narcisismo

Narcisismo e relações humanas

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Enquanto patologia psicológica ou da mente, o narcisismo inviabiliza relações consigo e com o mundo saudáveis, visto que o agente do amor é o paciente do amor, ou seja, ele mesmo, em um distorção que beira a psicose, segundo ensina Sam Vaknin.

Ele, narcisista, lida com snapshots dos outros dentro de si. Ele só tem interioridade. Ele não lida com pessoas como seres independentes, mas sim na toada de parte de si ou de como lhe podem ser úteis.

O narcisismo

Em um mundo turbinado por ferramentas narcísicas por excelência, no que tange a criar o falso self e a ele se sacrificar, a saber, as redes sociais, os conceitos leigo e psicanalítico do termo se imiscuem e confundem, o que acaba por os premiar e favorecer, visto que se fica com uma pecha de que se trata apenas de vaidade, de algo ruim até, porém inofensivo, de mera veleidade.

Mas a questão é que se trata sim de uma patologia, que leva a um agir manipulador, perverso, destituído de empatia, de calor humano e consideração. Ele acaba por cindir ainda mais o tecido social, dado que a colaboração que ora vigia deu lugar ao individualismo mais feérico, aos seres e agires insulares, com forte conotação antissocial.

Humanos transformados em ativos ou produtos não à toa pululam a interpretação do mundo pós-moderno, da atualidade. O descartar à distância de um clique. O manipular por meio de uma tela.

Ghosting, ou silence treatment e narcisismo

O enaltecimento ou love bombing seguido de desmerecimento e descarte, dado que o que realmente ocorre é uma dissonância do indivíduo no tocante à sua separação original da mãe. Para tanto, ele maternaliza o parceiro ou colega de trabalho ou amigo e depois o refuta, tentando dar vazão ao desfecho mais saudável à luz da psicologia, que é a separação de fato, mas em um momento tardio e com base no uso e descarte de outrem – que além disso servem a preencher e conceder estímulos e inputs narcísicos ao agente.

Ele se alimenta disso tal qual um vampiro – a utilizar tais inputs como que para preencher o mais vazio interior, o mais deserto das almas que um ser humano pode conhecer e conceber. A alma ou o âmago narcísico. Sempre às voltas com o fornecimento de tais inputs, pode chegar à mortificação em sua ausência – ou no mínimo a uma melancolia ou distimia.

Resta sempre o vazio e a busca – algo que não se consegue fazer interiormente, dado que, como citado, ainda que paradoxalmente, pelo fato de tudo lhe ser interior, mas pelo fato de não se ter relações reais, e sim de uso, o que se tem são avatares alheios entregues ao consumo do falso self do agente. Só o narcisista existe, afinal. Tudo se trata dele, nesse solipsismo ad nauseam ou infinitum. Um orbitar a si mesmo. O vazio do pedestal arenosos prestes a ruir – sanidade inclusive.

Máscara de sanidade

Um vazio da alma e o estremecer e destruir, ainda que involuntariamente, mas voluntariamente em seu âmago, tudo e todos ao seu redor. As relações afetivas principalmente. Mas também as familiares. Ocorre que o próprio meio e a cultura vigente incentivam um agir despropositado e anti empático, um agir desinteressado e pela ação em si rumo a desejos insaciáveis e a uma busca deletéria pelo preenchimento do tempo, ocultar o vazio, afastar-se da angústia e usar e descartar em busca de deleites da vazia e sequiosa alma, com a pretensa alegação de se “estar buscando a paz ou a felicidade”.

Existem, porém, na seara humana e com eles se deve aprender a lidar, por serem patrões em potencial, esposas ou maridos em potencial, irmãos e mães ou pais em potencial. Cold reaction, no contact, afastar-se pura e simplesmente emocionalmente ao menos, ou ainda, usar de protocolos ou terceiros em intermediações, por exemplo, no tocante a filhos e tutela ou visitas a eles.

Há diversas formas, que prezam muito mais a sanidade do paciente ou do submetido ao lidar com tais personas narcísicas, do que destes próprios, dado que em geral a própria noção de si lhes foge e não interessaria afinal.

Conclusão sobre o narcisismo

O preço que estes pagam, porém, é alto, a começar pelo ostracismo e ocaso que invariavelmente têm de lidar ao longo de suas vidas, plenas em rupturas e momentos de invulgar desesperança – pois até a eles acomete uma pseudo empatia ou racionalizada, ou uma noção de si e de seus sequenciais revezes, de um ser que não amadurece, não deixa o seio materno, não evolui e não tece ou mantém laços, um ser que não faz parte, e que desconhece a si mesmo, e que está sempre à beira da ruptura, à beira do precipício da própria mente ou psicologia. Eis um prato cheio para a investigação psicanalítica e para o futuro desta, a lidar de forma não individual inclusive, dado ser fato social e cultural.

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Este artigo sobre o narcisismo e as relações humanas foi escrito por Max, amante de viagens e filosofia (Instagram: @neversettle2049).

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