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Geração Prozac: medicalização do sofrimento e reflexões

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Hoje entenderemos sobre a geração Prozac. Ao longo da história da psiquiatria são observadas várias formas de tratar o sofrimento psíquico e a medicalização da depressão e do sofrimento.

Estas questões renderam tema para o filme ‘Geração Prozac’, um longa-metragem americano que conta a história de Lizzie, uma jovem de 18 anos aceita em Harvard para estudar jornalismo.

A geração Prozac

Na luta contra a depressão, a estudante universitária é orientada por sua psiquiatra a fazer uso de ‘Prozac’, um medicamento muito utilizado para o tratamento da doença entre os anos de 1985 e 2000.

No filme, Lizzie reconhece os benefícios de bem-estar trazidos pelo fármaco, porém, traz à tona uma reflexão sobre a necessidade de buscar outros recursos que também auxiliem no combate à doença.

Geração Prozac: tristeza faz parte da vida

Sabemos que o sofrimento faz parte dos nossos sentimentos e uma hora ele, inevitavelmente, chega nas mais variadas circunstâncias, como no luto, na perda de um emprego, nos desentendimentos familiares, no término de um relacionamento, entre tantas outras situações que podem gerar tristeza no indivíduo.

Porém, é importante salientar que, segundo especialistas, a tristeza é passageira, já a depressão é um transtorno de humor grave e, portanto, necessita de um cuidado específico.

O que é a depressão?

A depressão é um transtorno mental sério que afeta as atividades da vida diária do indivíduo e é consequência de fatores psicológicos, ambientais, biológicos e genéticos.

Mais de 300 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão e apesar de comum, exige atenção especial já que é a principal causadora de incapacidade e pode levar ao suicídio. A depressão atinge 2 mulheres para 1 homem e o tratamento inclui a prescrição medicamentosa e psicoterapia.

Geração Prozac: Como diferenciar a tristeza da depressão?

A tristeza possui curta duração (horas ou dias) e é de menor intensidade quando comparada com a depressão que pode se arrastar por meses ou anos e possui um quadro mais severo de sinais e sintomas, como por exemplo: humor deprimido, angústia, choro, irritabilidade, fadiga, desinteresse por atividades que antes traziam prazer, diminuição do autocuidado, além das alterações no sono (excesso ou insônia) e alimentação (aumento ou perda do apetite).

Diagnóstico médico da depressão

O diagnóstico da depressão é feito mediante critérios padronizados pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM 5. O documento, criado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA), é a referência global para o diagnóstico dos transtornos mentais mediante a presença de determinado número de sintomas.

Para fechar o diagnóstico de depressão o paciente deve apresentar pelo menos 5 critérios que permaneçam por duas semanas e sejam prejudiciais às atividades psicossociais ou causem sofrimento.

Imediatismo na medicalização: está faltando espaço para viver a tristeza?

Diante da diferença clínica entre tristeza e depressão, surge a necessidade de refletir sobre as práticas imediatistas de medicalização que não levam em consideração a avaliação prévia e cuidadosa do paciente, imprescindível para estabelecer um diagnóstico preciso e que possa discernir entre a tristeza momentânea e a depressão duradoura.

Além do imediatismo medicamentoso, o ‘comportamento progressivamente ansioso’ das pessoas, assim definido pelo Professor Douglas Rushkoff – da New School University de Manhattan – pode interferir em diversas questões da vida do indivíduo. Como por exemplo, no uso indiscriminado de medicamentos e/ou até na suspensão abrupta e sem acompanhamento médico, o que pode levar a sintomas de abstinência como irritabilidade, insônia e palpitações, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

O órgão prevê ainda que a depressão será a doença mais comum em 2030 e, com isso, cresce a prescrição de antidepressivos que só na pandemia aumentou 17%, conforme levantamento realizado pelo Conselho Federal de Farmácia, em 2021.

O uso de Prozac e outros antidepressivos requer cuidados

Segundo a Organização Panamericana de Saúde (OPAS), a utilização de antidepressivos nos casos moderados e graves, porém, para não são a primeira escolha para os pacientes com depressão branda e adolescentes, além disso, não devem ser prescritos para crianças com depressão.

A OMS também salienta sobre o risco do uso indiscriminado da medicação, assim como, sua suspensão que deve ser realizada com acompanhamento médico, pois é tão delicada quanto o desmame de drogas ilícitas e álcool.

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Políticas de Mercado x Políticas de Saúde: a geração Prozac

Em entrevista para a FioCruz, o sanitarista Paulo Amarante alerta para o males causados pelo uso indiscriminado de antidepressivos. O fato de ser impossível medir a depressão como fazemos com a temperatura, por exemplo, facilita os interesses da indústria farmacêutica e, portanto, o incremento da venda destes fármacos.

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    O sanitarista também comentou sobre o risco da ampliação do conceito de depressão, que abrangeria situações cotidianas como o desemprego e o luto, por exemplo, o que molda o comportamento do ser humano tornando-o mais sugestionável a pensar que tem depressão.

    O risco reside, justamente, na transformação do comportamento das pessoas diante das dificuldades cotidianas em patologia.

    Uma avaliação cuidadosa para um tratamento ideal do paciente

    Sabe-se que os antidepressivos são importantes aliados no tratamento de determinados quadros depressivos, principalmente, daqueles em que há deficiência de substâncias químicas responsáveis pela manutenção da saúde mental.

    Contudo, os tratamentos que não visem apenas o uso de fármacos devem ser considerados no tratamento da doença como a psicoterapia, por exemplo, que pode ser capaz de estimular o indivíduo a reagir frente às adversidades.

    Para isso é imprescindível uma avaliação criteriosa do paciente a fim de incentivá-lo a buscar soluções para situação em que se encontra e, assim, evitar uma possível medicalização desnecessária.

    Este artigo sobre a geração Prozac foi escrito por STELA MARIS GONCALVES MACIEL([email protected]), jornalista, especialista em fisiologia humana e estudante de psicanálise.

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