O que o Psicanalista não pode fazer?

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Em muitos dos nossos artigos, em geral abordamos os diferentes papéis que um psicanalista pode ocupar. Mostramos, por exemplo, que não necessariamente suas atividades estão presas a um consultório. No entanto, por outro lado, é comum que não fique claro o que um psicanalista não pode fazer. Neste artigo deixaremos essa parte do trabalho mais clara para você.

No entanto, antes de iniciarmos este artigo, gostaríamos de relembrar a função de um Psicanalista.

O que um psicanalista de fato pode fazer

O ato de clinicar: permitido ou não para psicanalistas?

Em outros artigos, já comentamos que ser psicanalista é diferente de ser médico.  

Assim sendo, estamos falando de um profissional que, em tese, não poderia “clinicar”. Contudo, sabemos que o “ clinicar” para o psicanalista é diferente do clinicar do médico. Nesse contexto, tanto o médico quanto o psicanalista possuem pessoas para atender. Contudo, há uma diferença crucial no que diz respeito ao ato de clinicar.

Desta forma, a função do psicanalista junto ao paciente é levantar questionamentos. Isso com o objetivo de descobrir frustrações, emoções contidas, desejos reprimidos e todas as emoções que geram “ nós” emocionais em suas vidas. O método utilizado é o diálogo terapêutico denominado de associação livre.

Assim, durantes as sessões de terapia o psicanalista e o paciente vão descobrindo esses fatores juntos. Dessa forma, isso é feito de modo que o trabalho seja feito em conjunto com o paciente. Assim sendo, sua participação é tão crucial quanto a do próprio psicanalista. Nesse contexto, os traumas ou situações que levam uma pessoa a agir de determinada forma, causando algumas situações internas ou externas, não são resolvidos por uma pessoa só.

Vale lembrar que todos que buscam a ajuda de um psicanalista o fazem para se conhecer melhor. Assim sendo, o resultado esperado é que consigam uma melhora considerável em suas vidas e relacionamentos. Nesse contexto, destaca-se principalmente o relacionamento consigo mesmo.

A procura por um profissional que ajude indica que a pessoa não consegue esses resultados sozinha. No entanto, para que o psicanalista consiga ajudar, é necessária a cooperação do paciente. É neste contexto que o trabalho em conjunto é crucial. No caso do médico, o ato de clinicar segue uma vertente completamente diferente. 

Já o psicanalista, formado em psicanálise, usa um método de análise criado por Sigmund Freud. Por essa razão, seu trabalho basicamente consiste na interpretação de palavras, ações e produções imaginarias de uma pessoa.

O psicanalista pode atuar com atendimento (clínico), desde que seja formado e siga supervisionado, dentro do método específico da Psicanálise.

O que o psicanalista pode fazer então?

Como vimos anteriormente, o trabalho de um psicanalista é conduzir e orientar o paciente. Isso com o objetivo de que ele próprio chegue as suas próprias conclusões. Assim sendo, a pessoa passa a entender essas conclusões como verdades, e possa trabalhar com elas a seu favor.

Leia Também:  O que faz um Psicanalista, afinal?

Outras atividades que o psicanalista pode fazer são:

• Orientar
• Questionar
• Direcionar
• Exemplificar
• Conduzir
• Observar
• Agregar o conhecimento de outras áreas

Desta forma, por meio dessas tarefas, o próprio paciente acaba por entender suas necessidades.  Assim, consegue desmistificar algumas coisas que foram impostas pela educação recebida, e com isto, ele próprio acaba por se “curar”.

Nesse contexto, também faz parte do trabalho de um psicanalista  observar a evolução que o próprio paciente conseguiu. Isso além de reforçar estes novos comportamentos.

Por outro lado, o que o psicanalista não pode fazer?

1. Prescrever remédios

Essa é uma atividade que fica vedada ao psicanalista. Isso se deve a alguns fatores, como por exemplo: o fato de o psicanalista não ser médico e sim terapeuta. Além disso, não é possível prescrever porque não há um Conselho Regional que regulamente a função do psicanalista. Nesse contexto, a carteirinha e a certificação não podem ser usados também.

