psicopatologia da vida cotidiana

A Psicopatologia da Vida Cotidiana: resumo do texto de Freud

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Hoje falaremos sobre a psicopatologia da vida cotidiana. Freud foi o precursor e criador da Psicanálise, através de suas obras sempre atualizava a teoria psicanalítica e a demonstrava através de casos práticos que ocorriam em sua clínica que contribuíam para fundamentá-la.

Sendo o caso desta obra cujo o título é “A psicopatologia da vida cotidiana”, que versa sobre o estudo dos atos falhos, esquecimento de nomes, lapsos na fala, escrita e leitura, esquecimento de impressões, conhecimentos e intenções, equívocos da ação, todos embasados na teoria e em exemplos trazidos por Freud.

A vida cotidiana e suas psicopatologias, segundo Freud

Situações que até então eram e são consideradas por alguns nos dias de hoje como algo corriqueiro, que acontece por acaso e sem nenhum contexto ou ligação com vontade, pensamento, mas visto como algo banal. Inclusive num trecho do livro Freud pontua algo interessante a respeito desse pré-julgamento de que por ser algo muito comum e do dia a dia não mereça atenção e aprofundamento, vide: “Freud temia que os exemplos apresentados fossem interpretados como banais, mas explicava que para a compreensão do seu objeto de estudo apenas poderia se esbarrar em coisas familiares e entendidas de igual maneira, já que se trata de material do cotidiano.

Não visualizava também o motivo da sabedoria popular dever ser excluída das aquisições da ciência, já que o caráter especial de seus objetos de estudo, estão atrelados ao seu método mais rigoroso de verificação e da sua busca de correlações extensas.” Sendo assim, verifica-se que tudo o quanto estudado neste livro versa sobre o mal-estar vivenciado em nossa cultura, no modo civilizatório de se viver, que é presenciar um recalque dos desejos mais profundos porque são considerados antissociais (Incesto, assassinato, agressividade).

Originando nas pessoas uma não realização das pulsões, inclusive de agressividade, de cunho sexual, sádicos, indignos. Neste ínterim, se observou durante a Segunda Guerra que não havia um respeito a valores civilizatórios, inclusive no cenário político brasileiro tem se vivenciado isto, com as Fake News e agressões, que demonstram a expressão do “Homem é o lobo do homem”, concretização de desejos inconscientes.

A psicopatologia da vida cotidiana: o cotidiano não é nada distante do patológico

Fato é que, quando esses desejos não acontecem, pois, o recalque e o mecanismo de defesa exerceram a sua função, esse desejo encontra uma forma de se manifestar através dos atos falhos, esquecimentos, erros, lapsos, equívocos da ação, cada um possui suas peculiaridades. No processo civilizatório alcançado pela sociedade após guerras diversas, em principal a religiosa, se chegou ao ideal de que todos têm direito à liberdade de expressão contanto que não atinja a liberdade do outro.

Imputando-se uma tolerância civil e psicológica e por consequência um entendimento de que não há crime de opinião, pois pensar não chega a concretização do ato, que se for contra as convenções sociais podem infringir regras de convívio. Destarte, a aceitação dessas regras de convívio e o respeito que é exigido socialmente não é alcançado por alguns indivíduos que enxergam que só existe um código de conduta para todos, gerando agressividade, humilhação de gênero, conservadorismo, como regras sociais.

Nesse contexto, que é o da direita brasileira, se verifica que essa falta de respeito é fruto de uma visão narcisista que impõe uma força psíquica que interioriza que o mais saudável, emancipatório é a forma de visão desta pessoa que não aprende a respeitar, pois vai de encontro a sua “onipotência infantil”.

Esquecimento e linguagem na psicopatologia da vida cotidiana

Na seara de esquecimentos classificados por Freud, temos o de nomes próprios que numa cadeia associativa do nome esquecido com algum tema recalcado ligado a este nome que não quer ser lembrado, neste liame das associações, surge o nome de outra pessoa que por conexão contra a vontade de quem esqueceu acaba esquecendo não o que queria intencionalmente (assunto ou tema recalcado) para trocar os nomes. Não sendo nem um êxito completo e nem fracasso total da vontade de esquecer.

No que tange ao esquecimento de palavras estrangeiras, Freud fez um compilado de exemplos com casos em que ele vivenciou através da auto-observação, pode extrair que a contradição se enraíza de fontes que foram recalcadas e de pensamentos que originaram um desvio de atenção, diante das perturbações de uma função psíquica no cotidiano. Freud dedicou um capítulo para o Esquecimento de nomes e sequência de palavras, demonstrando como um ato falho tem sua utilidade já que o esquecimento por vezes trabalha a serviço do bom senso, quando surge uma ameaça de sucumbência a um desejo do momento.

