Inconsciente coletivo brasileiro

O inconsciente coletivo brasileiro na visão da psicanálise

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Pensar no inconsciente coletivo brasileiro pela lente da psicanálise nos permite encontrar certo entendimento deste adoecimento social que nos encontramos, desta forma de habitar o mundo com as demandas do presente e os nomes de marca promovidos pelo nosso século que são ansiedades, distúrbios de atenção, transtornos de humor, depressão, toque e pânico.

Lacan nos mostrou através do estágio do espelho que somos uma representação de nós mesmos pelo olhar do outro, que somente sei de mim intermediado no outro.

Entendendo a história por trás do inconsciente coletivo brasileiro

Na Idade Média esse outro era chamado de “Deus”, “Zeus”, “Buda”, e mais uma infinidade de Deuses encontrados na Mitologia e Religiões, sempre através de um olhar coletivo. Hoje esse olhar foi privatizado, idealizado, individualizado, o espelho move-se para os posts das mídias sociais, da ideia performática, da prosperidade, da filosofia do Monge e o Executivo, no imperativo da felicidade. E nesse cenário de “Todo mundo PODE ser feliz!” “Transforma-se em: Todo mundo DEVE ser feliz!”, Você precisa performar!

Quando a performance esperada não acontece a indústria da felicidade produz tristeza e depressão. Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil segue liderando desde 2017 como o país mais ansioso do mundo com 18 milhões de brasileiros apresentando algum tipo de transtorno de ansiedade, o que corresponde a 9,3% da população e cerca de 5,8% com depressão. Na mesma direção do super diagnósticos de depressão encontramos o super uso de fármacos, na direção do dopping social do tratamento do sintoma ao tratamento da causa.

O estudo realizado pela Funcional Health Tech mostra um aumento de mais de 20% no consumo de antidepressivos no Brasil, entre 2014 e 2018, e segundo dados da consultoria IQVIA, a busca por tratamento com antidepressivos e estabilizadores de humor cresceu, aqui no país, 44% de fevereiro/20 a janeiro/2021. Resultados muito estimulados pela equipe de marketing das super farmacêuticas, claro.

Inconsciente coletivo brasileiro e a depressão

Observando com mais proximidade o conceito de depressão, o encontramos na psicose mas também na falta de sentido, no desânimo, nos grandes desencantamentos, muito próximo do que até Freud batizar como psiconeurose narcísica se conhecia por melancolia. A banalização dos medicamentos para o tratamento de humor é um problema de saúde pública e sanitária.

O mundo líquido do filósofo e sociólogo Zygmunt Bauman coalhou e se mostra no nosso inconsciente e no inconsciente social, enquanto buscamos o entorpecimento. No Mal-estar na Civilização do Freud nosso algoz era a culpa, hoje minimamente a sentimos, recalcamos nosso superego do coletivo junto a autocrítica que geraria a culpa.

Negamos o algoritmo social através da cultura do narcisismo, desistimos do mundo social público em prol ao mundo de consumo privado, das milhares de demandas, do hiper estímulo, da inadministrável quantidade de informações, do roubo do tempo da introspecção, da falta dele para o ócio criativo, do descostume da leitura silenciosa do dia a dia, do tempo investido através da busca de likes no desespero da correspondência aos desejos do outro, da aprovação do outro, no narcisismo internalizado no superego.

Inconsciente coletivo brasileiro e a crise crônica

Na mesma direção encontramos uma “crise crônica” no estado de prontidão constante que este mundo ultrarrápido e conectado nos apresenta através do estresse, que muitas vezes o seu gerenciamento é ainda mais estimulado para obtenção da máxima produtividade, afinal, com mais energia gerada pelo stress, o cérebro funciona melhor provocando mais agilidade mental e física e consequentemente a entrega de melhores resultados comerciais.

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Como civilização já nos relacionamos com o tempo de algumas formas, como eternidade na idade média, no mundo moderno com o futuro, época das utopias e, no atual momento neste mundo distópico o relacionamento é o instante, estar no presente, gozar já, o princípio do prazer de Freud gritando em toda sua potência na individualidade.