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    Reforçando: se um psiquiatra for também psicanalista, ele pode prescrever remédio por ser psiquiatra. Pessoas que tenham apenas formação como psicólogo ou psicanalista e que não sejam psiquiatras nao podem prescrever medicamentos.

    Mesmo que esta não seja uma atividade permitida, é importante pensar que de acordo com os princípios da psicanálise nem haveria motivo para prescrever remédios, já que a base da psicanálise é a “cura pela palavra”.

    2. Indicar profissionais da saúde formalmente (encaminhar pacientes)

    Uma outra atividade que não é permitida para psicanalistas é um encaminhamento direto de um cliente a outro profissional. Assim sendo, ele não pode indicar formalmente um psicólogo ou psiquiatra.

    Por um lado, essa é uma proibição estranha. Isso porque sabemos que a maioria dos pacientes vai precisar do acompanhamento de um psicólogo ou de um psiquiatra, a depender do caso. Um paciente com transtornos alimentares, por exemplo, pode ser analisado por um psicanalista. No entanto, precisará também do acompanhamento de um nutricionista. Nesse caso, ele não pode encaminhar seu paciente.

    Entender a razão para essa limitação é relativamente simples. Esta função não é tratada como profissão, mas sim como ocupação.

    Como entender essa regra? O psicanalista pode indicar que seu paciente procure profissional de outra área, por exemplo, um psiquiatra. Pode, a nosso ver, recomendar dois ou três profissionais, caso o paciente o peça. O que seria antiético seria indicar UM único profissional, ou fazer uma “campanha” incisiva junto ao paciente neste sentido.

    3. Diagnosticar

    Se você lembra do que discutimos sobre o papel do psicanalista, saberá que ele não pode diagnosticar. Assim sendo,  ele não pode pedir exames de sangue ou um raio X por exemplo. Tudo o que ele pode usar para chegar a uma conclusão sobre os problemas de seus pacientes é feito em conjunto. Nesse contexto, muitas vezes quem tem a resposta para essas questões é o próprio indivíduo que está fazendo a análise.

    Quem busca a ajuda de um psicanalista quer entender o que se passa em sua mente. Assim,  não existe exame de sangue que possa mostrar as “ perturbações “ emocionais de um paciente. Por outro lado, também não é papel do psicanalista diagnosticar problemas emocionais. Nesse contexto, dar um diagnóstico de depressão ou ansiedade está fora de questão.

    Leia Também:  Conhecendo o trabalho do Psicanalista

    O importante em psicanálise é implicar o analisando (paciente) em seu discurso. Em vez de o analista dizer “você tem depressão”, é preciso acolher a demanda do analisando (“eu tenho depressão”) e refletir sobre as representações envolvidas (“mas, o que é para você ter depressão? O que você sente?”). Este assunto é aprofundado em nosso artigo sobre o início do tratamento psicanalítico.

    4. Misturar outras técnicas

    Como psicanalista, posso misturar psicanálise com outros tipos de atendimento?

    A resposta é: Não.

    O foco deve ser o método da associação livre, que é o diálogo terapêutico que utiliza a livre associação e a atenção flutuante para buscar uma lógica sistemática para as razões das dores inconscientes do analisando.

    Por outro lado, é possível (e recomendado!) que o psicanalista tenha conhecimentos em outras áreas, como filosofia, história, sociologia, literatura, artes, além de noções sobre atualidades. Este arcabouço teórico e cultural vai ajudar o analista a ter mais profundidade para entender a vida psíquica, as representações e as demandas do analisando.

    Também é possível o psicanalista conhecer outras abordagens psicoterapêuticas, desde que não deixe de aplicar a associação livre como método principal. Por exemplo, uma técnica de acalmar o analisando por meio de uma respiração mais lenta para ele conseguir se expressar pela fala depois: é uma técnica que não é típica da psicanálise, mas pode ser eventualmente usada para situações de grande ansiedade do paciente durante uma sessão.

    Mas o objetivo do psicanalista será focar no método psicanalítico propriamente dito.

