fantasia em Freud

Fantasia em Freud e Lacan: sedução, cena primária e castração

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Este trabalho sobre fantasia em Freud tem como objetivo, articular os conceitos, postulados por Freud em relação a fantasia, em suas diferentes conceituações, sobretudo em diferentes tempos de sua trajetória.
Esta abordagem é de extrema relevância para entender a conceituação da fantasia, visto que, no glossário Freudiano, há uma subdivisão da postulação da fantasia, fragmentando desta forma, os três tipos de fantasias: a fantasia da sedução; a fantasia da cena primária e a fantasia da castração.

O intuito do trabalho sobre fantasia em Freud

Com o intuito de analisar estes conceitos estabelecidos por Freud, foi importante também trazer à luz algumas contribuições de Lacan, bem como perspectivas distintas na visão de alguns autores que serão mencionados neste trabalho. Deste modo, de forma sintética foi possível discorrer sobre a teoria da fantasia, trazendo ao leitor um entendimento claro a respeito dessas classificações conceituais.
Sendo assim, fez-se necessário realizar uma pesquisa bibliográfica que abordasse o tema proposto indo de encontro com pesquisas e artigos referentes ao mesmo, sendo possível portanto, agregar valor por meio da visão dos autores citados. Em vista disso, no primeiro momento abordaremos a diferenciação dos três tipos de fantasias de forma individual, ou seja, abordando cada uma delas independente da outra, apesar de se considerar que estão interligadas na conceituação geral.
Após expor isso, foi importante mencionar sobre a visão lacaniana em algumas pontuações da teoria freudiana, as quais são consideradas as de maior relevância em sua reformulação conceitual da fantasia em Freud. Para atingir esses objetivos, metodologia empregada foi de pesquisa bibliográfica, contendo várias citações de autores de extrema relevância no âmbito psicanalítico. “As fantasias têm de ser irreais. Porque no momento, no segundo que consegue o que quer…não quer, não pode querer mais. Para poder continuar a existir o desejo tem de ter objetos eternamente ausentes. Vocês não querem “algo”, querem a fantasia desse “algo”. O desejo apoia fantasias desvairadas.” (Filme – A vida de David Gales).

A Fantasia da Sedução

Ao percorrer a obra de Freud em busca de apurar o que ela tem a dizer a respeito da fantasia, é possível encontrar fragmentos sobres os diferentes tipos de fantasias, dentre estas, sobre a fantasia de sedução. Percebe-se então desta maneira, que a mesma se encontra na oposição entre o subjetivo e objetivo, entre o princípio do prazer, ou seja, a busca da satisfação por meio da ilusão.

Já considerando o princípio da realidade, mediante o sistema perceptivo, diz respeito às relações do sujeito com o mundo exterior, sobretudo com as restrições impostas por este. Freud afirma que na fantasia, o sujeito perpetua uma sensação de liberdade a qual teve que renunciar em função da realidade.

Portanto, segundo ele o homem um ser racional e dotado da capacidade de controlar suas vontades, permanece então com a fantasia, como um animal que busca o prazer (SALES, 2002). “O sujeito, com seu mundo de exigências pulsionais, depara-se com um outro mundo – diferenciado de seu próprio corpo – que não satisfaz aquelas exigências e desse choque nasceria a fantasia como construção do inconsciente? (SALES, p.323, 2002).”

A fantasia em Freud e a pulsão

Conforme citado por Sales (2002), Freud afirma que é a da pulsão que surge a exigência de construção da fantasia. Entretanto, para a autora, isto não corresponde à constatação na clínica, da repetição de cenas com o mesmo conteúdo. Embora Freud reafirma diversas vezes a ocorrência das três fantasias: a observação do coito dos pais, a sedução por um adulto e a ameaça de ser castrado, ademais mesmo que menos frequentemente, ele acrescenta a este grupo, a fantasia de retorno ao útero materno. Deste modo, escreve que mesmo sem encontrar apoio em cenas reais, os pacientes se estabelecem a partir de indícios e são completados mediante à fantasia (SALES, 2002).