Se não tem futuro há o desinteresse do passado e o presente se mostra no imperativo da felicidade, aquela citada mais acima que diz: Não fique triste! Sorria! Você pode! Você deve! Só depende de você! Buscamos a autoajuda na tentativa de nos tornarmos outra pessoa em uma outra realidade ou ainda somente criar uma outra persona que reaja de forma ainda mais performática diante do caos nosso de cada dia.

Entendendo Winnicott e o indivíduo

Winnicott nos diz que o amadurecimento acontece na exposição progressiva não traumática à realidade e percorre durante toda nossa existência, desde o nascimento até a morte, através de diferentes marcos e nos traz que quando este é saudável foi o resultado de um ambiente suficientemente bom permitindo a expansão do SELF, isso é, de si mesmo como indivíduo.

Por outro lado, em ambientes invasivos ele acontece através de falsos “Selfs” que apenas reagem aos estímulos mediados por esta crosta de proteção desaguando em nossa caixa de insensibilidade.

Sintomas que podemos perceber de diversas formas na atualidade, seja em nossa reação aos números de óbitos diários que tivemos na pandemia , em março de 2021 imaginar a morte de mil pessoas por dia era assustador, já em agosto de 2021 este mesmo número era a realidade banalizada por boa parte da sociedade, isso é, banalizamos a morte mesmo com a o número de mortes que representava mais de dois Boeings diários.

A pandemia e o inconsciente coletivo brasileiro

Ainda falando da pandemia tivemos a pior gestão enquanto sociedade, representamos 2,7% da população mundial e concentramos 9,1% de casos confirmados e 13,2% dos óbitos mundiais. Enquanto este números iam acontecendo um fenômeno negacionista eclodiu nas mesma proporção, experimentos em humanos e toda forma da desigualdade se fez vista na superfície.

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    Hoje, em outubro de 2021 mais de 18 milhões de crianças vivem em situação de fome, 84 milhões de pessoas em algum grau de insegurança alimentar a desigualdade cresce por aqui na mesma velocidade que o neoliberalismo e o fascismo.

    Na filosofia esse fenômeno é lido pela filósofa Hannah Arendt em seu relato sobre a banalidade do mal na obra “Eichmann em Jerusalém (1963)”, ela observa que o ser humano não se torna mau e sim perde a capacidade de sentir e consequentemente de avaliar suas próprias ações, testemunhando o julgamento de Adolph Eichmann, um dos arquitetos do holocausto, ela nos relata que o mal não vem na malevolência de fazer o mal, ao invés disso, traz uma realidade de um homem que não entende sua condenação uma vez que estava apenas fazendo o seu trabalho técnico na logística e a seleção de quais judeus iriam ser enviados aos campos de concentração ou extermínio.

    Não há culpa ética nem moral, o valor é técnico

    Esse conceito nos permite perceber de que forma a construção da instância psíquica do superego do Freud está constituída, qual regulação moral, exigências sociais e culturais estão estabelecidas em nosso inconsciente social.

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    Nesta mesma existência do inconsciente percebemos um ID super estimulado pela satisfação imediata e instantânea do “gozo já” na composição há um EGO afastado do princípio da realidade, através da “negação” como mecanismo de defesa, logo ele, que conforme a teoria do pai da psicanálise trabalha no nível do consciente e tem como função a mediação entre o ID e o Superego, isso é, entre o mundo dos desejos do ID e a moral do Superego.

    Buscar o tratamento da causa e não seu dopping, explorar o entendimento que somos seres psicossomáticos, através das composições que se retroalimentam entre nosso sistema químico e nossa constituição psíquica e evidenciar as formas em que a economia psíquica está planejada na sociedade são alguns dos desafios que a psicanálise tem na busca da saúde mental individual e coletiva em nossos tempos.

    Conclusão

    Somos o encontro da condição genética com o ambiente em que estamos inseridos. Meditar para performar melhor ou meditar para lembrar que a vida não é uma performance? Fármacos para performar ou terapia para lembrar que a vida não é performance? Neoliberalismo para performar o capital ou uma nova constituição de sociedade para lembrar que a vida não é sobre a performance do capital?

    O presente artigo foi escrito por Karen Fernanda Nicoletti, nascida e residente do Rio Grande do Sul – Brasil, Graduada em Tecnologia da Informação, estudante de ciências sociais e psicanálise no IBPC (Instituto Brasileiro Psicanálise Clínica). Contato: [email protected]

     

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