Música Como Nossos Pais

Significado da Música Como Nossos Pais de Belchior

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Você conhece o significado da Música Como Nossos Pais de Belchior? O cantor e compositor Belchior é um importante nome da música popular brasileira, nascido em Sobral, no estado do Ceará. Dentre várias canções de sua autoria, encontra-se o sucesso, “Como Nossos Pais”, que foi lançada no ano de 1976 e que fazia parte do álbum, Alucinação. Essa canção que foi também interpretada pela cantora Elis Regina é uma importante obra do cancioneiro popular brasileiro.

Sobre a Música Como Nossos Pais e seu autor

Como Nossos Pais é uma obra que atravessa gerações conquistando apreciadores até nos dias atuais. Além de um arranjo musical, harmônico e melódico belo, que evocam reflexão e nostalgia, tanto na interpretação de Belchior que tem um timbre vocal marcadamente rouco, com notas graves, médias e agudas intercaladas de modo muito bem harmonizado, criando uma musicalidade profunda em tom menor que, convida à reflexão intelectual e ao mergulho nas emoções vividas, como na voz inigualável da inesquecível Elis Regina.

A letra é um elemento que completa a obra dando uma inteireza e profundidade que encantam e seduz, tanto o intelecto como o emocional, que reconhecem na sonoridade musical e na narrativa poética da letra, elementos comuns que perpassam a realidade individual, pois evoca signos coletivos que toda individualidade conhece por serem inerentes a experiência humana, tanto em âmbito individual, quanto coletivo, mas vejamos também, a música Como Nossos Pais, na perspectiva da Psicanálise.

Um diálogo marcado por ansiedade, frustração e esperança A canção, Como Nossos Pais retrata o diálogo entre duas pessoas, no entanto, somente o poeta fala ao longo da obra e as referências ao seu interlocutor que, ele nomeia como o seu “grande amor” aparecem como uma referência do poeta. Esse “grande amor” pode ser uma terceira pessoa, ou uma dimensão interior do próprio poeta a que ele se remete em um reflexivo diálogo interior.

Música Como Nossos Pais e seu significado

Pode-se pensar ainda, que esse “grande amor” em sentido lato, possa ser a sua pátria, sua nação, pois essa canção foi composta e gravada no contexto histórico, social e político brasileiro da década de setenta, quando o país estava mergulhado em uma ditadura militar e em decorrência desta, os meios de repressão, combatiam a irreverência da juventude e dos artistas em geral, impondo a censura e limitando a liberdade de ação e de expressão. Assim, tem-se uma dimensão política e social muito veemente entranhada na letra da canção.

Mas tomando a psicanálise como lentes, pode-se observar outras possibilidades interessantes que essa música oferece, como peça artística que retrata uma singularidade subjetiva, a do artista que a compõe, bem como também o mal estar da civilização brasileira, pois no dado contexto, ambas as perspectivas estavam marcadas por uma grande carga de ansiedade, resultante das incertezas e conflitos existentes.

O eu lírico do poeta e suas dores A voz lírica do poeta, ou seja, aquele que fala na canção, apresenta-se como alguém que está carregado de sentimentos e dentre eles pode-se destacar, a frustração, o conflito de gerações, a ansiedade que deriva da frustração, etc.

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O desejo de calar

Esse eu lírico inicia sua expressão dizendo que recalca conteúdos, pois, ele não deseja falar das coisas que aprendeu nos discos. Esse desejo de calar, certamente se dá por que essas vivências artísticas, como parte da trajetória do artista, estão marcadas por dores e decepções, mesmo ele tendo alcançado sucesso nacional e internacional.

O que ele deseja falar não é dessas dores, muito embora ele retome essas questões e acabe falando em versos mais ao final da canção, quando diz de sua frustação com aqueles que lhe deram a ideia de uma nova consciência e juventude, que de certo modo o traiu e traiu a todos e estão em casas conformados, contando seu “vil metal”.

Há sem dúvida aqui, uma conexão entre as coisas que o poeta aprendeu nos discos e das quais ele não quer falar e é essa dor de sentir-se não realizado, abandonado por aqueles a quem ele devotava afeto e esperança e assim ele lamenta que essas pessoas se tenham rendido e abandonado tudo em nome do dinheiro, forçando tanto ele como sujeito como o país inteiro a retroceder e viver como viveram seus pais, mergulhados em uma estrutura psíquica e social que se submete.

