Freud e o inconsciente

Freud e o inconsciente: guia completo

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O inconsciente talvez seja o maior construto teórico para Freud. É teórico em suas definições estruturantes e incontestável em sua apresentação e constatações práticas. Você pode até não saber do que se trata, mas com certeza acabará notando as aplicações dessa proposta freudiana em sua vida. Assim, não deixe de conferir um guia completo sobre Freud e o inconsciente no texto de hoje!

O artigo que você lerá hoje é uma adaptação de um trabalho de conclusão de curso. A autoria é de Marcos Almeida, que concluiu a nossa formação completa em Psicanálise Clínica 100% online. Neste trabalho, como já mencionamos, você lerá acerca de Freud e o inconsciente

O artigo divide-se nas seguintes partes constitutivas:

  1. Introdução;
  2. O inconsciente: o que sabemos sobre o que não se sabe;
  3. As linguagens do inconsciente;
  4. O inconsciente nosso de cada dia;
  5. Conclusão.

Introdução

O viés das duríssimas críticas que a Psicanálise sofre desde seus primórdios, em especial das academias científicas mundiais, têm como núcleo central a inacessibilidade e não comprovação do inconsciente pelo método científico tradicional. Contudo, muitas dessas críticas carecem de qualquer outro fundamento que não seja o de que a Psicanálise não segue o rigor científico.

Psicanálise é ciência?

Logo, muitos entendem que a área não pode ser considerada confiável para solucionar os problemas a que se propõe ou fazer qualquer tipo de comprovação. Assim, dado que não pode ser controlada ou reproduzida, é considerada uma ciência falaciosa. Logo, não é ciência porque não segue as regras determinadas: pela própria ciência.

Nesse contexto, ainda que, no vigor das críticas da ciência formal, perceba-se que as mesmas não se ocupam com a tese central da Psicanálise, posições contrárias apenas preocupam-se em destituí-la de valor acusando-a de pseudociência. Isto é, no mínimo, uma reação sintomática. Não há a percepção de que a Ciência, já que ela própria é uma linguagem que dá conta de determinado espectro da episteme humana.

Contudo, seria ela própria, após aplicada a lógica da linguagem científica, uma resistência inconsciente? Uma resistência que em suas múltiplas manifestações é uma das linguagens do inconsciente, que nos comunica algo a ser desvelado. Nesse contexto, você verá que Freud e o inconsciente falam sobre a existência de algo que luta por emergir. Isso ao mesmo tempo em que há uma força que luta para que permaneça recalcado.

Considerações sobre as críticas que Freud e o inconsciente recebem enquanto parte fundamental da Psicanálise

Tendo em vista tudo que foi comentado mais acima, a crítica à Psicanálise (e ao Inconsciente) é fruto que ressoa, do que existe sem ser alcançado, pelo método científico tradicional. Nesse contexto, o afã de sua crítica é uma das manifestações de sua existência. É contraprova de sua própria negação.

O conceito de Ciência

De acordo com Lacan, citado por Beer, a ciência forclui a verdade como causa ou mesmo “que, da verdade como causa, ela [a ciência] não quer-saber-nada” (BEER, 2017, p. 85). Este aparente paradoxo é mais uma limitação do método científico tradicional do que algo de que possa ser acusada a Psicanálise.

Assim, a Psicanálise busca a causa material, que apesar de suas dificuldades de acesso. É a realidade por trás de todas as verdades. Por outro lado, a ciência busca a causa formal, por isto não pode prescindir de seu método, e só afirma a realidade de suas conclusões comprovadas por seu método como a única verdade possível. Seria então a Psicanálise uma forma própria de investigação?

Acreditamos que sim e a causa material a ser depreendida de seu método apresenta-se como uma linguagem própria, uma linguagem que abre o canal entre a realidade aparente e a verdade fundante do sujeito.

Objetivos deste trabalho

Este trabalho procurará apresentar uma pesquisa teórica estruturada de forma a levantar e correlacionar as várias linguagens do inconsciente. São elas:

  • o sonho,
  • as lembranças encobridoras,
  • as parapraxias e chistes,
  • e as transformações e exigências pulsionais “comunicadas” ao Ego.

Nesse contexto, o ego procura mediar o mundo interior ao exterior.

