inconsciente

Inconsciente pela via da mimesis na fonte bíblica

Posted on Posted in Conceitos e Significados

Nesse pequeno enfoque sobre o inconsciente vamos abordar um tema clássico, porém, tremendamente atual e recorrente que se refere à existência do inconsciente nas origens da alma humana, tendo como ponto de partida o uso da ‘mimesis’ pela via da fonte bíblica, em Gênesis (Origens), capítulo 1 ao 9, onde vamos pinçar fatos e eventos que demonstram ‘de per si’, que o inconsciente já estava lá presente no universo da esfera dos fatos psíquicos no mundo pré-diluviano.

Existem vários relatos do inconsciente no viés bíblico. Por derradeiro, vamos responder uma indagação proposta: “O inconsciente surgiu então, junto com a alma humana?” Para responder vamos recorrer a ‘mimesis’.

Introdução ao inconsciente

Nesse artigo (pequeno enfoque) vamos abordar um tema que ainda é considerado um clássico, porém, tremendamente atual e recorrente que se refere à existência do inconsciente nas origens da alma humana, tendo como ponto de partida o uso da mimesis no livro da Bíblia, Genesis (Origens)), capítulo 1 ao 9, onde vamos pinçar fatos e eventos que demonstram ‘de per si’, que o inconsciente já estava lá presente no universo dos fatos psíquicos do mundo pré-diluviano, pois existem vários relatos do inconsciente na Bíblia.

Vamos examinar o que é o inconsciente, como se operou em Adão e Eva, e na sequência posterior, no estudo de case do desfecho no fratricídio praticado por Caim contra seu irmão Abel, em que o levou a primeiro óbito universal, a primeira morte do mundo; vamos ‘an passant, entender melhor com o uso do conceito da ‘mimesis’, lidando com a Bíblia como um livro de literatura, tentar entender a premissa Jesus Cristo a crise de Deus, e na conclusão, vamos ofertar uma resposta à indagação proposta: “O inconsciente surgiu então, junto com a alma humana ?” Para chegarmos a uma boa compreensão da temática, temos que saber que é afinal o inconsciente e depois o que é a ‘mimesis’.

O que é o inconsciente?

Dependendo do contexto em que a pergunta é ofertada, quando nos referimos a Psicanálise, ao indagar o que é o ‘inconsciente’ várias respostas são inferidas, uma delas, de que é o objeto primordial da Psicanálise. De fato, o inconsciente é o objeto por excelência da Psicanálise. E foi justamente tentando acessar o inconsciente humano que Sigmund Freud (1865-1939) abandonou a hipnose e criou o seu método próprio que denominou de ‘Psicanálise’ ou seja, método, técnica, arte e habilidade e acessar o inconsciente usando associações livres de ideias, análise dos sonhos, das palavras e frases emitidas pelos juízos subjetivos, observando hábitos recorrentes, condensações, deslocamentos, ou seja, mecanismos de defesa, atenção especial que chamamos de flutuante além de se socorrer de outros dados coletados, como lapsos, atos falhos, chistes, equívocos.

O inconsciente, pelo prisma da Teoria Psicanalítica da Personalidade, desenvolvida pelo médico e psiquiatra alemão Freud no final do século 19, é um “reservatório” de sentimentos, pensamentos, impulsos e memórias que estão fora da percepção consciente. O inconsciente é um porão escuro com muitos arquivos. Vale salientar que Freud entende o inconsciente não como um lugar anatômico, mas um lugar psíquico, com conteúdos, mecanismos e uma energia específica. O inconsciente faz parte da primeira tópica por ele formulada e sistematizada da interpretação dos sonhos, que inclusive publicou enfoque sobre o tema em 1900.

Portanto, os mecanismos de acesso ao inconsciente são a associação livre, sonhos, desejos, medos, significado das palavras, hábitos, atos falhos, lapsos e cultura expressada como por exemplo, a pintura, o teatro, a literatura, música, entre outras manifestações. Freud avaliava o todo da historicidade da pessoa que está no inconsciente, mas que não vem tão fácil a tona, entretanto, ele sabia de antemão que o inconsciente fala, ele se expressa pela memória revivida, pelos sentimentos e emoções, cria comportamentos recorrentes, que se tornam hábitos.

