cura em psicanálise

Cura em Psicanálise: conceito em Freud e Lacan

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A ideia de cura em psicanálise pressupõe uma resolução da dor psíquica do sujeito. Mas, será possível uma solução completa para todas as dores psíquicas? Se partirmos da ideia de que somos sujeitos desejantes e de que o inconsciente não pode ser totalmente acessado, sempre restará um lugar não resolvido para as dores psíquicas.

Falar em cura em psicanálise, segundo Freud e Lacan, significa em certa medida falar em uma significativa melhora. Isto é, reduzir determinados sintomas psíquicos que antes eram definidoras do sujeito (como “eu sou muito depressivo”), em favor de um quadro de melhora em que esse sintoma (no exemplo, “depressão”) deixe de resumir o próprio sujeito analisando, da perspectiva deste sujeito.

Afinal, não há uma medida exata para saber se a pessoa está de fato curada, por serem aspectos subjetivos. A autopercepção do sujeito-analisando será fundamental.

Neste texto:

  • Começaremos refletindo sobre o que NÃO é cura em psicanálise.
  • Depois, veremos as diferentes definições sobre “o que é Cura” em diferentes escolas psicanalíticas, em especial nas psicanálises de Freud e Lacan.
  • Vamos trazer uma síntese do que se pode entender por “cura”.
  • Por fim, veremos as condições e formas para que analista e analisando compreendam e almejem esta realização.

O que não é cura em psicanálise?

Antes de falar o que é, vamos começar falando o que não é.

A cura em psicanálise NÃO é:

  • Não é inserir o sujeito em um esquema de normalidade ou normatividade que seja alheio ao desejo do próprio sujeito.
  • Não é o sujeito ter domínio completo sobre si mesmo, algo impossível exatamente pelas dimensões do inconsciente e do desejo.
  • Não é um progresso linear (a terapia é um processo sujeito a idas e vindas).
  • Não é uma panaceia (solução para todos os males).
  • Não é um “ensino”, algo que se ensina a outra pessoa, nem mesmo um analista pode ensinar a cura a um analisando.
  • Não é o analista desejar algo para o analisando, ou seja, não é dizer o que o analisando deve desejar.

Então, o que é cura em psicanálise?

Anteriormente neste texto, partimos de definições negativas (o que não é). Agora, estamos um pouco mais prontos para definições positivas: o que é cura para a psicanálise? Qual a definição de cura ou conceito de cura? Qual sua real possibilidade?

Correntes psicanalíticas terão diferentes concepções sobre cura ou melhora psíquica ou término do tratamento, como:

Aprofudaremos estas três abordagens acima em outros textos.

Agora, vamos focar nas concepções de cura para Freud e para Lacan.

A cura psicanalítica para Freud

Para Sigmund Freud, o objetivo do tratamento é o que chamou de cura prática, ou uma “melhora significativa”.

Esta cura ou melhora pode ser vista:

  • por um aspecto qualitativo (mudança de estado) e
  • por um aspecto quantitativo (redução do “quantum” de dor do sintoma).

A psicanálise tem como objetivo tornar consciente o que estava inconsciente, isso inclui ampliar a visão do sujeito sobre si mesmo e sobre seu mal-estar.

Então, no processo analítico, o sintoma passa a ter uma dupla dimensão:

  • Parte consciente: possíveis causas do mal-estar vão se tornando conhecidas, e elaborar esse conhecimento a partir da personalidade do sujeito é um dos caminhos para a melhora psíquica.
  • Parte inconsciente: mesmo fazendo análise, muitos elementos continuarão inconscientes. Afinal, é no inconsciente que está a maior parte de nossa vida psíquica. Então, é de se supor que parte das causas do sintoma continue não sabidas.

Mas, ainda que o sintoma não desapareça, a psicanálise ajudará o sujeito a passar por um processo em que não se estigmatize nem se incapacite como alguém definido pelo sintoma (reduzido ao sintoma). E isso, ainda que não seja uma cura em termos absolutos, será uma melhora possível, uma cura prática ou uma cura relativa que será possível alcançar, o que poderá melhorar a vida do sujeito.