“Freud postula que a recorrência dessas fantasias como um fato necessário e sempre presente na análise deve-se a uma determinação filogenética. Em tempos primevos, os seres humanos teriam realmente passado por experiências desta ordem (observação do coito dos pais, sedução e castração) e a inscrição psíquica de tais experiências nos teria sido transmitida por nossos ancestrais. Quando, então, a criança não pudesse dar conta de elaborar as questões de seus movimentos pulsionais, buscaria, naqueles acontecimentos pré-históricos, elementos que favorecessem a construção de suas fantasias.” (SALES, p.324, 2002)

Sobre isso Sales (2002), complementa que nas fantasias, o indivíduo remete a ideia que em sua individual experiência pré-histórica de modo em que esta tenha sido primordialmente desprimoroso. À vista disso, é bem possível que todo o discurso trazido em análise seja fruto de uma fantasia sexual. Sendo esta portanto desenvolvida através da sedução pela observação infantil, bem como pela criação sexual em conjunto com os pais e ainda, a ameaça de castração. A partir disso, ao fantasiar, a criança não faz mais do que procurar preencher as lacunas da sua verdade originada de sua própria experiência.

A angústia de castração

Entretanto, o autor supracitado argumenta sobre uma indagação de Freud, a qual consiste em desvendar em que momento a criança sente tal necessidade de recorrer a esta verdade anterior de sua própria existência, sendo a resposta freudiana, “em inibição, sintoma e angústia”. Trata-se então, de situações de perigo, críticas que cada um atravessa esta fase, em que o principal interesse da criança neste momento, é possuir dependência por algumas pessoas, sendo este um interesse atrelado à questão de desamparo psicológico, como também da sensação de perigo da perda do objeto e a imaturidade natural desta fase. Posteriormente a isso, surge o medo do pai, ao constatar que este possui um papel de rival na disputa pelo amor da mãe, identifica-se então neste cenário, a angústia de castração (SALES, 2002).

Sales (2002), aponta que Freud postulou que à partir dessa angústia frente ao supereu, a criança adquire um caráter necessário de consciência moral, sendo este processo de suma importância para evitar certos conflitos e perigos, que posteriormente ao entrarem em ação simultaneamente caracterizam a neurose. Seguindo este traço, Freud também conceitua alguns pensamentos sobre as fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade, trazendo a ideia de que um sintoma determinado não tem ligação apenas a uma fantasia inconsciente, mas várias dela, sobretudo quando uma neurose tem lugar já a algum tempo. Estas fantasias, podem nunca terem sido conscientes, uma vez que são esquecidas e ignoradas para o inconsciente deliberadamente, em virtude da repressão (SALES, 2002).


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“Sabemos que uma fantasia surge como questão fundamental, como algo que se refere ao bojo da construção da teoria psicanalítica, no interior de uma relação íntima com a chamada teoria da sedução. Freud teria sido forçado, frente aos fatos e à sua autoanálise, a abandonar suas formulações acerca da cena de sedução e substituir a suposição de que a realidade desta cena pela sedução seria uma construção, em termos de fantasia, do próprio sujeito.” (SALES, p.324-325, 2002).

Neste mesmo sentido, o autor ainda acrescenta o seguinte:

“Somente quando surge a segunda cena, é que a criança confere à primeira um sentido sexual. Esta segunda cena, que geralmente ocorre após a puberdade, não possui um caráter violento e nem é tão traumática quanto a primeira. Apenas suscitar associações que remontam à lembrança e é aí que se encontra seu poder, pois se a cena sexual acenou para aquela lembrança que será lembrada à primeira vez.

É claro que sob este esquema das duas cenas jaz a suposição de uma inocência da criança, de uma ausência de sexualidade infantil. Laplanche vê que se trata aí de uma questão de defasagem.” (SALES, p.325, 2002).

