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Perversão: o que é, significado, exemplos

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Traremos uma síntese sobre o conceito de perversão. Então, vamos entender o que é perversão sexual na visão de Freud e da Psicanálise. Aliás, veremos exemplos de perversão, que é uma forma de transtorno sexual, tema muito debatido na obra freudiana.

Conceito de Perversão em Freud e Lacan

Em Psicanálise, perversão é qualquer manifestação de sexualidade que não seja o coito “pênis-vagina”. Não tem relação direta com o sentido corriqueiro de perversão como “crueldade”. Talvez a associação com crueldade seja porque o sadismo (que é uma parafilia ou perversão que representa a satisfação sexual por impor dor e controle sobre o parceiro) é uma das mais conhecidas formas de perversão. Mas muitas parafilias (que são formas de perversão) não buscam o aspecto da dor ou do controle. Por isso entendemos que a perversão no conceito psicanalítico não se esgota na ideia de crueldade.

Assim, mesmo relações heterossexuais podem ser uma forma de perversão: por exemplo, o voyeuriusmo, o exibicionismo e o sado-masoquismo.

O trecho de Freud abaixo sugere a dificuldade de separar a perversão e “normalidade”. Freud se incomodava com o uso pejorativo (reprobatório) que as pessoas faziam da palavra perversão. Mesmo o “alvo sexual normal” (isto é, pênis-vagina) pode envolver “acréscimos”, como aspectos simbólicos, fantasias e desejos típicos de uma parafilia ou perversão. Por exemplo, se um casal homem-mulher pratica sexo oral e exibicionismo, isso seria já uma perversão. Vejamos o que diz Freud:

Em nenhuma pessoa sadia falta algum acréscimo ao alvo sexual normal que se possa chamar de perverso, e essa universalidade basta, por si só, para mostrar quão imprópria é a utilização reprobatória da palavra perversão. Justamente no campo da vida sexual é que se tropeça com dificuldades peculiares e realmente insolúveis, no momento, quando se quer traçar uma fronteira nítida entre o que é mera variação dentro da amplitude do fisiológico e o que constitui sintomas patológicos.” (Freud).

Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud afirma que “a predisposição às perversões era a predisposição original e universal da sexualidade humana” (Freud).

Explicando: a perversão seria “original e universal” porque as fases iniciais de desenvolvimento psicossexual de todas as crianças envolveriam a fase oral (sucção) e a fase anal (retenção), que não são genitais. A fase genital seria tardia em relação ao desenvolvimento humano.

É por essas razões que Jacques Lacan reforça: “Toda sexualidade humana é perversa, se seguirmos bem o que diz Freud. Ele nunca concebeu a sexualidade sem ser perversa” (Lacan).

O conceito de père-version de Lacan

Este tema dependeria de um estudo do Seminário XXIII de Lacan, mas é possível fazer uma aproximação.

Lacan tinha uma abordagem linguística e desenvolvia muitos conceitos próprios. Então a ideia foi o que ele chama de “jogar com o equívoco”, isto é, lançar uma palavra/expressão (no caso, “père-version“) e depois ver o que ela pode revelar e se relacionar com expressões conhecidas.

No exemplo, perversão se parece com o termo père-version, que, traduzindo do francês, significa “em direção ao pai” (vers: “em direção”; on: “nós” ou “a gente”; père: “pai”). Ao pé da letra: “nós perto do pai”, “nós em direção ao pai”, “a gente em direção ao pai” (o filho em direção ao pai). É uma forma de Lacan dialogar com o Complexo de Édipo de Freud. Podemos pensar que père-version se relaciona com “perversão” porque a relação filho-pai é alegoricamente entendida como uma relação sado-masoquista:

  • o pai representa a parte sádica (que impõe sua vontade e comando),
  • o filho representa o parte masoquista (que se satisfaz ao receber o comando sádico do pai).
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Existiria então uma imposição do pai sobre o filho, e o filho se veria educado a se privar de seus desejos por causa do desejo do pai, que se sobressai. Por vezes o amadurecimento é entendido como a recusa do filho ao pai, ou a relativação ao Nome-do-Pai.

Assim,

  • no começo o filho vai “na mesma direção que o pai”, no sentido de seguir o pai e satisfazer o pai;
  • depois o filho vai “na direção oposta ao pai”, no sentido de entender o papel controlador do pai e questioná-lo.

Tudo isso precisa ser entendido com muita cautela:

  • O exemplo de Lacan é uma alegoria, não é literal, portanto não entenda como uma relação sexual sado-masoquista real.
  • A recusa ao pai não é absoluta e não necessariamente quer dizer o que entendemos como “desrespeito ou violência” do filho.

