conceito de inconsciente

Conceito de Inconsciente em Psicanálise

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O inconsciente é a maior parte que existe em nosso cérebro, representado como o iceberg,do qual opera verdadeira revolução nos tempos de Lacan, pois o conceito de inconsciente se produz às margens da consciência. Freud coloca em cena a concepção de um sujeito dividido, não centrado em torno da consciência. O que ele descobre é a ausência de um eixo à volta do qual os processos psíquicos se ordenam.

O sujeito é descentrado, isto é, carente de um centro ordenador. As elaborações efetuadas na primeira tópica colocam em cena a ideia de um sujeito caracterizado pela ruptura, pelo estiramento. A formulação do aparelho psíquico composto por três sistemas – o consciente, o pré-consciente e o inconsciente – remetem precisamente à noção de divisão e descentramento do sujeito.

O conceito de inconsciente na teoria psicanalítica de Freud

A elaboração de que o inconsciente é um sistema constituído por representações associadas umas às outras de acordo com as leis do deslocamento e da condensação, de que ele se constitui na verdadeira instância onde os pensamentos se produzem, e de que esses pensamentos inconscientes podem encontrar um meio de expressão simbólica na palavra, formam, em síntese, o ápice das elaborações freudianas presentes na primeira tópica.

Contudo, essas formulações têm um longo e laborioso percurso histórico de formulação. Acompanhar passo a passo os caminhos trilhados pelo próprio Freud na construção do conceito de inconsciente. Em outras palavras, o objetivo é traçar o percurso histórico que conduziu Freud à descoberta fundamental da psicanálise o inconsciente, até alcançar os seus desenvolvimentos subsequentes.

Nos primórdios da psicanálise, entre os anos 1893 a 1899, o método utilizado era a hipnose. Por meio desse método, Freud objetivava promover a catarse através da ab-reação.

Método de Freud para acessar o inconsciente

No intuito de aliviar o paciente do sofrimento de seus sintomas, Freud depreendia não pouco esforço no trabalho de procurar focalizar diretamente o momento em que eles se formavam.

O objetivo técnico consistia essencialmente em se descobrir a causa desencadeante do sintoma e o momento de sua ocorrência. Nesse mesmo período, Freud observou a enorme dificuldade enfrentada pelos pacientes no esforço depreendido em relacionar seus sintomas com algo relativo a si próprios, ou seja, constatou a presença de um poderoso obstáculo que se opunha à rememoração das ideias inconscientes, impedindo-as de se tornarem conscientes.

Ele o denominou resistência. O acesso ao inconsciente exigia que as forças da resistência fossem vencidas e superadas, requerendo, por parte do analista, certo esforço para neutralizá-las.

Efetivamente, o recurso à sugestão hipnótica visava a suspender, ainda que temporariamente, a resistência, permitindo que o sujeito, sob hipnose, colocasse em palavras certo número de lembranças esquecidas associadas ao sintoma.

Esse método tem curto período de duração na prática clínica de Freud pela sua ineficácia. É digno de nota ele ter comprovado que o método da sugestão hipnótica mais ocultava do que revelava as resistências, além de, e isso não é de menor importância, os resultados obtidos por esse meio serem de curta duração.

Sabemos hoje que os resultados terapêuticos alcançados por meio de métodos sugestivos não apenas fomentam as resistências, tornando o desejo inconsciente ainda mais inacessível, como também, de forma mais fundamental, conduzem a uma alienação imaginária do sujeito.

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Sublinhamos que a noção de inconsciente compreendido como estado de dupla consciência ou de consciência dividida sofre posteriormente severas críticas por parte do próprio Freud, o mesmo ocorrendo com o método da sugestão hipnótica.

Histeria, psicanálise e livre associação

Devemos estar alertas para o fato de que o método da sugestão hipnótica utilizado na origem da história da psicanálise se apoiava nas elaborações teóricas produzidas naquele momento, e de que tornar consciente o inconsciente significava tornar manifesto e reconhecido pela consciência o fator traumático causal que se encontrava na base da produção dos sintomas histéricos. Com efeito, a prática clínica de Freud comprovava que as emoções penosas despertadas pelos eventos traumáticos permaneciam estreitamente vinculadas à sua lembrança.