Acerca disso, a criança em questão está recorrentemente em estado denominado imaturidade, que consiste na incapacidade de função em relação ao que ocorre, e é justamente diante dessa impossibilidade que acontece o trauma. Assim como no próprio adulto, na neurose traumática o trauma ocorre quando o sujeito não está preparado para o fato que lhe ocorre (SALES, 2002).

A Fantasia da Cena Primária

A fantasia da cena primária, está diretamente ligada ao Complexo de Édipo, isto porque para a psicanálise, a passagem pelo Édipo pode ser traduzida como este tempo terceiro de enunciação singular concomitante à inscrição do sujeito nos universais da cultura. Os outros dois tempos anteriores – no sentido lógico – sendo a infância, momento de inscrição da letra, “instante de ver”, e o “período de latência”, momento de apagamento particular do desejo, “tempo de compreender”, em que o semelhante, ocupa um lugar fundamental da identificação dos traços significantes que suportam o sujeito em sua enunciação. Fundamentalmente, sua posição em relação à filiação e à sexuação.

Deste modo, no terceiro tempo, trata-se da formulação de um enunciado em que a fantasia originária se reduza ao suporte do traço. Isto é, a essa mínima diferença significante que, em nossa cultura, se traduz como diferença sexual e diferença geracional. Entretanto, para que isso seja possível, é necessário a construção da ficção, do compartilhamento com o semelhante do enredo que suporta o traço. É esse tempo de suspensão da certeza, que diz respeito ao amor, conforme posto pelo poeta, “que seja eterno enquanto dure” (FELLIPI, 2001).

Neste sentido, o autor afirma que: “Se, para Freud, porém, o Complexo de Édipo é esse momento em que a moral social incide sobre a sexualidade humana definindo seus rumos, não se trata de um encontro inédito na história do indivíduo. Na verdade, os efeitos da cultura sobre o psiquismo ocuparam boa parte das preocupações de Freud e transcendem as suas elaborações sobre o Édipo. Quando se trata, por exemplo, de dar conta da proveniência das fantasias originárias, Freud apela para o darwinismo. Ele propõe que a universalidade dessas fantasias explica-se com base nas heranças filogenéticas comuns aos homens.” (FELLIPI, 2001, p. 127)

A fantasia em Freud e a verdade histórica

Feliipi (2001), ainda salienta que apesar da afirmação supracitada, tal explicação não poupa Freud da dificuldade concernente à “verdade histórica” das fantasias originárias de cada um de seus pacientes. Desta forma, Freud não recorre à cultura para fazer a economia do desejo de cada sujeito que se implica em uma narrativa. Entretanto, a dificuldade em que ele se esbarra neste sentido, trata-se da dificuldade em conciliar o caráter universal das fantasias e a lógica singular do desejo.

Para o autor Freud vacila entre essas abordagens, hesitando ao longo de sua obra entre a denominada “teoria do trauma”, em que a ênfase é posta no impacto da realidade externa sobre o psiquismo, e a prevalência etiológica do desejo sexual, interno ao indivíduo na produção do trauma. Desta maneira, segundo o autor, Freud permanece sempre com esta indecisão, preocupado em não ceder no rigor que o trabalho clínico exige (FELLIPI, 2001). De acordo com Barretta (2012), conforme estabelecido por Lacan, o conflito edipiano não se trata somente de uma fantasia, mas para além disso, afirma que o mesmo possui uma função estrutural.

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    Assim sendo, as fantasias que giram em torno do pai e da mãe imaginários diz respeito a um processo estruturante do complexo de Édipo, ademais em última instância à existência e à sexualidade. Neste sentido, Lacan pontua que o mito está essencialmente mais próximo da estrutura do que de todo o conteúdo e posteriormente passa a se reencontrar e a se reaplicar sobre todas as espécies de dados. E é exatamente em relação a essa ideia, que Lacan fundamenta a inveja do falo existente nas mulheres.

