O que é Transferência na psicanálise?

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transferência é um elemento muito importante para a terapia psicanalítica psicanálise. Ocorre quando o paciente (analisando) projeta em pessoas do convívio presente figuras importantes dele (paciente). Como vamos falar da transferência na terapia, o analisando terá como “alvo” o seu psicanalista.

Por exemplo, o analisando poderá ver no(a) psicanalista a figura do pai ou da mãe. E, então, transferir para o psicanalista afetos (amor, rivalidade etc.) que usaria para com seu pai ou sua mãe. Esse processo acontece de maneira inconsciente e simbólica. Quando bem conduzido em terapia, favorece a quebra de resistências e contribui com novos e mais espontâneos elementos para a análise.

Por meio da transferência, o paciente pode reconhecer seus padrões que antes estavam inconscientes. Assim, lançará um novo olhar sobre si e também sobre a forma de relacionar-se com outras pessoas.

Veremos os tipos de transferência, especialmente nas conceituações de Freud, Lacan e Ferenczi.

O que é? Significado ou conceito em Psicanálise

tranferência psicanálise de freud

Para Sigmund Freud, a transferência é quando o analisando (paciente) reproduz seus padrões de pensamento e comportamento em direção ao analista.

Analista e analisando são pessoas e, portanto, trazem distintas bagagens de vida. Não há como anular isso durante a terapia.

Então, é esperado que o analisando reproduza padrões de comportamento que costuma (ou constumava) ter com seu pai, sua mãe, seu cônjuge etc. durante a análise, como se “substituísse” essas pessoas pelo analista. E esse processo é a transferência.

Freud entende a transferência como sendo um processo que acontece durante a terapia, quando o analisando (paciente) passa a reproduzir para o analista (inconscientemente) padrões psíquicos e comportamentos que o paciente construíra no passado com outras pessoas ou situações.

De uma forma geral, podemos dizer que a transferência ocorre em diversas ocasiões das relações humanas, mas o foco psicanalítico acaba sendo a relação analista-analisando, isto é, durante a terapia analítica.

Então, durante a análise, o analisando “revive” sua vida psíquica na forma como interage com o analista:

  • a ideia que o analisando faz de si,
  • as relações de afeto com coisas ou pessoas,
  • as fantasias e representações etc.

Não é possível conceber o que é psicanálise sem que compreendamos o vital conceito de transferência. A transferência começa a surgir desde o início do tratamento psicanalítico (ou entrevistas preliminares, ou tratamento de ensaio) e tende a se aprofundar com o passar das sessões de terapia.

citação de freud sobre transferência na psicanálise

Tipos de Transferência segundo Freud

Para Freud , existem dois tipos principais de transferências, considerando os seus impactos em terapia:

  • transferência positiva: propicia uma forma com que a terapia pode superar resistências e vencer um lado formal demais ou ritualístico demais que a vinha tomando. Significa que, ao transferir, o analisando engaja-se no coração de seus incômodos psíquicos e revela sua “verdadeira face”. Reduz a preocupação com “qual a imagem o analista está fazendo de mim?”.
  • transferência negativa: é quando a transferência começa a gerar entraves demasiados que implicam no desgaste da relação entre analista e analisando. Assim, o foco acaba sendo somente criticar ou questionar o analista, o que pode adicionar resistências excessivas à livre associação.

Freud menciona também a transferência erótica, que pode ser positiva. Ocorre quando o(a) analisando(a) inconscientemente se sente atraído pelo(a) analista e, sem o saber, isso ajuda com que se exponha mais.

A transferência erótica pode ter relação com a infância, se entendermos na direção do complexo de Édipo. Isto é, pode ser uma atração ainda que inconsciente para o analisando, que faça com que o psicanalista assuma o lugar de pai (ou até mesmo de mãe). Com isso, traz junto a dimensão do apaixonamento edípico.

