isso não é um cachimbo

Isso não é um cachimbo: pintura de René Magritte

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“La trahison des images” (A traição das imagens) é o título de um quadro de 1929 do pintor surrealista belga René Magritte. O que está grafado nesta pintura é Isso não é um cachimbo, em francês: Ceci n’est pas une pipe.

Aparentemente, temos a figura da contradição ou do paradoxo: “o que estou vendo neste quadro é sim um cachimbo”. Ou a figura da ironia: dizer uma coisa (não é um cachimbo) querendo dizer o seu oposto (afinal, o desenho é sim de um cachimbo).

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Ceci n’est pas une pipe (Isso não é um cachimbo). Quadro La trahison des images (A traição das imagens), de René Magritte, 1929.

Então, como podemos entender este quadro de Magritte? Por que o pintor intitulou a obra como uma traição? E por que desenhou um cachimbo se isso não é um cachimbo? Temos duas linhas para entender esta questão.

O cachimbo na Psicanálise de Freud

A primeira linha de intepretação é pela abordagem psicanalítica: o conteúdo manifesto (aparente) trai o conteúdo latente.

Explicando melhor:

  • o conteúdo manifesto (do cachimbo que vemos na pintura) esconde/”trai”…
  • … o conteúdo latente (tudo aquilo que o cachimbo representa).

Magritte está dialogando com a psicanálise de Freud e com a ideia freudiana de que a libido estaria na base da motivação humana. A palavra motivação é usada aqui no sentido de “aquilo que nos move”.

Sabemos que uma das questões centrais para entender o que é Psicanálise é compreender que os símbolos costumam ser vistos pela ótica do desejo. Então, o cachimbo pode ser entendido como um símbolo fálico, um símbolo do desejo.

Não é nada forçado interpretar este quadro de Magritte pela chave da Psicanálise. Afinal, Magritte era um leitor de Freud. E o movimento artístico do surrealismo inspirou-se nas ideias de Freud, ao conceber a arte por um viés onírico (dos sonhos) e do inconsciente.

O cachimbo pela Teoria da Arte

A segunda linha interpretativa é pela teoria da arte. Podemos entender que “isso não é um cachimbo” porque

  • realmente não é um cachimbo (“fisicamente”),
  • mas sim é uma pintura de um cachimbo, ou seja, é uma representação do cachimbo.

Como surrealista, o pintor René Magritte está se referenciando à impossibilidade do extremo realismo. Magritte se opõe à possibilidade de a arte (representação) tomar o lugar da própria coisa (representada).

A arte seria, nesta visão de Magritte, uma representação. A mimesis (isto é, a forma como a realidade se “converte” em arte) é sempre uma desfiguração, uma transfiguração. É um manifesto pela subjetividade do artista.

O surrealismo é parte dos movimentos modernistas europeus, nos quais a metalinguagem, isto é, a arte falando dela mesma (como ocorre neste quadro de Magritte) torna-se talvez mais importante que a arte referencial (a arte como manifestação fiel do mundo).

Freud: Às vezes um cachimbo é só um cachimbo

Freud fumava. Quando lhe questionavam se, baseado na própria teoria psicanalítica freudiana, o hábito de fumar indicaria “algo mais”, como o reflexo de algo mal resolvido na infância, especialmente relacionado à fase oral (já que a boca é usada para fumar), Freud respondia: “Às vezes um cachimbo é só um cachimbo“.

Esta frase de Freud é também de profundo ensinamento aos psicanalistas. Mas por quê?

Psicanálise Selvagem e hiper-interpretação

Parece contraditório que o próprio Freud, adepto da interpretação psicanalítica e que interpretou tantas pessoas, fatos históricos, obras artísticas etc., coloque-se com um “pé atrás” em relação ao potencial da interpretação.

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    Mas, imagine quantas vezes Freud se deparara com pessoas que usavam sua teoria para tentar interpretar a tudo e a todos, muitas vezes de maneira superficial. Então, a frase de Freud  de que “às vezes um cachimbo é só um cachimbo” deve-nos funcionar como um alerta para evitarmos a hiper-interpretação, ou seja, evitar a interpretação prematura e superficialmente julgadora.

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    Há um importante texto de Freud denominado Sobre Psicanálise Selvagem (1910), também traduzido como Sobre Psicanálise Silvestre. De forma bem resumida, Freud chamou de “psicanalise selvagem” a prática realizada pelo psicanalista que realiza intervenções “amadoras” e precipitadas ao analisar seus pacientes.