    Uma tese lacaniana

    Sobre esta tese lacaniana, é determinado que todo o progresso na relação materna com a criança, é marcado por este elemento essencial, em que a experiência da análise dos sujeitos femininos teoricamente revela (BARRETTA, 2012).
    Desta forma, o autor ainda salienta que este conflito primordial edipiano, trata-se não com uma relação dual e nem tampouco com o desejo da criança pela mãe, entretanto com o desejo da criança de ser o objeto de desejo da mãe, o que configura uma identificação da criança com o falo imaginário da mãe, o que Lacan denominou como “narcisismo primário”.

    Neste cenário, em que o bebê tenta suprir a falta da mãe, classificado como uma situação de completude narcísica, é obstruída pela excitação genital da criança, portanto assim determina que a criança a começar a construir suas fantasias em torno disso. De modo que desta maneira, procure resolver esse dilema perturbador que surgiu repentinamente (BARRETTA, 2012).

    Considera-se então, segundo Lacan, que neste processo em alguns casos ocorre a castração, isto é, o pai intervém nessa relação e com isso obstrui essa falta materna da criança, ademais dessa tentativa de supri-la, de modo que acontece então a ruptura do par narcísico. E assim o pai restabelece a ordem, o que seria nas palavras de Lacan, o pai simbólico, que se faz então presente como um significante, ou seja, ele é um nome, o nome do pai. Sendo sobretudo o elemento mediador essencialmente no mundo simbólico e de sua estruturação. E este processo Lacan afirma ser de suma importância que aconteça, todavia nem sempre ocorre (BARRETTA, 2012).

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    A Fantasia da Castração

    Segundo Couto (2009), dois conceitos foram fundamentais para a definição do campo de problemas relativos ao inconsciente tanto para Freud, quanto para Lacan: o trauma sexual e a angústia de castração. Assim sendo, ao percorrer a teoria freudiana é possível a partir das elaborações trazidas por Lacan a qual determina que o inconsciente só pode ser apreendido se abordado através de sua estruturação como linguagem, desta maneira distingue denominando três ordens da linguagem: o simbólico; o real; e o imaginário.

    Neste sentido, na perspectiva Lacaniana, considera-se a castração e o trauma como estruturantes do processo de subjetivação que direciona para uma falta estrutural, sendo esta fundante do saber sobre o desejo, ademais sobre sua realização impossível, visto que, o objeto buscado é apenas circulado pela pulsão (COUTO, 2009). Deste modo, pressupõe-se, que o objeto de desejo é uma construção da ordem da fantasia, no trajeto pelo qual se pretende ser sujeito de um laço social, cultural, familiar, entre outros.

    No que concerne esta ideia que Lacan sempre se posicionou, de maneira que isto leva a uma mudança radical na concepção do sujeito do desejo, como também do lugar do analista, ou seja, do seu desejo implicado pela relação transferencial analítica. Não sendo assim, por considerar da relação sujeito-objeto, tampouco de sujeito para sujeito, mas sobretudo de uma relação inconsciente, cuja o que os liga é a fantasia, que sustenta através disso a transferência (COUTO 2009).

    A fantasia em Freud e uma sedução traumática

    O mesmo autor ainda salienta, que a hipótese da sedução traumática é logo abandonada por Freud, quando elabora novas conceituações sobre a fantasia inconsciente, em meados de 1897, momento este em que estabelece a ideia da defesa implicada na situação traumática, na resistência que surge na clínica, originada da rememoração das cenas ditas traumáticas, de modo que a partir dessas cenas, ocorrem impulsos de ordem sexual. Neste mesmo momento, paralelamente a isso, Freud avança sua pesquisa voltada à memória, na qual integrada por rearranjos, ele determina, que no campo da fantasia, existe a presença dos pais que no centro dessas ficções, ocupando o lugar de agentes traumáticos e dessa forma ocorre então uma ambivalência de sentimentos em relação aos mesmos (COUTO 2009).