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Dessa forma, o esquecido, através do meio associativo com o inconsciente, acaba tocando em algum “complexo pessoal” e realiza a conexão através de associações superficiais, se exprimindo na falha, esquecimento. O esquecimento de nomes ocorre também nos casos em que o nome toca em algo desagradável e aqueles em que ele se liga a outro nome com esse efeito. Por vezes os esquecimentos se aliam e respeitam algum conteúdo ou comportamento fruto do recalcamento.

O esquecimento de nomes é altamente contagioso

Ele também salta de um nome para outro para provar a existência de um obstáculo que não é facilmente superável. O ressentimento contra alguém pode ser sublimado contra o seu portador com o esquecimento do seu nome, mesmo que esse nome seja familiar. Ferenczi observou que o esquecimento de nomes também pode ser um sintoma histérico.

Entre os complexos perturbadores, os mais eficazes mostram ser os auto-referentes (ou seja, os complexo pessoal, familiar e profissional). Um nome com mais de um sentido pertencente a um grupo de pensamentos (complexos) é muitas vezes perturbado em sua relação com uma sequência de pensamentos, em virtude de sua participação em outro complexo mais forte. Entre os motivos para essas interferências destaca-se o propósito de evitar que as lembranças despertem desprazer.

O recalcamento na psicopatologia da vida cotidiana

“Lembranças encobridoras” as lembranças indiferentes da infância devem sua existência a um processo de deslocamento: são substitutas, de outras impressões significativas cuja recordação pode desenvolver-se a partir delas através da análise psíquica, cuja reprodução direta é impedida pela resistência, ou seja, um conteúdo encoberto por ela. Acaba por ser um deslocamento por associação que é uma formação substitutiva, ou seja, essas falhas no recordar que originam o esquecimento de nomes e sequência de palavras, onde o que a memória reproduz não é o que deveria reproduzir.

A forma de recordação que fixa no visual preserva o tipo de recordar infantil. Os lapsos da fala ocorrem ao procuramos um nome esquecido, somos forçados, a expressar a convicção de que ele começa por determinada letra. A formação de substituições ou contaminações, ocorrente nos lapsos da fala é, um começo do trabalho de condensação que encontramos em atividade na construção do sonho. (representação mista ou de compromisso).

A ideia que se quer reter é a que precisamente se impõe sob a forma de um lapso da fala, as palavras recebem poder cujo êxito ocorre no equívoco da fala. Ocorre de permutar entre si palavras de sentido oposto, elas já estão associadas na consciência linguística, acham-se próximas umas das outras e é fácil evocar-se a errada por engano. Uma influência perturbadora que provém de algo externo ao enunciado e o elemento perturbador é um pensamento singular que permaneceu inconsciente, que se manifesta no lapso da fala e só pode ser trazido à consciência através de uma análise detalhada.

Chistes, lapsos de fala e o inconsciente

A relação entre o lapso da fala e o chiste é estreita, pois no primeiro se dá pela produção do inconsciente e no segundo com intenção consciente. Outrossim tal ligação acontece quando, o deslize não passa de uma abreviação. Nos lapsos da fala não é a influência do “efeito de contato dos sons” mas a de pensamentos situados fora do dito intencionado, que determina a ocorrência do lapso e fornece uma explicação adequada para o equívoco ocorrido,

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    Freud dizia: “No procedimento psicoterapêutico que emprego para resolver e eliminar os sintomas neuróticos, é muito frequente eu me deparar com a tarefa de descobrir, pelos ditos e associações aparentemente causais dos pacientes, um conteúdo de pensamento que se esforça por permanecer oculto, mas que, não obstante, não consegue deixar de denunciar inadvertidamente sua existência, das mais variadas maneiras”.

    A distorção de um nome, quando intencional, equivale a um insulto; e é possível que tenha a mesma significação em muitos casos que aparece sob a forma de um lapso inadvertido. Nesses casos, o fator perturbador que interfere é uma crítica que precisa ser esquecida, por não corresponder à intenção momentânea do falante. Inversamente a apropriação do nome de outra pessoa e a identificação por meio do lapso no nome significam um reconhecimento que, por alguma razão, tem de permanecer em segundo plano por ora.

    O lapso de fala

    Em outros casos bem significativos, é a autocrítica, a oposição interna ao enunciado, que obriga o sujeito a cometer um lapso da fala e mesmo a substituir pelo oposto aquilo que tenciona dizer. Observa-se então, como o texto de uma afirmação anula a intenção dela e como o lapso da fala expõe uma insinceridade interna, torna-se uma expressão mímica, frequentemente a expressão de algo que não se queria dizer: torna-se um meio de trair a si mesmo. Num momento de uma discussão a aparição de um ato falho que afeta o que se pretendia dizer, oferta vantagem ao adversário que percebe e tira proveito.