Método

O método a ser utilizado será a pesquisa bibliográfica e fichamentos, com foco principal em textos de Freud e Lacan. Ademais, serão investigados outros autores que, apreciando as várias demonstrações e virulência do inconsciente como o lugar do real por trás da realidade aparente de nosso cotidiano, são considerados pela literatura psicanalítica.

Além disso, o trabalho correlacionará os elementos desta pesquisa a exemplos práticos que a sociedade e a cultura se deixam transparecer (que desvelam) através da linguagem do inconsciente. Pretende-se, por fim, demonstrar que, apesar de não descrito pelo método científico tradicional, o inconsciente é irrefutável.


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Justificativa

A relevância deste trabalho sobre Freud e o inconsciente recai no fato que todo movimento humano não deixa de prescindir das forças “ocultas” do inconsciente. Sem entrar no mote junguiano do inconsciente coletivo, os indivíduos em nossa sociedade, em seus inúmeros relacionamentos e transações, estão sempre às voltas com várias comunicações que o inconsciente de um faz ao inconsciente de outro.

É tanta a importância e influência nas relações cotidianas da sociedade que, paralelamente ao foco deste trabalho, explica-se por aí em grande parte o diálogo de surdos travado entre seus membros, tanto nas instituições quanto na intimidade familiar.

Assim, apontar os diversos canais de comunicação e linguagens do inconsciente pode ser útil a quem estiver atento e interessado no tema. Contudo, se não o for, que seja pelo menos interessante ao leitor, para que conclua, ainda que empiricamente, o que a ciência não admite experimentalmente.

Divisão dos temas que serão abordados ao longo do texto sobre Freud e o inconsciente

Na primeira parte do trabalho, procurar-se-á caracterizar a dimensão do paradigma representado por Freud e o “inconsciente”. Isso será  a partir de uma leitura dos conceitos clássicos apresentados por Sigmund Freud e alguns de seus comentadores posteriores.

Na segunda parte, o foco do trabalho recairá sobre as diversas manifestações do inconsciente. Isso ainda em forma de discussão teórica de parte do vasto material psicanalítico produzido desde Freud e seus discípulos até estudiosos contemporâneos da psicanálise. A discussão destas manifestações (já que o inconsciente mormente não é acessível diretamente) será avaliada e apresentada em termos de “linguagens do inconsciente”.

Por fim, será dada atenção a aspectos práticos e notórios do inconsciente. Isso desde de situações tidas por insignificantes ou curiosas, até questões de evidente interação / manifestação do inconsciente que são de conhecimento e repercussão geral, mas que normalmente passam desapercebidos. Há ainda quem considere que são imputados a questões ora de cunho religioso, ora de forças do destino, ou apenas fugazes coincidências.

Objetivo final

Com este trabalho, espera-se demonstrar a realidade meta-científica do inconsciente e discutir suas várias formas de manifestação, à qual preferimos chamar, como já dito, de linguagens do inconsciente. Trata-se da linguagem que serve e atua como comunicadora de conteúdo, veiculadora de uma mensagem e que, normalmente, apresenta-se cifrada em um conjunto de símbolos e formatos.  

Contudo, para além de qualquer método formal da ciência tradicional, é inconteste, ainda que não acessível à lupa do cientista, que a julgará de acordo com suas resistências, de acordo com seu próprio significante inconsciente que o refuta e/ou reluta em aceitá-lo. Ainda que a ele esteja sujeito, inclusive em suas conclusões.

O inconsciente: o que sabemos sobre o que não se sabe

Introdução ao estudo de Freud e o inconsciente

Freud deparou-se com situações onde começou a perceber um estado psíquico “inconsciente” logo cedo em sua trajetória de estudioso da psique. Segundo Garcia-Roza, “o termo ‘Inconsciente’, quando empregado antes de Freud, o era de forma puramente adjetiva para designar aquilo que não era consciente. Contudo, jamais para designar um sistema psíquico distinto dos demais e dotado de atividade própria”. (GARCIA-ROZA, 2016, pp169-170).

Assim, Freud, o chamado “Pai da Psicanálise”, não criou o conceito. Ele (o Inconsciente) sempre esteve lá. Podemos com maior acerto dizer que o “descobriu”, como o astrônomo descobre um planeta. A descoberta ocorre muitas vezes pelo efeito que esse planeta dá na órbita de outro planeta, mas somente muito mais tarde que é possível comprovar sua existência factualmente.