    Por conseguinte, segundo Couto (2009), essas considerações levam à construção de uma teoria da sexualidade infantil. E seguindo esta trajetória, no texto “Três ensaios sobre uma teoria da sexualidade”, Freud afirma que na primeira infância, o sujeito é um ser de pura satisfação e que em torno disso, essas experiências sexuais primitivas segmentam toda a vida sexual do adulto. Desta maneira elas dão origem à fantasia inconsciente, que orienta o sujeito de modo como se relaciona com o desejo, pois constituem um primeiro laço com o outro, sendo este imaginário, portanto orientada pelo princípio do prazer.

    “Neste contexto, a teoria das organizações sexuais infantis nos leva a três momentos específicos da relação sexual: o autoerotismo, o narcisismo e a relação de objeto, etapas constitutivas do sujeito como eu a partir de sua diferenciação com relação ao mundo que o circunda. O autoerotismo é um momento em que todos os objetos servem à satisfação; há aqui fragmentação do corpo.

    O narcisismo

    O narcisismo indica o momento imaginário por excelência de alienação da satisfação na representação do corpo próprio, antecipado como unidade corporal a partir do outro, com o qual se confunde, neste momento, o eu, aqui, em vias de formação, eu ideal. Há aqui uma primeira diferenciação, que é em relação aos limites do corpo próprio, cuja sustentação é pautada no outro. O momento da “relação de objeto” parte da diferenciação simbólica entre o eu e o outro; é orientado pelo complexo edipiano e pelo complexo de castração, que dão origem à última teoria freudiana sobre o trauma e a angústia. A diferenciação simbólica se dá em termos do desejo sexual, que recebe a lei da interdição.” (COUTO, 2009, p. 63).

    Seguindo esta mesma linha de pesquisa, o autor ainda acrescenta: “O Édipo e a castração marcam o corte sofrido na relação do sujeito com a sexualidade, com sua satisfação primeira, de cunho autoerótico, donde todos os objetos lhe servem ao prazer – o ser de gozo da infância. Os complexos descritos por Freud representam o início de uma identificação que permite ao sujeito amar outra pessoa fora do seu núcleo parental pela via de uma identificação primordial com a Lei do Pai, que ocupa lugar privilegiado na economia libidinal de sua mãe. Essa identificação primeira, de nível simbólico, é o momento do recalque primário, que fixa o desejo como inconsciente. É o momento também da constituição da fantasia fundamental.

    A fantasia é o resquício da primeira infância, a conservação de algo desta satisfação primeira, que é orientada pelo princípio do prazer submetido posteriormente ao princípio de realidade, sob o qual insistem as exigências do primeiro. A ideia de uma primeira experiência de satisfação está presente em todo o texto freudiano como aquilo em direção ao que o desejo se orienta como experiência perdida, reminiscência do objeto de satisfação que foi perdido no desmame, o seio materno.” (COUTO, 2009, p. 63-64).

    A relação do sujeito com a mãe

    Sendo assim, evidencia-se segundo Couto (2009), conforme postulado por Freud, que a relação privilegiada do sujeito com a mãe na sua primeira infância, é inicialmente indiferenciada, de modo que o seio é considerado uma parte do corpo da própria criança. Desta maneira, também considera não somente o seio acoplado ao sujeito, como também outros determinados objetos parciais, como as fezes, o falo, que contempla essa série como ilusão da totalidade do objeto. Sendo estes objetos então considerados perdidos, fontes de angústia, bem como elementos que são fontes de angústia, que inauguram a castração simbólica.

    À vista disso, a psicanálise logo atrelou importância a duas experiências que teoricamente considera que todas as crianças atravessam, pode-se presumir, que as preparam para a perda de partes que são consideradas valorizadas do corpo. As experiências mencionadas, tratam-se da retirada do seio materno, que é geralmente realizada de forma gradual e posteriormente definitivo. E a exigência cotidiana que sofrem para soltarem os conteúdos do intestino.

