Juan David Nasio

Juan David Nasio e a relação analista e analisando

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Em sua obra ‘Como trabalha um Psicanalista’, Juan David Nasio sintetiza os principais conceitos que se deve levar para o consultório ao começar a atuar como um psicanalista, para que se estabeleça de forma frutífera a relação entre analista e analisando.

A relação entre analista e analisando, segundo Juan David Nasio

O trabalho de um psicanalista, Nasio nos lembra, antes de qualquer coisa opera com o inconsciente, inclusive o seu próprio. Isso exige certos cuidados na comunicação, que deve ser o menos ativa possível, nesta relação, desde as primeiras análises e daí vem a caricatura do analista, eternamente silencioso.

Mas pensar que uma análise se desenvolve sem uma estrutura, apenas “ouvindo” o analisando, lembra o autor, é um engano. Embora o analista não detenha a palavra na maior parte do tempo não quer dizer que seu trabalho seja passivo. O trabalho de um analista é ativo, estruturante.

Para além de ser um ouvinte, ressalta Nasio, há também no analista perspectivas, objetivos, como também decepções, de modo que, organizar isso tudo requer tática e estratégia. Em uma palavra, o analista dirige o tratamento, que se apresenta em diferentes fases.

Juan David Nasio e a Psicanálise

Se o conceito de técnica refere-se, tradicionalmente, ao “conjunto dos meios aplicados a uma matéria com a intenção de obter-se um objetivo”, diz o autor, em se tratando de psicanálise, tal matéria é, nada mais nada menos, que o desejo do analisando.

Matéria esta que é “idêntica ao desejo do operador”, de modo que, na psicanálise, pode-se afirmar que a técnica seria o operador saber “operar-se a si mesmo”. J. D. Nasio explica:

“A essência dessa técnica analítica é o fundo estável que se decanta no psicanalista, à medida que a técnica instrumental é aplicada. A obtenção desse fundo estável significa a criação, no psicanalista, de um estado particular de expectativa, de uma expectativa escolhida, de uma disposição orientada, polarizada na realização de uma experiência singular […] e fazer semblante de dirigir, estudar seriamente a técnica, esperando secretamente que a verdade na análise irrompa em nós, nos perturbe, nos surpreenda e ponha um limite ao suposto domínio da nossa ação. É então que a verdade aparece no analisando”.

A prática clínica e a associação livre para Juan David Nasio

Exposto isso, J. D. Nasio frisa que, para além da enunciação da regra fundamental (da associação livre), um analista deve “dirigir” o seu paciente para o chamado “ponto de experiência”, ou “sequência da transferência” (em Lacan e Ida Macalpine), de modo que seu objetivo é causar (“fazer surgir”) a seqüência da transferência, momento em que o analista deixa sua posição de “direção do tratamento” para ocupar o lugar do “objeto de transferência”.

A partir disso, o autor discorre sobre as quatro diferentes fases de um tratamento, que ele classifica em: retificação subjetiva, sugestão, neurose de transferência e interpretação. A primeira fase, a retificação subjetiva, ocorre já a partir da primeira e segunda entrevista, onde o analista deverá fazer com que o analisando descreva sua “posição” na realidade que ele (o analisando) apresenta, isto é, o analista deve perceber a relação que o paciente mantém com seus sintomas; que sentido dá para eles, aos seus sofrimentos, suas questões, seus “distúrbios”.

É este o momento em que o analista fará para o paciente a chamada “retificação subjetiva”: momento em que irá intervir “no nível da relação do Eu do sujeito com os seus sintomas”. Em outras palavras, é o momento em que deverá discernir bem o motivo da consulta.

A segunda fase

A segunda fase, a sugestão, constitui-se de dois “atos psicanalíticos”, da maior importância: o de aceitar analisar o paciente, e o de enunciar a regra fundamental (significa dizer: “a partir da próxima vez, eu prefiro — ou eu gostaria — que você se deitasse no divã e depois falasse sem restrições […] de tudo o que lhe vier à cabeça.”).

Momento vital pois nele, diz o autor, o analista transmite ao paciente “a sua própria relação simbólica com a psicanálise, sem que ele se dê conta disso”. Ele acrescenta que “essa relação do analista com a psicanálise, veiculada nesses dois gestos, será o primeiro objeto de transferência com o qual o analisando terá que se confrontar”. Portanto, insiste o autor, o primeiro objeto transferencial não é o analista, mas a relação deste com a psicanálise.

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Juan David Nasio e a terceira fase

A terceira fase é o momento da transferência, o momento mais “fecundo” e o mais sofrido, onde há quase uma “cumplicidade” entre analista e analisando, no sentido de se evitar chegar a esse momento. É o momento em que a demanda de amor não é correspondida (momento de “decepção”).

Uma demanda que “vai descobrir a sua carência, o seu caráter inaceitável” e portanto, um momento que se caracteriza pelo retorno do recalcado, nas palavras do autor. É quando “a demanda de amor se torna uma demanda mais pura”, isto é, aproxima-se daquilo que Freud chamou de “núcleo patógeno” – o “cerne do Eu”.

Diante de tal experiência – o momento “transferencial” – o analista deixa o lugar de intérprete (de direção do tratamento) e ocupa o lugar do “objeto”, desse núcleo no cerne do Eu. Aí se instala o que o autor chama de “resistência do Eu”, aquela que recusa “viver a experiência de abertura do Eu até o objeto de Gozo, que jaz em seu cerne”.

Considerações finais

É este o momento mais fecundo da análise porque é o momento em que o analisando tem a oportunidade de se ver “privado de”. É a “falta a ser” da teoria lacaniana, onde o sujeito depara-se não apenas com a “inaceitabilidade da demanda de amor”, mas com a própria “falta a ser”, isto é, com o fato de que “o seu ser é uma falta”; ou que, na análise, o seu verdadeiro ser é aquilo “que jaz no Eu” (“o que jaz no centro do Eu é uma falta.

É um ponto fundamental, enigmático. É um ponto central, aquele que chamamos habitualmente, na terminologia lacaniana, de objeto “a” ou objeto de Gozo”).

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    Aqui cabe ao analista fazer “silêncio-em-si”, sendo isto (seu silêncio) a condição para a interpretação, que é a quarta fase do tratamento e que, pela singularidade de sua natureza – de cada caso (cada indivíduo e cada história de sofrimento), pela infinidade de possibilidades de cada interação analista-analisando, não poderá ser transcrita aqui, pois não haveria, em poucas páginas, o espaço propício para detalhá-la.

    O presente artigo foi escrito por Fernanda Pulido( [email protected]). Psicanalista em São Paulo. Formada pelo IBPC, possui graduação em Filosofia e mestrado em Estética e história da arte, pela USP. Atualmente conduz sua pesquisa de doutorado pela Universidade Nova de Lisboa, onde investiga as relações da obra de George Grosz e a teoria psicanalítica na Berlim do 1o pós guerra (1920-1930).

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