Porém, quando falamos da temática do Édipo na transferência, devemos entender que:

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    • o amor por um dos pais pode ser transferido: por exemplo, do analisando que se apaixona por sua psicanalista (colocando-a no lugar de sua mãe);
    • a rivalidade com um dos pais também pode ser transferida: como quando o analisando entra em conflito com seu psicanalista (colocando-o no lugar de seu pai).

    Lembrando que não são apenas estas as manifestações edípicas que existem. Afinal, o(a) analisando(a) pode se interessar por seu (sua) psicanalista. O fato de ser o setting analítico um lugar diferenciado de escuta e elaboração (em comparação com outras interações interpessoais) pode favorecer:

    • tanto o sujeito suposto-saber (falaremos disso mais abaixo), e junto disso o enamoramento e o ideal de “eu”;
    • quanto a rivalidade e o conflito com o(a) psicanalista, pela via da transferência negativa.

    Exemplos de transferência em psicanálise

    Afinal, como a transferência se manifesta no setting analítico. Como o analisando (paciente) mostra esta transferência ao analista? E como o analista pode identificar alguns exemplos de que isso esteja acontecendo?

    Vimos que o analisando traz já uma história de vida. Pode ser que, na infância ou adolescência, estivesse acostumado com um padrão de agressividade verbal na interação com seus pais. Pode ocorrer que, em terapia, o analisando transfira este lugar de pai/mãe para o analista, adotando as mesmas atitudes.

    É muito citado o exemplo de transferência em que o analisando repete com o analista um padrão de comportamento que tinha com seu pai ou com sua mãe.

    Ou quando manifesta contrariedade ou afetuosidade com o analista por conta de algo que o analista falou ou por conta da direção que a terapia está tomando.

    Ou quando o analisando começa a racionalizar e julgar o analista, replicando uma conduta que ele (analisando) está habituado a fazer “lá fora”.

    Vamos a alguns exemplos:

    • Agressividade: o analisando começa a dar respostas agressivas ao analista, como ao se incomodar com alguma interpretação, sendo que o analista supõe (e o analisando pode até confirmar isso) que este seja seu comportamento padrão contra qualquer pessoa que lhe contrarie.
    • Reclamações: o analisando passa a dizer que não está sentindo resultado na terapia ou está pensando em parar, e faz isso baseado em outras ideias de “resultado” que tenha no mundo lá fora.
    • Controle: o analisando passa a querer controlar a terapia, como ao tentar obter aprovação do psicanalista, ou ao dizer que inúmeros assuntos perguntados pelo analista não são relevantes, ou que sobre eles não deseja falar. Este controle pode ser uma réplica do controle que o analisando costuma exercer sobre outras pessoas lá fora, e que em terapia atua como uma resistência de seu ego para não avançar em seu autoconhecimento.
    • Subserviência: o analisando acata a totalidade do que o analista fala, ou sente-se envergonhado e amedrontado com a figura do analista, de forma similar ao que vive em outras relações (pai, mãe, cônjuge etc.).
    • Amor: o analisando sente amor pelo analista, o que pode ser um enamoramento ou outras formas de manifestação amorosa.
    Leia Também:  Significado de Transferência em Terapia

    Lembrando que esta lista é apenas exemplificativa, não exaustiva. Sinais corporais, tiques nervosos, alteração no tom de voz que o paciente passe a ter nas sessões, entre outros, podem também podem ser formas de manifestação da transferência na terapia psicanalítica.

    O manejo da transferência pelo analista

    Convém ressaltar que a transferência negativa pode ser revertida para uma situação proveitosa à análise. É importante que o analista não reaja com a agressividade ou arrogância que talvez o analisando já esteja esperando como resposta.

    O analista não deve argumentar que ele (analista) esteja correto, nem se antecipar a definir ou julgar o analisando apontando que ele (analisando) está agindo assim. O importante é o analista identificar e trabalhar este “material” transferido exatamente como um “material” de análise.