Música Como Nossos Pais e a pulsão de morte

O eu lírico mostra-se permeado por uma pulsão de vida que é atravessada pela pulsão de morte, o que o impulsiona, a ir além do princípio do prazer, enfrentando as disposições superegóicas, mesmo que isso lhe implicasse a aniquilação e por não se ver acompanhado por aqueles que lhe deram essa ideia, indicativo de que o outro é a sede do seu desejo, ele frustra-se. O eu lírico fala em nome do Id, que frustrado pela muralha do tirano Superego, não se realizou, não alcançou o gozo e seus conteúdos foram em grande medida recalcados.

É interessante observar que, tanto os limites do sujeito, quanto o contexto histórico nacional e mundial, estão encarnando o Superego, que inviabiliza a realização de um gozo total, um gozo pleno. Nesse período há uma eclosão de regimes totalitários pela América Latina e no Brasil não é diferente.

Assim, os ideais revolucionários sejam de qual orientação política e filosóficas eles fossem, estavam eles combatidos e impedidos, sendo então frustrados com extrema violência, insere-se aí todo o movimento de contracultura, com seu gozo livre.

Uma frustação subjetiva

Nesse contexto a juventude com seus cabelos ao vento e suas reuniões alegres, repletas de liberdade e arte, tornam-se uma realidade inviável para o modelo social em vigência e por isso passa a ser combatida e essa frustação social é também ocasionadora de uma frustação subjetiva, onde o indivíduo se descobre socialmente inviabilizado, podado, castrado pelo pai Estado com toda a sua força e truculência.

Estado esse, que se coloca como um Supereu tirano, que remete o sujeito e a sociedade, à condição de frustração e de ansiedade, que são resultantes do não gozo, da impossibilidade do gozo e assim, estes são obrigados a recalcar esse conteúdo.

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    O poeta contudo, é um sujeito que conserva certa esperança, há nele algo que lhe possibilita compreender que, apesar de toda as frustrações e ansiedade em que está mergulhado, a vida é um valor supremo e que nenhum sonho, vale a vida de ninguém, e que é necessário esperar, pois ele sente, intuitivamente, “vindo no vento”, alguma mudança, uma nova possibilidade que ele descreve como “o cheiro da nova estação”.

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    Música Como Nossos Pais: juventude e consciência

    Esse pode ser um movimento de compensação, tendo em vista que ele não consegue consumar o desejo de enfretamento até o aniquilamento e é forçado a recuar. Assim ele se recente dos amigos e ídolos que o deram essa ideia de uma nova juventude e consciência, mas depois o relega ao abandono e declinam do desejo de dar vasão a essa pulsão destruidora que se coaduna com a pulsão de vida num movimento contestador e renovador.

    Mesmo frustrado e ansioso, esse sujeito ainda tem uma carga de pulsão de vida que faz frente à pulsão de morte e ele ainda que castrado e frustrado, ansioso e decepcionado, tem desejo de viver, espera pela vida.

    Mas como todo sujeito é em grande medida o resultado da somatória de suas experiências, tanto as boas, quanto as más experiências, mesmo acreditando nessa nova estação que vem, ele recomenda cuidado, “Por isso cuidado, meu bem, há perigo na esquina, eles venceram e o sinal, está fechado pra nós, que somos jovens”, esse trecho fala claramente dos seus medos, e por isso ele recomenda cautela, pois, o cenário não é favorável.

    O símbolo do Superego na música Como Nossos Pais

    Em nível social, a nação está domada pela tradição, o pai Estado, o símbolo do Superego domina a situação e até que haja uma abertura, esses tenros desejos não terão possibilidades de se expressarem e alcançar o gozo.

    No entanto, ele se questiona sobre a finalidade da vida, pois a vida como bem maior deve ser vivenciada com profundidade, com expressões de afetos e desejos, com liberdade de gozo e assim ele canta: “Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua, é que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz”, nesse trecho fica patente a sua frustração e incompreensão com vetos que impedem a expressão de toda essa carga de emoção, cujo corpo é o veículo que se faz, justamente para essa finalidade. O poeta sofre porque é tudo muito doloroso, dói lidar com essas questões, tanto em âmbito subjetivo, como objetivamente, em sociedade.