Ainda para Freud, as mais importantes tarefas da psicanálise seria esta ideia de melhora, que passaria principalmente por:

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    • Fortalecimento do ego: para que o ego consiga cumprir suas funções de identidade, da ordem desejante nos conflitos entre id e superego e das demandas da realidade externa.
    • Recuperação das capacidades de amar (gozar) e realizar (trabalhar, agir sobre o mundo).

    A cura psicanalítica para Lacan

    Para Jacques Lacan, a demanda de cura vem da voz de um sofredor. Nesse sentido, a voz do analisando é central para determinar se um tratamento está caminhando para cura/melhora ou para piora.

    O desejo é muitas vezes disforme. Uma maneira de entender o desejo de alguém é quando esta pessoa consegue reduzir o seu desejo a uma demanda. Por exemplo, “eu quero X” ou “eu não quero mais ser/ter Y”.

    Cabe ao analista recolher essas demandas trazidas pelo analisando. E, no processo, elaborar essas demandas, com o objetivo que o analisando encontre-se consigo. Encontrar-se consigo seria, em resumo, encontrar-se com seu desejo: reconhecer os desejos que lhe causem satisfação (ou menos tensão) e afirmá-los.

    Então, para Lacan, a cura em psicanálise é uma melhora que passa também por um fortalecimento do ego, que pode ser expresso principalmente por dois termos lacanianos:

    • Travessia da fantasia: percurso sobre a significância e autodefinição do próprio ser, com o sujeito sendo capaz de se afirmar como ser desejante (“eu sou…”).
    • Destituição subjetiva: no setting analítico, significa que o analisando vai “destronar” (retirar do trono) o lugar do sujeito suposto-saber do analista; este lugar em que, de início, o analisando colocou o analista para o bem da análise e para a formação dos laços transferenciais.

    De forma similar à destituição subjetiva, a cura ou melhora se realizará a partir de um movimento do analisando em destituir o sujeito suposto-saber dentro (seu psicanalista) e fora do setting (as outras influências de fora da terapia). Isso implica deixar de reverenciar todos os outros Grandes Outros e o desejo dos outros, colocando no lugar o próprio desejo (o desejo do analisando).

    A análise psicanalítica pode ser interminável?

    No caso específico da Psicanálise, embora costume ser uma terapia de longo prazo, isso não significa necessariamente uma análise interminável. Há psicanalistas que seguem uma linha de psicanálise breve, o que pode ser questionável e até correr o risco de uma “psicanálise selvagem”. A psicanálise breve adota uma tese de ser possível um caminho mais ágil para um encerramento do tratamento, focado em demandas iniciais específicas.

    Entendemos que a duração de uma psicanálise tende a não ser curta. Dependerá muito das demandas trazidas pelo analisando e da forma que ele entenda o sempre perigoso termo “progresso”. Há analisandos que fazem análise há anos (ou mesmo décadas), já conseguiram compreender certas demandas, sentem-se melhor, mas querem continuar fazendo análise enquanto viverem.

    Se certos analisandos entenderem que, apesar de sua melhora nos aspectos mais urgentes de suas dores psíquicas, a psicanálise deverá seguir por toda a vida, que assim o façam. Os analisandos que pensam assim provavelmente tenham uma percepção interessante sobre si e sobre a dinâmica do método psicanalítico: novas demandas vão surgindo, o desenvolvimento psíquico é contínuo, ninguém estará pronto(a).

    Mas, e quando se chega ao “final” da análise? Isso acontecer porque a análise pode ser:

    • interrompida, quando o analisando abandona a análise, mesmo sentindo que não alcançou a resolução sequer parcial das demandas iniciais ou decorrentes da terapia. A interrupção pode ocorrer por inúmeros motivos, muitas vezes ligados às resistências do analisando e à falta de vínculo transferencial no setting analítico.
    • concluída, isto é, encerrar a terapia por um caminho que se costuma chamar de “alta”, quando o analista e o analisando convencionam que a terapia cumpriu ao menos parte de seu propósito e que, também por inúmeras razões, outras demandas parecem não surgir, ou o analisando estabeleceu resistências rígidas demais para novas questões.

    Interrupção ou fechamento significam cura?

