resistência na psicanálise

O que é Resistência na psicanálise e quais seus tipos

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A resistência, junto a outros pilares da psicanálise, continua sendo, cada vez mais, considerada uma pedra angular da prática e na pesquisa psicanalítica. Vamos entender o que é resistência e como ela se realiza no setting psicanalítico, isto é, na relação entre analista e analisando.

Freud utilizou a palavra em alemão “Widerstand”; que se traduz como resistência.

Devido às inúmeras definições existentes, torna-se pertinente uma definição das resistências recorrendo-se a Roudinesco et al (1998): “o conjunto das reações de um analisando cujas manifestações, no contexto do tratamento, criam obstáculos ao desenrolar da análise”.

Pode-se expor que, a “potência” da resistência é proporcional ao quanto se caminha para o bom êxito do processo terapêutico da análise, pois ela atua mais “forte” o quanto mais “escava-se no lugar certo” em busca do que está recalcado!

A resistência na clínica psicanalítica

Ela – a resistência – tenta sabotar a associação-livre, regra fundamental do contrato analítico!

Deschamps (2007), com muita propriedade, utiliza a seguinte metáfora: “a resistência na evolução da análise deve ser vista como algo a ser direcionado, como segurar com força uma rédea, não exercendo um freio exagerado, nem a deixando frouxa demais”.

No necessário retorno a Freud, percebe-se que a questão das resistências, por longo tempo (até antes do caso da Srta. Elisabeth von R. – 1893), fora tratada de modo apenas negativo, como uma barreira à análise e ao seu prosseguimento exitoso.

Foi no caso da Srta. Elisabeth von R. caso da Srta. Elisabeth von R.; 1893, ricamente relatado (junto a outros quatro casos) em “Estudos sobre a histeria” (1893 – 1895), que Freud relata não ter sido bem-sucedido com a técnica da hipnose como procedimento de insistência por parte do psicanalista em contrapartida à resistência da paciente.

Também não surtiu o desejado efeito o método da pressão física sobre a testa da paciente.

As observações de Freud

O próprio Freud (1893 – 1895) relata: “a princípio, a técnica pareceu funcionar bem, fornecendo bastante conteúdo para a análise da paciente, porém, em algumas situações parecia haver impedimentos de cuja natureza eu não desconfiava na época”.

Em sua genialidade científica, a partir deste momento, Freud entende necessário considerar de extrema importância esta resistência da paciente para relatar suas lembranças.

Assim sendo, inicia um detalhado e cuidadoso trabalho para perceber e anotar, em detalhes, os momentos, no decorrer da análise, em que esta resistência ocorria de forma acentuada.

Tanto que, Freud, à época, conclui que, “a resistência que ela havia repetidamente oferecido à reprodução das cenas que atuaram de forma dramática correspondera, na verdade, à energia com que a representação incompatível fora expulsa de suas associações” (FREUD, 1893 – 1895).

Toda a culpa é do paciente?

Por uma questão didática, costuma-se definir resistência como aquilo que interrompe o avanço da análise.

Um pouco de estagnação em terapia (ou até mesmo idas e vindas) é compreensível: a análise não é um processo unilinear, não avança só na direção de um “progresso”. A estagnação e certos retrocessos podem ser entendidos como o tempo necessário para reelaborarmos certas ideias e vencermos certas resistências.

Mas, quando a terapia fica estagnada por vários meses, esta pseudo-terapia pode estar apenas servindo como uma resistência para o analisando realmente não se confrontar. Até seria possível dizer que, se não há avanço na terapia psicanalítica e o paciente continua sua terapia indefinidamente neste “lugar de conforto”, sem confrontar a si mesmo e sem confrontar o analista, isso seria também uma manifestação da resistência.

Porém, generalizar como sendo o único motivo para uma estagnação da análise não nos parece adequado. Afinal, o analista não é dono da verdade.

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    Existem resistências da parte do analisando (paciente). Mas, da parte do analista, temos também equivalências, tais como:

    • Contratransferência: pode ser importante para a análise, mas, quando não refletida pelo analista, torna-se uma forma com que o analista projeta no paciente suas próprias questões psíquicas.
    • Limitações conceituais ou preconceitos do analista, principalmente quando ele não segue exercendo o tripé psicanalítico: teoria (estudando de forma contínua), supervisão (tendo seus casos acompanhados por psicanalista supervisor mais experiente) e análise pessoal (fazendo sua própria análise com outro psicanalista).
    • Falta de autocrítica do analista ao não reconhecer que não tem condições pessoais ou técnicas para dar conta de determinados analisandos.
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    O conceito de Resistência

    Desde os primórdios da psicanálise quando fora encarada unicamente como um obstáculo sabotador de acesso ao inconsciente, até hoje, – embora ainda tenha a característica de dificultar o êxito do curso da análise – é notadamente encarada como parte bem-vinda ao processo; pois, se bem avaliada, “enfrentada” e investigada denota a realidade psíquica e as defesas do sujeito no enfrentamento do seu dia a dia.