Valores, emoções e o inconsciente

É preciso perspicácia e ser bem hábil e atilado para perceber esses prismas que se manifestam por ações, pensamentos, valores e emoções e muitas vezes no chamado ‘piloto automático’ da pessoa. Vale frisar que, em tese, e a priori, os mecanismos inconscientes vêm à tona, por meio da preparação da atividade neural, eis que nos preparam para qualquer ação que decidimos realizar.

Mas, tudo isso acontece antes de termos conscientemente a intenção de fazer algo. Nosso inconsciente parece reger todas as ações que realizamos. Esse todo considerado ‘an passant’ em síntese, se apresenta como sendo o inconsciente e seu repertório de manifestação.

Leia Também:  O que é Inconsciente para Psicanálise?

O que é a ‘mimesis’?

Muito importante salientar que os relatos do livro bíblico enfrentam a contra visão dialética dos que argumentam que tais descrições são ligados a ’mimesis’, ou seja, a essa conceito que vem do mundo grego e significa a faculdade de reproduzir ou meramente imitar. O uso da técnica da mímesis não é a dialética em si. A Filosofia já apresentava esse conceito como fundamento da arte, ou seja, de que tudo era uma imitação, no mundo das ideias. Aliás, vale registrar que o termo “mímesis, “imitação” (vem de ‘imitatio’, que em latim designa a ação ou faculdade de imitar, copiar, reproduzir) o que constitui o fundamento de muitas coisas.

Consta que Freud procurou entender bem esse conceito também. Quem utilizou o conceito pela primeira vez foi Heródoto (484-425 AC) e depois, Aristófanes (447-385 AC). A ‘mimesis’ nos remete a uma visão de que as coisas são aparentes. Quando, por exemplo, falam em ‘cobra’ ou Satanás, nas origens seria a tentação. Quando, por exemplo, Jesus disse a seu discípulo Judas, na ceia, faças duma vez o que tens que fazer, não estaria falando com Judas, mas sim com Satanás, a maldade, alojada dentro do Judas.

A ‘mimesis’ no remete a lidar com a Bíblia com uma leitura de livro de literatura despojado da visão teológica e espiritual. Outro exemplo do uso da mimesis, ao falar em verbo que se fez carne, seria Deus encarnando no corpo de Maria via útero. O tema vai ficar mais claro quando abordarmos como se operam o inconsciente em Adão, Eva, Caim, Abel e em Jesus.

O inconsciente em Adão e Eva

Vamos encontrar no livro da Bíblia em Gênesis, no capítulo 3, a descrição e narrativa do episódio da desobediência e da transgressão. Em dado momento a tentação (representada por uma cobra) expressa para Eva que os seus olhos poderão se abrir e ser como Deus, conhecendo o bem e o mal, se desobedecer e ingerir a maçã. Eva então, colhe e ingere pedaço da maçã, e oferece a seu parceiro, o Adão. Adão também comeu a maçã e os olhos dos dois se abriram e eles perceberam que estavam nus.

Providenciaram esconder as genitálias e o corpo. Pois bem, Deus estão conforme o relato com vento que soprava e era dia suave, vai passear pelo jardim e não viu ambos e chamou os dois. Resposta de ambos para Deus: ‘Ouvimos tua voz e ficamos com medo, porque estamos nus e nos escondemos’. Deus questiona: ‘Quem foi que lhes disse que estavam nus? Acaso desobedeceram e comeram a fruta da árvore que eu proibi?’

Ato contínuo, inicia-se um processo de culpa, Adão culpa Eva e Eva culpa a tentação, subsumida na cobra. O que depreendemos é o uso do mecanismo inicial de negação e depois a atribuição de culpa, por algo que era inconsciente. Eva se limita a expressar que foi engana e ingeriu a fruta proibida. Antes que viessem a comer a fruta da árvore da eternidade, Deus expulsa os dois para as dores da vida e do mundo. Entretanto, antes emite sua sentença de punição.