    A visão de ser possível uma análise concluída é questionada por linhas da psicanálise, que concebem que psicanalista não dá alta, só o analisado (agora, não mais analisando, pois exaurido o par analítico). Porém, esta ideia é um pouco reducionista, porque:

    • o conceito de “alta” tem uma semântica médica; pode-se optar por não usá-lo em psicanálise, mas usá-lo como sendo escolha do paciente parece-nos um desvio bastante significativo, sendo melhor falar em interrupção, neste caso, sobretudo quando o analista (a outra parte do par analítico) não corrobora este término;
    • há técnicas (como a psicanálise breve), escolas e autores da psicanálise que defendem a ideia de que seja possível chegar a uma situação de “fechamento” (ainda quando prefiram não usar o termo “alta”);
    • entender uma situação de fechamento por motivos de certo esgotamento das demandas de cura do analisando em razão de sua melhora, ou do esgotamento do desejo do paciente com a terapia ou até mesmo do esgotamento da capacidade do analista não resulta em considerar que o analisando esteja “pronto”, apenas significa considerar que aquele par analítico cumpriu certo propósito, dadas certas condições.

    Além disso, um fechamento pode significar que as demandas de cura que definiam o analisando foram pelo menos parcialmente atendidas.

    Se levarmos a sério a ideia de que é o analisando quem define sua melhora, há que se considerar que o analisando também possa decidir por interromper ou fechar um tratamento. Não significa um fechamento definitivo, sobretudo porque este analisando pode retomar sua análise no futuro, com novas demandas, no mesmo par analítico ou em um novo par analítico.

    Interrupções ou fechamentos (vindos do analisando, do analista ou da convenção entre ambos) não significam necessariamente cura. Podem significar:

    • uma melhora do analisando, que pode considerar retomar a terapia no futuro (com o mesmo ou com outro analista),
    • uma incompatibilidade do analisando para com o método psicanalítico da livre associação,
    • uma dificuldade na construção de uma relação transferencial ou contratransferencial adequada daquele par analítico em específico,
    • um esgotamento da capacidade técnico-pessoal do analista para o caso,
    • entre outros fatores.

    A cura em psicanálise é o analisando retomar a capacidade de realizar tarefas?

    Há que se ter cuidado em pensar a Psicanálise como uma resposta prática a tarefas e tomadas de decisões, isso é mais do feitio de linhas comportamentais (como terapia cognitivo-comportamental ou TCC), não de linhas analíticas (como a psicanálise).

    Esta divisão costuma trabalhar duas grandes linhas metodológicas diferentes:

    • uma linha mais comportamental (terapia focada em mudança de hábito e comportamentos, como a TCC),
    • outra linha mais analítica (terapia focada no entendimento sobre o ser, como a psicanálise).

    São percursos diferentes, ambos válidos, embora a psicanálise entenda como mais efetivo o viés analítico.

    Por sua própria natureza analítica e subjetiva, é tão mais ingênuo tentar determinar parâmetros rígidos e universais para a ideia de cura em psicanálise.

    Indiretamente, o psicanalisando poderá apresentar uma maior disposição para realizar tarefas e mudar hábitos. Mas isso será consequência do fortalecimento de seu ego e da compreensão dos desejos do próprio analisando. Pois, a Psicanálise entende que a mera realização de tarefas impostas pelos outros resulta em um superego rígido demais, causando dores psíquicas a um sujeito que não aprendeu a dar vazão pelo menos parcial a seus desejos.

    Um psicanalista pode encaminhar seu paciente para um psiquiatra?

    Antes de mais nada, é importante distiguir:

    • psicanalista: é o analista formado em curso de formação em psicanálise e que, depois de formado, segue obrigatoriamente desenvolvendo-se, isto é, estudando a teoria, sendo supervisionado por outro psicanalista mais experiente e sendo analisando (paciente) de outro psicanalista.
    • psiquiatra: é o médico com especialização em psiquiatria; pode ou não atuar com psicanálise também. É o profissional da área de saúde mental que pode receitar medicamentos.