Nesse contexto, o “Inconsciente” é como o lugar do não consciente. É o que normalmente se supõe dele, e isto é apenas meia verdade. O grande mérito de Freud foi identificá-lo como um sistema de interfaces dinâmicas e efeitos continuados por todo o aparelho psíquico. É isto que pode ser considerado inédito.

O desenvolvimento do estudo do inconsciente por Freud

Em seu trabalho “O Inconsciente” de 1915, Freud destaca que “tudo que é reprimido, (por sê-lo), deve permanecer no inconsciente”. Contudo, ele alerta que “o reprimido não abrange tudo que é inconsciente (…) O alcance do inconsciente é mais amplo: o reprimido é apenas uma parte do inconsciente” (FREUD, 1974/1915, p.191).

Assim, o inconsciente é “um lugar” que, sem ocupar espaço ou tempo, têm suas origens na origem do ser. Ademais, ele é formado por uma dimensão instintiva – quiçá biológica, que cedo transforma-se (ou liga-se) a um desejo pulsional. Por sua vez, esse desejo carrega-se do simbólico enquanto concomitantemente, inevitavelmente pode ser dito, preenche-se de afetos reprimidos.

A origem ontológica do inconsciente coincide com a origem do ser e tudo que vem depois dele. O mundo consciente e das relações humanas está enraizado no inconsciente que deu origem ao ser e passa a tudo nele determinar por toda sua vida biológica.

Estudiosos que discutiram a noção de inconsciente

Reforçando a tese da formação dinâmica do inconsciente, Baratto reconstruindo o percurso tomado por Freud em seu Artigo “A descoberta do inconsciente e o percurso histórico de sua elaboração” (2009), demonstra os vários estágios em que a pesquisa de Freud foram constituindo seus apontamentos e convicções.

Elas são sempre comunicadas ao meio científico de então, par e passo com o relato dos casos que o próprio Freud e outros colaboradores foram relatando. Uma das assertivas mais perturbadores dos primeiros tempos da Psicanálise foi a introdução do conceito do inconsciente e da teoria da Repressão como “a pedra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da psicanálise” (FREUD, 1974 / 1914, p. 26).

Baratto descreve ainda que a teoria da repressão é introduzida como a “causa da divisão psíquica e como processo por meio do qual as representações de desejo são expulsas do campo da consciência. Dessa forma, vindo a inscrever-se no campo do inconsciente. Contudo, a força de sua ação não torna uma representação inócua e inativa; ao contrário, garante a sua indestrutibilidade ao torná-la inacessível à consciência”. (BARATTO, 2009).

Uma conclusão parcial muito importante sobre Freud e o inconciente

Tais conclusões levam a crer que toda questão humana do indivíduo – sujeito, está inscrito no que convencionou-se chamar de inconsciente e não está esquecido ou inativo. É sim uma realidade sobre todas as outras realidades, que influencia sem ser demovida de seus propósitos e comunica-se da forma pouco reconhecida.

É como a linguagem de um estrangeiro à consciência, causando um estranhamento advindo do mal-estar de certa divisão psíquica, que no melhor das vezes não passam de curiosidades bizarras ao próprio indivíduo. Contudo, ao depender de caso a caso, podem produzir uma série de sintomas e mesmo, não pouco frequentemente, um rol de psicopatologias de causas tão desconhecidas quanto seu próprio inconsciente.

Assim sendo, é importante deixar evidente que conceito do “Inconsciente” não veio pronto em Freud. Seu caminho foi trilhado por várias pesquisas e construtos teóricos que depois foram revistos na medida em que transcorria o percurso e estruturação da Psicanálise.

A composição e a ação do inconsciente

Mais que mero receptáculo de instintos primitivos, pulsões sexuais e afetos recalcados, o inconsciente, desde sempre frente ao sujeito, passa a cobrar sua participação no cotidiano. Ele força a passagem por entre as convenções sociais e características pessoais (que aliás muito devem ao próprio inconsciente) e realiza sua satisfação, quer de forma direta ou através de subterfúgios, desvios, sintomas.

Nesse contexto, é imprescindível ressaltar que seu represamento é inútil. Inútil e ineficaz. Quanto maior a força do recalque, tanto maior a energia de sua descarga. Aqui citamos Bertolt Brecht: “do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem”.