    Sobre o manejo da transferência, isto é, a forma como o analista reagirá à transferência do analisando:

    • Se o analista realiza uma contratransferência na mesma moeda (com agressividade), estará desmobilizando o analisando da transferência, ou fortalecendo a transferência negativa como algo “natural”.
    • Por outro lado, se o analista não reage da forma esperada pelo analisando, mas aproveita aquela transferência para fazer novas perguntas ao analisando, sem irritação e sem julgar ou tentar “definir” o analisando naquele momento, estará mostrando que a análise é um tempo-lugar em que o analisando pode se sentir seguro para ser ele mesmo, um espaço diferente do “mundo lá fora”.

    Então, mesmo a transferência negativa pode ser revertida para o proveito da terapia. A transferência só é irremediavelmente negativa quando o analisando decide por interromper o tratamento por conta do esgotamento conturbado de sua relação com o analista.

    Sobre os tipos de transferência, já mencionamos a transferência positivida e a negativa, bem como a transferência erótica (que Freud entende como potencialmente positiva). Outros autores poderão listar outros tipos de transferência. Falaremos só de um tipo a mais, por sua relevância.

    Como o psicanalista pode falar sobre a transferência com o analisando?

    A nosso ver, o analista deve pontuar ao analisando que a transferência pode estar ocorrendo, mas não precisa necessariamente chamar isso de “transferência”, porque o objetivo não é dar aula ao analisando. Deve-se evitar, porém, apontar todas as suspeitas do analista como transferenciais; o melhor é focar no que for sendo formado como um padrão, uma reiteração. Além do mais, deve-se evitar uma “denúncia” agressiva ao analisando, porque isso talvez fale mais sobre o analista do que sobre a transferência (seria, talvez, já uma contratransferência inadequada do analista).

    Um manejo interessante do analista ao perceber a transferência, a nosso ver:

    • Não manifestar ao analisando que tudo tudo é transferência; o melhor é esperar mais elementos reiterados antes de formular uma interpretação.
    • Não agir com o analisando com uma resposta constratransferencial que alimente o comportamento que ele espera e que ele já vivencia lá fora. Por exemplo, é melhor agir de forma acolhedora e pacífica, se o analisando foi agressivo; não julgá-lo em resposta se ele julgar o analista, se o analisando está acostumado a ser julgado de volta como resposta.
    • Não “lecionar” sobre transferência durante a terapia; pode-se, claro, eventualmente mencionar o conceito de transferência e sua explicação, se for relevante ou se o analisando perguntar a respeito ou quiser entender por que está agindo assim como o analista.
    • Não focar em histórias de vida do próprio analista, nem de outros de seus pacientes. Isso seria um tanto quanto narcisista e/ou poderia ou anular a percepção de “ambiente seguro” que o analisando espera ter na terapia. O analisando teria bons motivos para pensar: “Se este analista fala dos outros para mim, deverá falar tudo de mim para os outros pacientes” (isso provavelmente resultaria numa transferência negativa do paciente).
    • Quando possível, apontar que a transferência pode estar ocorrendo: não precisa chamar de transferência, nem fazer isso a toda hora, mas é interessante o analista algumas vezes falar sobre a transferência com o analisando. As perguntas são boas formas de fazer isso (mas não só as perguntas). Exemplo de uma pergunta mais indireta e tangencial: “Por que você está sentindo-se assim hoje aqui na terapia?”. Exemplo de uma pergunta mais direta e incisiva: “Esta forma como você agiu hoje na terapia diz alguma coisa sobre a forma como você age fora da terapia?”.

    Quanto mais fortalecido o ego do analisando, mais ele poderá esperar uma abordagem direta do psicanalista, sem se “magoar” com isso. A transferência pode ocorrer logo nas primeiras sessões, mas o analisando pode não estar preparado para uma abordagem mais direta do analista logo nas primeiras sessões. Daí a importância da percepção do analista sobre o momento e sobre a forma discursiva adequada de manejar a transferência com cada paciente.