    Seriam interpretações selvagens no sentido de serem pouco refletidas, a partir de noções psicanalíticas mal compreendidas pelo terapeuta. Com isso, o analista expressa ao seu paciente hiper-interpretações sobre os sintomas psíquicos, os chistes, os atos falhos, as palavras, as ideias, os comportamentos e os padrões de relacionamentos interpessoais do paciente.

    Na área de membros de alunos do nosso Curso de Formação em Psicanálise, você poderá ver a gravação de uma live em que abordamos este texto de Freud, live também denominada Sobre Psicanálise Selvagem.

    Este texto de Freud vai na mesma direção do que estamos chamando aqui de riscos da hiper-interpretação do analista. Ou seja, uma interpretação exagerada, que se baseia na pressa, na falta de conhecimento, na falta de estudos, na falta de supervisão do analista, ou mesmo nas contratransferências, preconceitos e crenças do analista.

    Os riscos da hiper-interpretação do analista e do analisando

    É preciso que o analista não se coloque como dono da verdade. Que não tente impor um significado ao analisando.

    O ideal é que a interpretação psicanalítica vá se construindo como um sistema. Isto é, que uma ideia potencialmente reveladora do inconsciente e dos desejos do analisando seja relacionada com outras ideias já surgidas em sessões anteriores da terapia, de forma razoavelmente coerente.

    Obviamente que há casos em que o analisando demanda uma posição mais contundente do analista. E claro que o analista pode se posicionar, sobretudo quando a subjetividade do analisando está pedindo por mais assertividade.

    Porém, quando a assertividade se torna pressa, temos um perigo. E isso pode ocorrer:

    • quando o analisando faz julgamentos rápidos demais sobre si mesmo (e o analista concorda com este julgamento e o reforça), ou
    • quando o analista apressa-se em avaliar um único conteúdo trazido pelo analisando como definidor de toda a vida psíquica do analisando.

    A psicanálise defende que o analista também seja analisado. Este é um dos aspectos centrais da metapsicologia freudiana. É importante, então, pensar que a prática recorrente de hiper-interpretação do analista pode ser sinal de:

    • Um desejo de verdade; este desejo é parte legítima do desejo do analista, mas terá um lado perigoso se for um “desejo de verdade fácil“.
    • Um resultado de um processo mental animista da parte do analista; “animismo” aqui entendido no sentido que Freud propôs em Totem e Tabu: o sujeito entender que todas as coisas têm “alma” (em latim, anima) e que o mundo é obrigado a se adequar ao nosso pensamento.
    • Um desejo de poder sobre o outro: mesmo no micro-ambiente analista-analisando, em que há apenas duas pessoas, pode haver no analista um desejo sobre o desejo do outro, camuflado sob a racionalização de “estou ajudando meu paciente”.

    A profecia autorrealizadora da hiper-interpretação

    A hiper-interpretação não significa necessariamente “mentira” ou “análise errada”. Uma hiper-interpretação pode estar certa porque:

    • muitas verdades já nasceram da pressa, ou
    • torna-se uma profecia autorrealizadora (também chamada de profecia autorrealizável ou autorrealizante) na cabeça do analisando.

    Expliquemos esta ideia de profecia autorrealizadora: o analisando incorpora a hiper-interpretação trazida pelo analista e isso se torna verdade para o analisando não só “daquele momento em diante”, como também redesenha a forma como o analisando vê o seu passado. Então, uma interpretação do analista pode acabar se tornando uma verdade ao analisando, pelo menos pela duração em que esta interpretação perdurar. Já não seria talvez psicanálise, mas sim sugestão, talvez algo próximo à sugestão hipnótica que Freud abandonara no início de sua trajetória.

    Aliás, se uma interpretação é certa ou errada muitas vezes é algo de difícil conclusão. Isso porque estamos trabalhando com uma caixa de Pandora que é a psique humana, e estamos trabalhando não com fatos da vida do analisando, mas sim com as ideias que o analisando tem sobre esses fatos, que talvez nem tenham ocorrido, ou não ocorrido da maneira como o analisando se lembra deles.

    O que estamos chamando de hiper-interpretação é:

    • a prática recorrente de chegar a conclusões a partir de indícios insuficientes ou até mesmo fantasiosos,
    • a partir de uma autoperspectiva do analista e sua contratransferência, que olha o analisando a partir da ótica dele (analista),
    • sem ter alcançado intelectual ou emocionalmente as demandas e as representações do analisando,
    • mas que ainda assim o analista continua lá, no suposto-lugar de “autorizado a interpretar”.
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    Quando o analista não segue o tripé psicanalítico de

    • permanecer estudando,
    • sendo analisado por psicanalista mais experiente e
    • sendo supervisionado por psicanalista mais experiente, vinculado a instituto ou associação de psicanalistas,

    provavelmente estará mais suscetível a uma clínica narcísica de pura contratransferência e do puro autodesejo, em que a imposição de frequentes hiper-interpretações é um dos sinais mais evidentes.