A dicotomia Inconsciente-Consciente para Freud

Sobre este aspecto, Freud destaca que a dicotomia Inconsciente-Consciente não é meramente topográfica. Os atos psíquicos fazem parte de um único sistema com duas fases distintas. Primeiro o ato psíquico é inconsciente e, se não lhe for permitido pela “censura” ou recalque, permanece inconsciente. Porém, se algo “furar” este bloqueio ou se lhe for permitido vir “à tona”, esse algo passa para o segundo sistema (pré-consciente/consciente).

Assim sendo, esse algo poderá ser novamente capturado pela repressão e de novo recompor-se ao inconsciente ou mesmo permanecer em condições de difícil lembrança (FREUD, 1974/1915, 199).

Neste aspecto, o inconsciente apresenta-se dinâmico ao refluir e movimentar-se constantemente. Como o magma no núcleo do planeta, está em constante movimentação, trazendo seus efeitos à superfície ora em forma de magnetismo e efeitos da gravidade, ora irrompendo à superfície em explosivas erupções vulcânicas ou fortes abalos sísmicos. O que está sob a superfície só pode ser suposto até que libere sua energia e demonstre sua forma de organização, que sob o aspecto do consciente é anacrônico e ilógico.

Freud e o inconsciente: o conceito de fluidez

Freud demonstra a fluidez do Inconsciente na representação da “ideia” nas catexias e na descarga do afeto. Tais instâncias psíquicas podem apresentar-se por vezes de forma consciente, oras inconscientes, a depender da eficácia (ou ineficácia) da repressão sobre elas. Assim, os instintos nunca se apresentam conscientes, exceto se aparecerem como representações de ideias (suas catexias) ou descargas de afetos (FREUD, 1974/1915 pp. 200-204).

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Muitas vezes o que é consciente é apenas a manifestação destas representações e descargas afetivas, às quais o sujeito se pergunta porquê sentiu-se desta ou daquela forma inesperada em determinada situação,. Trata-se daquele questionamento sobre pensar desta ou daquela maneira quando normalmente esperaria outra reação.

O inconsciente e a manifestação do afeto

No que tange a manifestação do afeto, Freud é categórico ao afirmar que são três os destinos possíveis ao processo de manifestação do afeto:

  • “ou o afeto permanece no todo ou em parte, como é; ou
  • é transformado numa quota de afeto qualitativamente diferente, sobretudo em ansiedade;
  • ou é suprimido; isto é, impedido de se desenvolver” (FREUD, 1974/1915, p. 204).

Esses elementos (efeitos) são relativamente fáceis (abundantes) de se deparar no processo analítico dando clareza à manifestação do obscuro inconsciente. Não necessariamente deixam claro o que se passa no caso a caso, mas indicam indelevelmente sua presença ali. Algo se passa naquele lugar, algo mais que meras sinapses quantificáveis. Elas dão o necessário convencimento epistemológico ao cientista não convencional atento à dinâmica psíquica desvelada pelo método psicanalítico.

Comentários parciais

Uma vez tudo isto exposto, pode-se afirmar que a descoberta do inconsciente e seu estudo por Freud e por muitos outros psicanalistas dão uma nova visão a toda ciência da psicologia. A consciência deixa de ter a primazia sobre a episteme humana, antes lhe atribuída e constituída em séculos desde do Cogito Ergo Sun de Descartes. Não é mais ela, a consciência, a grande vedete detentora da vontade e do livre arbítrio tão propalado desde antes ainda de Descartes.

Há uma instância independente da consciência, que conforma um sujeito dividido, que pensa de forma independente e que não é diferente de mim. Como afirmava Nietzsche (2012/1885, p. 33) “Es Denkt in Mir” (algo pensa em mim). É algo que deturpa meus pensamentos dos quais julgava-me senhor; dos quais julgava-me capaz de evocá-los ou adiá-los quando assim desejasse, só que não.

As linguagens do inconsciente

Dentre o que se pode destacar como Linguagens do Inconsciente, vale fazer uma visita ao texto “Psicopatologia da Vida Cotidiana” de Freud. Esse texto é passagem obrigatória para quem quer estudar o tema (FREUD, 1974/1901) porque, neste livro, Freud aborda vários aspectos curiosos e até bizarros que rapidamente identificamos em qualquer um (inclusive em nós mesmos).

