narcisismo na personalidade

Narcisismo na personalidade e nos relacionamentos

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Neste texto entendermos sobre o Narcisismo na personalidade. Uma antropóloga afirmou que a primeira evidência de empatia e da evolução do ser humano como ser social aconteceu há aproximadamente quinze mil anos. Foi a descoberta, em um sítio arqueológico, de um fêmur fraturado e curado. Isso porque o fêmur é o maior osso do corpo.

Ele faz a ligação entre o quadril e o joelho. Ossos quebrados e recuperados formam uma espécie de “solda” em voltado local quebrado. Uma pessoa com um osso desses quebrado demanda aproximadamente seis semanas de repouso e cuidados para se recuperar. Assim, um osso quebrado e recuperado indica que alguém permaneceu ao lado daquele outro ser humano. Alimentando-o, protegendo-o e dando-lhe o suporte necessário até sua total recuperação.

Entendendo o Narcisismo na personalidade

Esse fato foi narrado pela antropóloga Margareth Mead e, segundo ela, uma sociedade civilizada mede-se pelo nível de cuidado mútuo entre seus indivíduos. Somente alguém capaz de se colocar no lugar do outro, um empata, empenharia sua energia, tempo e recursos para cuidar do outro. Pelos estímulos ao individualismo que vemos diariamente na televisão, nas escolas, no trabalho e pela observação de casos do dia a dia, que nos mostram relações cada vez mais superficiais e descartáveis, facilmente podemos concluir que estamos caminhando para uma regressão de 15 mil anos.

Neste trabalho sobre narcisismo na personalidade, desenvolveremos um estudo sobre o comportamento de pessoas com traços do transtorno de personalidade narcisista e como o comportamento delas afetam o meio e as outras pessoas do seu convívio, especialmente nas relações amorosas. A abordagem do tema mostra-se de alta relevância na sociedade atual porque impacta diretamente no bem estar social. Somos constantemente bombardeados pela televisão, pelo rádio, pelas músicas, por nossa família, com o discurso do “foco em você mesmo”. O problema do engajamento nessa ideia é a facilidade de se perder o limite. Podemos facilmente passar do “foco em mim mesmo” para “somente eu”.

Zygmunt Bauman (2004) definiu as relações que vivemos atualmente como a era do amor líquido. Segundo ele o amor dura enquanto durarem os benefícios inerentes a objetos materiais. Da sua fala infere-se que o amor se mantêm enquanto trouxer satisfação material, sendo logo substituído por outro amor que prometa ainda mais satisfação. Basta uma rápida olhada nos noticiários para constatar que a maioria das pessoas estão interessadas simplesmente em satisfazer suas vontades. Sem nenhuma, ou quase nenhuma, preocupação com o outro.

Neste trabalho partiremos do princípio que, em se tratando de relacionamentos, amoroso ou fraterno, há que existir um equilíbrio entre o que se oferece, em termos emocionais, e o que se recebe. Tal equilíbrio denotaria indivíduos mentalmente saudáveis. Assim, buscaremos demonstrar, por meio de comparação do ponto de vista de estudiosos, os principais aspectos sobre o tema citando autores das mais diversas áreas do conhecimento como a psicanálise, a neurociência e a filosofia.

Descrição do presente trabalho

Para facilitar a compreensão, esse trabalho sobre narcisismo na personalidade será dividido em um breve contexto histórico da origem do termo narcisismo e de mais quatro capítulos. Na parte 1, abordaremos as principais características de indivíduos com tracos acentuados de comportamento narcisista segundo os autores que mais se destacaram no estudo sobre o tema. No capítulo 2 dissertaremos sobre as descobertas da neurociência sobre o funcionamento do cérebro e seus mecanismos de funcionamento.

No capítulo 3 focaremos nossa atenção para os impactos que o comportamento desses indivíduos com narcisismo na personalidade causam nas pessoas que estão no seu círculo de convivência. Esse capítulo será trabalhado considerando as impressões, sentimentos e a perspectiva de pessoas que tiveram relação direta com indivíduos, diagnosticados clinicamente, com o transtorno de personalidade narcisista.

No capítulo 4 dedicaremos nosso foco em ações ativas, indicadas por psicanalistas, psicólogos, psiquiatras e neurocientistas e por pessoas que passaram pelo drama, necessárias para reconhecimento de padrões e proteção da saúde mental dos indivíduos que convivem com pessoas como o transtorno. Para alcançar tais objetivos, empregaremos essencialmente pesquisa bibliográfica dos autores mais renomados no estudo de temas psicanalíticos e, ainda, dos estudiosos da neurociência. Adicionalmente, para facilitar a compreensão dos impactos na saúde mental e física dos envolvidos usaremos casos envolvendo pessoas que conviveram com indivíduos, diagnosticados clinicamente, como portadores de ranstorno de personalidade narcisista.

Breve contexto histórico do termo Narcisismo na personalidade

O termo narcisismo advém da cultura grega e pode ser definido como o amor do indivíduo por si mesmo. Na mitologia grega, quando o filho de Cefiso Deus dos rios e da ninfa Liríope, um oráculo alertou seus pais de que a criança que tinha por nome Narciso teria uma longa vida, mas somente se jamis pudesse ver sua própria face. Narciso cresceu e tornou-se um jovem de grande beleza física que encantava e despertava grande interesse onde quer que passava. O despertar de interesse sem a necessidade de realizar qualquer esforço, causado unicamente por seus atributos físicos, desenvolveu seu orgulho de maneira que exalava arrogância. Assim, as pretendentes eram afastadas porque eram menosprezadas por ele.

Uma delas, a ninfa Eco, enamorada e rejeitada por Narciso pediu intervenção da Deusa Némesis. Némesis, então, ouviu o pedido de Eco. Provocou uma forte onda de calor. Narciso, após uma caçada, deitou-se na beira de um lago para saciar sua sede devido ao grande calor. No espelho d’agua viu refletida a beleza de seu rosto e maravilhou-se. Definhou até a morte, apaixonado por sua própria face, pelo amor impossível. O primeiro a usar a expressão narcisismo foi Havelock Ellis (1898) para caracterizar na vertente patológica essa forma de amor voltada para a própria pessoa. Em seguida o termo foi citado por Näcke (1899) utilizando-o para designar um tipo de perversão sexual.

Embora já citado e estudado ha muito tempo, o termo passou a ter grande notoriedade, sendo assim incluído na pauta de estudo por diversos autores, somente em 1914 quando Sigmund Freud concluiu o seu trabalho “Sobre o Narcisismo: Uma Introdução”. Nessa época Freud apresentou os conceitos de narcisismo primário e narcisismo secundário, em que a primário seria representado pela satisfação dos desejos individuais em seu próprio corpo enquanto a segunda se daria no momento em que o indivíduo percebesse que existem outras fontes de prazer e satisfação fora de si. Ao passar por essas fases, segundo Freud, o indivíduo com narcisismo na personalidade segue a vida pautando sua conduta conforme as vivências, daquele período. “tudo o que uma pessoa possui ou realiza, todo remanescente de sentimento prematuro de onipotência que sua experiência tenha confirmado, ajuda-a a aumentar a sua autoestima” (Freud 1914).

Narcisismo na personalidade e Melanie Klein

Assim é possível vislumbrar que todas as áreas da vida do indivíduo seriam potencializadas pelo fato de ser ou não amado nessas fases haja vista os impactos disso na sua autoestima. Talvez esteja nesse período a raiz do narcisismo. Assim como Freud, diversos autores buscaram definições para o que seria um comportamento narcisita. A austríaca Melanie Klein, por exemplo, ao contrário de Freud, que pregava os estágios narcísicos, ela asseverava que o narcisismo é um instinto destrutivo direcionado ao objeto que o desperta.

Outro estudioso, o psicanalista Jacques Lacan, sugere que o filho ao nascer, por não ter consciência de si, inicialmente aceita e traduz tão somente o que é nele projetado pela mãe. Embora haja discordâncias em diversos pontos entre os autores parece que existe uma convergência em um aspecto: o narcisismo faz parte e é inerente ao desenvolvimento humano.

Equilibrado, superado sem traumas significativos, possivelmente favorece o foco, a atenção e o direcionamento para grandes feitos. A tragédia se instala quando o indivíduo não supera a percepção que tem de si lá na primeira infância. Mantém-se preso aos sentimentos infantis, apresentado ações e reações totalmente dissociadas da realidade adulta. Daí afloram a falta de empatia, a necessidade de afirmação externa, a indiferença aos interesses, necessidade e sentimentos alheios, que culminam em uma vida voltada a situações permitam visualizar um mundo que gire em torno de si mesmo.

Principais características de indivíduos com traços acentuados de comportamento narcisista. Inicialmente cabe esclarecer que narcisismo não é uma doença, logo não existe tratamento, mas um transtorno, que exige acompanhamento. Ou seja, é uma maneira como a pessoa percebe o mundo, geralmente de forma distorcida, diferente do que se espera de uma pessoa sem o distúrbio. Essa distorção causa no outro uma sensação de estranhamento em seus comportamentos humanos por força do modo como se apresenta para esse mundo, que o enxerga de maneira muito particular. Não existem elementos definitivos que possam esclarecer as causas dos transtornos de personalidade. Sabe-se que pode ser ocasionado pelo ambiente em que a pessoa foi criada, suas experiências durante a infância e adolescência e por fatores genéticos.

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Os gatilhos emocionais

Esse conjunto forma gatilhos emocionais que quando acionados desencadeiam os comportamentos típicos de indivíduos com o distúrbio. Segundo o manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-V 2013), que caracteriza o transtorno de personalidade no Cadastro Internacional de Doenças (CID) sob a classificação (F60.81), o narcisista apresenta “um padrão de grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia”. O mesmo documento diz também que os “Indivíduos com transtorno de personalidade narcisista podem ocasionalmente apresentar desconfiança, retraimento social ou alienação” e que esses sentimentos “se originam primariamente do medo de ter suas imperfeições ou falhas reveladas.” Percebe-se que o indivíduo com o transtorno de personalidade narcisista embora transmita uma aparente de segurança e estabilidade no fundo sente-se inseguro e vulnerável.

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    Inseguro por ele próprio não perceber seus próprios valores e por necessitar de validação constante do outro, e vulnerável porque precisa se esconder atrás da máscara do invencível para suportar a dor de suas falhas humanas que se nega aceitar. Esses indivíduos têm muita dificuldade na regulação de sua autoestima por meios próprios. Daí a necessidade de louvação por seus amigos, parceiros amorosos ou colegas de trabalho, por exemplo. Tendem ainda a desvalorizar as pessoas de seu convívio para que se sintam de certa forma superiores. O documento indica ainda que pessoas classificadas com esse CID, têm uma tendência à determinação exagerada, desembaraço, superficialidade nas relações, exploração econômica e emocional além de falta de empatia pelas outras pessoas. Talvez por esse motivo notamos muitos dos comportamentos associados ao transtorno em algumas profissões específicas do ramo comercial.

    Partindo da análise de estudo dos profissionais psicanalistas e das informações contidas no Cadastro Internacional de Doenças e do relato de indivíduos que conviveram muito tempo com portadores clinicamente diagnosticados, podemos elencar um conjunto de comportamentos dos indivíduos acometido pelo transtorno, a saber: Tem uma sensação grandiosa da própria importância. Essa característica o faz exagerar para cima tudo o que faz. Em relação ao outro (seja com um familiar, um colega de trabalho, um amigo, ou seu parceiro amoroso) exige um reconhecimento que quase nunca mostra correspondência com o que realmente foi realizado. Age de forma agressiva quando tem sua expectativa de reconhecimento frustrada.

    Narcisismo na personalidade e nos relacionamentos

    É preocupado com fantasias de sucesso ilimitado, poder, brilho, beleza ou amor ideal. Isso o faz procurar se aproximar de pessoas que, acredita ele, possuem também esses atributos. Sustenta-se que para poder se apropriar de parte de atributos alheios em proveito próprio sem dar nenhuma contrapartida. Acredita ser “especial” e único e que somente pode ser compreendido por outras pessoas tão especiais quando. Demanda admiração excessiva. Exigem dos seus companheiros uma quase devoção, além de que façam constantes elogios diretos, mesmo que estejam realizando apenas atividades triviais. Apresenta um sentimento de possuir direitos, têm expectativas irracionais de que sejam tratadas de forma priviligiada ou que estejam automaticamente de acordo com as próprias expectativas. Eles raciocinam que o simples fato de estarem na sua companhia representa um ato que deve ser retribuído pelo outro com atendimento de todos os seus desejos e caprichos.

    É explorador em relações interpessoais. Semelhante ao item anterior, pessoas como o distúrbio acredita que deve receber vantagens financeiras por estarem dispensando o seu tempo para você. Carece de empatia: reluta em reconhecer ou identificar-se com os sentimentos e as necessidades dos outros. Costuma ignorar necessidades de afeto e de reconhecimento do companheiro. É frequentemente invejoso em relação aos outros ou acredita que os outros o invejam. Tem por hábito acreditar que as outras pessoas não merecem o que conquistaram. Igualmente quando não consegue o que quer, atribui seu fracasso como resultado de inveja alheia.  Demonstra comportamentos ou atitudes arrogantes e insolentes. Quem possui narcisismo na personalidade, por se sentirem extremamente importantes costumam depreciar a atuação de outras pessoas, especialmente aquelas que não podem lhe trazer algum benefício imerecido, assim costumam tratar com indiferença ou com rispidez garçons, faxineiros, atendentes.

    É comum também no narcisismo na personalidade, terem comorbidades associadas, como depressão, comportamento compulsivo (comida, doces, drogas, bebidas), ou promiscuidade sexual. Por outro lado podem apresentar alguns talentos realmente especias que costumam utilizar para despertar a admiração e atrair as pessoas para a sua órbita de controle. Apresentam condutas extremamente controladoras e manipuladoras. Normalmente utilizam do vitimismo para exercer a manipulação e o controle. Consideram-se especiais e inteligentes acima da média e esperam ser reconhecidos e tratados de forma impar. Buscam relacionamentos com pessoas igualmente extraordinárias como única finalidade de manter elevada a autoestima. Sua autoestima depende da avaliação positiva do outro. São extremamente sensíveis a críticas e apresentam baixíssima resistência à frustração. Quem possui narcisismo na personalidade, costuma agir de forma raivosa ou com desprezo, afastamento e até violência quando são contrariados haja vista que entendem um posicionamento diferente do seu como uma afronta, uma derrota, humilhação.

    A neurociência e mente

    Descobertas da neurociência sobre o funcionamento do cérebro e seus mecanismos de funcionamento e de defesa. O Consumismo, a obsolescência programada e o descarte chegaram aos relacionamentos. As pessoas parecem buscar o maior número de parceiros possível. Parecem estar desenvolvendo o hábito de evitar conhecer as necessidades do outro, utilizando como ferramenta o distanciamento emocional, e a substituição de pessoas quando se tornam ineficientes ou obsoletas para a satisfação de vontades. O doutor em Psiquiatria e Psicologia e professor de Psicologia e Neurociências Pedro Calabrez Furtado ensina que “O intenso trabalho para acelerar e aumentar a capacidade de obter mais e mais, de adquirir bens, experiências e oportunidades quaisquer, é um trabalho fundamental à manutenção da economia de consumo em que se vive .

    Para que tal movimento constante seja facilitado e potencializado, os indivíduos necessitam de uma forma de vida livre, para que os afetos circulem em seu trânsito intenso, e também precisam de estruturas sociais que permitam um fluxo profuso e constante. Não há lugar, na sociedade de consumo, para instâncias sociais “sólidas”, fincadas em preceitos, hábitos e rotinas de difícil mutação. As condições sob as quais os membros da modernidade contemporânea agem mudam em um tempo menor do que o necessário para que as formas de agir se consolidem em hábitos e rotinas.” (CALABREZ FURTADO, Pedro.2008)

    Percebe-se que os os verbos buscar, adquirir, potencializar, movimentar, antes utilizados em estratégias de marketing, para estimular hábitos de consumo estão sendo adaptados para as relações amorosas. Os indivíduos buscam sempre mais e mais relações, adquirir experiências, expor ao máximo suas figuras para potencializar as opções de contatos, realizar movimentos constantes com a intenção única de evitar o “ficar sozinho” a acumular coisas.

    O professor destaca ainda que “A dissolução da solidez social gera dinâmica. Blocos sólidos não conseguem se mover com facilidade. O líquido, entretanto, adequa-se a diversas superfícies, e perpassa obstáculos dos mais difíceis. Divide-se. Multiplica-se(…)”. (CALABREZ FURTADO, Pedro Contemporânea.09. 2017.2) Essa necessidade de dividir para multiplicar parece ser a tendência atual. Difundidas e estimulada em níveis máximos e constantes em todos os meios de comunicação. Ao acompanhar o que se propõe nas mídias sociais, por exemplo, sentimos algo como: “divida ao máximo suas atenções e emoções para gozar de maiores opções”. Seguir esse caminho, pode levar o indivíduo, ele próprio e o outro a uma condição emocional deprimente por conta na natureza das emoções e sentimentos. Em Dissertação sobre as paixões (HUME 2012) diz que ao observaremos a mente humana, no que diz respeito às paixões, ela se assemelha muito a instrumento de corda.

    Narcisismo na personalidade e o instrumento de sopro

    Um instrumento de sopro, quando aplicamos a ação necessário para que ele ressoe, ou seja, quando sopramos um apito o som sai imediatamente. Do mesmo modo quando interrompemos o ato se soprar, ele imediatamente para de produzir o som. Ao contrário de um instrumento de sopro, as emoções e sentimentos funcionam como um instrumento de corda. David Hume exemplifica afirmando que quando executamos um toque nas cordas de um instrumento, ele produz um som, esse som irá se prolongar no tempo de maneira proporcional à intensidade do toque feito nas cordas do instrumento. Assim, todas as vezes que o sujeito se expõe a um gatilho (música, perfume, redes sociais) É como se acionasse as cordas emocionais que despertam as as sensações relacionadas a alguém ou a alguma coisa.

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    Esse acionamento faz com que a pessoa experimente imediatamente e com intensidade diretamente proporcional à força empregada no “toque” das “cordas emocionais”. Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936) foi um fisiologista russo premiado com o Nobel de fisiologia de 1904, por seus estudos sobre o funcionamento digestivo de animais. Mas o estudioso entrou para a história não por esse pesquisar o intestino de animais. O que o tornou eterno foi a descoberta de como o cérebro é facilmente condicionado e como esse condicionamento se reflete no corpo físico. Enquanto estudava a produção de saliva em cães expondo a diversos tipos de alimentos, Pavlov percebeu algo impressionante. Quando os animais recebiam o alimento iniciava-se um processo de salivação. A intenção era medir o nível de salivação em relação ao alimento.

    Mas o impressionante é que o estudioso percebeu que a salivação, com o passar do tempo, acontecia antes mesmo do animal receber ou ver o alimento. Ele percebeu que bastava ouvir os passos do alimentador ou a simples apresentação da vasilha que carregava, ainda que vazia, para que a salivação ocorresse. Isso parece ocorrer também em seres humanos. Vejamos: quando imaginamos um limão, pensamos em seu cheiro, imaginamos cortá-lo e colocar uma parte dele na boca, é quase impossível evitar que a saliva comece a se formar em nossa boca. Da leitura dos autores citados é possível inferir que o cérebro trata emoções e sentimentos de maneira essencialmente inconscientes, basta imaginar e tudo aquilo vai ser considerado real. Seria possível então utilizar-se de gatilhos para tentar minimizar um sofrimento. Ainda que de maneira temporária, vez que o cérebro não consegue discernir entre presente, passado e futuro, nem ao que é real ou irreal. Para o nosso cérebro tudo é presente, tudo é real.

    A experiência do pesquisador

    A experiência do pesquisador mostra basta a imaginação de que acontecera um evento que o corpo já inicia um processo de experimentação de suas consequências, antes mesmo dele ter acontecido de fato. Essa característica nos coloca em situações extremamente delicadas, principalmente quando precisamos realizar racionalizações psíquicas sobre a maneira como os outros nos tratam. Essa característica do cérebro nos impedem de perceber, por exemplo, os impactos que o comportamento de indivíduos com o transtorno de personalidade narcisista causam em nossas vidas.

    O transtorno de personalidade

    Impactos que o comportamento de indivíduos com traços do transtorno de personalidade narcisista causam nas pessoas que estão no seu círculo de convivência. Este capítulo trará relatos de pessoas que conviveram com pessoas diagnosticadas com o transtorno de personalidade narcisista. Todos os elementos que permitiriam a identificação (nomes, datas, locais) dos depoentes foram suprimidas. Por se tratar de situações bastante comuns em relacionamentos e, pelo fato do narcisismo na personalidade provocar um padrão de comportamento muito semelhante, é possível que muitos se identifiquem.

    Assim, considere possível identificação de sua realidade com qualquer dos casos apresentados como mera coincidência. Os casos apresentados sobre narcisismo na personalidade foram relatados por pessoas que declararam que seus parceiros foram diagnosticados clinicamente como portadores do narcisismo na personalidade. No relato de A. sobre seu relacionamento de com sua parceira com quem era casado e que, segundo ele, era diagnosticada clinicamente, relata: “Elas parecem pessoas extremamente boas e simpáticas à primeira vista.

    Tive aquele sentimento de que tudo era bom demais para ser verdade. Com o passar do tempo, percebi comportamentos rudes de pessoas que tinham o narcisismo na personalidade, pouquíssima paciência e até agressividade. Mas não uma agressividade normal. Porque quem é agressivo, é agressivo com todo mundo. Percebi que era uma agressividade seletiva. Sentia que o determinava se seria gentil ou rude era o seu interesse por alguma coisa ou por algum benefício que pudesse receber.

    Era costume falar mal dos outros e fazer comentários sarcásticos sutis. Costumava difamar colegas de trabalho e até amigas do nosso convívio.(…) o fato de eu discordar ou expressar meus sentimentos e opiniões costumava terminar em briga. Evitava aborrecê-la ou contrariá-la pois ouvia insultos diretos ou era tratado com indiferença e afastamento, emocional e físico. (…)Todas essas atitudes me faziam sentir confuso, pensando no que eu estava fazendo de errado. Me perguntava como poderia voltar a situação do início do namoro. Sentia uma impotência em relação a tudo que acontecia.

    Parecia que nada que fizesse seria suficiente” Relato de B. sobre relacionamento de dois anos com o namorado “Quando nos conhecemos, ao contar sobre sua vida falava como foi injustiçado e maltratado no passado. Parecia sim uma pessoa muito boa, mesmo tendo passado tantos problemas na vida. Eu sentia que era uma pessoa perfeita. Educado carinhoso, falava coisas que eu queria ouvir. Muitos elogios, passeios e conversas até altas horas da noite. Todos os dias recebia mensagens de bom dia, de boa tarde e de boa noite.

    Passados uns meses, passou a reclamar dos pais, de colegas, cismava que meus amigos não gostavam dele. Também reclamava dos pais que não o apoiavam. Dizia que tudo que fazia tinha que fazer sozinho. Com o passar do tempo percebi que ele estava ficando distante, já mandava menos mensagens, demorava para responder as minhas. Muitas vezes sumia por dias. Aparecia como se nada tivesse acontecido e se irritava quando perguntava o porquê de estar diferente comigo.

    O narcisismo nos relacionamentos

    Depois de um tempo me calei para evitar discussões. Me sentia insegura, às vezes pensava que estava fazendo alguma coisa errada. Passava muitas horas do dia pensando em qual foi o momento exato em que tudo mudou. Não encontrava resposta.” Relato de C. “Estava separada a algum tempo quando o conheci. Já no início disse que não estava interessada em relacionamentos, ele concordou e disse que também era recém separado. Ficamos alguns meses nos encontrando somente em situações ocasionais sem nenhum planejamento.

    Com o tempo os encontros foram ficando mais frequentes. Praticamente todos os lugares em que chegava ele estava. Finalmente iniciamos um caso. Ele era muito atencioso. Me levava para festas, jantares, preparava a comida em sua casa, com direito a velas e vinhos. Como nas novelas. O primeiro caso estranho que lembro foi o dia em que me apresentaria para seus amigos. Ele mesmo comprou a roupa que eu usaria. Perguntei o porquê. Respondeu que minhas roupas não estavam alinhadas com a roupa que a turma dele usava. Ignorei a resposta pois ele me tratava muito bem. Tudo que ele ia fazer, perguntava minha opinião.

    Tudo que eu fazia ele me apoiava e se mostrava muito interessado em minha vida. Depois de pouco mais de dois anos eu estava totalmente submissa. Não me sentia mais eu. Ironicamente, quanto mais me anulava e fazia suas vontades, mais ele demonstrava indiferença emocional e desprezo por mim”. Percebe-se nos relatos acima que eles compartilham alguns pontos comuns. Uma primeira visão de perfeição em relação ao outro; atitudes de submissão para a manutenção de uma situação prazerosa e um sentimento de despersonalização seguida de algum tipo de dor.

    Muitos pontos dos relatos encontram-se condizentes com aspectos tratados no primeiro capítulo. Isso pode indicar que existe um comportamento padrão, e que a percepção já nos primeiros contatos desse comportamento pode evitar muito esgotamento emocional por parte da pessoa que conhece alguém com esse tipo de transtorno.

    Considerando que atualmente vivemos cada vez mais sozinhos é muito recomendável a pessoas expostas a essas situações de estresse no campo emocional, busquem acompanhamento de profissionais psicanalistas, psicólogos e psiquiatras. Eles podem facilitar o conhecimento e o reconhecimento das dores e sentimentos, apresentando ações ativas para proteção da sua saúde mental. Embora os estudiosos já declararam que o transtorno não é uma doença, logo não tem cura.

    Compartilham também o entendimento de que as pessoas acometidas não demonstram muito interesse em mudar. Principalmente porque pensam que não existe nada de errado com seus comportamentos e nem com a sua maneira de agir. Assim, para aqueles que convivem com narcisistas restam poucas alternativas: Uma delas é abandonar o relacionamento, outra possibilidade é responder conforme o comportamento dele ou estabelecer limites de convivência comunicados claramente. Todos essas alternativas exigem ações ativas para que se minimizem possíveis efeitos danosos.

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    O narcisismo na personalidade e a saúde mensal

    Ações ativas para proteção da saúde mental dos indivíduos que convivem com pessoas como o transtorno de personalidade narcisista Conviver com pessoas com transtorno é extremamente desgastante. O primeiro deles e mais evidente é o emocional. A instabilidade de humor, de comportamento, de compromisso culminam inevitavelmente em um quadro de crises de ansiedade no outro. Em um segundo momento, o convivente passa a sentir os efeitos físicos da ansiedade. Podemos pensar que a melhor alternativa seja abandonar a pessoa e a relação, embora seja a ação que mais proteja o indivíduo nesses casos, nem sempre é possível o afastamento. Em uma relação familiar onde existe dependência (pais e filho), por exemplo, ex-casais com filhos tem o mesmo problema. Em ambos os casos, o distanciamento total e abrupto é muito difícil e muito traumático.

    Assim, é importantíssimo ter uma rotina de ações para minimizar o desgaste gerado pela necessidade de se manter contato direto e prolongado. Com essa finalidade, quem se encontra na situação em que o afastamento não é uma opção, pode adotar algumas linhas de ação conforme o contexto em que se encontra: Pode-se, por exemplo, definir e comunicar limites claros; agir de acordo com o comportamento do outro. Esta é a base do que se costuma chamar de sentimento de alteridade e empatia.

    Seguindo essa linha, caso esteja em um relacionamento amoroso ou em relações de trabalha o melhor é definir e comunicar os limites que você quer ver respeitados. Isso pode funcionar bem. Feito isso, é necessário realizar monitoramento constante para garantir que eles não sejam ultrapassados. O ideal seria escrever uma lista dos comportamentos e ações que o fazem se sentir mal. Comunique a pessoa que não aceitara xingamentos, ameaças, desvalorização, mentiras e gritos, e nenhuma outra forma de desrespeito.

    Seja educado e gentil, deixando claro qual será o seu posicionamento caso esses limites não sejam respeitados. Cumpra a ação que foi proposta. Exemplo: Caso esteja em uma ligação e estiver sendo tratado de forma rude, mantenha a calma e seja gentil mas deixe claro que respeita suas próprias decisões, esclareça que “está feliz por receber a ligação mas desligará pois está se sentindo desrespeitado (a)”. E desligue. Os profissionais de saúde mental são unânimes também em indicar que o discurso deve ser feito na primeira pessoa. Assim, aquele que sofre deve falar como ele próprio se sente, evitando expressões como “você está me desrespeitando” preferindo dizer “eu estou me sentindo desrespeitado (a)” por exemplo.

    Sobre os relacionamentos familiares

    Caso seja um relacionamento familiar talvez impor limites muito rígidos cause mais atritos do que paz. Talvez agir de acordo com o comportamento do outro considerando as diversas situações do dia a dia traga melhores resultados. Nesse caso o ideal é sempre manter a calma e abstrair. Evitar levar as coisas para o lado pessoal é o melhor caminho. Convém ter e mente que tudo que o narcisista faz é para provocar uma reação em você. Cada ação dele tem por finalidade unicamente a irritação para provocar uma reação.

    Qualquer tipo de afetação, boa ou ruim, serve-lhe de combustível. Assim, o melhor é ouvir mais do que falar. Ouça atentamente. Respostas curtas evitam problemas maiores expressões como “ok”, “aham”, “entendi” funcionam muito bem. Por mais que pessoas com o transtorno não apresentem muitos sinais do que significa empatia pelos outros, esforce-se para demonstrar a sua para com ele. Especialmente em casos familiares. Em todos os casos o mais importante é cuidar de você em primeiro lugar. A busca por ajuda externa é essencial para suportar as dificuldades durante esse período. Esteja preparado para as consequências de exigir ser respeitado. Ao impor que quer um tratamento digno é muito provável que o outro pode falar menos, evitar conversas com você ou mesmo ignorá-lo completamente. Importante não demonstrar as reações que ele espera. Mantenha-se firme e sereno.

    Recomenda-se também buscar apoio de seus amigos e de outros familiares, a conversa com as pessoas mais próximas vai protegê-lo de eventuais mentiras espalhadas. Procure pessoas que passam pela mesma situação, seja em fóruns na internet ou grupos presenciais, conversar com pessoas distantes vai fazer você perceber que não está sozinho. Vá a um terapeuta, o profissional vai ajudar a identificar quais sentimentos e emoções você precisa trabalhar durante esse período que causa enorme desgaste emocional. E, por fim, caso sinta que o abuso está causando danos (físico ou mental) que não consegue suportar, busque das autoridades públicas.

    Conclusão

    Desde o início até o final este trabalho foi marcado por profundo sentimento de compaixão. Ainda que não tenhamos passado por determinada situação, podemos imaginar como um outro ser humano se sente diante da dor. A simples caracterização por parte dos especialistas no assunto, faz presumir que não é tarefa fácil conviver com pessoas portadoras do transtorno de personalidade narcisista. O que mais assustador é incapacidade de perceber o mal que causam.

    Tudo indica que entendem a vida como um supermercado onde as outras pessoas são objetos que podem ser adquiridas, usadas e descartadas. Embora os profissionais da área não o considerem uma doença, reconhecem que o narcisismo, em todas as suas modalidades, pode ser extremamente danoso para aqueles que precisam manter relacionamentos por longo tempo.

    Principalmente relacionamentos amorosos, onde é muito mais difícil identificar, tanto o comportamento narcisista quanto os abusos praticados, haja vista a relação normalmente ocorrer em no campo da intimidade. O sofrimento causado por narcisistas podem ser guardados em segredo e suportado por meses, anos, décadas ou até uma vida inteira sem que ninguém perceba. Isso, talvez, porque tudo o que as pessoas com o narcisismo na personalidade mais prezam é a imagem que as pessoas mais distantes pensam sobre ele. Assim, para quem está distante, sempre parecerão bons pais ou mães, bons filhos ou filhas, bons maridos ou esposas, bons colegas de trabalhos, pessoas “perfeitas”. O relato, porém, de quem convive com essa realidade é bem menos interessante. Quase sombria.

    Analisando os relatos da interação com pessoas que apresenta o narcisismo na personalidade ou traços muito acentuados do transtorno de personalidade narcisista, parece que o mais simples e racional seria abandoná-los. Mas a realidade mostrada pelos relatos colhidos e os estudos dos profissionais em saúde mental e psicológica demonstram que não é tão simples assim. A diversidade de situações de momentos em que ocorrem, família, trabalho, relacionamentos amorosos, indicam que a melhor alternativa é a vigilância constante de suas próprias emoções e sentimentos aliada à busca por autoconhecimento e uso de terapia como forma de minorar os efeitos da dor causada pela convivência, quando essa convivência ela for inevitável.

    Referências

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    Este texto sobre o narcisismo na personalidade e nos relacionamentos afetivos foi escrito por Francisco Gomes de Lima Filho.

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