O que é Histeria? Conceitos e Tratamentos

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Histeria, do grego hystera, significa “útero“. Neste artigo, discutiremos o que é histeria para a psicanálise, isto é o conceito ou significado de histeria. Apresentaremos uma visão ao longo de uma história da histeria: conceitos, interpretações, tratamentos ao longo do tempo.

Desde o Egito antigo já se achava que o útero era capaz de afetar o resto do corpo. Os egípcios acreditavam que uma variedade de problemas corporais se dava a partir do que denominavam um útero “vagante” ou “animado”.

Essa teoria de um útero animado se desenvolveu mais na Grécia antiga, e foi mencionada várias vezes no tratado Hipocrático “Doenças das mulheres”. Platão considerava o útero um ser separado no interior da mulher, enquanto Areteu o descreveu como um “animal dentro de um animal“, causando sintomas ao “vagar” por dentro do corpo da mulher, criando pressão e stress nos outros órgãos.

Deste modo, é evidente, mesmo pela origem do nome e sua relação direta com um orgão do sistema reprodutor feminino, que trata-se de uma doença que afeta, especificamente, a mulher.

O que é Histeria para Freud e a Psicanálise?

A histeria ganha certa centralidade nos estudos iniciais da psicanálise. Afinal, foi através dessas queixas clínicas que o tratamento desenvolvido por Freud, influenciado por seus pares, pôde continuar a evoluir dentro do arcabouço teórico e prático da psicanálise.

É necessário reservar um espaço importante dentro da formação para a compreensão dessa patologia, sua etiologia, desenvolvimentos, formas de intervenção e interpretação, além do tratamento. Por isso, pode se dizer que foi a primeira patologia estudada por Freud e especialistas dos estudos da mente. E, desde então, o conceito de Histeria foi desdobrado, revelando-se outras patologias, de modo que os psiquiatras atuais preferem não adotar esta terminologia.

Pode-se dizer que o livro Estudos sobre a histeria (1893-1895) publicado em conjunto entre Freud e Breuer, foi para a obra fundadora da psicanálise, embora os escritos contidos em A Interpretação dos Sonhos (1900) sejam considerados, por Freud, como o grande livro seminal da psicanálise.

Deste modo, nos estudos, os autores discutem e introduzem a ideia sobre a doença:

“(…) como originária de uma fonte da qual os pacientes estão relutantes em falar, ou mesmo não conseguem discernir sua origem. Tal origem seria encontrada em um trauma psíquico ocorrido na infância, no qual uma representação ligada a um afeto angustiante teria sido isolado do circuito consciente das ideias, e o afeto foi dissociado a partir disso e descarregado no corpo.” (Revista Eletrônica Científica de Psicologia, 2009).

Resumindo, podemos dizer que o significado de Histeria está ligado:

  • a um trauma na idade infantil;
  • de que a pessoa adulta não consegue se lembrar muito bem (recalque);
  • este afeto se desprende da lembrança original, isto é, da representação “verdadeira”;
  • e acaba se manifestando no corpo, isto é, com incômodos físicos (somatização).

Histeria e Somatização

Enquanto a histeria se restringe ao episódio de ordem psíquica, a somatização é descrita como um sintoma é manifesto no corpo, embora originário de uma causa psíquica. É como se uma causa inconsciente aflitiva levasse o corpo a expressá-la, mas usando uma linguagem diferente, que não revela a causa do sintoma.

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Na histeria, há uma ideia de repressão (barreira), que isola as representações desvinculadas dos afetos em uma “segunda consciência”, subordinada à consciência normal.

Esta crise relatada está relacionada à formação do sintoma que, devido a um trauma infantil, apresentaria um correspondente da ordem do simbólico, separando o afeto de sua representação.

A repressão dos afetos ligados à realização de um desejo provocaria um impedimento que, devido à dificuldade da elaboração psíquica em atribuir um significado à experiência, manifestaria o sintoma no plano somático (corpo), caracterizando o conceito de conversão histérica.

Isso provoca, dentro de uma cadeia associativa, a transformação dos afetos em sintomas somáticos, daí o nome de conversão histérica.

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    Assim, o uso do método catártico como forma de tratamento foi eficiente, uma vez que foi realizado o acesso às representações isoladas do afeto (evento traumático), sendo possível a revelação desse afeto, causando alívio e eliminação do sintoma.

    Esse movimento de descarga foi chamado de Ab-reação, que, segundo Laplanche e Pontalis (1996), consistiria em um processo de descarga emocional que, liberando o afeto ligado à memória de um trauma, anularia seus efeitos patogênicos.

    Podemos então resumir o processo de histeria a partir da:

    • ocorrência de um trauma na idade infantil;
    • a pessoa adulta não consegue se lembrar, ou seja, ocorre um recalque;
    • este afeto é uma carga psíquica que se desprende da lembrança original; e, finalmente,
    • acaba se manifestando no corpo, isto é, com incômodos físico: a somatização.