Tais observações partem de coletas de dados feitas por ele próprio ou por seus colaboradores, com a descrição de vários exemplos que correlacionam o funcionamento dinâmico do inconsciente à vida cotidiana. Nesse contexto, alguns dos tópicos abordados tratam do esquecimento de nomes próprios, palavras ou grupo de palavras que normalmente são extremamente familiares ao infeliz esquecido. Contudo, esses termos que estranhamente teimam em não ser rememorados quando requeridos, sem que se saiba exatamente o motivo do esquecimento.

Além disso, além de esquecidos, muitas vezes esses vocábulos são lembrados de forma deslocada. Ou seja, outros nomes ou composição de nomes afluem à mente. Apesar de reconhecidamente errôneos, as pessoas não conseguem recuperar o nome correto, pelo menos por algum tempo enquanto tentarem.

Um exemplo de Freud

O exemplo mais notório é dado pelo próprio Freud, que certa vez esqueceu o nome de um artista famoso (Signorelli). Em seu lugar, o pai da Psicanálise só conseguia lembrar de outros dois: Botticelli e Boltraffio. Tendo isso em vista, Freud fez uma brilhante auto-análise onde demonstrou que houve um deslocamento em relação ao que discutia alguns momentos antes com um seu interlocutor.

Neste deslocamento, surgem os nomes de países como Bósnia e Herzegovinia com várias associações cruzadas que são demonstradas por Freud. Isso até finalmente chegar na lembrança, que provavelmente inconscientemente quis afastar de sua memória, a de um paciente seu da cidade de Trafoi que havia se suicidado por causa de uma perturbação sexual incurável.

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Freud justifica todo este movimento pelo seu desejo reprimido de esquecer alguma coisa, relacionada à morte e a sexualidade. Contudo, por desvios associativos inconscientes, “errou o alvo” e esqueceu outras coisas contra sua vontade (FREUD, 1974/1901, pp 20 – 26).

Reflexões de Lacan sobre o tema

Para Lacan, a ligação substitutiva entre os prefixos Signor (de Signorelli) e Herr (de Herzegovnia), ambos significando a palavra “Senhor” em italiano e em alemão respectivamente, representa uma combinação de significantes que também em combinação com o suicídio do paciente de Freud por motivos de doença de impotência sexual. Assim, causaram o esquecimento do artista Signorelli por Freud. (LACAN, 1999, pp 42-45).

O conjunto teórico desenvolvido por Lacan nos leva de significante a significante (metonímias) ao significado final (metáfora) por trás da cadeia associativa. Dessa forma, possibilitam tanto o aprofundamento ao inconsciente como sua expressão, no caso em forma de esquecimento substitutivo ao elemento central em jogo (morte – suicídio; impotência – sexual).

Uma das linguagens do inconsciente é assim, imposta à consciência pelo esquecimento de algo. Esse algo, por sua vez, é associativamente deslocado de um objeto para outro.

Psicopatologia da vida cotidiana: mais sobre Freud e o inconsciente

Também as “Lembranças Encobridoras da Infância” são tratadas no texto “Psicopatologia da Vida Cotidiana”. Tratam-se de memórias e fantasias que acobertam determinada fase ou giram em torno de determinado fato que permanecem “esquecidos”. Contudo, por causas relacionadas a conteúdo recalcado profundo, as memórias não bastam-se ao mero esquecimento e são acobertadas por outras lembranças (criadas) que fazem a ponte entre o inconsciente e o consciente (FREUD, 1974/1901, pp 67 – 76).

Neste texto, Freud dedicou-se também aos “lapsos de língua e da escrita”. Trata-se de toda uma série de possibilidades, com:

  • textos trocados,
  • palavras de duplo sentido ou sem sentido ao contexto presente,
  • substituições,
  • contaminações,
  • etc.

Esses quesitos são extremamente frequentes e facilmente observáveis por toda parte, não deixando praticamente ninguém livre da surpresa pessoal quando ocorrem. Essa ocorrência pode vir a aparecer mesmo em temas perfeitamente dominados pelo protagonista do texto ou fala. Normalmente, após um gracejo desconcertado, deixa-se de lado o ocorrido e o contorna rapidamente sem maiores consequências.

Quando algo aparentemente contornável se torna um problema

Contudo, há consequências que podem ser bem danosas para o indivíduo. Um exemplo é quando alguém chama o companheiro(a) pelo nome de uma outra pessoa, o que não necessariamente é sinal de traição real, mas sinal de um inconsciente presente e virulento, pronto a aproveitar-se de brechas para refluir seu desejo pulsional. 