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    Entretanto, não há provas que demonstre que ao ocorrer a ameaça de castração, tais experiências tenham algum efeito. Somente quando uma nova experiência surge para a criança, esta passa a avaliar a possibilidade de ser castrada, desta forma, faz-se apenas de modo hesitante, com intuito de depreciar a significação de algo que ela mesma observou. Mas o que de fato obstrui a descrença da criança é a visão dos órgãos genitais femininos (COUTO 2009).

    A mãe e a satisfação na fantasia em Freud

    Deste modo, considera-se que a mãe detém os modos e meios de satisfação, visto que, a criança implora aos gritos o seio, isso estabelece uma relação específica entre a mãe e o bebê, de satisfação narcísica como uma completude (COUTO 2009). No caso das fezes, a criança oferece ou não como uma dádiva, constituindo então a fase anal como uma primeira separação da criança desse desejo pela mãe, na medida em que ele pode ou não dar-lhe seu corpo, ou seja, sua satisfação, que é também considerado um desejo dual, já que a mãe que detém o controle disso, Couto (2009), acrescenta:

    “Esses objetos parciais são tomados pela representação fálica a partir do complexo edipiano, despertar do desejo sexual na relação com a mãe, desejo que é barrado, interditado por um terceiro, o pai (ou terceiros), que entra nessa relação mãe-filho barrando suas satisfações recíprocas, uma vez que a mãe também investe em seu filho seu desejo. Neste momento é colocado em questão pelo sujeito o seu lugar nesse desejo da mãe, cuja referência é fálica, ideal. É o início da operação de castração. Ora, a castração é a descoberta do sujeito de que há o outro sexo.

    A castração é a castração da mãe. A mãe não tem o falo na sua equivalência imaginária com o pênis. Na relação primeira com essa função materna se constitui o eu ideal, como aquilo que o sujeito apreende de si, dado pelo olhar da mãe, suas fantasias em relação a ele. O eu ideal se constitui como as primeiras identificações do sujeito, imaginárias, a partir do desejo da mãe e na relação a estes objetos parciais, no lugar que eles ocupam na economia libidinal da mãe, que é o lugar do próprio sujeito, daquilo que lhe é mais próprio.” (COUTO, 2009, p. 63-64).

    A fantasia em Freud e a castração

    Diante disso, Couto (2009), pontua que ao considerar a castração no centro desses seres supostamente completos, isto é, o que era considerado a mãe e seu filho, a criança se orienta em relação àquilo que é denominado como dar um lugar no simbólico. Este lugar, pelo caminho das representações, onde constituem-se algum saber sobre si, é ancorado no outro desde o narcisismo. Neste trajeto do simbólico, do nome, encontra lugar o Ideal do eu, através da identificação paterna, proporcionada ou não pela mãe.

    Ademais, a lei do pai, o interdito que precipita o recalque. Tal recalque primário, origina o desejo alienado nas representações parentais. E no caso do recalque secundário, ou que se diz recalque de fato, concerne com a conceituação freudiana do retorno do recalcado. Isto significa propriamente, que se o ego, não conseguiu muito além do que uma repressão do complexo, o mesmo persiste de forma inconsciente no id, portanto manifestará posteriormente seu efeito patogênico.

    Em virtude disso, Couto (2009), acrescenta ainda: “O corpo do sujeito é erótico e esse erotismo coincide com um investimento por parte da mãe, através do seu desejo, e de sua palavra de amor – que Lacan denomina de demanda de amor. O sujeito se orienta quanto à satisfação a partir dessa relação primeira. O desejo é herdeiro da relação parental, relação que é apreendida através da relação com o desejo da mãe enquanto este é o lugar de uma função primordial – lugar da palavra e de sua ausência.” (COUTO, 2009, p. 65).

