Homossexualidade na psicanálise: oito aspectos para entender

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Qual é o estatuto teórico da noção de homossexualidade? O saber psicanalítico é atravessado por outro tipo de discurso e o que consequências isso significa? Os analistas consideram o aspecto ideológico na produção teórica e na transmissão sobre a noção de homossexualidade? Na clínica, o analista se orienta pela ética do desejo ou pela moral? A discussão sobre os desdobramentos sociais da homossexualidade repercute na produção dos analistas e/ou vice-versa?

Muitas são as questões acerca do assunto homossexualidade. Já de antemão, sugerimos que você entenda que esse é o termo correto, e não homossexualismo (o sufixo ismo é, normalmente, usado para se referir a doenças). Para tentar colaborar com a discussão, levantamos alguns aspectos:

1. Homossexualidade é doença?

Não. A comunidade médica é unânime ao afirmar que nenhuma orientação sexual é doença. Para se ter uma ideia, em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria retirou a palavra da lista de transtornos mentais ou emocionais e a decisão foi seguida por todas as entidades de psicologia e psiquiatria no mundo.

2. Como a palavra homossexualidade é usada na psicanálise?

Quanto à homossexualidade, é preciso em primeiro lugar verificar de perto o sentido que tem esta palavra em psicanálise. O pesquisador Stoller adverte que “o que é evidente é que o uso da palavra homossexualidade tem sido utilizado em tantas acepções que, se o autor não mostra claramente como a utiliza em determinado momento, todos os outros sentidos possíveis obscurecem sua compreensão.”

3. O que Freud disse sobre homossexualidade?

A partir dos “Três Ensaios” (1905), Freud tornou-se em grande parte responsável por uma revolução que modificou o modo contemporâneo de pensar a homossexualidade. A Teoria da Bissexualidade Humana e a Teoria do Complexo de Édipo possibilitaram duas consequências. A primeira delas é teórica e desse ponto de vista a homossexualidade passa a ser uma dimensão universal da mente, portanto uma categoria, como masculino e feminino em psicanálise são categorias mentais e independentes do sexo biológico do indivíduo.

4. Existe consequência prática?

Outra consequência é de ordem prática. Verifica-se na clínica e diz respeito à homossexualidade manifesta, assimilada ou não pela personalidade do indivíduo e que pode ou não apresentar uma determinada ordem de problemas clinicamente relevantes. À categoria homossexualidade latente corresponde a produção de efeitos e a proliferação de sentidos na relação analítica, seja como tendência à repetição, como inibição de crescimento ou transformação criadora.

A orientação da libido de uma pessoa em direção a um objeto do mesmo sexo, ou em direção a um objeto do sexo oposto, não tem diferença essencial qualitativa ou normativa, isto é, esta ou aquela orientação não é mais ou menos adequada, normal ou patológica do que outra. Freud escreveu nos Três Ensaios que “o afeto de uma criança por seus pais é, sem dúvida, o traço infantil mais importante que, após revivido na puberdade, indica o caminho para sua escolha de um objeto, mas não é o único.”

Outros pontos de partida com a mesma origem primitiva possibilitam ao homem desenvolver mais de uma linha sexual, baseadas não menos em sua infância, e a estabelecer condições muito variadas para sua escolha de objeto” (o grifo é meu). “As inumeráveis peculiaridades da vida erótica dos seres humanos, assim como o caráter compulsivo do processo de apaixonar-se, são inteiramente ininteligíveis, salvo pela referência à infância e como efeitos residuais da infância”.

5. Homossexualidade é um comportamento?

É interessante assinalar que a homossexualidade tanto quanto a heterossexualidade são comportamentos e, enquanto tais, não significam necessariamente identidades. Stoller prefere chamar de homossexualidades, já que são tantos os comportamentos que envolvem esta forma de orientação da libido, são tantos e tão variados os seus matizes, que de fato é preferível falar de homossexualidades tanto quanto se fala de heterossexualidades.

Freud tinha uma noção clara dessa questão e, não obstante as dificuldades e os aspectos, patológicos ou não, relacionados com os comportamentos sexuais, jamais considerou homossexualidade como algo patológico em si. Pelo contrário, o que com ele a psicanálise desenvolveu, independente das várias escolas de pensamento analítico, foi uma visão que procurou, como em qualquer outro comportamento humano, relacionar sua raiz à origem corporal e material da mente, ou seja, ao mundo da infância.

6. Homossexualidade tem tratamento?

No seu ensaio intitulado Sobre a Psicogênese de um Caso de Homossexualismo Feminino, de 1920, Freud escreveu: “Não compete à psicanálise solucionar o problema do homossexualismo. Ela deve contentar-se com revelar os mecanismos psíquicos que culminaram na determinação da escolha de objeto, e remontar os caminhos que levam deles até as disposições instintuais”. Aqui, quando relatava a experiência clínica com uma jovem de 18 anos que os pais lhe encaminharam para “tratamento” sob a alegação de comportamento anormal (a moça se apaixonara explicitamente por uma linda dama vienense de comportamento sexual mundano e ambíguo), ele formulou pela primeira vez com clareza o problema da relação entre homossexualidade (ele chama de homossexualismo) e a psicanálise. Não é da competência da psicanálise a solução da homossexualidade, como também não é da sua competência a solução da heterossexualidade.

7. Qual a competência da psicanálise?

É da competência da psicanálise “revelar os mecanismos psíquicos que culminaram na determinação de objeto” e, em seguida, remontar os caminhos que levam deles até as disposições instintuais. Assim chegamos aos dois pontos principais a partir dos quais várias linhas de investigação se desenvolveram: escolha de objeto (relações objetais) e suas relações com as disposições pulsionais (Teoria das Pulsões).

8. O sexo é interminável?

É na relação analítica que se articulam e são revelados ou velados os modos de amar e/ou não amar, ser e/ou não ser. Se a raiz é infantil, quando se trata de um adulto, ou mesmo de uma criança ou adolescente, a árvore já nasceu, cresceu e sua folhagem abre-se para algo que ainda não se perfez. Tudo que é vivo, é inconcluso, imperfeito, não terminado, incluindo o modo de comportar-se quanto ao sexo ou a análise de qualquer um de nós, seres humanos, analistas e pacientes.

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