Mais psicopatologias da vida cotidiana

Também estão no rol das “Psicopatologias da Vida Cotidiana”, as comunicações feitas pelo Inconsciente na atividade motora. Damos aqui destaque especial aos “Atos Descuidados” e/ou “Atos Casuais e Sintomáticos”. Entre alguns exemplos citados, Freud discorre a respeito da troca ou esquecimento das chaves para a entrada em locais a que não se tem acesso ou mesmo utilizando as chaves erradas de casa para entrada em ambientes de trabalho.

Acrescenta-se a isto a facilidade como as pessoas perdem as chaves às vezes dentro de suas próprias casas. Ora, sendo as chaves o símbolo e mesmo a ferramenta de acesso e de mobilidade (como no caso as chaves dos carros), pode-se inferir que em muitos casos esses esquecimentos ou trocas podem representar um desejo não assentido conscientemente de dirigir-se ou não dirigir-se a um ou outro ambiente. Isso sem contar que as chaves podem representar um símbolo fálico que penetra orifícios e permite que as portas se abram, deixando-nos acessar ao seu interior.

De igual forma, Freud relata uma séria de Atos Descuidados que custaram objetos que foram quebrados, por vezes porque significavam presentes não gratos e outras por motivo expiatório, como uma compensação (em forma de fantasia) por outra coisa que lhe ocorrerá. Uma autoanálise de como tratamos nossos próprios atos descuidados em suas diversas formas pode ser bastante revelador de uma comunicação inconsciente no dia-a-dia.

O inconsciente nosso de cada dia

Pensar-se a si mesmo pode ter a coloração trivial em nosso cotidiano de informar a si próprio sobre seus gostos, como quem profere a preferência por uma cor ou um estilo musical. Uma escolha qualquer do tipo “Eu gosto” ou “desgosto”, disto ou daquilo, remete a nós mesmos a presença de um Eu pensante e desiderativo, que faz escolhas e opções ao comando de sua vontade. Há mesmo quem sugira ser isto a essência e o exercício da tão cara liberdade de expressão dada presente em um indivíduo.

Contudo, algo alerta a consciência menos distraída quando, por exemplo, um nome próprio, não menos trivial e já bem conhecido, simplesmente desaparece da memória. Ou ainda, quando durante o esforço por relembrá-lo, muitas vezes, surgem outros nomes substitutos, os quais imediatamente a confusa consciência reconhece como falsos, porém sem sucesso em relembrar o nome desejado. E o que dizer sobre toda uma série de:

  • lapsos de memória,
  • chistes,
  • parapraxias,
  • lembranças encobridoras.

Tudo isso nos é alertado por Freud em sua obra “A Psicopatologia da Vida Cotidiana” (1901 e suas posteriores atualizações) e denota um indício forte e inconteste da existência de um eu mais profundo. O qual de tão profundo eu mesmo desconheço, e que dele só tenho notícias pela falta de controle que o “eu consciente que escolhe” questiona e debate-se.

Trazendo nossa individualidade para a discussão apresentada por Freud e o inconsciente

Quando imbuído de uma honestidade autêntica para consigo próprio, o indivíduo considera e confessa serem suas escolhas não tão autônomas como poderia supor sua “vã filosofia”. Por fim, a pessoa que se conhece realmente enuncia que “Há mais mistérios entre o Céu e a Terra do que sonha nossa vã filosofia”, tal qual Shakespeare insinuou em Hamlet.

Na realidade, há várias versões para esta máxima Shakespeareana, onde a palavra “sonha” pode aparecer como “supõe” ou “imagina”. Contudo, neste texto opta-se por “sonha” mesmo; pois é justamente aí que, se não as provas, a convicção elementar da existência de um eu que desconheço torna-se um paradigma da Psicanálise.

A interpretação dos sonhos

Em “A Interpretação dos Sonhos” (1900), Freud desvenda os mais espetaculares segredos do inconsciente, através de estudos científicos deduzidos e aplicados, pela análise de seus próprios sonhos e de seus colaboradores e pacientes. No texto, Freud nos alerta sobre a importância e origens da elaboração onírica. Nesse contexto, podemos realmente entender sua ressalva como uma proposição científica, pois pode ser reproduzida em outras ocasiões, ainda que recorra a deduções empíricas.