    Sua dor é perceber que não obstante tudo que sonharam, tudo que desejaram, tudo que fizeram, eles ainda são os mesmos e vivem como viveram seus pais. Há aí nessa expressão um desejo imensurável que é frustrado pela própria estrutura psíquica que o faz ser exatamente como seus pais, não importando o quanto ele tenha sonhado ou feito para ser diferente.

    O indivíduo humano ainda é o mesmo!

    Essa afirmativa em consonância com a voz lírica do poeta, chama a refletir que, apesar de toda singularidade, há algo que faz todos os indivíduos humanos iguais, e essa coisa pode muito bem ser a estrutura psíquica, que age e reage de forma muito igual, resguardadas as singularidades das experiências vivenciadas por cada um.

    Apesar de toda a carga de emoção, apesar de toda a pulsão de vida que constitui a base da psique, há ainda uma parcela de pulsão de morte e já defendia Melanie Klein, que é do embate dessas duas forças, pulsão de vida e pulsão de morte, que nasce a vida psíquica e toda a sua estruturação, então, mesmo com todos os desejos que preenche e move o sujeito e a sociedade, há uma dimensão deles que anseia pela destruição, pela morte, pelo submeter-se.

    É contra esses submetidos, acomodados diante dos vetos do superego, ou embalados pelo mal estar social que lhes ofereceram um senhor para dirigir suas vidas, que o eu lírico do poeta grita nessa canção.

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    Uma imagem falsa

    Ele denuncia cantando que, para além das aparências, que procuram simular uma imagem falsa, há aquilo do qual não se pode fugir, a semelhança genética e tradicional que temos com aqueles que nos geraram, nossos pais, e o cultivo dos mesmos ídolos, o ego narcisista que se coloca em primeiro lugar e é incapaz de amar outrem, que não ele mesmo e seus próprios interesses.

    O que reflete uma crítica dura a cultura da estética em detrimento da ética, essa cultura da imagem, tão comum nos dias atuais.

    Mas apesar de tudo isso, o poeta insiste que há algo novo que sempre vem e se o sujeito, se, “você meu grande amor” não consegue ver, é porque ama demais tudo isso que está aí e que que é o passado atualizado em mais do mesmo.

    Considerações Finais

    Esse desabafo acusatório sobre o novo que há e que sempre vem, é um desafio, um convite ao despertar, pode ser entendido terapeuticamente como um convite a se renovar, a vencer as dores instituídas pela tradição e aprender a se expressar, a deixar sair esses conteúdos recalcados.

    Alguns, não serão fáceis de tratar e o sujeito vai preferir deixá-los guardados declarando, “não quero lhe falar meu grande amor das coisas que aprendi nos discos”, mas é possível começar, como fez o poeta, pelo que é mais fácil e então pode-se avançar na compreensão de si e de sua psique e ir paulatinamente acessando conteúdos mais difíceis, dores mais agudas e que não se pode enfrentar logo de início.

    Esse convite pode ser aceito e vivido na experiência terapêutica, fazer análise como caminho de autocompreensão e de compreensão da sociedade. Sendo uma fala a uma terceira pessoa, o seu grande amor, ou à nação, ou ainda um diálogo interior, Como Nossos Pais é uma obra belíssima e psicanaliticamente reflete como a jornada do indivíduo é permeada pela presença do outro e como é dessa relação com as várias faces desse outro e dessas relações que dependem o seu realizar-se ou o seu frustrar-se, a constituição de todo o seu ser como experiencia temporal.

    Uma sociedade castrada e ansiosa

    Essa canção revela como uma sociedade castrada e ansiosa, pode atingir a individualidade e ocasionar que o sujeito reaja na mesma medida que a sociedade, embora possa ter o desejo de reagir de modo diferente, assim ele pode se frustrar tornando-se ansioso, ainda que seja um grande artista, como Belchior.

    Referência

    BELCHIOR, A. C. (1976a). Belchior – Como Nossos Pais. Áudio de 4 minutos e 36 segundos da música Como nossos pais de Belchior cantada por Belchior. Disponível em https://youtu.be/P9sNAGHG0rs?list=RDP9sNAGHG0rs. Acesso em 22 de julho, 2021. Freud, S. O mal-estar na civilização (1929). Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. XXI). KLEIN, M. Inveja e gratidão e outros trabalhos. 4.ed. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

    O presente artigo foi escrito por Joaquim Teles de Faria([email protected]). Analista, professor e poeta, mora em Brasília-DF.

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