    Quando o analista condena a transferência ou responde a ela de forma inadequada, estará sugerindo ao analisando que a transferência não é interessante à terapia. Então, o analisando pode passar a se policiar em todas as suas falas. Isso prejudica a livre associação e a espontaneidade que a transferência poderia agregar ao processo de tratamento. Com isso, pode haver um regresso do analisando a um comportamento em terapia mais formal e resistente, como vinha fazendo antes.

    Transferência Narcísica (Ferenczi)

    O psicanalista Sandor Ferenczi considerava haver a transferência narcísica: quando o analisando mede demais suas próprias palavras com medo de não obter a aceitação do analista.

    Sabemos que, na linguística, o discurso é permeado pela imagem que o locutor (“eu”) faz do interlocutor (“tu” ou “você”). Na verdade, o discurso é marcado pela imagem que “eu” faço da imagem que o outro faz de mim.

    Discurso = imagem que eu faço [da imagem que o outro faz de mim].

    Então, mesmo quando só “eu” falo e o outro escuta, de certa forma o outro também fala em mim, porque “eu” falo levando em consideração a imagem que o outro faz de mim.

    Leia Também:  O que é psicologia reversa?

    Há, assim, um jogo de espelhos, em que “eu” estou constantemente sendo avaliado pelo outro e pelo outro em mim.

    É inevitável que isso ocorra também na terapia psicanalítica.

    Na tranferência narcísica, o analisando pode evitar abordar certos assuntos, ou intencionalmente modificar histórias. Isso porque pensa que, se não o fizer, será julgado pelo analista. É uma forma de transferência porque o analisando teme perder o vínculo que se forma com o analista.

    Então, a transferência narcísica:

    • é, no início, uma transferência positiva, porque o analisando identifica este laço que se forma no par analítico (isto é, analista + analisando),
    • mas poderá se reverter em negativa, se for perpetuada nas sessões de análise, porque temas importantes poderão ser vistos como tabus.

    O ideal seria o par analítico ir fortalecendo uma transferência positiva que permita ao analisando sentir-se seguro para de fato livre-associar.

    O Sujeito Suposto-Saber, sendo Jacques Lacan

    Sobre o momento em que a transferência ocorre, não há uma regra. Em certa medida, a transferência ocorre desde o início do tratamento psicanalítico, embora espera-se que ela se fortaleça após um certo número de sessões de análise.

    Dizemos que ocorre desde o início porque o analisando, ao procurar o tratamento, já traz uma imagem sobre o analista. Esta imagem é o que o psicanalista Jacques Lacan denomina de Sujeito Suposto-Saber.

    Significa que o analisando:

    • supõe um lugar de autoridade para o analista e
    • pode atribuir ao analista seu “ideal de eu” (isto é, o que o analisando deseja ser).

    Na visão do analisando, o analista tem um conhecimento sobre a psique humana capaz de melhorar ou curar os dilemas psíquicos do analisando. É um “suposto saber” porque não é certo se o analista terá de fato este poder.

    Este suposto saber pode ser entendido como uma forma de transferência positiva. Afinal, é algo que mobiliza o analisando a querer buscar a terapia e promove um vínculo terapêutico para ele constituir suas associações livres.

    Ocorre que, no decorrer da análise, com o fortalecimento do ego do analisando (não confunda isso com narcisismo), um outro importante passo será dado. O analisando se fortalecerá e passará a “destronar” (tirar do trono) o analista. Isso porque o analisando dependerá menos deste olhar de fora. Estará mais ciente de sua ordem desejante e de sua organização psíquica.

    A destituição subjetiva ao final da terapia

    Assim, o final proveitoso para um processo de terapia psicanalítica:

    • não será a interrupção por causa do desgaste relacional do par analítico (transferência negativa),
    • nem será a resistência incremental trazida para a análise por causa dos pudores da transferência narcísica,
    • mas será sim uma construção de transferência positiva que deu tranquilidade para o analisando livre-associar e conhecer-se melhor.