A elaboração onírica foi o conceito trazido por Freud. Ele informa que, durante o período de sono, os Mecanismos de Defesa do EGO, que têm como principal função evitar que o material recalcado chegue a consciência, relaxam e o sonho aflora. Porém, a elaboração onírica cuida para que este conteúdo se aproxime da consciência de forma condensada, deslocada e figurada.

Considerações de Garcia Roza sobre Freud

O professor Luiz Alfredo Garcia Roza afirma que, no referido trabalho, Freud demonstrou que os pensamentos em forma de desejos a serem realizados são deformados pela elaboração onírica. Essa deformação tem por finalidade cumprir as exigências da censura Egóica, porém muitas vezes encontra caminhos alternativos de expressão. Um deles são os próprios sonhos, outros são os chistes do cotidiano.

Além disso, Garcia Roza comenta que Freud expõe que os conteúdos pulsionais inconscientes são indestrutíveis. Além disso, encontram-se sempre à disposição em busca de descarga. A regressão, tão usual em processos de elaboração onírica, traz como conteúdo latente do sonho, de forma alucinatória, todos os desejos infantis inconscientes. Por sua vez, esses desejos associam-se a outros conteúdos do cotidiano e material recalcado em prol da sua realização.

Mais informações sobre os sonhos

Segundo Freud, “os sonhos nunca se ocupam de coisas que não julgaríamos merecedoras de nosso interesse durante o dia”. O que parecem trivialidades, ou coisas sem importância e até “bobas” no conteúdo manifesto dos sonhos, na verdade são elementos que, pela elaboração onírica, acabam associando-se em um formato deslocado, condensado e figurado. Contudo, esse material não chega a consciência de forma cristalina, mantendo assim a segurança exigida pela censura a tais conteúdos inconscientes.

Este inconsciente, descoberto por Freud na configuração que conhecemos, foi construído por deduções e análises desde os “Estudos sobre a Histeria” (1895) e moldado por mais de quatro décadas. Ele apresenta, por fim, um sujeito cindido. Contudo, não se trata de uma cisão dual como a preconizada por Descartes (Mente-Corpo) ou mesmo como a sintetizada por Platão (Mundo Real e Ideal).

É sim uma cisão do sujeito baseada numa consciência que afirma o que não tem consciência, pois encontra-se sob o direcionamento das pulsões e recalques inconscientes. Em verdade, trata-se de um só sujeito porém um sujeito que não se conhece, apenas se reconhece, quando tem a oportunidade de apropriar-se, ao menos em parte, de seu inconsciente.

Uma caracterização final do inconsciente

O inconsciente pode ser caracterizado como algo formado pelos impulsos instintivos, entre eles as pulsões de vida e morte. Ademais, caracteriza-se também pelo conteúdo traumático reprimido. Em relação ao Id, ego e superego, não é correto supor que o inconsciente coincide integralmente com o Id. Assim sendo, não se trata da mesma coisa.  Pode-se afirmar que grande parte do Id é inconsciente, ainda que pequenos extratos do mesmo venham à tona e se tornem conscientes.

Também o ego, inversamente, não pode ser considerado completamente consciente. Grande parte do mesmo se encontra no consciente, mas, ainda assim, parte considerável encontra-se no inconsciente ou mesmo no pré-consciente. No que tange ao superego, pode-se dizer que tem em sua constituição conteúdos inconscientes, em grande parte assumidos pela educação cultural e processos civilizatórios, e outras pela constituição e resolução do Complexo de Édipo que introjeta no indivíduo. Contudo, cada qual a seu modo.

A censura moral de um pai primevo, amado, odiado ou temido será carregada por toda a vida. Ainda que esta consciência moral seja em parte consciente e exerça sua influência de forma afirmativa e impositiva ao sujeito, encontra-o muitas vezes à mercê de seu juízo moral, muitas vezes não-conscientes. Este (juízo moral) pode defendê-la (a consciência) na justificativa de suas escolhas e, ao mesmo tempo, ser oprimida sem que seja percebido por ele próprio (sujeito consciente), portanto de forma não consciente.

Subjetividade

As origens e efeitos de auto sujeição estão estabelecidos entre conteúdos inconscientes e conscientes, ainda que em menor medida. Portanto, fica evidente o quanto é complexa a nossa subjetividade. A afirmação do Eu, que cumpre um papel digno de notoriedade em nossos tão atarefados dias, não conhece de quem se origina. Apresenta-se cindido em dois momentos, o que afirma e o que influencia / determina. Afirma sua personalidade (persona – máscara teatral grega) como a expressão máxima de sua individualidade, mas quem o dirige está atrás da coxia, a cochichar suas deixas, em seu ato representacional no palco da vida.