    Por outro lado, não é recomendado:

    • adotar como centrais práticas de outras linhas da psicoterapia (como uma abordagem de “tarefas comportamentais”),
    • nem sugerir ao seu paciente que faça com você terapias alternativas (como florais, yoga etc.),
    • nem misturar com justificativas baseadas em religião.

    Não estamos desmerecendo nenhuma dessas áreas, apenas estamos nos posicionando que o psicanalista saiba diferenciar os momentos em que esteja atuando como psicanalista de outros momentos em que, como sujeito, esteja inscrito em outra linha discursiva.

    Por exemplo, se você atende com outra terapia, pode ser terapeuta da área X e também ser psicanalista. Mas, é preciso separar seu posicionamento em relação ao seu cliente ou analisando. Uma vez que você se posicione ao seu analisando como psicanalista e comece a atendê-lo com psicanálise, o importante é focar no método psicanalítico.

    Algumas considerações finais

    O Psicanalista é um terapeuta.  Assim como o Psicólogo, se vale de sessões em que o paciente fala mais que o terapeuta. É desta forma que se torna possível encontrar os principais problemas ou às vezes um único problema que atrapalha a vida do paciente.

    Assim sendo, cabe ao psicanalista a análise, acompanhamento, orientação e recomendações sobre terapias alternativas. Assim, qualquer atitude que escape da alçada da construção conjunta de uma discussão sobre problemas é problemática. Além dos itens que comentamos acima, há ainda alguns limites para o psicanalista. Ele não pode:

    • Indicar internações
    • Indicar ou orientar religiosamente um paciente.

    Nesse contexto, se o paciente por conta própria disser que vai procurar um psiquiatra, o psicanalista pode reforçar a vontade que partiu do paciente.  Essa é uma indicação informal.

    Desta forma, se o paciente disser que acredita que precisa tomar remédios e que vai buscar a ajuda de um psiquiatra, o psicanalista pode concordar. No entanto, a indicação nunca poderá partir dele.

    Leia Também:  Como acalmar o nervosismo? 15 ideias que vão lhe ajudar

    O profissional não pode nunca sugerir uma outra orientação medica, como exames, remédios, ou qualquer outra coisa, ele estaria fazendo um diagnóstico, e isto ele não pode fazer. Cabe a ele apenas ajudar o paciente através de seus próprios relatos a chegar a uma solução. Nesse contexto, o uso de medicamentos pode até fazer parte da decisão, mas o paciente é que precisa chegar sozinho a ela.

    Aos psicanalistas cabe, portanto, auxiliar o seu paciente na forma da terapia. Dessa forma, fazendo com que ele fale tudo o que o deixa frustrado, amargurado e que o incapacita de fazer algumas coisas.

    Deve ajudar a desatar “nós” emocionais. Além disso, é necessário reconhecer quais são os gatilhos mentais que provocam a “ crise” e com isto estabilizar o paciente. Assim sendo, auxiliará o indivíduo fazendo com que conheça seus pontos a melhoras e ajude a reconhecer e reforçar seus pontos fortes.

     

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    7 thoughts on “O que o Psicanalista não pode fazer?

    1. quereria saber o que vces p
      Gostaria de saber sua opinião sobre o fato de que psicanalistas e piscologistas raramente dão aos pacientes um diagnóstico por escrito e menos ainda escrevem planos terapêuticos indicando o tempo necessário para o tratamento. como as associações profissionais e acadêmicas não impõem essas regras mínimas de respeito ao paciente, abusos de todo tipo ocorrem com frequência e os resultados, honestamente, são muito escassos quando totalmente ausentes.
      você não acredita que essas deficiências tornem a relação com o paciente muito opaca e nem científica? isso lança uma sombra da fraca validade científica da psicanálise e da psicologia e da baixa ética, profissionalismo e justiça para psicólogos e psicanalistasensan em cima do

      1. Olá,

        Primeiramente, diagnósticos só podem ser validados por psiquiatras. Segundo, sobre o tempo de tratamento, é relativo. Não podemos considerar que todas as experiências sejam as mesmas, mesmo para casos similares. A terapia evolui com o cliente, contrariando o modelo de perspectiva cultural imediatista e a relação profissional verticalizada.

