Frida Khalo

Frida Khalo: vida, ideias e principais obras

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Para uma grande parcela da sociedade, o nome Frida Khalo evoca uma personalidade forte, uma figura conhecida e um perene silêncio frente à questão da identidade da artista como sujeito e, sobretudo, como a pintora que mudou para sempre a maneira como se observa a produção feminina no Ocidente.

A visceralidade ardente de Frida impacta, aterroriza e confunde num panorama serpenteado pelas cores quentes do seu país de origem, o México.

A Visceralidade Onírica das Obras de Frida Khalo

Figuras mutiladas, cenários surrealistas e autorretratos frequentes são elementos que compõem sua obra. Porém persiste um sabor de dúvida após um exame mais atento que segue por gerações indagando: o que representam os painéis dessa singular artista?

Facilmente poderíamos encontrar expoentes dignos de menção no acervo da artista, como a obra Sem Esperança, de 1945 ou O Veado Ferido, de 1946. Ambas aliam o autorretrato a um surrealismo desconcertante que ora apresenta Frida como uma humana acamada e obrigada a engolir por meio de um funil uma torrente de carne putrefada, ora como um híbrido de humano e cervo repleto de flechas cravadas em seu corpo.

Longe de desejarmos esgotar em poucas páginas de texto a profundidade ignorada dos referidos quadros, propomos o levantamento de questões e possibilidades acerca de motivos e interpretações de tais painéis

A Respeito da História de Frida Khalo

A história de Frida Khalo é repleta de reviravoltas intensas que dialogam com sua intensidade pessoal refletida nas cores de suas telas. Conforme aponta BASTOS e RIBEIRO (2007, p.48) Magdalena Carmem Frida Kahlo Calderón, nasceu em Coyoacán, México, no dia 7 de julho de 1907, em sua casa, chamada por ela de Casa Azul, hoje Museu Frida Kahlo.

Nesta mesma casa, construída em 1904 por seus pais, aconteceram três fatos importantes: seu nascimento, seu casamento e sua morte.

Falecida em: 13 de julho de 1954, Frida Kahlo foi a terceira das quatro filhas do casal, Wilhelm Kahlo, posteriormente Guillermo Kahlo e Matilde Calderón y González. Suas irmãs foram: Matilde, Adriana, Cristina. Contudo, como aponta Zamora, após o nascimento de Adriana, nasceu um menino que pereceu poucos dias após seu nascimento, de pneumonia (ZAMORA, 1987 p.117). Maria Luisa e Margarida são as “meias-irmãs”; filhas do primeiro casamento de seu pai, com uma mulher mexicana, que morreu ao dar à luz a sua segunda filha.

O desprezo sofrido por Frida Khalo

Aos 6 anos, Frida teve poliomielite, doença que a deixou com sequelas em uma das pernas. Por esse motivo, a pintora teve de conviver com o desprezo dos colegas de escola, os quais a chamavam de “Frida da perna de pau”.

A poliomielite fez com que Frida adotasse o que seria uma de suas marcas no futuro: as longas e chamativas saias. Para superar a limitação da poliomielite, Frida praticava esportes até então considerados masculinos, como futebol, lutas e natação. (VILELA, 2021)

As Formações Oníricas

Analiticamente, se pode atribuir ao fazer artístico de Frida Khalo à luta pela existência contra a dor existencial sublimada através das tintas. Contudo, mais além do fazer artístico, podemos observar na própria materialidade das obras referenciadas as mesmas formações simbólicas encontradas em sonhos de pacientes em processo de análise, como a projeção e o deslocamento.

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Em Sem Esperança, se pode perceber como a artista desloca sua dor, que essencialmente é de natureza psíquica, para uma imagem física dela própria acamada. Além disso, trata-se de uma evidente autorreferência, pois a artista sofrera, quando jovem, um grave acidente que a deixou convalescente por muitas semanas.

Já em O Veado Ferido, Khalo projeta seu sofrimento na imagem do veado flechado. Há uma metáfora evidente: o sentimento de derrocada e de ser uma vítima de um processo maior do que ela própria e, frente o qual, não havia possibilidade de fuga. É, pois, uma das grandes tônicas das obras dessa pintora justamente o senso de inescapabilidade que a própria existência impõe ao ser.