    E o que dizer se o analisando disser, durante a terapia, que já está sendo acompanhado por psiquiatra e que faz uso de medicamentos, como antidepressivos ou ansiolíticos? Resposta: que o psicanalista recomende que o analisando continue com este acompanhamento com o psiquiatra. O psicanalista deve reforçar que a terapia psicanalítica atuará em complemento com os medicamentos. O psicanalista deve reforçar que apenas o psiquiatra pode prescrever e suspender o uso de medicamentos.

    E se o analisando perguntar em terapia a opinião do analista sobre o analisando começar um acompanhamento com psiquiatra? Ou se o psicanalista observar que esta colaboração do psiquiatra pode ser importante, mas o analisando tem uma resistência ao uso dos medicamentos? Nestes casos, é interessante conversar em terapia com o analisando. Pode ser que o analisando tenha alguma resistência quanto à busca também de um psiquiatra (que é quem avaliará a necessidade de medicamentos). Não seria, de toda forma, um encaminhamento que o psicanalista fará, pode ser no máximo uma recomendação ao analisando, que surja da interação em terapia, para que o analisando decida a respeito.

    Em muitos casos, os medicamentos terão uma atuação mais rápida na promoção de um bem-estar psíquico. E isso permitirá que a terapia psicanalítica tenha mais tempo e tranquilidade para prosseguir com as questões existenciais do paciente. De toda forma, é importante o psicanalista reforçar ao analisando que medicamentos não são panaceias no que tange à saúde mental. No campo da qualidade de vida mental, o autoconhecimento que a terapia psicanalítica possibilita é o que trará resultados a longo prazo.

    Uso de medicamentos de forma combinada com terapia psicanalítica

    Sabemos que psicanalista não receita medicamentos, apenas médico. No caso de aspectos da saúde mental, o médico habilitado a receitar medicamentos é o médico psiquiatra.

    E se o analisando comentar ao psicanalista que ele (analisando) decidiu interromper o uso de medicamentos receitados por seu psiquiatra? E se o psicanalista, além disso, verificar que a ausência desse medicamento parece trazer um quadro psíquico piorado ao seu paciente. O que o psicanalista deve fazer?

    Pela perspectiva do método da associação livre em psicanálise, o manejo essencial é refletir com o analisando as percepções dele sobre múltiplos assuntos. Isso pode envolver debater as representações que o analisando faça sobre “usar medicamento” e sobre como ele se sente usando ou não um medicamento. Tanto no caso de ele usar como de não usar, ou interromper. E sempre reforçar ao analisando que tanto a indicação quanto a “alta” no uso de medicamentos deve ser decidida exclusivamente com o psiquiatra que o acompanha.

    Cabe à terapia psicanalítica refletir sobre isso como um fato da vida psíquica do sujeito, mas não como o ambiente para mudar uma decisão clínica sobre medicamentos receitados por um psiquiatra.

    Vamos falar agora sobre o eventual fato de que “não usar medicamento” possa implicar uma redução significativa da qualidade do atendimento psicanalítico, pela perspectiva do psicanalista. Neste caso, é importante ressaltar que o analista tem a possibilidade (e até mesmo a responsabilidade) de atender os casos que ele julgue ser competente para tal. Então, o analista pode levar o caso ao seu supervisor (o psicanalista mais experiente que lhe acompanha), podendo inclusive interromper a continuidade do seu atendimento junto a um analisando.

    No caso de interrupção, o psicanalista pode recomendar que ele busque um outro psicanalista, podendo até mesmo indicar este psicanalista.

    Sempre importante reforçar que o psicanalista em atendimento deve seguir o tripé psicanalítico, isto é, mesmo depois de formado, continuar estudando (novos cursos e leituras), fazendo sua análise pessoal e sendo supervisionado por psicanalista mais experiente. O espaço da supervisão é o ambiente adequado para o psicanalista refletir sobre o manejo dos casos clínicos que estiver atendendo.

    Um psicanalista pode recusar um paciente ou interromper um tratamento?

    Sim. O psicanalista pode recusar um analisando (no início ou no meio do tratamento). Isso se dá especialmente em dois casos:

    • se o analista entender que a terapia chegou a um ponto de uma resistência inquebrável, ou
    • se o analista considerar que não tem os recursos técnicos necessários para atender determinado paciente.