Esta recusa do filho ao pai pode ser exemplicada até mesmo quando o filho vai criando suas preferências e seu próprio discurso, por exemplo: ao conviver com colegas da escola, habitar outros meios sociais, a descobrir outras referências como ídolos ou heróis.

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    Dentro da ideia de père-version, está a ideia de pai-versão, isto é, a versão que o filho tem sobre o pai, não necessariamente o “pai real”, mas a versão do filho sobre a função de pai. Então, Lacan diz que este é o pai-sinthoma (com “th”, na grafia de Lacan): mesmo o pai já estando “morto” (literal ou figurativamente), o filho poderá continuar carregando este sinthoma (este fantasma), que pode lhe ser uma barreira ao próprio gozo.

    A boca como forma de conhecer o mundo

    Utilizando a boca como meio de conhecer o mundo, é natural que a criança leve a ela tudo o que ela desconhece. Para ela isso é natural. Se um adulto a repreende por esse motivo, ela entra em conflito e começa a ter que aprender interpretar a sua maneira os porquês das repreensões das pessoas.

    Por exemplo, uma criança que leva suas próprias fezes à boca. Na visão dela é sua criação, ela a criou, e isso é natural. Se alguém assustá-la por causa disso, achando nojento e sujo, irá gerar um conflito psíquico e repressão de sentimento.

    Assim, podemos observar que as atitudes das pessoas podem influenciar na formação de uma pessoa. Logo, todos são suscetíveis a serem construídos, a criar sua personalidade de acordo com as pessoas que as rodeiam.

    Isso faz-nos pensar sobre o que chamamos de vocação, personalidade, caráter, etc. São apenas resultado do meio que a criança desenvolveu.

    A forma como um comportamento afeta os indivíduos fará com que ele seja considerado ou não como perversão

    O que nos leva a lembrar da terceira lei de Newton, que toda ação gera uma reação? Uma pessoa é a reação da ação da sua infância. A sexualidade é a origem de todo comportamento humano e base das teorias de Freud. Ele explica como uma criança enxerga e interpreta o mundo em cada fase de desenvolvimento de sua vida.

    As pessoas ainda não sabem da responsabilidade que cada um tem ao educar ou tomar conta de uma criança. E, por isso, acabam por condenar, julgar, criticar ou olhar torto adultos com comportamentos ditos como fora do normal. Porque desconhecem que esses são apenas vítimas de um sentimento reprimido na infância.

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    A perversão é um comportamento conhecido de forma social ou clínica como fora da normalidade. No âmbito da patologia, um comportamento só é considerado perverso se causar sofrimento ou atrapalhar ou invadir alguma área da vida da pessoa. Se isso não acontece, não é considerado perversão.

    Alguns comportamentos considerados como perversões

    Também é considerado anormal quando tem uma limitação na capacidade de se relacionar de forma saudável. Como se só existisse uma única forma exclusiva para isso.

    Além disso, tem algumas formas predefinidas como perversas. E que só são consideradas patológicas as que causam sofrimento social, profissional ou nas relações interpessoais das pessoas envolvidas no comportamento.

    Alguns desses comportamentos são:

    • exibicionismo;
    • fetichismo;
    • necrofilia;
    • zoofilia;
    • voyeurismo;
    • sadismo;
    • masoquismo. entre outros.

    A sexualidade não tem a ver apenas com o ato sexual em si

    Contudo, a pessoa quando nasce não vem com um manual de instrução. Assim, vão se criando indivíduos com problemas causados por imposições sociais, culturais e históricas.

    O gênero, a orientação sexual, transtornos de identidade de gênero são exemplos dessas imposições que causam conflitos internos e externos nas pessoas. Pois, já tem modelos e formas predeterminadas de certo e errado, que muitas vezes não condiz com a realidade interna da pessoa.

    A visão de Freud sobre a sexualidade é ampla, não está ligada apenas ao ato sexual. Em sua teoria ela está presente na vida do ser humano desde seu nascimento através da pulsão sexual, universal, inata ao ser humano e busca ter prazer.

    O prazer na infância e na fase adulta

    A criança ao se alimentar, chupar chupeta, morder mordedores, entre outras coisas, goza de uma satisfação sexual. E, essa satisfação é polimorfa com uma multiplicidade de fontes. No início, é auto-erótica consigo mesma, através das chamadas zonas erógenas que começam sem as zonas genitais, mas evoluem para elas.

    À medida que o desenvolvimento infantil vai evoluindo, ele passa por um período de latência, empregando essa energia para outras finalidades não sexuais. A energia é direcionada à educação e ao convívio social, que contribuirão para manter a pulsão sexual no rumo certo.