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    Segundo Freud: “ISSO DEIXA CLARO QUE AS PESSOAS DÃO AOS LAPSOS DA FALA E AOS OUTROS ATOS FALHOS A MESMA INTERPRETAÇÃO QUE ADVOGO NESTE LIVRO, AINDA QUE NÃO ENDOSSEM TEORICAMENTE ESSA CONCEPÇÃO E MESMO QUE, NO QUE SE REFERE A ELAS PRÓPRIAS, SINTAM-SE POUCO INCLINADAS A RENUNCIAR AO COMODISMO IMPLÍCITO NA TOLERÂNCIA PARA COM OS ATOS FALHOS.”

    Freud observa que os poetas têm uma clara compreensão do mecanismo e do sentido do ato falho e supõem que o mesmo se aplique à plateia. Nos lapsos de leitura e de escrita os pontos de vista são idênticos aos dos lapsos da fala, ou seja, mais difícil o trabalho de solucionar o equívoco, maior é a certeza com que se pode prever que o pensamento perturbador finalmente descoberto será julgado por nosso pensamento consciente como algo que lhe é estranho e contrário. É a predisposição do leitor que altera a leitura e introduz no texto algo que corresponde a suas expectativas ou que o está ocupando.

    Impulso para a ação

    No esquecimento de impressões e intenções se produz uma seleção entre as impressões oferecidas, o mesmo acontecendo entre os detalhes das impressões ou experiências. Amplia a memória consciente invocando a memória inconsciente que é sempre mais rica. Diferenças entre esquecimento de impressões e experiências de um saber e o esquecimento de intenções, ou seja, da omissão de um fazer, tem como base um desprazer.

    As lembranças aflitivas sucumbem com especial facilidade ao esquecimento motivado. O esquecimento de intenções comprova a tese de que a falta de atenção não basta para explicar os atos falhos. A intenção é um impulso para a ação, que já foi aprovado, mas cuja execução é adiada para uma ocasião própria. No intervalo criado, é possível que sobrevenha uma modificação nos motivos que a intenção não seja efetivada, sendo ela revista e anulada.

    Deixamos inexplicáveis ou buscamos uma explicação psicológica supondo que, no momento em que a intenção deveria efetivar-se, já não se dispunha da atenção necessária a ação, embora a atenção tivesse sido uma precondição indispensável para o advento da intenção e, portanto, tivesse estado disponível para a ação momentaneamente.

    Esquecimento e intencionalidade

    Em duas situações na vida, até o leigo se apercebe de que o esquecimento no tocante às intenções não pode ser considerado um fenômeno elementar irredutível, mas autoriza a conclusão de que existem motivos inconfessáveis (relações amorosas e a disciplina militar). Muito interessante este dito: “Desde que compreendi com que frequência tomei como genuína a pretensa simpatia de outras pessoas, tenho-me rebelado contra essas expressões convencionais de simpatia, embora, por outro lado, reconheça sua utilidade social.” O conflito entre um dever convencional e a opinião interna e inconfessada que se tem dele explica os casos em que esquecemos de fazer um favor prometido a alguém.

    O habitual é apenas o obsequiador acreditar que o esquecimento serve de desculpa, enquanto o solicitante dá a si mesmo a resposta correta: “Ele não está interessado no assunto, caso contrário não teria esquecido.” Mesmo entre as pessoas chamadas decentes é fácil observar sinais de comportamento dividido quanto ao dinheiro e a propriedade. Talvez seja universal que a avidez primitiva do lactente, que quer apossar-se de todos os objetos (para levá-los a boca), só tenha sido de maneira incompleta pela cultura e educação. Freud descreveu casos de efeito falho, ou seja, desvio do que fora intencionado.

    O desacerto de agora busca representar o engano cometido em outra ocasião. Evidentemente, os equívocos na ação também servem a uma série de outros propósitos obscuros. Nos casos mais graves de psiconeuroses, os ferimentos auto-infligidos ocasionalmente aparecem como sintomas patológicos e que, não se pode excluir o suicídio como um possível desfecho do conflito psíquico.

    Psicopatologia da vida cotidiana e atos auto-infligidos

    Autopunição com atos auto-infligidos, acidentes a si próprio, originados de uma fúria contra a própria integridade e a própria vida pode assim esconder-se por trás de uma inabilidade aparentemente acidental e de uma insuficiência motora, não é preciso muito para se transferir essa mesma concepção para os erros que colocam em sério perigo a vida e a saúde de outras pessoas.

