mal estar na civilização

O mal-estar na civilização: ideias da Psicanálise

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No ano de 1930 foi publicado um daqueles que abrange o escopo das principais obras de Sigmund Freud, o mal-estar na civilização que vai além de um esboço sobre sociologia, ou uma reflexão acerca do debate psicanalítico sobre as pulsões.

Entendendo o mal-estar na civilização

A segunda tópica freudiana traz as noções de Ego, Superego e Id. É dentro desse âmbito que gravitam as questões postas nesta obra, num conflito entre as suas pulsões do Id e o processo de desenvolvimento civilizatório.

Para uma compreensão melhor, sugiro que o leitor tenha um prévio contato com outras obras que servem de fundamento teórico para esta: Totem e Tabu (1913); Introdução ao Narcisismo (1914); Além do princípio do prazer (1920); O Eu e o Id (1923); O futuro de uma ilusão (1927).

O presente texto serve de um resumo da obra, não objetivando esgotar a temática a respeito do tema. Tratei de ir percorrendo os capítulos e assinalando pontos que considerei imprescindíveis.

O sentimento oceânico e o mal-estar na civilização

Fazendo uma analogia ao oceano, esse sentimento de algo ilimitado, sem barreiras, uma espécie de sensação de eternidade, Romain Rolland assim alude ao fato de Freud não ter feito alusão em ‘O futuro de uma ilusão’ como a fonte subjetiva da energia religiosa; um sentimento de união indissolúvel com o grande Todo e de pertencimento ao universo.

Na concepção de Freud, esse ‘sentimento oceânico’ não passaria de uma extensão soterrada de um certo narcisismo primário, no qual, o bebê não faz distinção entre o mundo exterior e o mundo interior, um narcisismo primário no qual o bebê se instala em unidade e continuidade com o mundo exterior.

Ele, o sentimento oceânico, seria o modo que o adulto tem de encontrar o consolo por conta das ameaças oriundas do mundo exterior, revivendo essa sensação de união quando bebê.

A busca da felicidade

Qual seria o sentido da vida? Para Freud, está claro que a felicidade seria o grande sentido de busca para a existência humana, que dentre os diversos sistemas, buscando o pressuposto de ‘O futuro de uma ilusão’, os diversos sistemas religiosos seria uma forma imatura de lidar com essa questão.

O que determinaria a felicidade seria o princípio do prazer. Nesse sentido, há duas formas de ser feliz: o de buscar o prazer e o de evitar o sofrimento. Assim, a felicidade seria é, sem dúvidas, um dado estritamente individual.

O fracasso da civilização?

Se a felicidade seria um dado individual, não se justificaria uma busca por ela nos moldes em que a civilização atingiu, uma vez que com tantos avanços científicos e tecnológicos, se comparado aos tempos passados, são proporcionados tantos benefícios e comodidades, em diversos aspectos.

Há de se notar que tanto a beleza, a limpeza e a ordem, aspectos do processo civilizatório e cultural, viabilizam uma série de satisfações. Por que, então, mesmo com tantos avanços, a felicidade parece algo ainda tão distante?

No parecer de Freud, o sentido de ordem – princípio constitutivo da civilização – faz com que as pessoas tenham que renunciar aos seus impulsos pulsionais, renúncia essa que rege as relações sociais entre os seres humanos.

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A família e o mal-estar na civilização

Desde o princípio, pode-se dizer que o amor é a base primordial de todo modelo de felicidade: porque amo, sou feliz! Não necessariamente um amor entre pessoas, mas um amor que vai além, incluindo objetos, animais, experiências, e assim diante. Ora, o amor é, também, o constitutivo essencial da família.

Porém, desde o homo erectus o sentido do olfato cedeu seu lugar de primazia à visão. De certa forma, a visão trouxe o destaque do entorno e também do corpo do outro – a genitália agora estaria exposta, fazendo com que a ideia de felicidade se atrelasse ao sexo. Ao longo do processo civilizatório foram inseridas normas e regras de conduta para a melhor convivência entre as pessoas. Dentre as regras podemos citar o incesto, por exemplo.

