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Literatura Naturalista e as teorias de Freud

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O artigo aborda os componentes da personalidade de Freud no contexto da literatura naturalista. Como a teoria freudiana afetou a narrativa e a composição dos personagens na arte pós-romântica?

O transição para a literatura naturalista

A literatura pós-romântica foi marcada por inúmeros fatores históricos como avanço tecnológico, o desenvolvimento da ciência, filosofia materialista, teorias científicas e o surgimento do proletariado.

Na segunda metade do século XIX, a ciência impõe-se como a única explicação para os problemas da humanidade, nesse caso, a visão idealizada é substituída por uma vida materialista e cientificista. A literatura da metade do século XIX, como expressão do homem em seu tempo, torna-se analista, ou seja, retratará o comportamento humano em busca de uma explicação metódica.

Dentre as correntes de pensamento, destacam-se o Positivismo, Determinismo, Evolucionismo, Marxismo e a psicanálise desenvolvida por Sigmund Freud.

Diante dos fatos mencionados, travou-se uma polêmica, em 1865, que foi a Questão Coimbrã, também chamada de “bom gosto” ou “bom senso” entre os literatos portugueses.

Na verdade, um grupo de literários trabalhava a ideia de abolir o Romantismo, Escola Literária, até então, existente.

Jovens estudantes tinham a proposta de denunciar a sociedade e mostrar a vida do homem de forma mais realista. Esses novos autores estavam sendo influenciados pelo seu momento e realidade, com isso, percebiam que o Romantismo já era obsoleto para aquele tempo. Era uma literatura totalmente fora do contexto da época.

A intenção era fazer uma nova escola voltada para o ser humano diante do meio em que vivia, suas condições, o homem como peça do mundo, portanto, desenvolveu-se a Escola Literária Realista-Naturalista.

O realismo e o naturalismo no século XIX

O Realismo foi uma escola literária que surgiu na metade do século XIX em oposição aos ideais românticos. Os alvos da literatura realista eram a igreja, o casamento e a burguesia, já que esta comandava o Romantismo na época.

Os artistas realistas-naturalistas se influenciaram pelos fatores históricos, a ciência como único meio de explicar as situações e não mais as espirituais, a psicologia e a psicanálise de Freud.

Todos esses aspectos estarão sendo representados nos romances nessa nova escola. Mas, para que o tema principal sobre Freud e seus componentes psicanalíticos sejam retratados na literatura do Naturalismo, será necessário entender o Realismo e, então, as propostas do Naturalismo.

Qual a diferença da escola realista e naturalista?

Apesar de as duas pertencerem à mesma época literária, há suas pequenas diferenças. O Realismo foi um movimento literário caracterizado como representação da vida real, o dia a dia de pessoas comuns, usando temas como sociedade, classe social etc.

Um dos grandes representantes do Realismo na Europa foi Eça de Queirós com seus romances O crime do padre Amaro e O primo Basílio.

Este último traz a personagem Luíza que, além de romântica é burguesa e há dependência de Jorge, seu marido. Este, por sua vez, viaja muito a trabalho, deixando a jovem à mercê da solidão, gerando nela pensamentos fora do casamento.

No decorrer da história, surge Basílio, seu primo, de quem foi namorada durante a sua adolescência. A personagem Luíza é o próprio exemplo que possui os componentes freudianos. Seu desejo e instinto pelo primo são características claras do ID. Durante o romance, ela demonstra o EGO, pois tenta viver dentro dos princípios morais, apesar de se encontrar às escondidas com seu primo Basílio.

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    Lembrando que ela é uma personagem burguesa, ou seja, a burguesia sempre passou uma imagem perfeita de seus personagens, portanto, há a crítica do Realismo ao Romantismo. Uma personagem romântica que possui pensamentos maliciosos, portanto, há a quebra dos ideais românticos.

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    A psicanálise da literatura naturalista

    O SUPEREGO aparece durante o romance como elemento responsável das normas e moralidades. Em O crime do padre Amaro, aparece mais um exemplo de Id no personagem Amaro. Nesse caso, o desejo é pela jovem Amélia que pertencia à mesma instituição.

    Amaro só ingressou no seminário devido à exigência de sua tia, porém essa não era a sua vontade. A paixão e o desejo pela jovem eram tão grande que o padre ainda pensou em deixar a batina.

    Além da paixão proibida por ser um padre, ainda havia o problema de Amélia ser noiva, ou seja, dois motivos de um relacionamento não ocorrer.