    Para Jacques Lacan, ao final de um processo proveitoso de análise, o analisando

    • na terapia: promoverá a destituição subjetiva deste sujeito suposto-saber, isto é, irá ver que “o analista não é tudo isso”, embora não rejeite a importância que teve atribuir ao analista este lugar de suposto-saber durante a terapia.
    • fora da terapia: irá destituir também todos os Grandes Outros (ou vários deles).

    Lacan entende o Grande Outro como uma idealização (como o suposto-saber do psicanalista) que o sujeito-analisando atribui a outras pessoas ou instituições que ocupavam a psique do sujeito como figuras máximas de autoridade para certos discursos relevantes ao sujeito.

    Por exemplo, ao promover a destituição subjetiva dos Grandes Outros, o sujeito-analisando:

    • irá destituir o seu analista como sendo “senhor” (Grande Outro) de sua psique,
    • poderá destituir o seu pai como “senhor” (Grande Outro) de sua vida moral,
    • poderá destituir a sua religião como “senhor” (Grande Outro) de sua vida moral ou do que é permitido acreditar etc.

    O psicanalista como alvo da transferência

    Apesar de o analista ser o “alvo” de emoções e reações do analisando, a transferência pode ter uma função positiva na terapia analítica, porque:

    • sinaliza que o analisando tem uma confiança na relação com o analista para permitir agir de forma mais espontânea;
    • demonstra que o analisando sente para com o analista o que podemos chamar “amor” (ou amor transferencial), no sentido de perceber que o analista está engajado nesta convivência e, também por isso, o analisando pode “baixar a guarda” de suas resistências; e
    • normalmente é acompanhada de uma experiência emocional ou sentimental, que permite uma maior vazão de conteúdos que possam ser analisados.

    Assim, a transferência permite que algumas resistências possam ser minimizadas, com o analisando oferecendo mais “material” à interpretação. Caberia à interpretação do analista notar e trabalhar com esta transferência: o quanto dela (no presente da clínica) ajuda a entender os padrões da formação psíquica do analisando no seu passado?

    Segundo David Zimerman (“Manual da Técnica Psicanalítica”), a transferência permite ao analista mais elementos para interpretar “presente com o passado, o imaginário com o real, o inconsciente com o consciente”.

    Ainda segundo Zimerman: “O conceito de transferência vem sofrendo sucessivas transformações e renovados questionamentos, como, por exemplo, se a figura do analista é uma (…) repetição de antigas relações objetais introjetadas ou se o analista também se comporta como uma nova pessoa, real.”

    Em outras palavras, Zimerman sintetiza que a transferência às vezes pode ser um “reviver” junto ao analista da vida psíquica passada do analisando, e outras vezes pode ser um comportamento novo do analisando em relação ao analista. Mas, em um caso ou em outro, a tranferência envolve:

    • um vínculo terapêutico entre analisando e analista
    • que potencializa mais engajamento emocional do analisando durante a análise
    • e mais material a interpretar pelo analista (ou pelo par analítico).

    O papel da transferência na psicanálise de Freud

    No método ou modelo psicanalítico, essa conduta é marcante na relação entre o terapeuta e paciente. Sendo até mesmo estimulada como ferramenta estratégica para a elaboração da melhor abordagem na resolução de eventualidades psicológicas. O conceito de transferência foi um legado indissociável de seus estudos freudianos tratados em seu livro sobre a histeria. Freud desenvolveu métodos que contribuíram para um grande avanço no tratamento da histeria.

    A priori, o que  se evidencia em suas abordagens clínicas é a relação que se estabelece entre paciente com psicanalista. Essa relação ocorre de maneira imagética, nela o paciente cria um vínculo fictício com seu analista. Projetando nele arquétipos de seu inconsciente e memória infantilizadas.

    A transferência foi constatada  por Freud durante suas análises. Quando ele percebeu que,  muitas vezes, no seu decorrer, alguns  pacientes pareciam nutrir por ele certo afeto e desejo. Sentimentos incompatíveis com a relação entre médico – paciente. Porém, Freud notou que este vínculo transferencial tinha um aspecto positivo e fundamental para o progresso da terapia, pelas razões expostas no começo deste artigo.

