fetichismo

Significado de Fetichismo: uma patologia social?

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Hoje falaremos sobre fetichismo. Qualquer um que resolva estudar sobre Freud ou sobre a sexualidade descobrirá que eles estão intimamente ligados.

Assim como qualquer um que resolva pesquisar sobre a psicanálise, inevitavelmente vai se deparar com as teorias Freudianas acerca do inconsciente e sexualidade e certamente irá se deparar com as questões sobre as perversões e entre elas o fetiche que será o nosso objeto de estudo.

O Fetichismo presente no cotidiano

Vamos nos deter na presença do fetichismo no nosso dia-a-dia, exemplos e avaliar a possibilidade de ele ser ou não considerado uma patologia social. Para isso usaremos como referência o posicionamento de Safatle, Junior e Dunker apresentado numa de suas recentes obras que aborda o tema em questão.

Aqui, nesse ágil texto, vamos nos concentrar exclusivamente nas questões sobre a sexualidade e em especial nos seus reflexos no nosso dia-a-dia. Nunca se viu e ouviu tanto nas páginas policiais sobre investigações e prisões de pedófilos, exibicionistas e de casos voyeurismo que fazem parte das perversões que se compõe do fetichismo, sadismo e masoquismo. Estaríamos vivendo diante uma patologia social?

Esse questionamento servirá de elemento norteador para construção dos argumentos usados no texto. Em Vocabulário da Psicanálise, Laplanche e Pontalis (1992, p. 341) definem perversão como sendo o: Desvio em relação ao ato sexual normal, definido este como coito que visa a obtenção do orgasmo por penetração genital, com uma pessoa do sexo oposto. Diz-se haver perversão: onde o orgasmo é alcançado com outros objetos sexuais ou através de outras regiões do corpo onde o orgasmo acha-se totalmente subordinado a certas condições extrínsecas (fetichismo, travestismo, voyeurismo e exibicionismo e sadomasoquismo) que podem mesmo ser suficientes, em si mesmas, para ocasionar prazer sexual.

Sobre o fetichismo e seus reflexos diários

Num sentido mais englobante, designa-se por perversão um conjunto de comportamento psicossexual que acompanha tais meios atípicos de obtenção de prazer sexual. Para nosso exemplo, nos fixamos no fetichismo que se caracteriza pela fixação parcial do objeto do prazer, em objetos inanimados ou partes não genitais do corpo.

Na sua origem o fetiche é uma palavra que designa sortilégio, um artifício e que passa a ser usada pelos fundadores da sexologia em 1887 para se referirem ao fetichismo conforme afirma Ons, (2021).

Ainda na visão da autora, a concepção freudiana sugere uma ambiguidade entre a negação do fetiche como um objeto presente que é concreto e tangível, mas que por sua vez, é símbolo e presença de uma ausência e, portanto imaterial e intangível, conduz sempre além do fetiche a algo que jamais de pode possuir, e revela, assim, um novo modo de ser dos objetos fabricados pelo homem.

A negação do fetichismo segundo Freud

Nas fases psicossexuais apresentadas por Freud nos três ensaios sobre a sexualidade e em outros textos é possível identificar alguns comportamentos ou afecções que se relacionam com cada etapa dessas mesmas fases e que podem ter sido mal resolvidas e se manifestam na fase adulta por meio desse comportamento e das formas de viver a própria vida, de ver o outro e do distanciamento da realidade no caso dos narcisistas.

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O autor também apresenta o fetichismo como uma negação da realidade acompanhada de uma valorização e superdimensionamento de um objeto de prazer escolhido. Ou seja, uma fixação. O foco do instinto sexual, que deveria ser direcionado ao ser humano, é desviado para o objeto do fetiche. É difícil fazer uma avaliação ou indicar as fontes originárias de tais comportamentos com exatidão sem uma análise aprofundada durante os encontros entre analista e analisando.

Muito provavelmente existem pontos de fixação que funcionam como gatilhos impulsionadores. A possibilidade, nesses casos, é que o fetichista esteja fixado numa peça de roupa ou numa parte do corpo da mãe antes de uma possível castração. Tudo pode ser motivo para o desenvolvimento de um fetiche como um sapato, botas femininas com saltos finos ou pontiagudos, cheiros de couros, cheiros desagradáveis, peles, veludos, lenços, perucas, pés sujos, botões, um vestido, uma bolsa, uma roupa íntima, cabelos, meias, corpetes, cinta liga e outras tantas possibilidades.

Casos clássicos como exemplos

Um bom exemplo pode ser os casos apresentados por Safatle, Dunker e Junior (apud Krafft-Ebing, 2000, p. 104 e 105). No primeiro, relatam o caso de um marido que nas duas primeiras noites de núpcias se contenta apenas em beijar a mulher e percorrer os dedos sobre suas tranças sem mais nenhuma tentativa de realização do coito, mas que na terceira noite aparece com uma imensa peruca de cabelos longos e pede insistentemente que a esposa a use.