    Quanto ao aspecto da resistência: ela é parte do processo terapêutico. A resistência pode ser um sinal de que a terapia está se preparando para saltos mais qualitativos, como pelo fortalecimento da transferência ou da quebra de temas tabus. Pois, quando surge uma resistência, surge materiais para debate e surge a oportunidade de quebrá-la.

    Tanto analista quanto analisando devem ter cuidado para não abandonarem o tratamento logo nas primeiras resistências. Quando as resistências ficarem fortes demais, ainda assim, entendemos que será preciso prosseguir por mais algumas sessões, até que se constate que a relação terapêutica esteja completamente esgotada.

    Pode acontecer também de o analista considerar não ter os recursos técnicos para conduzir a terapia com determinado paciente. Reconhecer isso não é sinal de fraqueza. O contrário (isto é, não reconhecer) poderá ser um gesto narcísico do analista. Para que o analista tenha elementos para gerar melhores resultados ao analisando, bem como para reconhecer os casos de recusa de tratamento, é preciso que o analista atue com qualidade e responsabilidade. E, para isso, é fundamental o psicanalista:

    • seguir estudando a teoria, por meio de leituras e novos cursos;
    • ser supervisionado por outro psicanalista mais experiente, com quem possa debater os casos que estiver atendendo; e
    • ser analisando de outro psicanalista, isto é, fazer sua própria terapia.

    Estes três elementos (teoria, supervisão e análise) compõem o tripé psicanalítico. Nenhum psicanalista pode se chamar assim se não estiver em desenvolvimento permanente, neste tripé.

    Em síntese, o que é cura para a psicanálise?

    Na psicanálise, as mudanças de hábitos são consequências nem sempre diretamente visíveis. Alguns dos objetivos principais associados à psicanálise são:

    • o entendimento do “ser” (um autoconhecimento),
    • a construção de sentidos sobre possíveis padrões inconscientes que determinem o sujeito,
    • os significados atribuídos à história de vida, às pessoas, às coisas, à cadeia de significantes etc. e
    • o fortalecimento do ego.

    Avanços nestas perspectivas acima listadas serão vistos pelo analisando como melhoras psíquicas. Isso ainda que, pela própria natureza humana concebida pela psicanálise, não seja possível falar em um ser humano “perfeito”, acabado e com todas as suas questões resolvidas.

    Afinal, a própria hipótese psicanalítica da existência de um inconsciente deveria demover da ideia de “total controle” e “total conhecimento de si” qualquer pessoa que trabalhe, estude ou se trate com psicanálise.

    A Psicanálise é uma teoria sobre as consequências do desejo em nós:

    • os desejos que realizamos e
    • os desejos que não realizamos.

    O desejo é central no processo identitário de um sujeito. E, assim, o será também como medida para o bem-estar do sujeito. Será, por isso, um fator central trabalhado em terapia.

    Afinal, a complexidade do desejo implica que o sujeito pode:

    • não saber o que deseja,
    • ter desejos ambivalentes ou
    • desejar os desejos dos outros.

    Uma citação (em escrita livre) atribuída ao grego Hipócrates: “mais importante conhecer a pessoa do doente do que conhecer que doença a pessoa tem“. A psicanálise seguirá também esta ideia, no sentido de identificar que um sintoma terá uma causa relacionada à constituição psíquica e à personalidade do analisando.

    O desejo do analisando em saber mais sobre si o “habilita” a ser um analisando em psicanálise. Este sujeito desconfia de que não entende tudo sobre o que lhe causa a dor. E identifica que precisa de um olhar de fora.

    Se o sintoma é a realização substitutiva do desejo (isto é, a forma de um desejo reprimido se manifestar), entender o desejo atinge o sintoma (superando-o ou minimizando-o).

    O processo analítico deve propiciar uma autonomia para que o analisando diga “sim”, “não” (e, às vezes, “sim/não”) em seus próprios termos, não a partir do desejo do outro.

    Mas, o que significa “cura” para você?

    Amigo leitor, você pode se sentir frustrado ou até desolado por ter descoberto que a ideia de cura (quando pensamos na psique humana) não é tão objetiva assim. Este artigo teve como finalidade afastar o maniqueísmo entre “estar doente” e “estar curado”.