    Leia Também:  Libido: significado segundo Freud

    Para Zimerman, terapia é manejar principalmente três pontos: resistências, transferências e interpretações. Só é possível quando o analista leva a sério o tripé psicanalítico do Curso de Formação em Psicanálise e também após a Formação vai buscando:

    • mais conhecimento: estudando teoria continuamente;
    • melhores formas de abordagem, com a supervisão de casos que estiver analisando, junto a outro psicanalista mais experiente, e
    • mais autoconhecimento, com o próprio analista conhecendo mais sobre si, isto é, o próprio analista fazendo  sua análise (sendo analisado) com outro profissional.

    Um exemplo aplicável nas relações interpessoais

    Para uma ilustração mais prática do que é a transferência para a psicanálise. Por exemplo, se um indivíduo é tratado por outro como pai, ele terá autoridade pra lhe dizer o que fazer. Não obstante, você o indivíduo vai esperar do outro um retorno, que seria algo como amor e cuidados paternos.

    A transferência, a priori, pode ser revertida em ganhos positivos para o paciente. A depender da maneira  que ele elabora as ferramentas internas para decodificar e ressignificar suas “personagens”.  Essas personagens são vislumbradas em outras pessoas que, de certa forma, remetem às suas próprias lacunas existenciais.

    Como se uma pessoa próxima preenchesse um vazio ou a falta em outra pessoa. Este vazio pode ser de alguém que lhe faz falta ou de alguma figura ou personagem importante em sua vida, como um pai ou uma mãe.

    É importante dizer que costuma-se usar a ideia de transferência em outros contextos, como na relação pais-filhos, ou na relação professor-aluno. Isso é usado para marcar uma identificação pessoal e afetiva que favoreça o processo de criação ou educação. Entretanto, a rigor, a ideia de transferência é mais apropriadamente usada na terapia, para marcar o vínculo entre analista e analisando. Muitos teóricos vão rejeitar a possibilidade de uso deste termo para outros contextos.

    A transferência no processo terapêutico psicanalítico

    Na psicanálise, a transferência ocorre na relação entre paciente e psicanalista, analista ou terapeuta. Nela, o desejo do paciente, advindo de sua infância, se apresenta atualizado durante o processo de terapia. Então, ocorre a repetição de modelos infantis, como figuras parentais.

    O terapeuta passa a substituí-las, isto é, esses desejos ou figuras são transferidos para o analista.  Junto dela, impressões dos primeiros vínculos afetivos podem ser vivenciados e sentidos na atualidade.

    Dentro desse intuito, a transferência se torna um grande instrumento por meio do qual o analista pode trabalhar o passado do paciente. Dessa forma, o manejo da transferência é considerado a parte mais importante da técnica de análise.

    De acordo com os estudos psicanalíticos da transferência, Freud criou e sistematizou uma teoria da técnica analítica. Assim permitindo a compreensão e a articulação de fenômenos clínicos suscitados pelo tratamento.

    Superando angústias psíquicas durante a terapia

    Esse “acesso” ao passado do paciente por meio da transferência é muito importante ao analista. Isso porque, Freud, durante a análise, primeiro se detém nos fatores determinantes que fizeram o paciente adoecer. Em seguida, ele analisa a reorganização defensiva que ocorre após o adoecimento.

    Então, Freud busca uma possibilidade de esses fatores darem lugar a alguma influência terapêutica. Isso com o intuito de encorajar o neurótico a superar o conflito entre os seus impulsos da libido e, dessa forma, recuperar a sua saúde psíquica. Essa saúde psíquica pode ser entendida, segundo o método psicanalista, como o tornar-se livre da ação inconsciente dos impulsos reprimidos.