Conclusão

Conforme pôde ser avaliado pela pesquisa realizada, o inconsciente apresenta-se de forma multivariadas. Talvez suas mais corriqueiras manifestações estejam localizadas nos sonhos, esquecimentos sem causa aparente e nos sintomas de males cuja causa seja desconhecida ou atribuída a “questões emocionais” ou vinculadas ao stress. É impressionante a aceitação tácita que a sociedade de modo geral e a maioria dos indivíduos de modo particular, têm com respeito às manifestações do inconsciente ao considerá-los triviais e sem causa maior aparente.

A normalidade, por sua vez, se dá basicamente por ser este um mecanismo absolutamente natural e presente, de formas particulares, a todos os indivíduos. Faria parte do conjunto de nossa natureza instintiva/pulsional agregada a construção simbólica de formação de nossa personalidade. E, tudo isso, ou grande parte disso, é mantido em processos psíquicos inconscientes por praticamente toda a vida.

Direcionamentos para pesquisas futuras sobre Freud e o inconsciente

A análise da(s) Linguagem(ns) do Inconsciente, para um pesquisador dedicado, é facilmente denotada pela pesquisa bibliográfica de eminentes psicanalistas como Freud e Lacan, entre outros. Podem também serem denotados, com não menor dedicação, pelo próprio pesquisador em si próprio, em uma autoanálise, conduzida ou por um processo clínico formal. De igual forma, um iniciante na pesquisa da psicanálise, Freud e o inconsciente já pode distinguir, sem grandes dificuldades, os efeitos das linguagens cifradas do inconsciente ao seu redor, no cotidiano, de forma profusa e contínua.

Nunca um construto teórico tão sem provas foi mais evidente do que o é o inconsciente. Talvez os grandes acertos e desencontros que a história nos relata e que moldaram a humanidade tenham o assento indelével no movimento psíquico inconsciente de grandes figuras do passado, e até mesmo de seus atores mais desconhecidos. Caberia aí a psicanálise destas figuras, se possível fosse, muito do que foi, como foi, se desvelaria.

Comentários finais

Ficou demonstrado que a lógica do inconsciente, apresentado através de alguns conceitos clássicos de Freud, guarda pouca identidade com a lógica do pensamento consciente e das formações cognitivas superiores, do qual tanto se orgulha nossa racionalidade e em especial nossas academias científicas. O inconsciente não tergiversa com seus próprios propósitos. Está sempre presente e atuante, cobra seu sentido, sem sentido, ao indivíduo, que mais não passa de um serviçal seu, porém que conduz suas atividades como se fosse (o Ego) ele próprio o senhor de sua consciência. 

O lócus humano estrutura-se através de uma formação inconsciente. Esta por sua vez deve sua formação ao interstício do desejo pulsional atribuído a um Outro. Este é percebido na terna infância como distinto de si mas necessário para o preenchimento de sua falta existencial. Porém, é um desejo do Outro para sua própria satisfação narcísica total e, para tanto, precisa exterminar ao Outro. 

São estas as disponibilidades existenciais de todo e qualquer ser humano no que tange Freud e o inconsciente. Todos temos uma mãe, e um pai. E eles não existem em outro lugar a não ser em nós mesmos. Este Outro que vive, transforma e carrega o desejo do gozo de si para si mesmo, permanece na base do inconsciente de todos. O infante que reside em cada um e a forma como constituiu-se o núcleo de seu inconsciente é a verdade sobre todas as verdades. Contudo, o mesmo é rechaçado para que consigamos viver e atuar no palco da vida.

Informações gerais

Esperamos que tenha gostado desse artigo sobre Freud e o inconsciente de acordo com uma abordagem psicanalítica. Para aprender a abordar temas espinhosos da teoria psicanalítica assim como nosso aluno Marcos, matricule-se em nosso curso. A formação em Psicanálise Clínica EAD fará a diferença não só em termos de aprendizado, mas também de evolução profissional.

O trabalho original sobre Freud e o inconsciente foi escrito pelo concluinte Marcos Almeida, e os direitos do mesmo ficam reservados ao autor.

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