    Neste sentido, é valiosa a lição desta frase de José Saramago: “Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro“.

    Um cachimbo pode ser só um cachimbo

    A imposição da verdade do analista é uma forma de seu desejo: de autoridade, de poder. Uma limitação das visões de mundo do próprio analista julgando que o analisando é (ou deve ser) como ele (analista).

    Além do mais, se o analista já impôs seu julgamento, o analisando se sentirá como um “caso encerrado”. E ninguém gosta de se sentir tratado no “atacado”. Ninguém gostar de ser visto como algo genérico, como um repositório de fórmulas prontas, e esta perspectiva vale desde o início do tratamento ou entrevistas prelimiares em psicanálise.

    Qual motivação terá o analisando para prosseguir em terapia, se a própria relação transferencial de confiança e a possibilidade do livre-associar estão em xeque?

    E, mesmo quando a proposta interpretativa do analista é adequada, mas isso é feito de forma a julgar o analisando (como ao analista dizer: “você está resistindo em aceitar a verdade!”), não terá havido tempo para o analisando assimilar psiquicamente o caminho gradual de “aprendizado” que a terapia deveria lhe oferecer.

    Qual o antídoto contra a hiper-interpretação do analista?

    Além do aprofundamento teórico-prático e o olhar autocrítico que o tripé psicanalítico oferece ao analista, são também caminhos para se tentar escapar da hiper-interpretação:

    • desconfiar das respostas mais ligeiras que surjam do analisando ou do próprio analista;
    • implicar o analisando em sua própria fala, exemplo: “você me disse que tem depressão; o que você sente que lhe faz concluir que tem depressão?”
    • problematizar: mais perguntar (para abrir possibilidades) do que afirmar;
    • permitir que as afirmações surjam por suas próprias “forças” ou “méritos”, aquelas que superarem as problematizações;
    • apoiar uma afirmação a outra, de forma a se propor um sistema simbólico ou psíquico do analisando, pois as afirmações terão mais validade e relevância se não forem “achismos pontuais”, mas sim integrarem um sistema discursivo do analisando.

    Afinal, isso não é um cachimbo, ou um cachimbo é só um cachimbo?

    Em resumo, a obra de Magritte “La trahison des images” (A traição das imagens) na qual se lê “Isso não é um cachimbo” está imersa num contexto de viva interação entre arte e psicanálise. Basta lembrar que o movimento surrealista nas artes é inspirado pelas ideias da psicanálise de Freud.

    Provavelmente Freud defenderia que, na maioria das vezes, um cachimbo não é só um cachimbo, assim como Magritte.

    Pois é fato que a interpretação psicanalítica vê nos significantes (na imagem ou na palavra “cachimbo”, neste exemplo) os significados não óbvios que possam estar deslocados. Isso é parte do modus operandi psicanalítico.

    Assim,

    • a imagem representativa ou a palavra “cachimbo” (significante)
    • não traz apenas seu significado literal “objeto usado para fumar”,
    • mas pode invocar inúmeros significados figurados, isto é, deslocados,
    • e estes significados serão diferentes para cada analisando, significados reveladores do inconsciente e do desejo.

    Por outro lado, é preciso ter em mente a ponderação de Freud, para não cairmos na hiper-interpretação e nas conclusões apressadas e donas da verdade. Afinal, às vezes, um cachimbo é só um cachimbo.

    Este artigo foi escrito por Paulo Vieira, gestor de conteúdos do portal do curso e blog do projeto Psicanálise Clínica.

    7 thoughts on “Isso não é um cachimbo: pintura de René Magritte

    1. Muito bom o texto. Achei muito rico para os psicanalistas. Estava muito bem escrito e organizado nas ideias. Parabéns! Vou imprimir para consultas posteriores.

    2. Muito bom para entender que as coisas podem ser mais simples do que pensamos e evitarmos o julgamento. Observar pela ótica da simplicidade pode ser um bom começo.

    3. Simplesmente Maravilhoso…excelente qualidade descritiva e interpretativa.. Parabéns ao autor pelo didatismo psicanalistico

    4. Muito bom artigo! Não podemos parar de estudar! Temos que buscar cada vez mais conhecimentos.

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