    Freud, desde cedo, descobriu que a repressão advinda dos mecanismos coercitivos da sociedade intensifica o conflito interno. Conflito entre forças psíquicas de naturezas distintas, a libido contra a repressão. Uma tendência sexual e uma tendência ascética coexistindo no interior da personalidade. Ao analisar a transferência, o psicanalista consegue ter maior acesso a esse conflito.

    A transferência em nosso cotidiano

    A transferência, no entanto, não está apenas presente nas sessões psicanalíticas e nos divãs. De um modo geral, ela é um aspecto inerente à personalidade humana.

    Em várias situações da vida podemos pensar a transferência atuando, em sua forma positiva ou negativa, como nas relações:

    • entre um filho e seu pai ou sua mãe;
    • entre um aluno e seu professor;
    • entre um cliente e um vendedor etc.

    A transferência perpassa os mais diversos nichos de relacionamentos estabelecidos entre as pessoas. Quando projetamos em alguém expectativas irreais que gostaríamos que essa pessoa assumisse, baseado em um padrão de pensamento e comportamento que “naturalizamos” de outras relações interpessoais.

    Ocorre invariavelmente uma auto-sabotagem em nossa maneira de ver as coisas mais claramente, como realmente são. Essa distorção é alimentada pelo auto-engano das sombras das nossas carências que projetamos no outro. Podendo estar presente em muitos momentos da vida do indivíduo.

    Textos de Freud sobre a transferência

    Vários estudos de Freud tratam da transferência. Todos ou quase todos os estudos freudianos de casos clínicos são oportunidades para refletirmos sobre a transferência. Além disso, outros textos mais teóricos, como “Sobre a Dinâmica da Transferência”, de 1912, e “Recordar, Repetir e Elaborar”, de 1914. Além das “Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”, de 1916-1917. Nesses estudos, há algumas retomadas e reformulações propostas por Freud.

    A transferência jamais deixou de ocupar o seu lugar como conceito fundamental da psicanálise. Conceito esse que deu base à construção do conhecimento psicanalítico sobre a terapia, o par analítico, o setting analítico e a efetividade da análise.

    O próprio Freud realizou diversas formulações de suas teorias, relacionadas ou não à transferência. Além disso, Sigmund Freud nunca negou as dificuldades do procedimento e dos obstáculos que havia em suas descobertas.

    Freud sempre procurou analisar e investigar as barreiras encontradas no processo em seu processo análise. Isso auxiliou que o método psicanalítico fosse sempre revisado, trabalho que prosseguiu com outros teóricos da psicanálise.

    Referências bibliográficas

    FREUD, S. Fundamentos da clínica psicanalítica: Sobre a dinâmica da transferência (1912). 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.

    FREUD, S. Conferências introdutórias sobre Psicanálise (1916-1917). in Obras Completas de Freud vol. 13. SP: Cia das Letras.

    FERENCZI, S. “A técnica psicanalítica” (capítulo “O domínio da contratransferência”), in Obras Completas de Ferenczi vol. 2.

    ZIMERMAN, D. Manual da Técnica Psicanalítica: uma re-visão. Porto Alegre: Artmed, 2008.

    Este texto sobre o conceito de transferência em psicanálise e em Freud foi escrito por Paulo Vieira, gestor de conteúdos do Curso de Formação em Psicanálise Clínica.

     

    26 thoughts on “O que é Transferência na psicanálise?

    1. Um texto exelente!!! Para me esclateceu muitas coisas sob o meu processo analitico. Muito esclarecedor!

    2. Talvez seja a transferência o mais importante instrumento do tratamento psicanalítico. Misterioso, delicado, profundo e enigmático. Nesse fundamento o analista vai analizar os sentimentos e não os fatos narrados na escuta terapêutica. O texto é excelente.

      1. Meu nobre amigo em partes eu concordo com seu ponto de vista , más vejo também uma arma apontada para o analista e engatilhada pronta para disparar . Se tratamos do porquê das pessoas ,nunca podemos esquecer do nosso .