    Nesse caso, encontram-se o Id, a paixão proibida de Amaro, e o Superego que é a moralidade que o impedia de cometer tal ato e levá-lo a uma possível decadência na cidade, portanto, o personagem tinha a consciência do que era o certo e o errado, ou seja, a clara ideia do Ego.

    A influência de Freud sobre a literatura naturalista e realista

    Os pensamentos de Freud estavam influenciando muito os artistas na época. Além de os autores se basearem nos fatores já citados, acompanhando o ritmo da evolução da ciência, também imergiram no interior do ser humano.

    Houve uma preocupação maior em analisar a sociedade, o meio e o homem.

    Sigmund Freud estava em voga naquele momento com suas experiências e o avanço na psicanálise. Quanto ao Naturalismo, uma ramificação do Realismo, as ideias freudianas estarão muito mais presente.

    O Naturalismo é um movimento artístico e literário conhecido por ser a radicalização do Realismo, baseando-se na observação fiel da realidade e na experiência, mostrando que o indivíduo é determinado pelo ambiente e pela hereditariedade.

    Dentre grandes autores do Naturalismo, apresentam-se Sthendal e Zola na Europa. Ambos trabalharam com temas do homem como produto do meio, o experimental. Já no Brasil, o autor que mais se destacou foi Aluizio Azevedo com O cortiço, também tematizando a ideia de que o homem é determinado pelo meio em que vive.

    O cortiço de Aluizio Azevedo

    O romance possui a expressão de o desejo de crescer social e financeiramente através de situações ilícitas representadas pelo personagem João Romão. Há também o desejo sexual representado pelo personagem Jerônimo. Este, por sua vez, é casado com Piedade, porém, deseja Rita Baiana.

    Encontram-se no personagem o Id, o desejo, o Ego, as circunstâncias que o equilibram para não cometer atos impróprios e o Superego que traz à sua mente o erro do adultério e saber que Rita possui um namorado. O desejo não fica reprimido por muito tempo.

    Assim como padre Amaro se envolveu com Amélia, Jerônimo preferiu destruir seu casamento, matar o namorado de Rita Baiana e envolver-se com ela. A decadência não se limita a esse ocorrido. Piedade, ex-esposa de Jerônimo, torna-se alcoólatra, prostitui-se tanto com homens como mulheres.

    Como se percebe, o romance naturalista O cortiço é um exemplo de obra que possui características de Darwin que é a lei do mais forte, o Determinismo de Taine que tem como exemplo João Romão que, apesar de se enriquecer, continua sua vida no local e os pensamentos de Freud que influenciaram e enriqueceram muito a literatura realista-naturalista, trabalhando a questão da libido, dos instintos e desejos da natureza do ser humano.

    A psique humana no naturalismo

    A literatura realista-naturalista trouxe aspectos que nunca houve em momentos anteriores como aprofundamentos psicológicos, psicanalíticos e a preocupação com o interior e mente do ser humano.

    Essa escola literária é rica em exemplos de personagens problemáticos, fracos e cheios de complexos. Há muitos outros ainda a serem lembrados e estudados psicanaliticamente como Sérgio de O Ateneu que se apaixona pela esposa do diretor do colégio.

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    Há também o Bentinho, vulgo Dom Casmurro, que leva consigo a dúvida da traição de Capitu. Segundo a literatura, é cheio de complexo e possui fraqueza. Tendo em vista os aspectos observados, a ciência foi um fator de grande importância na literatura da metade do século XIX, mais precisamente na área da psicanálise em que os personagens foram trabalhados em forma de observação e análise.

    Na época, a literatura ganhou um novo aspecto, fazendo com que as pessoas tivessem uma visão da realidade da sociedade e de si mesma, uma forma de refletir mais sobre o outro, as situações, as circunstâncias numa sociedade talvez doentia devido a repressões políticas, religiosas e sociais, levando a culpa, problemas interiores e psíquicos.

    Pode-se afirmar que Freud teve uma rica e importante participação na literatura realista-naturalista em que os autores alimentaram-se de seu conhecimento para realizarem suas obras.

    Este conteúdo sobre a literatura naturalista, o realismo e as relações com a psicanálise de Freud foi escrito por Alysson Abrantes ([email protected]), professor, graduado em Letras, pós-graduado em língua portuguesa e mestre em ciências da educação.

     

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