    Inclusive, Freud e a psicanálise nos ensinam que o patológico é também parte da personalidade. Por exemplo:

    • a perversão é parte da sexualidade de todo ser humano (o excesso pode acarretar dor ao sujeito e aos outros);
    • os traços do narcisismo constituem o ego (o narcisismo exacerbado prejudica o desenvolvimento psicossocial do sujeito);
    • a sublimação é importante para o sujeito se reconhecer no que faz (o exagero pode resultar num superego hiperrígido e no workaholic).

    Normal e patológico não se diferenciam essencialmente pelo aspecto qualitativo, mas principalmente pelo “quanto” e pela autopercepção do sujeito sobre como aquilo lhe causa tensão. Então, é importante o analista perguntar ao paciente que quer uma resposta se está curado: “o que significa cura para você?“. As reflexões sobre esta pergunta valem mais do que qualquer rótulo.

    Refazemos esta pergunta ao leitor: o que significa cura para você? Se as respostas forem:

    • Propiciar uma significativa melhora ou mesmo uma autopercepção do analisando de que superou uma dor psíquica: sim, a psicanálise pode “curar”. Perceba que isso passará por o analisando entender que tal condição foi superada ou atenuada, não é o desejo ou o suposto-saber do psicanalista que lhe dará um “carimbo” de cura.
    • Propiciar total autocontrole ao paciente, para que ele não tenha nenhuma tensão psíquica interna: não, a psicanálise não pode curar,  exatamente porque há a dimensão do inconsciente e há uma psique viva, em que novas questões (e às vezes as mesmas questões) sempre poderão surgir ou ressurgir.

    Quando o analisando afirma que pessoas de sua família começaram a dizer que ele “piorou” (em termos comportamentais) depois que começou a fazer terapia, isso pode ser um bom sinal. Isso nos permite perguntar:

    • A terapia psicanalítica “piorou” este analisando do ponto de vista de quem?
    • Será que este familiar estaria dizendo isso porque o analisando está mais adequado ao próprio desejo e não ao desejo dos outros?

    Para J. D. Nasio, a psicanálise não cura em definitivo. O sofrimento é irredutível à vida e necessário a ela. Por haver as dimensões do inconsciente e do desejo, sempre haverá uma incompletude potencialmente geradora de dores psíquicas. Para Nasio, a psicanálise leva o sujeito a amar-se como é. Isso significa ser mais tolerante consigo e com seu entorno mais próximo. Isso significa reduzir a angústia do que lhe falta e do que ele não entende, e valorizar o que elaborou acerca de sua própria ordem desejante.

    Este texto sobre o conceito de cura em psicanálise de Freud e Lacan foi escrito por Paulo Vieira (gestor de conteúdos do curso Psicanálise Clínica). Recomendamos também a live “A Cura em Psicanálise”, ministrada pelo professor e psicanalista Pedro Sá para alunos do Curso. A gravação desta live está disponível para alunos na área de membros do Curso de Formação em Psicanálise Clínica.

     

    13 thoughts on “Cura em Psicanálise: conceito em Freud e Lacan

    1. virginia maria poltronieri de oliveira disse:

      Estou no segundo modulo de psicanalise clinica. Comecei os estudos esse ano.
      No primeiro modulo, confesso que fiquei muito esperancosa com a possibilidade de ser “curada” pela psicanalise. Ao ler esse texto, me vejo nas experiencias do passado em terapias, sem sucesso do livramento algum das dores psiquicas. Eh deprimente ler um texto como esse. Sera que , mais uma vez que estarei perdendo tempo e dinheiro aqui? Se voce buscar conteudos de profissionais de outra linha (psicologos, psiquiatras e etc) na propria internet , vai perceber que a maioria deles, apenas considera a psicanalise como uma filosofia. Sem base cientifica. Sera que estou, mais uma vez, andando em circulos? Foda!!!!

