Hans Von Oetker

O Caso de Hans Von Oetker

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O presente estudo aborda o caso de um jovem de dezenove anos chamado Hans Von Oetker (nome fictício). O paciente é filho adotivo de uma mulher acometida por diversos transtornos mentais , como Transtorno da Explosão Intermitente , Depressão Severa e Transtorno de Personalidade Limítrofe ou Borderline.

Entendendo o Caso de Hans Von Oetker

Seu pai adotivo também apresentava sinais de descompensação psíquica, caracterizada por rompantes de raiva intermitentes. O jovem relatou que fora adotado com cerca de oito anos de idade . Seus pais biológicos eram residentes de outro estado e se haviam mostrado absolutamente incapazes de criar uma criança.

Eles eram de descendência cigana e viviam em condições de miséria. A mãe possuía atraso mental, o que lhe conferia a inteligência de uma criança de cinco anos e era usuária de drogas. Quanto ao pai, pouco se pôde depreender , além de ser viciado em tóxicos, habitual andarilho da cidade de S. , de onde Hans é natural e de que o pai havia violentado seu filho.

Por consequência do uso de substâncias, o jovem nascera com diversas alterações físicas e mentais, como : dislexia, déficit de atenção, ausência de um rim, excesso de flexibilidade óssea, propensão à osteoporose, desvio de septo, dois baços a mais e pés achatados. Mais além desse cenário, o jovem havia presenciado diversos atos de violência contra ele e contra outrem em sua infância.

O Caso de Hans Von Oetker e o relato sobre o abuso sexual

Entre esses fatos, foi relatado o abuso sexual sofrido por sua mãe em um sequestro relâmpago. Malgrado tais fatos, Hans possuía um coeficiente de inteligência acima da média com altas habilidades matemáticas. Seu desenvolvimento sexual se mantivera em um estado narcísico e voltado para a auto erotização até seus dezesseis anos, quando dera seu primeiro beijo.

O jovem era homossexual e apresentava relativa resistência à figura masculina, na medida em que mostrava-se embotado e temeroso diante de figuras masculinas mais velhas. Ademais, o jovem relatou que somente tivera consciência de sua infância muitos anos depois e que somente agora conseguia relatá-la sem chorar.

Note-se que isso era verdade, pois dois meses antes ele havia relatado os mesmos fatos e havia derramado algumas lágrimas. Malgrado semelhante progresso, o presente tema ainda despertava nele movimentos repetitivos típicos de pacientes ansiosos.

Suas emoções e experiências sexuais

Não obstante, o jovem relutava fortemente em libertar suas emoções, tentando obstinadamente reter o choro sempre que caíamos nesse tema. Suas experiências sexuais propriamente ditas (com penetração) se mostraram raras.

Hans relatou que somente tivera tal experiência com um jovem um ano mais novo do que ele, de nome Josef Müller (também nome fictício), que é, no tempo desta escrita, seu namorado. Hans, entrementes, relatou que frequentemente vivenciava o mesmo sonho quando exposto a determinadas condições de grande cansaço. O relato de tal vivência segue-se abaixo.

O Relato Onírico do caso Hans Von Oetker

Disse Hans: “Acordo em um ambiente todo branco apenas com uma cama, cheia de forros, até o pijama que eu uso é branco. Me levanto e a cama desaparece, mas surge uma porta entre aberta branca. Ao passar por ela, a mesma some e mais a frente outra surge exatamente como a última. E outra, e mais uma. E foi assim por dezenas de vezes… até que, ao invés de outra porta branca, surge um enorme corredor, branco do chão ao teto, tão longo que eu mal posso calcular…

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E ao fim dele uma escada espiral quase tão longa quanto o corredor e no mesmo tom de branco. Não havia um só móvel em todos os cômodos, ou qualquer outra cor que não fosse branco. Ao descer as escadas, adentro um cômodo notoriamente maior que os outros pelos quais já havia passado, esse com janelas grandes e expressivas, logo conclui se tratar ser uma cozinha, embora não entrasse ali móvel ou utensílio algum que comprovasse isso.

Das janelas era possível observar um campo de flores brancas ainda mais longo que o corredor, com algumas falhas entre uma e outra. Saio da cozinha e percebo que estava em uma casa imensa, uma verdadeira mansão antiga, toda no mesmo tom oco de branco. Logo a casa também desaparece, como todos os cômodos que antes havia passado, e apenas a enorme plantação de rosas brancas me fazia companhia. Tudo era tão branco…

“O sonho acaba aqui”

Depois de muito caminhar por entre as rosas, me deparo com esguichos e respingos de uma tonalidade vermelho sangue, de textura grossa e seca. Quanto mais andava, mais era notório que as rosas haviam presenciado um verdadeiro massacre sangrento. Percebo que há uma parte do campo onde não há rosas, mas sim uma estaca de madeira com um lobo branco, dono de todo aquele sangue.

