontrada pelo sujeito de proteger-se dos seus conteúdos inconscientes, seja de forma verbal ou silenciando falas que julgar denunciantes de algo sobre si que teme revelar durante a sessão.

    A resistência acontece também no processo de transferência. O analisando pode inconscientemente desejar não decepcionar o seu analista contando determinadas situações de sua vida. Situações essas que relatadas podem ser cruciais no seu percurso de análise. A resistência pode ocorrer em favor de algum benefício secundário que o sofrimento traz ao paciente, ou seja, o paciente está confortável em existir em seu sofrimento enquanto lugar conhecido e, portanto, mais confortável.

    Outra forma de resistência é observada por Freud, a relacionada ao ID. Esse tipo de resistência acontece via compulsão à repetição. O que não se elabora através da fala, se repete em ato, inconscientemente. Na resistência relacionada ao SUPEREGO, o sujeito não elabora suas questões movido pelo sentimento de culpa, quando o sujeito, por algum motivo inconsciente, recalca conteúdos que desaprova em si.

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    A Psicanálise é um método de eficácia universal?

    Tendo em vista a complexidade da existência, seria ingênuo considerar que um único método fosse suficientemente bom para todo e qualquer problema psíquico que surgisse em um sujeito.

    A ciência mostra que fatores biológicos são concomitantes à algumas desordens psicológicas, como a depressão e os tão abordados midiaticamente transtornos de personalidade, são por vezes, questões a serem tratadas de modo medicamentoso e/ou com outros tipos de terapias, como por exemplo, os chamados pacientes psicóticos, considerados inaptos à elaboração de suas demandas, o que é fundamental para a análise pessoal.

    A psicanálise não se pretende onipotente diante de toda e qualquer demanda que surja na clínica, mas convida o sujeito a aproximar-se de sua realidade interna, experiência que requer certa dose de coragem e um trabalho intenso de fortalecimento do EGO para suportar as adversidades que surgem à medida em que o sujeito se aproxima de si de modo franco, e, inevitavelmente, doloroso por saber-se menos perfeito do que imaginou durante sua vida.

    Conclusão sobre a fala, escuta e cura

    Sujeitos que procuram por terapias psicológicas geralmente o fazem para aliviar suas dores psíquicas e os efeitos que estas têm em sua funcionalidade profissional, em seus relacionamentos inter e intrapessoais. Não raro, muitos clientes relatam certo desgosto em relação ao processo analítico por esperar deste uma amortização de sensações desagradáveis quando o que acontece no auge do tratamento é, na maioria dos casos, um aumento de angústia diante do desconhecido de si que emerge em cada livre associação.

    Falar de si e ouvir de si é desconfortável e por vezes constrangedor, mas segundo a teoria psicanalítica é por meio da fala que os conteúdos inconscientes tomam forma consciente e traz então, novas possibilidades de ser no mundo, de afirmar a vida como ela de fato é. Segundo a teoria freudiana: recordar, repetir e elaborar. Segundo Nasio (2019), é possível haver cura através da psicanálise.

    Pode-se considerar curado o sujeito que entendeu e aceitou as suas características ao invés de afirma-las como defeitos. O sujeito alcança nova ótica frente aos sofrimentos inerentes à vida através da relação transferencial que ocorre durante a análise pessoal. Automaticamente a capacidade de ter boas possibilidades ou novas formas de amar surgem, bem como melhor organização no campo profissional. Ou seja, um analisando é considerado “curado” à medida que potencialmente ama e trabalha de modo mais fluido e saudável.

    O presente artigo foi escrito por Natália Almeida. Psicanalista em formação. Amante das artes em todas as suas vertentes. @guiya2017/ [email protected]

     

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