      1. Psicanálise Clínica disse:

        Olá, Virginia. Freud disse algumas vezes ter curado pacientes, mas esta cura dentro de certos limites. A dimensão humana é sempre afeita ao desejo: uma cura total seria um perfeição que entendemos impossível. E, saber disso, já é de certa forma uma cura. Compreender-se cada vez mais por meio da psicanálise é algo que nos dá uma satisfação e uma auto-afirmação, fortalece o ego até para entendermos os pontos que somos imperfeitos. Por favor, releia o artigo e veja uma live sobre este mesmo tema, está em sua área de membros (Lives & Gravações, de junho/2022). Conte conosco nesta jornada 🙂

      2. lucilene de araujo disse:

        Virginia Maria, até chegar ao último módulo, pode ser que as suas próprias percepções, façam um movimento interno de autocura, se é o seu verdadeiro desejo…

    2. Mizael Carvalho disse:

      Muito bom texto! A cura muitas vezes é se libertar-se do outro. Conquistar sua independência!

    3. Gisele Ferri disse:

      Interessante sobretudo a questão de sabermos separar/diferenciar o desejo que pertence ao outro, e o desejo que de fato é genuinamente meu!

    4. Ótimo texto! A Psicanálise nos ajuda a chegar até o nosso desejo. Vale muito, tanto as sessões com um Psicanalista como o curso. Recomendo!

    5. Heli Assunção disse:

      O processo cura é inerente ao ser humano. Mas não quer dizer que ela seja possível. Na psicanálise, pelo que entendi até agora, a cura é relativa para cada um. Será que estamos mesmos doentes ou seria àqueles que nos cercam? Por isso é tudo mais a psicanálise vai te auxiliar pelo caminho da aceitação.

    6. Angela Sofia disse:

      Paulo, seus textos são como palavras de anciãos, ouvimos como se recebessemos afeto, com acolhimento. São flutuantes e ao mesmo tempo penetrantes. Luto para fazer este curso, cujo prazo vence em dezembro, pois apresento uma resistência poderosa para escrever e seus textos me relaxam e inspiram. Por mais textos seus. Obrigada

      1. Psicanálise Clínica disse:

        Angela, muito obrigado pela generosidade de suas palavras.

    7. Muito bom ter essa percepçao. Já que a cura aqui sitada é uma melhor percepção do analisando sobre so mesmo.
      Legal

    8. Sou José Lourival Pereira de Moraes 80 anos, iniciante no curso de psicanálise clinica, apesar de dois meses de estudos já absorví mais conhecimentos do que cincoenta anos de leituras de textos, revistas e livros.
      A abordagem do professor Paulo vieira me tirou de um aborrecimento sobre matéria de um pesquesidor que me deixou pasmado com o entendimento exposto na narrativa aquí está onde localizar https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/dossie-questao/2020/06/25/psicanalise-muita-conversa-fiada-nenhuma-ciencia.
      Com exposição de professor me sinto informado para rebater narrativas semelhante a essa .Não perderei tempo com inverdades com essas , pode até ter entendimento dessa pessoa , mas a falta de respeito com o pai da psicanálise e outros pesquisadores contemporâneo de Freud atualmente é de fazer muitos mortos revirar no túmulo.
      Hoje eiste uma preocupação com faknews , mas narrativa e dossiês ceio de idéias subliminares destrói reputações que são patrimônio da humanidade.
      Professor Paulo continue nos abastecendo com conhecimentos para não enganar com falácias desnecessárias.

    9. David Ferreira da Silva disse:

      Ótimo artigo, trazendo a dimensão humana limitante do par-analítico na consecução de um ideal de perfeição e bem-estar plenos.
      Também muito esclarecedor e aliviante para iniciantes da clínica, cuja interrupção por abandono, por exemplo, abalam inicialmente a autoconfiança nos manejos.
      Muito obrigado e um abraço ao prof. Pedro.

    10. SUELI BORTOLETO disse:

      Conclui minha formação em psicanálise clínica, hoje me sinto muito melhor em muitos aspectos.
      Vale a pena fazer o curso e a terapia psicanalista, sempre haverá críticas ao método, mas isso não me incomoda nem um pouco, cada pessoa é livre para pensar e escolher o que melhor lhe aprouver. Acredito que conhecimento nunca é demais, a melhor coisa da vida é nos entender, buscar identificar o que nos incomoda e trás tantos sofrimentos. Isto é uma busca contínua, pois as demandas estão aí, a vida não é estática.

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