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    A expressão através da arte

    A realidade é flecha, enfermidade e uma profunda e intragável dureza cujo único alívio é a arte. Nesse sentido, a pintura é a vazão criativa para um sentimento de aprisionamento e melancolia. Por esse mesmo viés, a própria arte é subvertida em sua nova forma refletindo a existência do homem (e da mulher) modernos.

    Se antes os autores se preocupavam com a idealização da beleza e de um mundo ideal em sua arte como um todo, agora a beleza passa por um período de reformulação e perde seu papel de destaque no fazer artístico. A pergunta aqui não é mais: “Como o mundo poderia ser?” mas “Como eu vejo o mundo?” e, nesse sentido, Frida viu o mundo com um apuro à dor e ao sofrimento mais do que suficiente para consagrá-la como a grande artista que foi e ainda é.

    O Cervo Ferido é uma leitura possível do sujeito vítima e algoz de sua própria história e tragetória; uma memória perene que pode ferir ou acalentar, assim como a Frida enferma de Desesperança. Além disso, mais do que apenas um olhar genérico, Frida mira a perspectiva da mulher do Séc.XX que, “enferma” de estigmas e preconceitos, engole a contragosto o remédio amargo da ideologia ocidental dominada pelo falocentrismo e rejeição ao diferente. E quem poderia ser mais diferente do que a artísta que reunia em si a audácia de ser quem era e o estigma do corpo ferido (e feminino)?

    Frida Khalo: Os Traumas Na Tela

    Olhando, finalmente, para a expressão nua da tinta sobre a tela, sentimos duas impressões iniciais: o desconcerto ante as metáforas visuais, como o veado flechado e o funil de sofrimento e a indagação quanto ao que a pintora quis representar naquela obra.

    Indo mais a fundo, nos questionamos quanto ao porquê do uso de determinados elementos para compor a obra e, por fim, após um exame atento, volvemos a uma simples questão que não mais aborda o modus operandi do fazer artístico, mas sim que se reflete numa atonicidade típica dos grandes artistas: por quê?

    As metáforas remetem à oniricidade do sonho e evocam construções inconscientes do sujeito. Por isso mesmo, são universais em seu alcance. Facilmente, poderíamos pensar nas motivações biográficas que levaram Frida a produzir semelhantes obras.

    Considerações finais

    Contudo, partindo de outra perspectiva, também é digno propormo-nos a pensar, em que medida a situação vivenciada pela pintora não é universalmente sentida por pessoas de múltiplas culturas. “A vida é um soco no estômago” afirmou Clarice Lispector no Séc.XX e, em conformidade com a obra de Khalo, ela segue sendo um “soco no estômago” e uma “desesperança” social.

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    Esse sentimento: de inescapabilidade do conflito e atonicidade perante o mundo também é um conteúdo frequente por detrás da fala angustiada de milhares de analisandos que recorrem à análise como forma de lidar com o conflito que é viver no mundo.

    O que cambiou, nesse ínterim, na arte foi precisamente a audácia para assumir corajosamente que o mundo que vivemos é humano e, como humanos, sofremos, nos desesperamos e choramos. Eis a arte em sua visceralidade crua.

    Referências Bibliográficas

    BASTOS, M. M. et RIBEIRO, M. A. C. Frida Khalo: Uma Vida. Psicanálise & Barroco – Revista de Psicanálise. v.5, n.2: 46-76, dez. 2007. MIGLIAVASCA, J.S. Uma Leitura Psicanalítica da Vida e Obra de Frida Khalo. São Paulo, 2009. Disponível em: https://sapientia.pucsp.br/handle/handle/15825. Acesso em: 17 de Agosto, 22021. VILELA, Lorraine. Frida Khalo. Disponível em: https://www.google.com/amp/s/m.brasilescola.uol.com.br/amp/biografia/frida-kahlo.htm. Acesso em: 21 de Agosto de 2021. ZAMORA, Martha. Frida: el pincel de la angustia. La Herradura, México, 1987

    Este artigo foi escrito por Gabriel Montes, psicanalista egresso do IBPC, acadêmico de História e Letras e colunista do blog oficial do Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica. Sua área de pesquisa envolve cultura, literatura e feminilidade. Também atua como psicoterapeuta em atendimento virtual. Contato: (65) 99934-0423.

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