          1. É uma via de mão dupla: mas o paciente como parte “vulnerável” da relação pela busca do tratamento é o que recebe mais holofotes! Meu Ortopedista, há anos, já comentou ter admiração por mim, pelo paciente dedicado ao tratamento e pela pessoa que sou! Já de outras especialidades médicas e de dentista, nunca ouvi essa interação tão amistosa!

      1. Agradecemos sua mensagem, Antonio! Continue acompanhando nosso blog. Estamos à disposição.

    3. Muito bem colocado o conceito de transferência, porque o que realmente faz com que o analista visualize algo sobre este inconsciente é aquele sentimento, aquela emoção registrada na transferência, dando insites da origem do trauma bem como a extensão da dor causada neste evento.

      1. Olá, Francisco. Muito obrigado pela sua leitura e sua contribuição.
        Continue acompanhando nosso blog e participando, para que possamos melhorar.
        Nossa gratidão! Equipe Psicanálise Clínica

    4. Por favor, gostaria de entender se a transferência erótica reflete sintomas que sentíamos na infância. Eu tenho interesse, desejo pelo meu analista e isso eu senti na infância pelo meu pai ou minha mãe?
      Grata.

      1. Costumo tratar essa questão, de admiração, atração, porque não empatia, relutância ou resistências, como “encontros e desencontros” na vida! Quem nunca ouviu dos Urologistas, como sendo tabu dos pacientes (homens) o exame do toque como preventivo do Câncer da Próstata! Eu quando ouvi de um Urologista, tão simplista, que em questão de pouco tempo, me avaliaria, acabei desistindo! Quando soube que a massagem prostática, previne inflamação e qualquer outro problema no órgão, além de que o Andrologista (Saúde do Homem) avalia o pênis e testiculos, também, fui ai no especialista! E conversamos justamente essa questão: de poder surgir atração, ao que ele disse, quando o médico não tem realização sexual na vida pessoal, ele até meio que “sai do armário”, com mero exame de toque, mas quando a próstata adoece e o protocolo é a massagem, surge como um dilema, sexual. E ele disse que optou pela especialidade, ai por outra ótica, no banheiro da Faculdade um aluno ter dito a ele, sem pudor, que nem tudo são flores, porque ia ao box defecar! Discreto, me alisou a próstata, eu havia dito a ele na consulta que mesmo cisgenero, era homo! Final da consulta, agradeci a ele pela compreensão!

    5. Em meu cotidiano acontece muito a questão da transferência, facilita e indica que estou no caminho certo.

    6. Gosto da Psicanálise, já fiz terapia.
      Discordo da transferência, penso que cria uma dependência, a coisa fica meio infantil! Não resolve, só transfere.

    7. Muito esclarecedor! Gratidão!
      Sou aluna do IBPC e estou no último módulo teórico. Espero entrar logo na parte prática

    8. Elisabeth, é interessante sua crítica ter aparecido justamente em um artigo sobre transferência: reproduzindo o “ideal de linguagem” como um fator para diminuir nosso esforço de criação de conteúdo. Lembrando: criamos cinco artigos por dia (em média) e nos esforçamos para fazer nosso melhor (de tempos em tempos ainda revisamos e melhoramos os textos), mas não projete em nós nenhum ideal de perfeição. Toda crítica tem um pouco de aniquilamento do outro, mas isso seria amenizado na forma um pouco mais “construtiva” se você nos especificasse qual o erro gramatical ou de linguagem você encontrou no texto, para, assim, nós termos a oportunidade de corrigi-lo.

    9. Psicanalise Clinica obrigada pelos excelentes conteudos compartilhados…Grata Sempre.

    10. Parabéns autor, conteúdo bem escrito e coerente! Para mim, que sou iniciante nesses estudos, essa questão da transferência parece ser bem compreendida na teoria, mas fico confusa quando penso como ela se desenrolará na prática. Espero que essa dúvida se dissipe quando entrarmos na parte prática. Obrigada!

      1. Obrigado por seu comentário, Maria Alice. Veja também nossa live sobre trânsferência na clínica, em que alguns exemplos práticos são trabalhados.

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