A ab-reação, por meio da narrativa do paciente, tornava possível a liberação da “emoção estrangulada”, possibilitando a sua descarga, isto é, a catarse, “cura pela palavra assim denominou Anna O., a mais famosa das histéricas, o método psicoterapêutico da catarse. Guardadas as devidas proporções, tanto temporais quanto teóricas, podemos concluir que a catarse consistia em uma purificação alcançada através do ato de fala do sujeito.

Freud observava que os sintomas histéricos desapareciam quando ab-reagidos, isto é, desapareciam quando, por meio do recurso à palavra, ocorria a descarga das emoções penosas associadas aos acontecimentos traumático.No período do método da sugestão hipnótica, o objetivo da psicoterapia era o de percorrer os caminhos que haviam conduzido à formação dos sintomas.

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    Psicoterapia e o conceito de inconsciente

    O trabalho da psicoterapia partia dos sintomas manifestos do sujeito e culminava com a localização das causas que o haviam determinado. A premissa de que a lembrança do trauma que não fora abreagido permanecia no aparelho psíquico e operava como um corpo estranho ao próprio sujeito, situando-se como fundamento que justificava a importância conferida à procura pela causa originária dos sintomas.

    Nessa época, Freud relata ter ficado muito impressionado com o fato de a lembrança do trauma permanecer, muito tempo após a sua ocorrência, eficaz, viva enquanto agente etiológico dos sintomas atuais do sujeito. Ele comprovou haver uma desproporção temporal entre o surgimento dos sintomas e o evento traumático desencadeante, constatando, por um lado, que o sintoma não surgia logo após a ocorrência do fator traumático, e, por outro, que ele permanecia presente no psíquico como se fosse uma força atual em constante atividade.

    De acordo com Freud, uma cena só se torna traumática quando transformada em lembrança, a partir de sua evocação por meio da repetição de uma cena análoga. O traumático requer, pois, dois tempos: o tempo do acontecimento e o a posteriori, que é o tempo da produção de sua significação, no qual pode ter lugar o sintoma.

    Isso conduz a duas conclusões:

    • A primeira é que o valor do trauma não está no acontecimento em si, mas na associação estabelecida pelo sujeito. A ênfase colocada sobre a lembrança e não sobre o acontecimento deu lugar, num período imediatamente subseqüente, ao conceito de fantasma, cuja formalização teórica se acha intimamente articulada à teoria do trauma.
    • No segundo momento de elaboração sobre o trauma, e que deve ser situado no marco dos avanços teóricos efetuados no interior mesmo da obra dos “Estudos“, Freud conclui que o caráter traumático não é algo intrínseco a um acontecimento ou situação concreta vivenciada pelo sujeito.
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    Nessa nova concepção, como vimos em parágrafos anteriores, o trauma emerge no a posteriori, no momento em que o sujeito produz uma interpretação da cena vivida.

    Na “Interpretação de Sonhos“, Freud afirma que a estrutura do fantasma é comparável à estrutura do sonho, demonstrando de forma mais precisa a relação do fantasma com a estrutura do desejo inconsciente: o fantasma e o sonho constituem formas de realização de desejo.

    O deslocamento e a condensação são isolados como dois mecanismos fundamentais no trabalho de deformação do desejo, visando a torná-lo irreconhecível para o sujeito. Na segunda tópica freudiana, a teoria do fantasma atinge sua formalização cabal no momento em que Freud demonstra, por um lado, o estatuto de objeto libidinal que o sujeito se faz para o isso, isto é, da dimensão absolutamente ficcional daquilo que o sujeito toma como sendo o seu EU, e, por outro, do estatuto ficcional da realidade humana, isto é, da montagem mítica que o sujeito constrói sobre sua história.

    Conceito de inconsciente na teoria freudiana

    Ao longo da obra freudiana, a teoria do fantasma sofre inúmeras reviravoltas conceituais, até finalmente ser reconhecida como mola mestra em torno da qual se organiza o desejo singular de um sujeito.