    Conclusão

    De acordo com o exposto, foi possível observar que as fantasias se configuram como um caminho encontrado pelo desejo, sendo este ligado a falta do objeto, conforme sua dimensão no processo analítico, tende a interferir positivamente ou negativamente na relação transferencial entre analisando e analisado, visto que é a própria fantasia que estabelece primordialmente a conexão entre os mesmos.

    Após aprofundar sobre o processo de elaboração e sustentação da fantasia e suas distintas fases e fragmentos, identifica-se a mesma torna fértil o processo analítico, uma vez que faz parte da ação da transferência, a qual proporciona um direcionamento na análise e nas resistências que a perpassam. Vale ressaltar também que se evidencia a presença da fantasia em toda trajetória infantil, essencialmente no processo considerado fundamental na teoria psicanalítica, o complexo de Édipo.

    Dessa forma, também foi possível trazer algumas contribuições de Lacan sobre os conceitos supracitados, o que foi suma importância para expandir as conceituações da teoria da fantasia em Freud. Portanto, pode-se afirmar que através da pesquisa bibliográfica no desenvolvimento textual desta pesquisa, foi possível compreender que a fantasia tem um papel primordial na construção do sujeito e de seus conflitos psíquicos de formas mais variadas possíveis, de acordo com a subjetividade humana e todas as contingências que envolvem esses processos, bem como as suas interpretações. Dessa maneira, foi de extrema relevância trazer as pontuações e elaborações de autores que trouxeram as conceituações freudianas e lacanianas acerca disso.

    Referências bibliográficas

    BARRETTA, João Paulo Fernandes. O Complexo de Édipo em Winnicott e Lacan. Psicologia USP [online]. 2012, v. 23, n. 1, pp. 157-170. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0103-65642012000100008>. Acesso em 7 de maio de 2022.
    COUTO, Luiza Vieira; CHAVES, Wilson Camilo. O trauma sexual e a angústia de castração: percurso freudiano à luz das contribuições de Lacan. Psicol. clin., Rio de Janeiro, v. 21, n. 1, p. 59-72, 2009.   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-56652009000100005&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 27 março de 2022.
    FELIPPI, Maria Cristina Poli. Função fraterna e cena primária. Estilos clin., São Paulo, v. 6, n. 11, p. 126-132, 2001.   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-71282001000200013&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 27 março de 2022.
    SALES, Lea Silveira Sales. Fantasias teorias da sedução em Freud e em Laplanche. Psic. Teor. e Pesq. 18 (3). Dez 2002. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/ptp/a/NNrqdYw3gBYJbjMzqKs9CTD/?lang=pt#>. Acesso em 7 de março de 2022.
    Este texto sobre fantasia em Freud, fantasia em Lacan e em psicanálise, foi escrito por Larissa C. E. Bastos, concluinte do Curso de Formação Psicanálise Clínica.

    2 thoughts on “Fantasia em Freud e Lacan: sedução, cena primária e castração

    1. Eu por ser da época de família numerosa, percebi que muitas vezes, atração entre primos ou irmãos, acabou por gerar em cunhados ou cunhadas, em especial, a sensação de rivais! Até hoje, uma das minhas cunhadas, me trata com bastante “Indiferença” até recusando ajuda financeira ou aconselhamento a prole dela com meu irmão! Se o afeto pode ter gerado a fantasia conjugal entre irmãos, mas mesmo ela sabendo que Nunca teremos conjugal, a fantasia dela “de rivais” possa ser a melhor maneira de reconhecer-se não ter despertado amor nele mesmo ambos já serem sogros!

    2. Muito bom artigo! O assunto é muito interessante. Realmente a fantasia, ajudará muito o desenvolvimento da pessoa e principalmente o da criança. Acredito que ela desperta a curiosidade da criança, auxiliando assim o seu desenvolvimento psíquico.

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