Freud vai percorrendo um itinerário em seu raciocínio de modo que a civilização, para sua existência, necessita intervir na conduta, na prática e no prazer sexual das pessoas, inclusive no núcleo familiar. Assim, o valor do amor e sexualidade é reduzido, de modo que somente por meio de ‘sublimação’ seria possível se atingir um estado de felicidade de modo a se sentir pertencido no seio civilizatório.

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    Se de um lado, a civilização tenta arrefecer a pulsão sexual contida no ser humano, por meio de regras, tabus, etc, do outro pretende inibir qualquer movimento ou o mínimo sinal de agressividade, usando até mesmo de leis universais do amor.

    Porém, essa idealização do ser humano como um ser de luz, um ser amável, é uma tentativa mascarada de encobrir aquilo que Freud chamou de pulsão de agressividade (ou morte). De fato, todo ser humano oculta uma forte tendência à agressão para com o seu semelhante.

    Nesse quesito, a criatividade o levou a elaborar diversas formas de agressividade, e dentre elas, a exploração da mão de obra, por exemplo. Sendo assim, o indivíduo se vê frustrado, tanto no aspecto sexual quanto no aspecto irascível, pelas leis impostas pela civilização para se manter enquanto tal.

    O conflito entre pulsões

    Continuando o raciocínio, Freud, à luz de suas percepções frente aos achados da psicanálise, entende que a infelicidade e a insatisfação oriundas dos processos civilizatórios, decorrem do conflito entre as pulsões de vida e morte, contidas na psique humana.

    Tanto a pulsão de vida quanto a de morte, são constitutivos primordiais do homem e acabam por ser grandes obstáculos para a civilização, principalmente, no que diz respeito à pulsão de morte, a essa inclinação natural para a agressividade, o que levaria, de fato, o convívio social ao colapso.

    E por falar em Superego…

    Freud, então, passa a elucidar os mecanismos que a civilização usa para inibir as pessoas em seus conflitos internos. Nesse ponto entra em cena o superego como uma instância internalizada dos preceitos e valores sociais.

    De certa forma, a autoridade externa, tanto dos pais, e posteriormente, da escola, da igreja, da sociedade, etc, faz com que a força e inibição de uma pulsão, quando contrariada, acarrete uma espécie de sentimento de culpa, gerando uma angústia na pessoa.

    O Superego se coloca como uma instância interna a fim de julgar, condenar e punir, até mesmo um sentimento que seja, que contrarie os valores sociais que foram introjetados. Quando há a contrariedade, há o sentimento de culpa.

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    Um caminho de autodestruição e o mal-estar na civilização

    O sentimento de culpa é um elemento essencial para o desenvolvimento da civilização. É por meio dele que o controle dos valores, regras, normas são aplicados, sujeitando a pessoa de modo intrínseco. Todo esse progresso civilizatório cobra um preço a ser pago, no caso, com a perda da felicidade (no que diz respeito ao aspecto subjetivo e intrassubjetivo) e um forte sentimento de culpa.

    Por sua vez, esse sentimento de culpa pode se manter inconsciente ou se manifestando em uma série de confrontos, descontentamentos e mal-estar. Por outro lado, não basta um superego individual, a civilização reclama para si uma autoridade ainda maior, um superego da comunidade, trazendo consigo uma angustia de consciência moral.

    Em suma, Freud conclui que a maioria das pessoas teriam se tornado neuróticas (pelo menos a maioria delas) sob a influência da própria civilização.

    Conclusão

    “Os homens de hoje levaram tão longe o domínio das forças da natureza que ficou fácil, com sua ajuda, se exterminarem até o último. Eles sabem muito bem disso, o que aliás explica uma boa parte de sua agitação presente, de sua infelicidade e de sua angústia”.

    Para concluir este texto, entendo que ainda há longo caminho a ser percorrido no entendimento do mal-estar na humanidade e o humano. Há muito ainda a ser descoberto e desvelado. Há muito ainda a ser considerado nesta trama da vivência humana.

    O presente artigo foi escrito por Gerson Lopes([email protected]).Psicanalista, formado em filosofia, pós graduado em neuropsicologia, psicologia social e antropologia, reside em Maringá – PR e faz atendimentos online. É de sua responsabilidade o perfil no Instagram ‘Psicanálise: idas e vindas’.

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