    Quanto ao trauma, vale destacar que, desde o princípio, ele foi relacionado à noção de um excesso de excitação que, ao tomar o valor de um impacto devido a sua intensidade, deixa uma forte impressão no aparelho psíquico, circunscrevendo-se no marco do que hoje pode ser compreendido como um real não assimilável, ao afirmar que “a histeria se origina de uma repressão de uma ideia incompatível” Freud define o recalque nos seguintes termos.

    “O ego do paciente foi abordado por uma ideia que se mostrou incompatível, que provocou, por parte do ego, uma força de repulsão com a finalidade de defender-se da ideia incompatível. Essa defesa, de fato, foi bem sucedida. A ideia em questão foi forçada para fora da consciência. ele conclui que a “aversão do ego”, por um lado, impele a ideia patogênica para fora da associação da cadeia de ideias conscientes, e, por outro, opõe-se ao seu retorno, e que “o não saber do ‘paciente histérico’ constitui, de fato, ‘um não querer saber.

    Ora, sabemos que as ideias expulsas da consciência não são de modo algum eliminadas. Elas são tão somente isoladas da consciência, sendo assim, fundado o campo do inconsciente. O abandono da teoria dos estados hipnoides a favor da teoria da defesa envolvida no processo do recalque dá lugar à nova designação clínica: a histeria da defesa, fato que, entre outros, fez com que Freud se mostrasse ainda mais céptico quanto aos alcances terapêuticos obtidos através do método da sugestão hipnótica.

    A experiência clínica obtida por ele através da prática com a sugestão hipnótica constituiu-se em um valioso instrumento, que lhe permitiu elaborar posteriormente o fenômeno da sugestão implicado na transferência. Freud denomina conteúdo do pensamento. Nela, a associação livre das ideias ocorre de acordo com certos fios lógicos que as mantêm ligadas entre si.

    Diversamente da ordem temática, não é concêntrica, mas tem a forma de “ziguezague”, e obedece a uma ordem de associação que evoca a imagem de uma ramificação arbórea própria da lógica da associação livre. A concepção de que a neurose é determinada por uma multiplicidade de fatores causais, não sendo jamais fruto de uma única causa isolada, leva Freud a concluir que existe uma determinação múltipla da causalidade psíquica, isto é, a elaborar o conceito de sobredeterminação.

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    A sobredeterminação destaca o fato de que, para os sonhos e para os sintomas, bem como para as demais formações do inconsciente, concorre uma multiplicidade de fatores causais: uma “determinação múltipla”. A questão de como o inconsciente se torna consciente não é de modo algum banal, no mínimo por duas razões.

    Por um lado, ela dá margem a equívocos e mal-entendidos com relação à prática da psicanálise.

    Estamos devidamente advertidos do fato de que a revelação do inconsciente ao paciente resulta, no melhor dos casos, numa medida completamente inócua, no pior e no mais frequente, no fortalecimento da barreira das resistências. Tornar consciente o inconsciente calcado na premissa de promover um alargamento do campo consciência não faz parte dos pressupostos técnicos da psicanálise.

    Sabemos, pelo legado de ensinamentos deixados por Freud, que uma técnica assim conduzida não é outra coisa senão a manifestação de “uma ambição terapêutica”.

    A segunda hipótese, denominada funcional, aventa a possibilidade de que a passagem de uma ideia inconsciente para o consciente implicaria uma mudança pura e simples de seu estado. Essa hipótese é refutada, sendo considerada a mais grosseira das três. A terceira hipótese formulada por Freud põe um ponto final na questão de como algo inconsciente se torna consciente.

    Ela consiste, primeiramente, numa recusa das duas hipóteses anteriores. A passagem do inconsciente para o consciente não se dá por meio de uma mudança de registro, tampouco por diferenças produzidas no estado funcional.

    Conclui-se, portanto, que tradução em palavras é o recurso disponível ao sujeito para reconhecer e elaborar algo sobre o seu desejo. É também por meio do ato de fala que o sujeito encontra recursos para tornar simbólico um real traumático não integrado ao sistema simbólico.

    É da certeza da existência de processos de pensamentos que se produzem de forma autônoma da consciência e do valor conferido por Freud à palavra que nasce tanto a teoria quanto o método da psicanálise.

    Artigo sobre o conceito de inconsciente na psicanálise escrito por Claudiane Garcia ([email protected]), para o blog do Curso Psicanálise Clínica.

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