        Sobre a relação do respeito, esta parece uma questão subjetiva. O respeito com o cliente está caracterizado no cumprimento das condições éticas do exercício da profissão. A ausência de um tempo “necessário” do tratamento condiz diretamente sobre o respeito que há com o tempo necessário do cliente em entender e resolver suas conflitivas. O tempo é do cliente, e não do profissional em questão.

        Sobre a questão dos resultados, é relativo a exatamente o que? Já que devemos compreender que apenas o cliente conseguirá ter esta métrica sobre a satisfação em sua própria vida. Os comparativos são perigosos neste ponto, já que a satisfação e felicidade pessoal são plurais e subjetivas. Devemos entender que, possivelmente, o alguém acha bom para a própria vida num quesito, talvez para o outro seja inviável ou insatisfatório.

        Sobre a questão científica, devemos desmistificar que o único modelo científico seja o positivista e indutivo. Já fazem décadas que as ciência sociais provaram sua eficácia e que a ciência indutiva não consegue obter todas as respostas, dando validade às ciências dedutivas.

      2. Angelo Rinzullo, vamos por parte: A priore, opinião é algo subjetivo e nós cientistas da alma, apesar de trabalharmos com sentimentos, somos objetivos nas nossas afirmações; Continuando, os profissionais que lidam com a saúde mental diagnosticam sim, traçamos um mapa do que encontramos no visitante, cliente ou amigo, não aceito o termo paciente, o qual considero menosprezante no que diz respeito à delicadeza pela dor alheia, prefiro chamá-lo pelo nome, depois, de acordo com a evolução da terapia é que percebemos pela análise, como estão as seções, os encontros, a terapia, haja vista que tudo é relativo e depende do conjunto formado pelo terapeuta e o emotivo, portanto não há como determinar um tempo de “cura”. Assim como os remédios são uns, as doenças são outras e os organismos são diferentes, os terapeutas são uns, as emoções são diversas, todas com seu grau de intensidade e os emotivos são outros, todos com seu grau de dificuldade e consciência. Seria ante ético e anti profissional, haver regras para se trabalhar com conflitos da alma, traumas, síndromes, pessoas cromossômicas entre outras, pois estas causas são diversas. No tocante ao respeito pelo paciente, isto há “sim”, até porquê estamos à disposição, no aguardo de quem nos procura e se não houver respeito não haverá necessidade de assumirmos esta tão modesta missão. No tocante a “abusos” desconheço tais fatos. Nos que assumimos esse ofício temos consciência do dever de lidar com pessoas munidas de “N” problemas, mas que são pessoas dignas e conscientes de que precisam de apoio, ajuda e orientação, razão que para tanto nos procuram e para os mesmos estamos à disposição.

    2. Bom dia, Está na hora de repensar a questão acima, o psicanalista nunca foi nunca será terapeuta. O psicanalista nasce de uma vertente da medicina, criada por Sigmund Freud, e ele responde juridicamente pelo seu paciente sim, é irrefutável. Este pensar no psicanalista sendo “terapeuta” demerita em muito a psicanalise clínica, que foi quem participou dos DSM I, II, III – tendo saido no DSM IV e V devido a ascenção da indústria dos medicamentos.

      1. Com todo o respeito, terapeuta é a designação comum para todo aquele que se lança em busca do auxílio ao próximo, utilizando qualquer tipo de abordagem que vise a cura ou alívio dos sintomas que afligem a sua psique independente de quem seja, de seu grau de instrução ou profissão. Um ombro amigo, um ouvido atento ou um simples sorriso podem ser a melhor opção de técnica terapêutica disponível e deve estar ao alcance de qualquer ser humano.
        Seja ele certificado dentro dos padrões psicanalíticos convencionais ou simplesmente imbuído pelo sentimento humanitário, estará exercendo seu papel de terapeuta.

    3. Como que nesse texto diz que o PSICANALISTA pode indicar medicamentos e logo abaixo o PSICANALISTA já não pode indicar medicamentos e logo abaixo?

      1. José Ivan, o texto diz indicar meditação e não medicação.
        Releia o texto e encontrará a diferença entre as palavras.
        A meditação guiada, ou livre pode ser um meio de se alcançar o inconsciente, mas não é uma medicação.

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