    Weiss: “Com que persistência o inconsciente sabe impor-se quando tem um motivo para impedir que se execute uma intenção, e como é difícil tomar precauções contra essa persistência.”

    A mudança na forma originada pelo ato falho enquanto o resultado permanece o mesmo dá a impressão de uma vontade que se esforça por atingir um alvo determinado, e contradiz de maneira enérgica a noção de que o ato falho é uma coisa aleatória e não requer interpretação. Para superar o motivo desconhecido faz-se necessário algo diverso de uma intenção contrária consciente; seria preciso um trabalho psíquico capaz de tornar o desconhecido conhecido pela consciência.

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    Superstição e paranoia na psicopatologia da vida cotidiana

    O ato falho psíquico tem de satisfazer as seguintes condições: Não pode exceder certas dimensões fixadas por nossa avaliação e caracterizadas pela expressão “dentro dos limites do normal” Deve ter o caráter de uma perturbação momentânea e temporária. É preciso que tenhamos efetuado antes a mesma função corretamente ou que nós acreditemos capazes de realizá-la mais corretamente ocasionalmente.

    Ao sermos corrigidos por outra pessoa, reconhecemos logo a exatidão da correção e a inexatidão de nosso processo psíquico. Números favoritos estão relacionados com a vida da pessoa em questão e tem um interesse psicológico. No paranoico tudo o que ele vê no outro é interpretável, repleto de significação, mesmo o que não requer motivação para acontecer, no tocante às manifestações psíquicas de outras pessoas, pois ele projeta na vida do outro o que está inconscientemente presente na sua. Em certo sentido, o paranoico tem razão, pois reconhece algo que escapa à pessoa normal, vê com mais clareza do que alguém com capacidade intelectual normal, mas o deslocamento para outras pessoas do estado de coisas que ele reconhece invalida seu conhecimento.

    A superstição é outra indicação de que possuímos um conhecimento inconsciente e deslocado de motivação dos atos causais e dos atos falhos. Existem diferenças entre alguém que é supersticioso e outro não – o supersticioso projeta para fora uma motivação que quem não é procura para dentro, segundo o supersticioso interpreta mediante um acontecimento do acaso cuja origem atribuo a um pensamento, ou seja, o oculto corresponde ao que para Freud tinha o papel do inconsciente, sendo comum a compulsão a interpretar o acaso.

    Déjà vu e Déjà raconté: psicopatologia da vida cotidiana

    A superstição é, em grande parte, a expectativa de infortúnios, e uma pessoa que tenha frequentemente desejado o mal a outrem, mas tenha sido educada para o bem e por isso recalcado tais desejos no inconsciente como um infortúnio que a ameaça de fora. A crença nos sonhos proféticos tem muitos adeptos porque pode invocar em seu apoio o fato de que muitas coisas realmente se realizam no futuro da maneira como o desejo as construíra no sonho. Não se pode negar um certo direito à credibilidade.

    A sensação do déjà vu (impressão de já ter visto algo antes, ou já vivido um acontecimento) corresponde à recordação de uma fantasia inconsciente. É que nesses momentos realmente se toca em algo que já se vivenciou antes, só que isso não pode ser lembrado conscientemente porque nunca foi consciente, podendo derivar-se tanto dos sonhos diurnos como dos noturnos. Déjà raconté – a ilusão de já ter contado algo particularmente interessante quando ele aflora durante o tratamento psicanalítico.

    Nessas ocasiões, o paciente afirma, já ter contado algo particularmente interessante quando ele aflora durante o tratamento psicanalítico. A explicação desse interessante ato falho é, provavelmente, que o paciente teve o impulso e o propósito de fazer essa comunicação, mas deixou de fazê-lo, e agora toma a lembrança do primeiro como substituto do segundo, ou seja, a execução de seu propósito. Sendo assim, o Ilustre Freud teceu considerações de suma importância quanto as psicopatologias da vida cotidiana, destrinchando assuntos que todos observamos acontecer diariamente com perspicácia e estudo embasado em prática, um acervo que merece ser lido.

    Este artigo de resumo do livro de Freud “A psicopatologia da vida cotidiana” foi escrito por Priscila Wanderley Saraiva ([email protected]gmail.com), advogada e psicanalista com foco no social.

    2 thoughts on “A Psicopatologia da Vida Cotidiana: resumo do texto de Freud

    1. Excelente, compreendi muitas coisas que ocorrem no nosso dia a dia com esse novo entendimento. Parabéns Priscila por nos presentear com este resumo de Freud.

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