Só dessa forma ele consegue se sentir excitado a ponto de concretizar o ato sexual com prazer. Este casamento durou 5 anos e gerou uma coleção de 72 perucas. Já no outro, é relatado o caso de um homem de 20 anos, homossexual e que tinha como fetiche bigodes fartos nos parceiros que procurava. Numa ocasião conheceu um homem que lhe parecia o par ideal, mas que, para sua surpresa, usava um farto bigode artificial causando um verdadeira desilusão.

Novamente, a relação sexual só se realizou depois que o bigode foi novamente colocado no seu devido lugar. Esses dois exemplos ilustram muito bem a que ponto pode chegar o fetichismo. Apesar de serem casos mais antigos, não é difícil deduzir a contemporaneidade de tal perversão favorecida pelas relações mais fáceis e pelos os meios digitais de comunicação que oferecem infinitas possibilidades para a busca de parceiros e para realização de vários desses fetiches. Outro ponto que vale destacar para o período em que vivemos é o afastamento da ideia da perversão como crime, desde que praticado em comum acordo com os parceiros e em locais apropriados.

Fetichismo no cotidiano: Uma patologia social de fato?

Mas, para os casos classificados como importunação sexual, praticados em via pública, e sem consentimento entre outros pontos defendidos por tal legislação são sim considerados crimes ou delitos passíveis de punição. Essa necessidade de controle imposto por lei poderia até permitir que se considerasse essa estrutura dentro da perversão como uma patologia social, mas talvez fosse necessário estudos mais profundos a ponto sustentar tal classificação como uma realidade ou paradigma psicanalítico moderno.

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    Saftle, Junior e Dunker (2021, p. 206) até descrevem que “noutras palavras, o fetichismo está associado, de alguma forma, ao que denominamos uma patologia social. Uma patologia que tem na reificação sua expressão maior.” Mas no mesmo texto, um pouco mais adiante os autores sugerem a necessidade de cautela e estudos para manter essa classificação de patologia social de forma segura e inquestionável.

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    Afinal, é difícil afirmar, como toda segurança, que a sociedade sofre por ser fetichista ou que as relações sociais ficam totalmente comprometidas por esse comportamento.

    Conclusão sobre o fetichismo

    Existem fetiches brandos e considerados normais que são praticados sem gerar nenhum problemas aos envolvidos. Mas existem os casos graves que carecem de cuidado, controle e atenção. Os autores ainda reproduzem a ideia de Freud de que o fetichista considerado normal ou de padrão aceitável não procura análise ou algum tipo de ajuda.

    Tal afirmação já afasta a possibilidade de uma demanda considerada como sofrimento. Finalizando e procurando responder ao questionamento inicial, tomando também como base referencial os autores acima mencionados em suas pesquisas acerca do tema, não é ainda apropriado afirmar que se trata de uma patologia social.

    O que fica evidente é a necessidade de novas pesquisas e estudos que possam servir de arcabouço robusto e seguro para garantir a firmação de que sim, se trata de uma patologia. Logo, fica a sugestão para debates e aprofundamentos sobre o tema para futuros psicanalistas. 

    Referências

    LAPLANCHE, J; PONTALIS, J. B. Vocabulário da Psicanálise. 4ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 1996. ONS, S., Tudo o que você precisa saber sobre a Psicanálise. 2ª edição. São Paulo: Paidós, 2021. SAFATLE, J; JUNIOR, N.S; DUNKER, C. Patologias do social. 1ª edição. São Paulo: Autêntica, 2021.

    Este artigo sobre o fetichismo foi escrito por Ricardo Gomes, Mestrando em Administração, MBA em Gestão Empresarial e com formação em Marketing. Professor universitário, formando em psicanálise e colunista mensal do BLOG. Mentor de desenvolvimento pessoal e profissional na ONG Genaration Brasil, consultor educacional e de competências sociemocionais na Escola da Inteligência do Dr. Augusto Cury. Ricardo Gomes https://www.linkedin.com/in/ricardofgv/ https://www.clubedotreinamento.com

    2 thoughts on “Significado de Fetichismo: uma patologia social?

    1. Muito bom artigo! Infelizmente há muitas pessoas com tais doenças mentais, que muitas das vezes, que os próprios familiares, não têm conhecimento do caso como: voyeurismo…

      1. Olá Mizael, muito obrigado. Oque você falou é uma verdade. Muitas vezes o desconhecimento impede a identificação e tratamento. Forte abraço e mais uma vez obrigado.

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