Quanto mais chego perto, mais seus traços se moldam para o de um homem, homem esse tão negro como o luar mais suntuoso. Seu olhar era de pavor!! Assim que eu o desamarro, ele, em um só pulo, se torna novamente o majestoso lobo branco, me olha em agradecimento, e se perde em meio à plantação. Eu, então, o imito, e no mesmo pulo, me torno um lobo ainda maior que ele, e ainda mais branco e majestoso, e corro em direção à ele. O sonho acaba aqui.”

III Conteúdo Latente Durante a análise, pude deduzir que a cor branca predominante no sonho era um símbolo da inocência perdida na primeira infância. A imensidão do cenário indica a posição de infantilidade do sujeito e realça sua fraqueza e impotência diante de sua própria vida.

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    O Caso de Hans Von Oetker e a figura do lobo

    Além disso, a figura dos diversos caminhos indica que o paciente sente-se diante de diversas veredas psicológicas, como ele mesmo relatou. Isto é, diversas formas de agir diante do problema do qual agora ele se deu conta. A figura do lobo representa a figura paterna que, malgrado tenho o aspecto de um cão (amigo) , é um animal perigoso tradicionalmente símbolo da traição e do perigo.

    O massacre no campo de rosas simboliza claramente a destruição da infância de Hans, como algo que haveria manchado e o ferido por toda a vida. A crucificação do lobo representaria a autoimolação de Hans, a quem a fantasia persecutória induzia a pensar que a culpa pelo abuso sexual era dele próprio. Essa mesma fantasia o levou inconscientemente a repetir um padrão de relacionamentos eróticos tóxicos.

    Por fim, a substituição do lobo por Hans revela um temor inconsciente do próprio paciente assumir para com outrem uma atitude de abusador e , com isso, fazer-se semelhante a seu pai. Ao mesmo tempo, porém o mesmo ato reflete o desejo pelo perdão e pela superação de todo o sofrimento vivenciado.

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    A associação livre

    Relatos da Livre Associação Durante outro atendimento, pedi para que o paciente falasse a primeira palavra que lhe viessem à cabeça sobre o que eu lhe dissesse. Então, disse-lhe as seguintes palavras e os resultados foram os que seguiram:

    • Casa 1.Segurança
    • Família Complicada
    • Mãe 1. Complicada
    • Pai 1. (Não houve resposta)
    • Amor 1.

    Segurança Esse relato , associado à interpretação do sonho de Hans, me permitiu reforçar minha hipótese de que o jovem ainda estava fixado na primeira infância, carregando dores a ela pertinentes e repetindo padrões de comportamento que o poderiam afetar negativamente. Quase todas as relações familiares de meu paciente indicavam algum nível de degradação. Isso tornou a análise difícil, pois foram plurais os focos de traumas e abusos.

    Todavia, fixando-me na infância e nas primeiras memórias, pude ver aflorarem-se diversos dados importantes. Relatos de Observação Diante de todo o abordado, proponho-me neste breve adendo à análise enunciar algumas observações obtidas mediante diversas sessões de análise.

    A fase de oralidade

    A priori, o paciente apresentava movimentos repetitivos que se auto calibravam , como apertar os nós dos dedos e bater os pés. Além disso, Hans roía as unhas dos dedões até sua base. Esse último fato foi o que concretizou minhas hipóteses de que os fatos ocorridos na primeira infância de meu paciente o haviam mantido fixado em sua fase de oralidade.

    Tal afirmativa foi bem recebida pelo próprio analisando, que afirmou que também relatou não conseguir dialogar com homens mais velhos , pois estes lhe suscitavam um ligeiro embotamento.

    O fato do paciente possuir dermatite seborreica também sinalizava uma angústia advinda do período intrauterino. Isso se explica com mais simplicidade, na medida em que sua gravidez não fora planejada e nem, tampouco, desejada.

    Conclusão

    Todo o quadro relatado, devo dizer, é apenas um resumo muito pouco suficiente ao mister de uma análise profunda de Hans Von Oetker. Todavia, até o presente momento, este é o material do qual dispomos.

    Objetivamos, contudo, na medida em que acessamos seu inconsciente, auxiliar a Hans um fortalecimento de seu ego e uma maior consciência de suas dificuldades e suas respectivas origens para que, desse modo, ele próprio possa desenvolver-se e melhorar.

    O presente artigo foi escrito por Gabriel Montes. Psicanalista egresso do IBPC. Também é acadêmico de Letras e História. Sua área de pesquisa abrange semiótica psicanalítica, literatura, feminilidade e estudos de gênero. Também atua como psicoterapeuta em atendimento virtual. Contato: (65) 99934-0423.

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