    Neste aspecto, Zimerman (1999) cita que: “a resistência do analisando é conceituada como resultante de forças, dentro dele, que se opõe ao analista, ou aos processos e procedimentos da análise; obstaculizando a livre associação de ideias e até o próprio desejo de mudar”.

    E, elucidando um tanto mais, completa: “nesta perspectiva, continua vigente o postulado de Anna Freud (1936) de que a análise das resistências não se distingue da análise das defesas do ego, ou seja, da permanente blindagem do caráter”.

    A resistência, o setting e o manejo clínico

    Como já exposto, a resistência atua no setting como meio de sabotar a regra fundamental da livre associação de ideias por parte do analisando. E é no setting que deve ser “trabalhada”, investigada e compilada com extremo cuidado.

    Hoje, pode-se considerar senso comum entre psicanalistas clínicos e didatas a conduta de não travar um embate direto às resistências, já que, sendo um “material” também inconsciente, deve de alguma maneira, ser aproveitada em busca do que está recalcado e a – resistência – desencadeando.

    Deschamps (2007), de modo muito pertinente, cita que: “a resistência vem sempre investida de grande carga, contra-catéxis, em sua representação legítima, segui-la é como colocar um investigador disfarçado à espreita de um suspeito. Essa seria uma proposta da técnica bem mais próxima ao que hoje se entende como resistência”.

    A contra-resistência: oriunda do analista

    É pertinente, ainda, expor a questão da resistência que afeta o próprio psicanalista.

    Trata-se do vínculo entre a contra-resistência e o processo transferencial. O psicanalista não é o “todo poderoso” imune às questões da resistência do analisando.

    Ele – o psicanalista – é também um sujeito psíquico “normal”, tem suas necessidades sempre presentes, suas condições inconscientes, seus recalques e, neste caso em especial, suas próprias questões narcísicas.

    Assim, no setting, entre o divã e o assento do psicanalista, todo cuidado deve ser considerado, pois a partir do analisando, disfarçadamente, o psicanalista é afetado e tem as mesmas condições de resistências.

    Tipos de resistências

    Exceto por intenções didáticas, “é impossível uma classificação unânime e sistematizada dos tipos de resistências; visto as inúmeras diferenças encontradas na literatura psicanalítica e os diversos pontos de análise” (ZIMERMAM, 1999).

    Elas – as resistências – podem “emergir” do ego e dos demais elementos psíquicos através de emoções, atitudes, ideações, impulsos, fantasias, linguagem, somatizações, ações ou não-ações (o difícil silêncio do paciente).

    As resistências provenientes do ego

    • Resistência de repressão: repressão que o ego “produz” frente a qualquer percepção que venha causar sofrimento.
    • Resistência de transferência: resistência do paciente contra a emergência de transferência em relação ao analista.
    • Resistência de ganho secundário: são aquelas egossintônicas, onde o paciente “pretende” usar da própria doença em seu benefício.

    As resistências provenientes do id

    • Resistências contra a mudança: relacionadas à “compulsão à repetição”, onde o paciente inconscientemente resiste a impulsos instintivos que possam promover mudanças em sua forma de “viver”, ou sobreviver, e se expressar.

    As resistências provenientes do superego

    • Resistências do superego: claramente relacionadas a sentimento de culpa e necessidade de punição.

     

    O que são resistências?

    Quanto mais primitivas e regressivas são as resistências, maior será a “oposição” do paciente à mudança do seu “status quo” e à pretendida “cura”. Sente não a merece-la e tem medo do risco de reviver situações de dor e sofrimento.

    De modo bastante contundente, Zimerman (1999) resume que: “na situação psicanalítica enquanto houver resistências que pugnam pela existência, ainda persiste a chama da esperança, sendo que a pior forma de resistência é a de um estado mental de desistência, a qual cronifica a des-esperança (ou seja, o paciente nada mais espera da análise e da vida) ”.

     

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    DESCHAMPS, Denise. Trabalhando com a resistência. Artigo publicado in Rede PSI. São Carlos, SP, 2007.

    FREUD. S. ESB, v. II. Estudos sobre a histeria (1893 – 1895). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

    ROUDINESCO, E. e Plon, M. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar, 1998.

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    ZIMERMAN. David E. Fundamentos psicanalíticos: teoria, técnica e clínica – uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 1999.

    Este artigo sobre o que é resistência na psicanálise, quais seus tipos e quais as observações de Freud foi escrito por Marcos Castro, Instagram – @marcos_castro_castro. Psicanalista clínico, pesquisador, professor, escritor, palestrante, é residente em Ouro Fino – Sul de Minas Gerais.

     

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