cura pela fala

O que significa que a Psicanálise é a cura pela fala?

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Uma das maiores virtude da Psicanálise, considerando a cura pela fala, está em gerar as condições para o pleno redizer e redescrever dos elementos que compõem os fundamentos de nossas formas de sofrer.

No falar o simbólico opera, digere, revitaliza e, essencialmente desconstrói o “não dito” que se faz sintoma propiciando sua emersão às vias conscientes. Uma vez que toda a atuação se dá sobre as vivências não elaboradas, transformar o abstrato atuante em verbo é dissolver as mazelas em sua essência tornando o processo analítico comumente definido como “curativo” e não levianamente “sintomático”.

A cura pela fala

Nessa aparente dança entre o “caos” e a “cura”, podemos afirmar clinicamente que, a plena eficácia do processo analítico, ao criar um cenário no qual o analisando se permita resignificar sua trajetória tornando-se senhor de suas próprias invenções, está diretamente condicionada à desorganização de uma enorme muralha não verbal expressa na fixação de sentidos ávidos por resistir profundamente aos próprios sons que confrontam, agridem e deformam as possibilidades de percepção, resistência que uma vez desorganizada, permite que se faça fluir à plena consciência as bordas do antes inaudível inconsciente.

A partir dessa premissa, fazem-se fundamentais todas as formas de potencializar essa, porque não dizer vital, reorganização do discurso, quando em âmbito teórico, expondo esse discurso a um novo viés interpretativo induzido e inviabilizando assim a capacidade de elaborações antes distorcida do discurso consciente.

Com isso, obtemos um aflorar facilitado de manifestações aumentando demasiadamente todo material passivo de cortes, pontuações e atos, viabilizando assim um campo de atuação rico em novas possibilidades para o analisando. Quando momentos de aparente caos se mostram essência basal do caminho à pacificação do eu na cura pela fala.

A cura é real?

Aceitemos então a partir da máxima Freudiana “existo onde não penso”, que uma vez desorganizada a estrutura ficcional do discurso assim como a cadeia (em todos os sentidos da palavra) de pensamentos aos que se entrelaçam o mesmo, abrimos caminho para que possam emergir fragmentos do contorno demarcado pelas pegadas de um sujeito que, suposto como é , nos mostra estar em alguma instância á ansiar por poder vir a ser.

E eis o esboço do que seria o mais próximo do real que podemos chegar além de um sintoma; sintoma que por si só, dada sua fluidez ante a esfera inconsciente, se faz puramente ecos de realidade, do real que nunca nos será.

A relação entre o analista e o analisado na cura pela fala

é , ó ê .

E é como um sublime dançar ao som da verborragia entrecortada por lampejos do inconsciente, que podemos descrever a literalmente fantástica relação entre analisando e analista nessa fenomenal jornada entre um ser e seu reflexo. Mas qual seria o semblante de um “ser espelho?”

O transformar do analista

” ” , é . ?

Com essa reflexão questiono se, ante a enorme complexidade presente no estado de “analista” quanto ser que busca abrir mão de si ao fazer-se estritamente objeto de transferência por desafiadores períodos sessão após sessão, aliado ao crescente entorpecer da consciência liquefeita em uma cultura ávida pelo indiscriminado crescer de métodos de fomento do suposto valor do “eu”, em uma preciosamente delicada relação entre objeto suposto reflexivo e analisando a carecer de reflexos cristalinos, não estaríamos caminhando para uma infeliz escassez de praticantes da genuína arte de “Psicanalisar“.

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A análise do Psicanalista

Ao assumirmos o semblante de analista, nos é dada a incumbências de apresentar ao olhar do analisando, a luz que dele escaparia sem direção em sua percepção cotidiana ao refletirmos como espelhos os raios de verbo que da superfície desse sujeito emanar, e ainda como espelhos, sem nos caber julgar o reflexo mas sim a reação ao mesmo, pois qual seria a finalidade de um espelho que fala de si quando em si, percebe-se não ser sobre espelhos mas sobre o “sujeito” a sua frente.

Eis a dança da transferência em seus múltiplos reflexos nos semblantes de ser ou não ser, onde mais que a questão, se fazem luz na busca de quem o é.

“á , , , é ; , , ã , é é .” – ó

A significação consciente

Como sujeitos alheios ao real, tal qual peixes alheios a percepção das águas nas quais imergem, esbarramos com a constante necessidade de darmos luz a tudo que escaparia à significação consciente, para assim permitir que aflorem questionamentos a respeito da origem e não apenas do sintoma.

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    Na distinção clara entre a proposta psicanalítica da desconstrução ou resignificação do mecanismo gerador do sintoma que envolve a cura pela fala e diversos conceitos terapêuticos que, como remédios sintomáticos, se atém a acolher o sofrimento colocando-o em uma esfera da ordem do “real não psicanalítico”, definindo os parâmetros do sofrer a partir de uma realidade ficcional oriunda do extremamente organizado e complexo emaranhado de fantasias ao que se atém todos os que negam, todos os que pensam, todos os que não são sendo, todos nós, com todos os nós.

     

    ” ã í ú – –, – çã ; , ã á, à á . í, , é , , çã, – ç (ä) çã.” (, []/, .).

    Existir ou viver, escolha que nos cabe a cada dia ante ao entorpecente véu de gozos sintomáticos em detrimento do amadurecimento e do aceitar da tão libertadora quanto Hercúlea caminhada rumo à tornarmo-nos senhores de nossas próprias escolhas. Demos então “graças” a linguagem e sua ciência, e a dádiva da “cura pela fala.”

    Este conteúdo sobre o transformar da fala foi escrito por Daniel S., Psicanalista Clínico, autor, colunista e colaborador literário.

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