Um contexto psíquico

O texto nos fornece todo um contexto psíquico, de mecanismos de negação, de culpa, vinculados ao inconsciente de Adão e Eva. Novo episódio será mais dramático mais tarde envolvendo o filho primogênito e seu irmão, num caso de homicídio, um irmão que mata um irmão, homicídio fratricida. O inconsciente de Caim na prática do crime contra Abel. O tempo fluiu e Adão e Eva tiveram filhos e filhas. O primogênito Caim dedicou-se a agricultura, e o outro filho, o Abel dedicou-se criação de animais.

Houve uma inclinação de Deus por Abel, o que levou Caim a um processo psíquico de raiva, ciúme e inveja. Caim fica carrancudo. Quando ambos estavam no campo, Caim atacou Abel, com pau e pedra e levou a óbito o irmão. Conta que esmagou crânio e o cérebro jorrou para fora. Fugiu do local sem sepultar o cadáver. Mais tarde Deus fala com Caim e pergunta: ‘Caim, onde está teu irmão?’ A resposta foi automática, nos seguintes termos: ‘Não sei! Acaso eu sou o guarda do meu irmão ?’

    NÓS RETORNAMOS PARA VOCÊ



    Quero informações para me inscrever na Formação EAD em Psicanálise.

    Por fim, Caim acaba confessando que matou Abel e recebe sua sentença. O que importa nesse fragmento dos fatos é destacar os mecanismos usados e o que está no inconsciente de Caim. Caim em dado momento informa Deus que não poderia suportar e aguentar o castigo divino tão pesado, pois lhe restaria andar fugindo e ficar se escondendo não só da presença de Deus como de seus semelhantes. Caim pratica o homicídio qualificado, que é um fratricídio, eis que mata o irmão de ventre da genitor e se envolve num processo inconsciente e de remorso.

    Leia Também:  Tarô Analítico e sua relação com os arquétipos de Jung

    Freud e o inconsciente

    Nos livros apócrifos vamos encontrar seu triste fim, também assassinado por uma flecha disparada por um parente cego. E vamos depreender dessas leituras que o inconsciente já está presente nos seres humanos desde suas origens. Mais tarde, já no mundo pós diluviano, passados mais de 1900 anos depois de Cristo, Sigmund Freud (1865-1939) vai sistematizar um método, uma técnica, de acesso ao inconsciente que ele vai denominar de ‘Psicanálise’.

    O Freud não criou, não inventou e nem descobriu o inconsciente. Ele sistematizou um método novo entrante e quem sabe, segundo seu contexto, um possível substituto, com seus diferencias em relação a de outros, para entrar nesse porão escuro onde estão os arquivos singulares da subjetividade e localizar as causas dos sinais e sintomas dos problemas humanos e do sofrimento psíquico ou como denominam as forças populares, a dor de cada um.

    O inconsciente em Jesus Cristo

    Também vamos encontrar nos relatos bíblicos, na disposição topográfica chamada de ‘novo testamento’, relatos sobre o inconsciente de Jesus, principalmente no episódio da transfiguração. Ele sabia inconscientemente, segundo alguns analistas e teólogos, que estava caminhando passo a passo, para um desfecho de martírio e dor física e psíquica além de espiritual, o que poderia ter lhe causado transtornos além do óbvio sofrimento ou dor.

    Utilizando a ‘mimesis’, alguns pesquisadores e teóricos possuem um entendimento de que Jesus é o verbo que se fez carne e que vem, pela via da providência divina, de um longo processo de uma linha ou fio genealógico, engendrada por Deus, pois, seria o próprio Deus que se fez carne pelo ventre programado de Maria, a filha de Joaquim e Ana. Vale destacar que Joaquim seria o irmão gêmeo de José, o pai tutor de Jesus.