    Após esse período, volta a busca pelo prazer, agora com a escolha de um novo alvo sexual, o outro e não mais em si mesmo. É uma organização dos componentes sexuais da pulsão, natural em todo ser humano, que faz Freud afirmar que os humanos nascem “perversos”.

    Considerações finais sobre perversão

    É importante você entender:

    • O conceito de perversão em psicanálise não é idêntico à definição do senso comum.
    • Só o sexo pênis-vagina não é perversão, todas as outras formas são. Então, se é algo tão amplo, será que realmente este conceito é útil, inclusive para a clínica psicanalítica?
    • Mesmo quem pratica o sexo pênis-vagina pode ter hábitos considerados perversões, como: sexo oral, sado-masoquismo, exibicionismo, voyeurismo etc.
    • A perversão é parte da natureza humana, pois está no desenvolvimento psicossexual de todas as pessoas: as fases oral e anal ocorrem antes que a fase genital.
    • Cuidado para não usar “perversão” ou “perverso” com o objetivo de julgar ou ofender alguém.
    • É interessante conhecer os conceitos de algumas das principais parafilias, pois as parafilias são manifestações (específicas) da perversão (genérica).

    É possível entender, através do estudo da psicanálise que todo ser humano é perverso por natureza. Pois, Freud entende de forma ampla que perversão é tudo aquilo que na sexualidade não visa a reprodução. É o que todo ser humano busca desde que nasce: ele busca consciente ou não do prazer.

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    Freud quebra paradigmas com suas teorias, e até hoje é mal interpretado por aqueles que não estudam a fundo suas obras. A sexualidade e a perversão têm sentido amplo e não limitado como o senso comum acredita.

    Por fim, uma pessoa adquire mais autoconhecimento e uma melhor compreensão do humano quando estuda Psicanálise (saiba sobre o Curso de Formação em Psicanálise Clínica).

    O Curso estuda a relação entre a perversão, as neuroses e as psicoses. Aborda, com profundidade, o tema dos transtornos psíquicos e a relação entre mente e corpo. Além disso, estuda a formação da personalidade a partir da infância, os desejos, as pulsões e as relações entre consciente e inconsciente. Então, não perca essa chance de estudar mais sobre esse assunto!

     

    7 thoughts on “Perversão: o que é, significado, exemplos

    1. Boa noite! Gostei do texto, mas tem algo que eu gostaria de falar… Não ficou muito bem explicado que a perversão não é somente sexual (genitalmente falando). Para um aluno de psicanálise entender melhor o conceito, deveria focar que não são só esses exemplos sexuais que foram dados são formas de perversão, mas sim todo comportamento que visa somente o próprio prazer do indivíduo sem se importar com as regras da sociedade, ou seja, esse indivíduo sabe, leva em consideração as regras, mas nega-as satisfazendo somente os seus desejos…
      Uma outra coisa que também faltou foi falar que na perversão, o indivíduo não se sente culpado por infringir as regras, como acontece na neurose, portanto a sua ansiedade acontece quando o seu desejo não é satisfeito, sendo ele imoral ou não, o que leva esse sujeito a não sentir-se culpado por infringir as regras sociais.
      Achei que faltou dar essa frisada. De resto, muito bom!

      1. Grata pela contrubuição, entendi mais o conceito com seu comentário do que propriamente com o texto em si.

    2. A defesa da ideologia de gênero, coisa que não tem a mínima comprovação científica, pois é apenas ideologia, está contaminando os textos. Afirmam que não existe gênero e que isso é uma imposição social. Ora quem disse que essa imposição, se existe é nociva? Nós sabemos que o ser humano é produto do meio; é um ser social, e que as crianças precisam ser influenciadas pela família. Se não fosse assim, já seriam como os filhotes de tartarugas, cuja mãe coloca os ovos na areia e vai embora, e 95% dos filhotes morrem por não saberem se defender. Estão defendendo que meninos não nascem meninos e que meninas não nascem meninas, teoria de Alfred Kinsey que já se provou completamente equivocada.

    3. Esse conteúdo faz-me refletir em regras quebradas, geram transtornos psíquicos, porém jamais uma sociedade organizada poderá viver sem regras!

    4. Quanto a ideologia de gênero. citada pelo Everson Leal, concordo que devemos entender a identidade de gênero. Muitas ocorrências se dão em famílias sem nenhum traço capaz de influenciar os filhos nesse sentido. Aceitar como uma forma normal, sem preconceitos e sem rejeição inclusive nos textos pode ser a melhor abordagem. Com todo o respeito a todas as opiniões.

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