mito de Narciso na atualidadade

O mito de Narciso: mitologia e psicanálise

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Certamente você já ouviu indivíduos falarem assim: “mas o fulano é um narcisista; mas que atitude narcísica; uma decisão narcisista” e assim por diante. É uma palavra bastante utilizada quando o assunto é sobre um sujeito que possui um apreço considerável por si próprio. Ele tem um senso exagerado de si, uma ideia de importância extremamente alta. O mito de Narciso foi utilizado por Sigmund Freud e, pois bem, vamos para o princípio de tudo.

Entenda o Mito de Narciso

O mito de Narciso vem da cultura grega, tanto que a etimologia da palavra no grego significa: “nárkissos,” ou seja, torpor ou hipnótico. Narciso era filho de Cefiso e Liríope, no entanto, com o nascimento do filho, a mãe ficou impressionada com a beleza dele.

Tanto que ela tratou de ir conversar com o sábio Tirésias, ele tinha o poder de prever o futuro. A mãe, por entre as suas curiosidades, perguntou para Tirésias: “Narcísio viverá até ficar velho?” O sábio afirmou que sim, mas ele nunca poderia ver sua própria imagem. Narciso cresceu e acumulou muitas pretendentes. Elas nutriam paixões descomunais pelo rapaz.

Num certo dia, o jovem estava pelas montanhas, caçando. Ele foi avistado pela ninfa Eco, ela ficou encantada com a beleza de Narciso. É interessante lembrar, amigo leitor, que a ninfa foi castigada por Hera. Seu castigo foi sempre repetir a última palavra proferida por um outro, porque ela sempre queria dar a última palavra nas discussões.

A atualidade de Narciso

Viram o porquê do uso da palavra eco hoje em dia? Continuando: Narciso ouviu alguns barulhos e ficou desconfiado, ele até perguntou se havia alguém ali por perto. Eco, apaixonada, ficou diante de Narciso para despejar todo o seu amor, mas o rapaz recuou e mandou ela ir embora. Eco fugiu para as cavernas, ali ela ficou para sempre, até definhar.

Diante disso o jovem Narciso foi castigado por Nêmesis, por ele ser um amor impossível. E o castigo foi assim: Narciso estava caminhando por uma fonte bem clara, ele estava cansado e ali ficou diante da fonte, deitado. Olhou para a água e ficou encantadíssimo com a imagem refletida na fonte. Ele tocava na água e o reflexo desaparecia, o desaparecer da imagem deixava o rapaz entristecido e confuso. Ele não poderia tocar no reflexo, apenas admirar.

Ele estava hipnotizado pela linda imagem, tanto que ele ficou ali por dias e anos. E ali Narciso morreu: fome, sede, o enfraquecimento do corpo, etc. As ninfas choraram pelo destino de Narciso, porém o corpo desapareceu e no lugar nasceu uma flor amarela de mesmo nome.

Cultura grega, Freud e Psicanálise

A etimologia da palavra mito é bem pertinente para este artigo. Na cultura grega, o termo mito estava ligado: assunto, invenção, relato imaginário, lenda, mensagem, assunto, etc. O mito, em tempos gregos, era instrumento de ensino, em outras palavras, ele auxiliava o ser humano a compreender o mundo. O mito dava, digamos assim, um sentido para o real.

Na atualidade, o mito está mais ligado com o que é intrigante, desconhecido ou não esclarecido. No entanto os mitos gregos transmitem intensamente os dramas dos seres humanos. E no mito de Narciso estão os efeitos da auto- imagem, onde a mesma carrega os resultados de uma vida narcotizada.

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Na verdade, leitores, o mito procura transmitir o seguinte: a própria imagem do ser humano pode afastar ele de outras imagens, isto é, ele apenas fica em suas próprias experiências. Não expande e não amplia o seu conhecimento, não constrói vínculos com terceiros.

A psique narcísica

O sentimento narcísico é como um eco, lembra da ninfa Eco? O narcisista não escuta o outro, ele apenas ouve o eco do seu conhecimento e decisões. Ser narcisista é possuir a si próprio, ser possuído por um outro é desesperador.

A libido do narcisista é fechada em si própria, onde a mesma fica numa espécie de independência e poder, mas tal sentimento é falso. É apenas um teatro construído pelo próprio diretor, o narcisista, e só ele é a plateia. Entretanto o ser humano é frágil, mortal e passível de enfermidades.

O homem depende do outro, o sujeito não sobrevive sozinho. Pois a sociedade é um espaço de preservação da vida do indivíduo, onde o cidadão visa saciar todas as suas necessidades. Já o narcisista não admite o outro devido ao sentimento de empoderamento e sensação de infinitude.

O assunto independência é tocado no momento em que Narciso está diante da fonte, ali está só ele e mais ninguém, quer dizer, uma vida sem os outros gera o decesso. Um narcisismo grave apresenta periculosidade, melhor dizendo, o narcisista não provoca a morte dos outros, mas causa a sua própria. Enfim, amigos, Narcísio aponta para a arrogância humana, transtorno muito comum na sociedade atual.

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    Sobre o mito de Narciso: Paul Nacke e Sigmund Freud

    Paul Nacke, psiquiatra, foi o primeiro a utilizar o termo narcisismo. No ano de 1889, Paul atribuiu o narcisismo como uma espécie de perversão, ou seja, o corpo do narcisista é o seu objeto de desejo sexual. É a pessoa que ama a si mesma, ela, em outras palavras, não quer amar, mas ser somente amada.

    A escolha amorosa do narcisista sempre está embasada a partir de si, sua imagem. Não existe o reconhecimento da existência do outro. Narcisismo é onipotência e indestrutibilidade. Mas é válido olharmos para a perspectiva freudiana:

    “Para Sigmund Freud, o narcisismo é uma fase do desenvolvimento das pessoas. É um estágio em que verifica-se a passagem do autoerotismo, ou seja, do prazer que é concentrado no próprio corpo, para eleição de outro ser como objeto de amor. Essa transição é importante porque o indivíduo adquire a habilidade de conviver com aquilo que é diferente.”

    É o espaço onde o ego é considerado como objeto de amor, assim chamado de narcisismo primário.

    “O narcisismo secundário, por sua vez, consiste no retorno da afeição ao ego depois que ela foi destinada a objetos externos.” Conforme Freud, todas as pessoas possuem constructos narcísicos, porque elas possuem o impulso da autopreservação. O narcisismo ocorre por meio de um processo desenvolvimental que o bebê perpassa.

    Segundo Freud, a libido (amor, sexualidade vital) pode estar investida ou catexizada em dois “lugares”:

    1) no próprio corpo (o que configuraria uma libido narcísica);

    2) no objeto, no outro (libido objetal).

    Para ele, no início, o bebê investe toda sua libido em si mesmo vivendo um estado de completa completude e onipotência. Por isso ele chama o bebê de “sua majestade”. Aos poucos, este bebê vai descobrindo a necessidade do objeto (leite, afeto materno) e passa a investir sua libido em seu primeiro objeto de amor: a mãe.

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    Da formação da personalidade ao comportamento narcisista

    Quando o nenê nasce, ele não possui ciência no que tange sobre uma diferenciação entre ele e o que o cerca, o que é real. Tudo é parte da criança, até mesmo a mãe. Este estágio Auto Erótico dura poucas semanas pois logo começa a perceber, através de seu desconforto interno (fome, frio, calor, intensidade luminosa, ruídos abruptos), que estes estímulos insuportáveis são amainados por algo (na verdade alguém) que lhe socorre.

    O bebê passa a perceber o outro por meio da falta, isto é, ele percebe que não pode realizar os andamentos sozinhos, ele precisa de alguém. “O acolhimento que lhe é concedido (colo, afago, saciedade, etc) dá à criança a percepção de si, que ela tem contornos e pele, e de que está no centro do mundo (seu mundo).”

    Tendo em vista o panorama descrito, Freud chamou o mesmo de narcisismo secundário. “Em pouco tempo, as pulsões de autoconservação (Libido do Eu ou narcísica) e pulsões sexuais (Libido objetal) começam a se diferenciar.”

    A criança passa a especificar os seus desejos, os mesmos vão de encontro com objetos externos e o seio da mãe. A Libido objetal, tal como Freud a define, passa a ser a carga de energia sexual (catexia) que como os pseudópodos de uma Ameba se dirigem ao objeto e depois recolhe-se novamente. Ocorre que este “Amor Objetal” precisa recompensar o Ego do indivíduo (satisfação narcísica).

    É a vida precisando ser saciada pela preservação, satisfação narcísica diante da realidade. “E nem sempre isto é possível (aliás – quase nunca – a vida acontece onde falta algo), e ao frustrar-se em seus objetivos a pulsão é recolhida novamente ao Ego (Narcisismo Secundário).” O narcisismo ideal é quando suas pulsões são voltadas para o respeito e cuidado consigo próprio.

    O narcisismo de cada dia

    Um narcisismo saudável parte de um contato equilibrado com a própria pessoa. É o que contribui para a auto- estima do indivíduo. É o respeito e carinho pelas próprias ideias ou sentimentos, é também aceitar o que é diferente.

    O narcisismo mortífero está ligado com o que é excessivo. É esquecer o outro e viver sob o próprio umbigo, o narcisismo mortal é o que faz o indivíduo esquecer da fragilidade e finitude que existe dentro dele. “[…] é importante também apontar o que é o transtorno de personalidade narcisista.

    Esse é um distúrbio em que uma pessoa tem uma ideia exagerada de sua própria importância.”

    São pessoas com:

    • problemas de relacionamento,
    • falta de empatia,
    • tendência à depressão e, caso a situação fique mais delicada,
    • elas podem usar drogas.

    Acredita-se que as causas desse distúrbio sejam tanto genéticas quanto ambientais. Assim, entende-se que esse é problema pode ser passado de uma geração para a outra. No entanto, também é possível afirmar que pais que supervalorizam os seus filhos podem contribuir para que os traços narcisistas se desenvolvam neles.

    Psicoterapias são as melhores indicações para as pessoas que possuem tendências narcísicas. O caminho é labutoso, porque o narcisista acha que não precisa de ajuda. Mas a psicoterapia auxilia o indivíduo a ter uma melhor relação com as pessoas e o real.

    Vale lembrar que o ser humano está vivendo debaixo de uma cultura narcísica, ou seja, o eu prevalece. É o culto ao indivíduo, a busca desenfreada pelo sucesso, necessidade de admiração e muitos outros exemplos poderiam ser citados aqui.

    Redes sociais que, cá entre nós, não possuem nada de social, são o rosto virtual de Narciso. Enquanto que o Narciso mítico ficou diante de uma clara fonte, encantado com sua própria imagem; hoje as fontes são virtuais. São mais e mais pessoas encantadas por terem falsas vidas nas redes.

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    Desejosas pelo empoderamento, eterna jovialidade e status. Narciso viu seu rosto refletido na água, mas e os reflexos virtuais? As fontes de hoje? A pessoa pode ver de tudo, menos o seu reflexo. O mito de Narciso deixa uma mensagem para os seus leitores, ele almeja ensinar algo: não olhe apenas para si, olhe para o outro.

    Diferentemente do sistema social, ele teima em incutir nas pessoas falsas realizações e inúmeras felicidades, isto é, o moderno Narciso e os seus falsos reflexos.

     

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    Sem autor: O que é alguém narcisista? Psicanálise Clínica, 2019. Disponível em: https://www.psicanaliseclinica.com/narcisismo-na-psicanalise/. Acesso em 26 de março de 2021.

    Sem autor: Narcisismo primário e secundário. Psicanálise Clínica, 2021. Disponível em: https://www.psicanaliseclinica.com/narcisismo-primario-e-secundario/. Acesso em 28 de março de 2021.

     

    Este conteúdo sobre o mito de Narciso, sua contextualização na mitologia grega e sua atualidade foi escrito por Artur Charczuk ([email protected]), pastor luterano no Rio Grande do Sul. Também sou formado em Letras, com ênfase em português e literatura (2010) pela Universidade Luterana do Brasil, ULBRA. Possuo especialização em Línguas, Literaturas e Mídias (2011) pela Universidade Luterana do Brasil, ULBRA. Sou especializado em Ministério Pastoral (2017) pela mesma instituição. Sou psicanalista em formação (2019-) pelo Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica, IBPC. Também realizo o curso avançado em psicanálise (2021-) pelo Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica, IBPC. Sou formado em Filosofia (2020) pelo Instituto Mineiro de Formação Continuada, ZAYN. E possuo especialização em Aconselhamento Pastoral (2020) pelo Instituto Mineiro de Formação Continuada, ZAYN.

     

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