    E esse processo seria inconsciente, porém, alojado na alma dos atores que dramatizaram aquela situação toda naquele contexto e conjuntura. O tema é inclusive explorado usando-se a ‘mimesis’, por pesquisadores em linha própria, como foi o caso consubstanciado no livro ‘Cristo, uma crise na vida de Deus’ de autoria do escritor John R. Jack Miles(n.1942, com 80 anos). Vale ainda registar que não podemos confundir dialética, mimesis e diegesis. São conceitos bem diferentes.

    Trialética

    A ‘diegesis’ não é representação do real através da arte, mas a encenação onde os envolvidos descrevem eventos qua atuam, ou atuaram. Mimesis é a imitação da vida real e o reflexo da realidade. Ao passo que a dialética é uma batalha de teses e contrateses na busca de uma síntese. Já existia uma nova concepção chamada de trialética, onde a síntese é encarada como também um polo autônomo que poderá gerar nova tese que vai engendrar a contra tese, num ‘devir’.

    O devir muitas vezes é imperceptível, como a grama que cresce, ou o cabelo ou um há, que crescem. Ou ainda, a rotação da terra é um devir imperceptível. A Terra gira, mas não percebemos isso, a não ser pela posição do sol, lua, noite e estrelas. Ninguém conseguiu ainda sentir e perceber o giro, isso é o devir. A evolução humana seria então, em tese, uma dialética em ‘devir’ com ‘mimesis’ e ‘diegesis’.

    Conclusão

    Diante de tudo o que foi acima exposto para consideração e reflexão, chegamos ao momento de ofertar uma resposta ao questionamento que foi proposto: “O inconsciente surgiu então, junto com a alma humana?” Entendemos a priori, que a vida está no sangue. O próprio Gênesis, capítulo 9, versículo 4, expressa, ‘que não devemos comer carne com sangue, pois no sangue está a vida’. Já era um entendimento no mundo pré diluviano. O ser humano ao ser criado não sabia distinguir o bem e o mal, até seus olhos terem sido abertos pela transgressão.

    Mas, antes de ser um ser biológico recebeu um sopro de ar, e hoje sabemos que o oxigênio tem uma taxa no ar ao lado de outros gases. E esse oxigênio entra no sangue. E o sangue é que vai ativar o cérebro. Tanto é verdade que o golpe ‘mata leão’ muito condenável corta o fluxo de sangue e pessoa desmaia, por não receber o sangue com oxigênio no cérebro. E o cérebro é a sede da mente. Morrendo o cérebro, a mente se dissipa.

    O inconsciente está alojado dentro da mente. A alma é entendida como o objeto resultante do sopro de ar nas narinas, o que gerou o ‘animus’ da vida. E o ar é capturado da natureza e no pulmão depurado onde é retido a taxa de oxigênio que vai ingressar no sangue e o resto do ar descartado.

    Leia Também:  Influências do Inconsciente no comportamento

    A mente

    Quando o ar foi insuflado e gerou a vida, ativou a mente, e a mente engendrou o inconsciente, portando, em que pesem as pesquisas pendentes, o inconsciente nasceu na mente, mas junto com a alma eis que, não tendo o oxigênio, ocorre o óbito o que também, leva ao apagão geral do cérebro, que dissipa a mente. E como o inconsciente está alojado na mente, e a mente é produto o cérebro, também entrará em colapso com a morte cerebral; a mente não é isolada do cérebro.

    Ela é produto do cérebro. Em que pese essa oferta de resposta seja provisória e hipotética e ainda dependente de profundos estudos neuropsicanalíticos e neuropsicológicos, já existe um consenso de que estamos cada vez mais próximos, em parceria com a tecnologia, de decifrar essa questão que ainda é um clássico tremendamente atual para ciências biopsicossociais.

    Artigo escrito por Edson Fernando Lima de Oliveira, Licenciado em História e Filosofia. PG em Psicanálise. PG em Filosofia Clínica, PG em Farmácia Clínica e Prescrição Farmacêutica. Cursando Neuropsicanálise. Contato via e-mail: [email protected]

    Deixe um comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado.