racionalização em psicanálise, mecanismo de defesa

Racionalização como mecanismo de defesa da mente

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Vamos falar sobre a Racionalização como mecanismo de defesa da mente. Significa que o processo racional está sendo usado pelo ego (nossa estrutura psíquica responsável pela autopercepção e pela relação com a realidade externa) com o objetivo de manter o ego como está. Por isso, uma defesa.

Quatro motivos nos mobilizaram na escrita deste texto:

  • introduzir o que é mecanismo de defesa de uma forma a mais didática possível;
  • entender a Racionalização como recurso defensivo, isto é, como uma das formas de defesa;
  • ampliar o olhar sobre a relação analista-analisando, a partir do prisma da Racionalização;
  • afiar um olhar sobre a autoanálise e da Racionalização em relação às coletividades humanas.

Dizer que existem mecanismos de defesa da mente significa dizer que uma parte da nossa mente age para manter o seu funcionamento tal como está hoje. 

É importante, logo de início, que o leitor não tome um sentido pejorativo na Racionalização, nem entenda que o texto defenda a irracionalidade. Afinal, não seria possível esboçar este artigo se partíssemos do elogio à irracionalidade.

Outra ressalva é que não entendemos como tão distantes assim a Racionalização-Defesa e a Razão-Ciência: provavelmente sejam similares em muitos de seus procedimentos, com a ressalva feita ao final do artigo de que, pelo menos em tese, a Razão-Ciência esteja mais aberta a críticas.

Como funcionam os mecanismos de defesa?

Neste sentido, se uma pessoa tem um quadro de distima (uma “depressão” leve), entenderíamos que a mente agiria para justificar que tudo continue assim. Desta forma, adquire-se um bloqueio no sentido de prevenir que o problema seja visto por uma outra ótica e “corra o risco” de ser superado. Claro, isso não é feito intencionalmente.

Mas, por que a mente preferiria manter-se sofrendo? Por que o ego agiria por vezes com apego a um mal-estar, transtorno ou incômodo psíquico, ao invés de enfrentá-lo? E por que a racionalização usaria a razão de uma forma tão “irracional” para preservar uma parte de nós inacessível? Não seria um paradoxo, principalmente dentro do pensamento iluminista de entender a razão como “luz”?

A resposta mais provável: enfrentar um mal-estar exige uma grande energia psíquica, que o ego prefere economizar. E, se o ego se apega a um mal-estar, pode ser por vislumbrar neste apego algum benefício, ainda que mínimo e distorcido.

Por exemplo, o benefício de ver na distimia uma fragilidade que atrai o afeto dos outros (pelo viés da dependência), ou de ver na distimia uma parte da história pessoal do próprio sujeito, como se a distimia fosse o sujeito em si. Neste sentido, abandoná-la poderia ser entendido como um risco à integridade do ego.

Perceber o funcionamento da racionalização e de outros mecanismos de defesa da mente (veja a lista) é uma parte do trabalho terapêutico em psicanálise. Cabe ao analista e ao analisando identificarem possíveis resistências e defesas, sempre questionando se é possível considerar a questão por um novo prisma.

Claro, não cabe ao analista simplesmente impor uma interpretação, pois, como disse Freud, “às vezes um cachimbo é só um cachimbo“. Sem falar que uma eventual imposição do analista (por mais correta que possa estar) assim percebida pelo analisando pode fechar portas e prejudicar a relação de transferência e de desenvolvimento gradual que o analisando precisa criar na terapia, especialmente na fase do início do tratamento psicanalítico.

Como funciona a Racionalização como defesa e resistência?

Apresentada a ideia geral dos mecanismos de defesa, vamos falar da Racionalização, que é um dos mais importantes destes mecanismos. É fundamental entender este conceito de racionalização e estar atento a como a racionalização se apresenta em clínica psicanalítica. De certa forma, ao entendermos a racionalização estamos também entendendo a dinâmica dos assim chamados mecanismos de defesa, num sentido amplo.

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Apontar que existe a Racionalização como defesa ou resistência não significa que a Psicanálise esteja fazendo uma guerra à razão e à lógica. Pelo contrário.

A racionalização é, na psicanálise, um recurso por vezes entendido como “pouco racional”, em que o sujeito usa de argumentos lógicos misturados a simplificações e estereótipos para que a psique do sujeito permaneça em sua situação atual de pseudo-conforto.

É como se o ego se reconfortasse ao racionalizar, pois o racional é valorizado socialmente e não ensejaria um embate a priori contra os preceitos do superego. Isto é, o ego que racionaliza não se sente culpado, pois imagina que esteja fazendo a coisa certa. Pois, se o ser humano é um animal racional, ao usar o raciocínio estou sendo humano. Isso fortalece ainda mais esta defesa.

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    Importante ressaltar que:

    • o conceito de Resistência é usado pela maioria dos psicanalistas para se referir ao bloqueio do analisando na terapia;
    • o conceito de Mecanismo de Defesa é usado pela maioria dos psicanalistas para se referir à forma como a mente se organiza para impedir um encontro com aspectos inconscientes geradores de “desconfortos potencialmente libertadores”.

    A princípio, esta distinção não será relevante para os objetivos deste artigo: a Racionalização (pela abordagem feita neste artigo) pode ser entendida dentro ou fora da clínica. E mais: pode ser entendida como uma ideia também para além da Psicanálise.

    Exemplos de Racionalização

    Questionar a Racionalização como mecanismo de defesa não é criticar a razão ou a capacidade de raciocínio, inerentemente humanas e fundamentais para a ciência. A ideia é pensar que a racionalização pode ser, no ponto de vista individual, uma forma pretensamente “justa” para simplificar as coisas, sentir-se menos culpado por esta simplificação e permanecer “irracional”.

    Um exemplo: ocorre a Racionalização como mecanismo de defesa quando listamos uma série de argumentos lógicos para criticar uma pessoa (estando ou não o nosso raciocínio correto), para evitar de as causas inconscientes que nos levam a isso. A racionalização funciona bem para a nossa psique, porque quando estamos raciocinando acreditamos que estamos corretos.

    Outro exemplo: o sujeito cria toda uma falsa teoria sobre seu pai e o coloca como responsável por tudo o que lhe aconteceu, em todas as fases da vida (infância, adolescência, idade adulta). Há uma “teoria” formada da parte deste sujeito, um sistema de “conhecimento” similar a uma “ciência”.

    Ainda outro exemplo: a Psicanálise pode ser usada como mecanismo de defesa. Por exemplo, um analisando que leu Freud e que, na terapia, a toda hora cita o conhecimento técnico sobre a Psicanálise. Quando isso é excessivo e serve para evitar que o analisando olhe para si mesmo, já pode estar no terreno da racionalização como mecanismo de defesa.

    Porém, esse racional pode ser todo baseado em argumentos lógicos para defender o ego e eximi-lo de seu lugar cômodo de continuar sendo o que é.

    Quais os mecanismos da Racionalização?

    Cuidado para não pensar que toda racionalização é equívoco, do ponto de vista da Psicanálise. Arriscamos dizer que é muito provável que a Racionalização esteja correta em sua lógica interna (isto é, um encadeamento lógico coerente). Algumas vezes até pode refletir uma verdade da lógica externa (isto é, uma coerência também em relação aos fatos do mundo). E, ainda assim, ser um mecanismo de defesa que impede o encontro do sujeito com outras percepções possíveis.

    Podemos pensar que a Racionalização tenha subprocessos. Os mecanismos dentro do mecanismo. As quatro formas abaixo listadas não são as únicas. Nem são construções da Psicanálise. São formas que o autor deste artigo vê a temática e que poderá ajudar a entendê-la, inclusive na dinâmica clínica.

    Generalização, Conceitualização, Simulacro e Procustação seriam quatro formas de racionalização. Vejamos:

    • A generalização: uma racionalização poder ser feita por meio de uma definição universalizante. “Todo ser humano é infeliz”, e assim o ego se satisfaz por sua própria infelicidade. O analista pode provocar no analisando a indagação anti-generalização: “será que todo ser humano é infeliz?”. Ao transformar uma afirmação em pergunta, temos a chamada “leitura crítica”, útil não apenas em clínica.
    • A conceitualização: conceitos são importantes para o entendimento de mundo, já usamos dezenas de conceitos neste artigo. Agora, é uma visão idealizada acreditar que o conceito esconda um “jeito certo” de entender. Por exemplo, se você perguntar para um cristão, um muçulmano, um agnóstico e um ateu “o que é fé?”, terá definições completamente diferentes. E se você perguntar a dois diferentes cristãos também terá significados diferentes por trás de um mesmo significante. Isso importa na clínica psicanalítica: se o analisando se defende de falar de si ao falar de inúmeros conceitos, o analista deve perguntar: “mas o que significa este conceito para você?”, “como isso te diz respeito?”, “como isso te afeta?”.
    • O simulacro: este é um conceito do linguísta Dominique Maingueneau, em análise do discurso. Em breve síntese, podemos dizer que simulacro é uma forma de racionalizar pela estereotipação, reduzindo as ideias do outro a um “boneco” mais fácil de ser combatido. Por exemplo, quando em um debate alguém provoca o adversário com uma frase do tipo “então, você é a favor da violência?!”, pode estar fazendo um simulacro do argumento do outro. Observe que a mesma frase pode ser usada tanto por quem defenda o desarmamento/não militarização, quanto por quem defenda a imposição de força por meio de armas. Não estamos dizendo que você não deva se posicionar: só recomendamos que, ao fazê-lo, reduza-se a um nível tolerável o recurso do simulacro. Voltaremos ao conceito de simulacro em outro artigo futuro. Em clínica, o simulacro também pode aparecer, por exemplo quando o analisando tem uma ideia reducionista acerca da visão de mundo de um antagonista (por exemplo, o pai, o ex-amor).
    • A procustação: este termo nem deve existir, foi usado aqui provavelmente como um neologismo. Procusto é um personagem da mitologia grega que deitava as pessoas sobre um leito, o chamado leito de Procusto. Se a pessoa deitada fosse maior que o leito, Procusto a cortava; se fosse menor, Procusto a esticava. De um jeito ou de outro, cada pessoa se ajustava exatamente ao tamanho do leito (e morria!). Adequar o mundo e os outros à nossa fôrma é um jeito de matá-los. E um jeito de aniquilar nossa libido é pensar que tudo já esteja mapeado, como se não houvesse mais lugar para novas formas de pensar e sentir. A procustação é uma forma de racionalização: o analisando pode tentar explicar todo o seu universo psíquico a partir de um mínimo conjunto de crenças e conceitos.
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    Mas, será que só o analisando racionaliza?

    Qual o antídoto anti-racionalização em Psicanálise?

    Você se lembra do exemplo há alguns parágrafos que mencionava um filho que sintetizava toda sua revolta contra o mundo em seu pai? Pois então, pode ser que esta revolta do sujeito contra seu pai (neste exemplo) seja reflexo de um Complexo de Édipo mal resolvido, e que a sua mente esteja querendo evitar o encontro com novas possibilidades interpretativas. Então, torna-se mais fácil colocar o pai no lugar de antagonista e julgar o pai por todos os problemas da vida do sujeito.

    Mas, isso já não seria uma racionalização do analista? É presunçoso acreditar que o analisando racionalize e o analista tenha a razão.

    Vamos apenas retomar o conceito de procustação e voltar ao exemplo do filho enraivecido contra o pai. O analista que só tenha estudado o Complexo de Édipo vai ver este complexo em tudo: será o seu leito de Procusto.

    Parece-nos que o melhor antídoto (para o analisando, para o analista e para qualquer um) seja perguntar:

    • “você mencionou a ideia X, mas como é para você sentir isso?”
    • “eu mencionei a ideia X, mas o que esta ideia me traz ou sugere?”
    • “você disse que tem distimia, mas como é para você ter distimia?”
    • “tem alguma forma de pensar ou perceber esta questão?”
    • “estou pensando sobre X agora, o que pensar sobre X pode estar dizendo sobre mim?”

    Estas (e tantas outras) possibilidades enumeradas acima servem ao analisando, ao analista e também a alguém que esteja buscando algum conhecimento ou fazendo uma autoanálise. E, especificamente ao analista que queira evitar que o divã se torne seu leito de Procusto, vale este antídoto do psicanalista Carl Jung: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”.

    Racionalização como aprendizado coletivo

    Como vimos, a Racionalização é um recurso que parece ser pouco racional, mas que usa muitos dos operadores lógicos legitimados em ciência, além de simplificações, antagonizações e estereótipos para que o ego permaneça em sua situação atual de “conforto”.

    Esta forma de proceder é também aprendida em sociedade. Podemos dizer que haja um paralelo entre:

    • a racionalização individual: em que a psique do sujeito tenha razões próprias e individuais para proteger o seu ego, ainda que não saiba que o faça;
    • a racionalização social ou coletiva: em que os agrupamentos sociais racionalizem seus hábitos, crenças e conceitos como forma de facilitar a reprodução e repetição da própria sociedade.

    Então, do ponto de vista social ou ideológico, também podemos conceber todo este debate sobre Racionalização quando coletividades humanas reproduzem costumes e tradições, como se fossem a única forma possível de ser, pensar e viver.

    E, nas coletividades, isso também é costumeiramente feito:

    • pela generalização e conceitualização, na discursividade formada dentro desta coletividade;
    • pelo simulacro, ao estereotipar as ideias antagonistas para que sejam mais fáceis de bater;
    • pela procustação, ao usar como única “régua” a própria visão de mundo.

    Muitas vezes, a forma com que pessoas defendem seus pontos de vista de maneira intransigente passa por uma racionalização simplória, racionalizando o outro (seu adversário) por meio de simplificações e estereótipos.

    Tanto do ponto de vista individual quanto social, a racionalização pode ser entendida como um recurso que:

    • é eficiente em um propósito de economia de energia mental e social, por meio da replicação, repetição e perpetuação;
    • tem uma dinâmica potencialmente narcísica tanto para indivíduos como para agrupamentos, porque a racionalização que recusa a alteridade (o outro externo e o Outro de nossa psique dividida) tende a se limitar ao mundo de suas autoverdades, até por isso o olhar de fora do analista se mostra tão relevante.
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    Um pouco mais de esforço do sujeito e da sociedade para questionar a pobreza de certas racionalizações poderiam propiciar novas formas de pensar, de fazer e de ser.

    Desculpe-nos, mas talvez não exista muita diferença procedimental entre a racionalização como mecanismo de defesa e a razão cientifica. Não sejamos tão positivistas de pensar que exista uma razão verdadeira: a nossa, é claro.  Isso já é, ao mesmo tempo, razão-ciência e racionalização como defesa.

    De toda forma, uma diferenciação relevante e de grande impacto inclusive na autoanálise e na clínica psicanalítica parece-nos ser a seguinte:

    • enquanto a racionalização como mecanismo de defesa recusa o questionamento, por ser uma explicação racional do ego com o objetivo de “encerrar discussão”,
    • a razão crítica como instrumento da investigação científica poderia ser o seu antídoto, no sentido de permitir questionar, dessacralizar e refutar posições fundantes em favor de novos approaches: este nos parece ser um ótimo exercício do ponto de vista individual e coletivo.

    Este artigo sobre a racionalização como mecanismo de defesa foi escrito por Paulo Vieira, gestor de conteúdos do Curso de Formação em Psicanálise Clínica.

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