    Antigas formas de tratamento da Histeria

    Nessa época, tratavam-se os sintomas de histeria através da aromaterapia. Aromas desagradáveis eram apresentados as narinas da paciente e aromas agradáveis as genitais, com o intuito de “guiar” o útero ao seu local correto.

    No segundo século, Galeno de Pérgamo rejeitou a ideia de um útero vagante, mas ainda considerava o útero como a causa principal da histeria. Ele também utilizava aromaterapia, mas também recomendava o coito sexual como modo de tratamento, além da utilização de cremes, que eram aplicados por servas ao exterior da genitália.

    Ao contrário dos escritores Hipocráticos, que viam na menstruação a origem dos problemas do útero, Galeno afirmava que eles ocorriam devido a “retenção da semente feminina“.

    A Histeria na Idade Média e Moderna

    Na época medieval, a ideia do útero vagante e seus tratamentos mais comuns persistiram, inclusive os tratamentos como a aromaterapia e o coito. Nasceu também a ideia de um acúmulo de fluidos no útero que deviam ser removidos para curar a paciente. Devido à visão da masturbação como um tabu, o único tratamento considerado eficiente de longo termo era o casamento.

    Eventualmente, a possessão era adicionada à lista de causas possíveis para a histeria. Sempre que um paciente não podia ser curado, a explicação assumida era que se tratava de uma possessão demoníaca.

    De modo que, durante os séculos 16 e 17, as visões de histeria se permaneciam as mesmas que as concebidas no passado. Acreditava-se que o sêmen possuía capacidades curativas e o sexo removia o acumulo de fluidos, portanto, o coito durante o casamento ainda era o mais tratamento recomendado.

    A visão da Contemporânea sobre Histeria

    A partir do século 18, na era industrial, histeria começa finalmente a ser vista como um problema mais psicológico e menos biológico, porém, os tratamentos se mantém os mesmos, mudando apenas a explicação: Pierre Roussel e Jean-Jacques Rousseau afirmam que a feminilidade é essencial e natural para as mulheres, e a histeria agora nasce da falha em realizar esse desejo natural.

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    Com a industrialização, houve a mecanização da terapia de massagem, com “manipuladores” portáteis sendo utilizados para induzir um orgasmo nas pacientes, permitindo o tratamento em casa e com o apoio do marido. É interessante apontar que a masturbação através dos vibradores não era considerada um ato sexual, uma vez que o modelo androcêntrico de sexualidade que era utilizado nessa época não reconhecia um ato sexual se nele não existisse penetração e ejaculação.

    Freud e seus precursores

    Finalmente, no século 19, os estudos sobre histeria de Jean-Martin Charcot levam a uma visão mais científica e analítica da condição, aceitando ela como um distúrbio psicológico e não biológico, e tentando definir a histeria medicamente, com a intenção de remover a crença de uma origem supernatural para a doença.

    Isto porque Freud aprofunda mais essa pesquisa, afirmando que histeria é algo completamente emocional, e pode afetar tanto homens quanto mulheres, sendo um problema causado por traumas que impediam que suas vítimas conseguissem sentir prazer sexual de modo convencional.

    Isso é o ponto de partida para Freud definir o Complexo de Édipo, descrevendo a feminilidade como uma falha ou ausência de masculinidade. A definição de histeria do século 19, vendo então a histeria como uma busca pelo “falo perdido”, acabou sendo utilizada como modo de descreditar os movimentos feministas do século 19 que buscavam aumentar os direitos das mulheres.

    O sentido atual para Histeria

    Embora sempre representado como uma patologia, o termo histeria foi reapropriado pelo movimento feminista nos anos 80. Neste período, afirmava-se que a histeria era um tipo de rebelião pré-feminista. Por isso foram publicados vários estudos que contradiziam as ideias psicanalíticas, vendo histeria como uma revolta aos construtos sociais impostos sobre as mulheres.

    Sob diversos regimes de opressão, ao longo da história, as mulheres não aceitavam a ideia de a histeria ser um substrato natural da feminilidade, como o apresentado por Freud.

    Assim, no século 21, geralmente o termo “histeria” já não é mais utilizado como categoria de diagnóstico, em favor de categorias mais precisas, como transtornos de somatização, ou neuroses.

    Apesar disso, o estudo da histeria e da sua história ao longo da civilização humana é de suma importância para o estudo da psicanálise, por ser uma das peças-chave para o início do pensamento Freudiano e um dos pontos focais para o momento na história humana. Pois esses traumas, hoje, são reconhecidos como doenças mentais e  deixam de ter explicações biológicas ou supernaturais e começam, finalmente, a serem tratadas como síndromes psíquicas.

    Este artigo sobre histeria foi revisado e ampliado por equipe de Redação Psicanálise Clínica. Publicado na área aberta do site. Os autores respondem por suas opiniões, que não necessariamente condizem com a opinião do site.

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